universidade de lisboa faculdade de belas-artes azulejaria da colecção berardo estudo, criação de um sistema de inventário e gestão da colecção, e proposta de museu virtual carina fabiana henriques bento mestrado em museologia e museografia volume i 2009 universidade de lisboa faculdade de belas-artes azulejaria da colecção berardo estudo, criação de um sistema de inventário e gestão da colecção, e proposta de museu virtual carina fabiana henriques bento mestrado em museologia e museografia dissertação orientada pela professora doutora luísa d’orey capucho arruda 2009 i resumo tem sido através da arte do azulejo que mais se tem expressado a criatividade e o génio artístico português no plano das artes ornamentais, cujos artistas e artífices têm sabido tirar partido das características de flexibilidade, utilidade e durabilidade deste material, jogando sempre com os seus valores cromáticos e o efeito de luz, em articulação com os locais onde é aplicado. utilizada de forma exuberante e sem par em qualquer país da europa, a azulejaria, que proliferou durante mais de cinco séculos em portugal, acabou por se transformar numa autêntica contribuição do nosso país para o património cultural e artístico mundial. constituindo o conhecimento do nosso património artístico uma etapa fundamental para assegurar a sua preservação, o presente trabalho, tem como principal propósito estudar a azulejaria da colecção berardo, portadora de um eminente interesse histórico, artístico e cultural. promovendo o seu conhecimento, sistematizando-o e criando condições para a sua fruição e conservação, este projecto museológico, visa a criação de um sistema de inventário e gestão da colecção de azulejos e a proposta de museu virtual. associado ao avanço das novas tecnologias da informação e comunicação e no sentido de satisfazer as novas correntes da museologia, que se inclinam cada vez mais sobre o papel do museu na sociedade actual, o museu virtual do azulejo da colecção berardo apresenta-se como um facilitador da recepção informativa, pedagógica e estética dos objectos museológicos. palavras-chave considerámos palavras-chaves para esta dissertação: - azulejo - colecção berardo - quinta da bacalhôa - inventário - museologia - museu virtual ii abstract portuguese artistic creativity and genius in the field of the decorative arts has been mainly expressed through the art of the azulejo (glazed ceramic tile). artists and artifices have benefited from the flexibility, usefulness and durability of this material. there is always an interplay between its chromatic values and the effect of light, in conjunction with the sites where it is applied. used exuberantly in a manner unmatched anywhere else in europe, the proliferation of azulejo art in portugal, which dates back more than five centuries, has become one of the country’s authentic contributions to the world’s cultural and artistic heritage. knowledge of our artistic heritage is an essential stepping-stone to ensuring its preservation, and the main aim of this dissertation is to study the azulejos in the berardo collection, which are of significant historical, artistic and cultural interest. the purpose of this museological project is to create an azulejo inventory and collection management system and a virtual museum by promoting knowledge, systematising it and creating the right conditions for azulejos to be enjoyed and conserved. as a result of the advances in new information technologies, and in order to accompany the new trends in museology which increasingly lean towards the role of the museum in contemporary society, the berardo collection’s azulejo virtual museum sets out to provide information and education and to promote the aesthetic appreciation of the museum pieces. keywords the keywords for this dissertation are: - azulejo - berardo collection - quinta da bacalhôa - inventory - museology - virtual museum iii agradecimentos na realização de um trabalho desta dimensão, múltiplos foram os factores que convergiram para o seu bom termo. de entre todos, saliento o apoio de várias pessoas e instituições a quem desejo expressar os meus agradecimentos. começo com um agradecimento particularmente especial à minha orientadora, professora doutora luísa d’orey capucho arruda, pelo privilégio de a ter como guia neste caminho. toda a compreensão e disponibilidade, que dedicou à minha (e nossa) investigação, devotando-lhe o seu interesse e apoio, contribuiu de forma indelével, para a realização da presente dissertação que careceu de tempo, dedicação e discussão, visando alcançar propósitos científicos e rigorosos, que o contexto académico assim obriga. a todos os professores do curso de mestrado de museologia e museografia, da faculdade de belas artes de lisboa, em particular, ao professor doutor fernando antónio baptista pereira, ao professor doutor luís jorge gonçalves, à mestre elsa pinho e à mestre ana duarte, pelo contributo que prestaram à realização do presente trabalho, ao longo do ano curricular. à fundação berardo, nas pessoas do comendador josé berardo, fundador e presidente desta instituição, e ao seu administrador, sr. jorge berardo, pela concessão do auxílio financeiro, bem como, pelo total apoio demonstrado e pelo acesso a documentos patentes na sua biblioteca particular, importantes para a acreditação de informações relativas à colecção de azulejos. um agradecimento especial ao mestre álvaro silva e à dra. teresa gomes, pela análise cuidadosa na revisão dos textos integrantes. à equipa de informática da colecção berardo, principalmente, ao técnico hugo martins, developer da colecção e responsável pelo desenvolvimento informático do sistema de inventário e gestão agora apresentado, e ao dr. zaid abdali. ao fotógrafo da colecção, paulo raimundo pelo primoroso trabalho na sua área de actuação. aos que me apoiaram e que estão ligados às diversas instituições, nomeadamente: museu nacional do azulejo; arquivo de arte e serviço de belas-artes da fundação calouste gulbenkian; instituto dos museus e da conservação; instituto da habitação e reabilitação urbana; instituto de gestão do património arquitectónico e arqueológico; câmara municipal de torres vedras; solar tiles; museo de bellas artes; museo de cerámica de alorca; british museum; victoria and albert museum; the potteries museum and art gallery; tiles & architectural ceramics society; iv rijksmuseum amsterdam e getty research institute, a todos sem excepção, o meu muito obrigada. aos investigadores, doutor joão pedro monteiro; mestre alice lázaro; professora doutora ana paula correia e professor josé meco, pelas pistas bibliográficas e esclarecimento de conceitos, numa primeira fase deste trabalho. a todos os colegas de mestrado, pela troca de ideias e cedência de informações, e aos amigos pelas sugestões apontadas. à minha família, pela constante preocupação, pelo apoio demonstrado e pelo esforço de suprirem as ausências, a que a prossecução deste projecto obrigou durante momentos importantes das nossas vidas, o meu sentido reconhecimento. por último, e em jeito de homenagem, gostaria de agradecer ao mestre lagoa henriques, não só pelo grande privilégio de o ter como professor deste mestrado, mas essencialmente, pelo ardor e entusiasmo com que nos fazia encarar a vida e a arte. era um homem da cultura e do ensino artístico, um caçador de beleza e um admirável contador de histórias, que deixou escrito: “aprender a ver a nossa cultura com a sua legítima grandeza, é também saber mais do mundo, porque, afinal, em todo ele a representação da terra que é mãe, alimento e mortalha, tem o mesmo valor sagrado, expresso na mais rica linguagem universal: o trabalho.”. obrigada mestre, e fazendo uso das suas palavras, “até sempre que é o tempo certo!”. v índice – volume i resumo e palavras-chave ………………………………………………………. i abstract and keywords …………………………………………………………. ii agradecimentos …………………………………………………………………. iii índice – volume i ……………………………………………………………….. v lista de siglas e abreviaturas ………………………………………………….. vii introdução ……………………………………………………………………….. 1 parte i – a colecção capítulo i – origem e formação da colecção ………………………………... 11 capítulo ii – apresentação da colecção ………………………………………. 16 1. azulejaria arcaica ……………………………………………………………... 16 2. padronagem maneirista e protobarroca, registos religiosos ………………… 21 3. composições ornamentais e figurativas ……………………………………… 31 4. primeira metade do século xviii ……………………………………………... 37 5. segunda metade do século xviii ……………………………………………... 47 6. azulejaria romântica e industrial ……………………………………………... 56 7. o século xx …………………………………………………………………... 66 capítulo iii – quinta e palácio da bacalhôa ………………………………….. 74 parte ii – inventário e gestão da colecção capítulo i – o inventário ………………………………………………………. 95 1. o inventário na museologia …………………………………………………… 95 2. antecedentes: inventário anterior …………………………………………….. 99 3. novo modelo de ficha de inventário …………………………………………. 101 3.1. normalização ………………………………………………………... 103 3.2. terminologia ………………………………………………………… 109 vi 3.3. apresentação da nova ficha ………………………………………… 114 4. azulejaria in situ: quinta e palácio da bacalhôa ……………………………… 126 capítulo ii – sistema de inventário e gestão da colecção …………………... 130 1. modelo ………………………………………………………………………… 131 2. suporte técnico ……………………………………………………………….. 133 3. funcionalidades ……………………………………………………………….. 135 4. segurança ……………………………………………………………………… 137 5. pesquisa e exportação …………………………………………………………. 138 6. actualização e históricos ……………………………………………………… 139 7. ambiente de trabalho do sistema ocp – online control panel ……………... 140 parte iii – museus virtuais. uma proposta para a colecção de azulejos capítulo i – internet e museus ………………………………………………… 164 1. categorias de museus na internet ……………………………………………… 166 1.1. conceito de museu virtual ………………………………………….. 169 1.2. vantagens e desvantagens dos museus virtuais ……………………. 173 capítulo ii – museu virtual do azulejo da colecção berardo ………………. 179 1. fundamentos para a sua criação ……………………………………………….. 179 2. vocação, missão, metas e objectivos ………………………………………… 180 3. funções museológicas ………………………………………………………… 185 4. público-alvo …………………………………………………………………… 187 5. reflexões para o seu desenvolvimento conceptual …………………………... 189 conclusão ………………………………………………………………………... 202 referências bibliográficas ……………………………………………………… 213 vii lista de siglas e abreviaturas api – application programming interface ascer – asociación española de fabricantes de azulejos y pavimentos cerámicos asp – active server pages avicom – international committee for audiovisual and new image and sound technologies cd-rom – compact disc read-only memory cdwa – categories for the description of works of art chin – canadian heritage information network cidoc – international committe for documentation crm – conceptual reference model csv – comma-separated values dbms – data base management system dgemn – direcção geral dos edifícios e monumentos nacionais ff caldas – fábrica faianças das caldas da rainha html – hyper text markup language icom – international council of museums igaphe – instituto de gestão e alienação do património habitacional do estado igespar – instituto de gestão do património arquitectónico e arqueológico ihru – instituto da habitação e reabilitação urbana iis – internet information service imc – instituto dos museus e da conservação inh – instituto nacional de habitação ipm – instituto português de museus iso – international organization for standardization mda – museum documentation association mmlt – museu municipal leonel trindade mnaz – museu nacional do azulejo muva – museo virtual de artes obdc – open data base connectivity ocp – online control panel pda – personal digital assistant pdf – portable document format viii pws – personal web server sgbd – sistema gestor de base de dados sig – special interest group spn – secretariado de propaganda nacional sql – structured query language tic – tecnologias da informação e da comunicação unesco – united nations educational, scientific and cultural organization vrml – virtual reality modeling language w3c – world wide web consortium web – world wide web www – world wide web aa.vv. – obras de referência que têm, normalmente, vários autores (autores vários) fig. – figura in – em [incluído na publicação citada] inv. – inventário n.º– número p. – página pp. – páginas vol. – volume (…) – citação de texto [ ] – palavra ou palavras acrescentadas a texto citado 1 introdução sob o título azulejaria da colecção berardo. estudo, criação de um sistema de inventário e gestão da colecção, e proposta de museu virtual, a presente dissertação apresenta-se como um projecto museológico de valorização, preservação e difusão de um extenso património, detentor de um elevado valor histórico, artístico e cultural. composta por conjuntos azulejares in situ, património integrado na quinta e palácio da bacalhôa, e por mais de seiscentos exemplares móveis, bens retirados do seu contexto original, datados dos século xv ao século xx, quase todos de origem portuguesa, com excepção do núcleo de azulejos hispano-mouriscos e algumas obras contemporâneas, a colecção berardo permite percorrer a secular história do azulejo em portugal, através de qualificados exemplares, que a constituem. dividida entre três espaços expositivos distintos, nomeadamente, a quinta e palácio da bacalhôa, a quinta da bassaqueira, sede da empresa vinícola bacalhôa vinhos de portugal, ambos em vila fresca de azeitão e o jardim tropical monte palace, na região autónoma da madeira, a colecção carece de um enquadramento museológico, que viabilize o seu conhecimento e salvaguarda, usufruindo dos benefícios inerentes à prática museal. estes objectos, associados a qualidades estéticas, tornam-se dignos de contemplação, ultrapassando, a sua mera funcionalidade. são elevados, por este motivo, a peças artísticas, integradas no domínio da história da arte, como revela o seu coleccionismo e a sua, posterior, integração em museus. adquirindo o objecto, na sociedade contemporânea, um significado de relíquia, de bem precioso que é obrigatório salvaguardar, facultando às gerações futuras a obtenção de um conhecimento mais vasto da própria história e identidade da humanidade, é absolutamente fundamental, e prioritário, estudá-lo de forma aprofundada. com base na premissa, de que um museu só poderá exercer a sua função basilar com êxito, conhecendo previamente, o seu património artístico que, em última análise, é o próprio significado da sua existência, consubstanciamos para este trabalho, e em primeira estância, a criação de um sistema de inventário e gestão da colecção e alvitramos, seguidamente, a proposta de museu virtual. a especificidade e importância do azulejo português fundam um dos motivos intrínsecos à realização do estudo em causa. considerado como uma das mais fortes manifestações culturais portuguesas, o azulejo, reflecte as transformações culturais, sociais e económicas vividas em portugal, transpondo a sua dupla função utilitária e decorativa. 2 não sendo originariamente português, e tendo sido utilizado em diferentes países da europa, foi em portugal que o azulejo teve uma utilização mais prorrogada, assumindo uma expressão muito peculiar desde o século xvi e atingindo uma proporção única no contexto europeu, tornando-se deste modo, numa contribuição genuína do nosso país para o património cultural e artístico mundial. proliferando durante séculos, a azulejaria portuguesa não é apenas uma expressão artística, é também um testemunho, que contribui para o enriquecimento da nossa memória e da nossa identidade. outro dos motivos que precederam a escolha do tema deve-se ao facto, da mestranda se encontrar a trabalhar na fundação berardo, desde 2003, e ter contactado com a actual realidade da colecção de azulejos, que embora, de qualidade inquestionável, necessitava de ser inventariada, estudada, investigada, preservada e divulgada. o terceiro motivo prende-se com a possibilidade de agrupar virtualmente uma colecção, que geograficamente se encontra dispersa, imprimindo um discurso museológico, que vise o seu conhecimento histórico/cronológico, científico e estético, de uma forma integral. o enquadramento museológico que aqui se afigura irá garantir: a concepção de um sistema de inventário e gestão, facultando a inventariação, documentação e estudo da colecção; fomentar o desenvolvimento de estudos científicos sobre este património azulejar; optimizar e consolidar a salvaguarda dos objectos; e promover a sua divulgação, privilegiando, deste modo, a difusão do património cultural nos canais de comunicação da nova sociedade de informação. fazem parte da fortuna crítica deste espólio, enquanto colecção berardo, apenas dois catálogos: monte palace um jardim tropical1 , que num dos seus capítulos aborda a colecção de azulejos; e um outro, correspondente à exposição colecção berardo, cerâmica caldense e azulejo núcleo azeitão2 , realizada no centro de artes e espectáculos da figueira da foz, em 2003, que conta com um texto de luísa arruda. importa salientar, que ambas as publicações consideram, unicamente, parte da colecção, sendo de extrema conveniência a publicação de estudos monográficos ou analíticos sobre o espólio, primeiramente, no seu conjunto, e depois, sob variadas temáticas. 1 carvalho, marta – “a descoberta do jardim tropical. roteiro dos painéis de azulejos” in monte palace um jardim tropical. fundação josé berardo, funchal, 1999, pp. 60-77. 2 arruda, luísa d´orey capucho – “azulejo núcleo azeitão. azulejos portugueses (séc. xv-xviii)” in colecção berardo, cerâmica caldense e azulejo núcleo azeitão, catálogo da exposição, centro das artes e espectáculos, câmara municipal da figueira da foz, figueira da foz, 2003, pp. 52-79. 3 para a elaboração da história da azulejaria pertencente à colecção berardo tivemos que recorrer a uma vasta bibliografia que nos legaram alguns estudiosos. é o caso de joaquim rasteiro3 , que ainda no século xix, publicou uma modelar monografia histórica-artística sobre a quinta e palácio da bacalhôa, dando a conhecer a história daquele monumento nacional e aprofundando o estudo dos conjuntos azulejares aí existentes. assume particular importância no processo de inventário e estudo dos painéis, um suplemento ao livro de joaquim rasteiro, publicado em 1898, contendo um conjunto de desenhos da cerâmica da bacalhôa, concebidos por a. blanc. a investigação no campo da azulejaria tem, nas últimas décadas, assistido a mudanças significativas. ao fazer um balanço do que foi realizado nesta área de estudo, a figura de joão miguel dos santos simões4 impõe-se, sem dúvida, de forma destacada neste contexto. embora, seja pertinente realçar as contribuições de vários investigadores que o antecederam, santos simões lançou os fundamentos para um estudo sistemático e rigoroso do azulejo português, sendo considerado um dos investigadores fundamentais nesta matéria. ao longo da sua vasta produção historiográfica, encontramos referências, inevitáveis, à quinta da bacalhôa, bem como, a diversas colecções privadas que estiveram na génese da colecção berardo, designadamente, a colecção comandante ernesto vilhena e a colecção coelho da cunha. excepção feita a vários estudos fragmentados e à obra de reynaldo dos santos, o azulejo em portugal, de 19575 , é, apenas na década de 1980, que surgem as primeiras grandes obras de síntese sobre a azulejaria. concedendo precedência aos inventários e a investigações particulares, santos simões nunca pretendeu abarcar uma obra congénere. a visão global do azulejo, o estudo dos pintores, as técnicas e 3 rasteiro, joaquim; monographia histórico-artística, quinta e palácio da bacalhôa, lisboa, 1895. [a edição por nós consultada foi: quinta e palácio da bacalhôa em azeitão, monographia histórico- artística: inícios da renascença em portugal. asa editores s.a. porto, 2003. facsimile da edição de lisboa, imprensa nacional, 1895-1898.]. 4 de entre, o vasto legado que santos simões deixou aos investigadores nesta área, saliente-se as seguintes obras de referência geral: simões, joão miguel dos santos – azulejaria em portugal nos séculos xv e xvi. fundação calouste gulbenkian, lisboa, 1969. [a edição por nós consultada foi: azulejaria em portugal nos séculos xv e xvi. fundação calouste gulbenkian, 2ª edição, lisboa, 1990.] azulejaria em portugal no século xvii. tomo i – tipologia. fundação calouste gulbenkian, lisboa, 1971. azulejaria em portugal no século xvii. tomo ii – elenco. fundação calouste gulbenkian, lisboa, 1971. azulejaria em portugal no século xviii. fundação calouste gulbenkian, lisboa: 1979. 5 santos, reynaldo dos – o azulejo em portugal. editorial sul lda., lisboa, 1957. importa referir que o texto do reynaldo dos santos, ainda que, apresente a história da azulejaria portuguesa, termina com o neoclassicismo. 4 outros aspectos inerentes a esta temática, foram numa primeira fase, abordados por rafael salinas calado6 e josé meco7 . com carácter mais abrangente, outros textos conferiram uma especial atenção ao azulejo, nomeadamente, alguns dos volumes do inventário artístico de portugal, da academia nacional de belas artes8 , privilegiando, no entanto, a sua relação com o suporte arquitectónico. ao nível regional, há a destacar os vários roteiros, que abordaram o azulejo, bem como, catálogos de exposição, dos quais destacamos os do museu nacional do azulejo, pela importância no seio das obras de síntese da azulejaria portuguesa. no âmbito da história da arte, encontramos algumas obras que enquadram o azulejo, englobando vários capítulos dedicados a esta temática, designadamente a história da arte portuguesa, dirigida por paulo pereira e as várias entradas no dicionário da arte barroca em portugal9 . a crescente produção historiográfica contempla obras de divulgação geral, que constituem um género de inventário visual, patente, por exemplo, nos trabalhos de teresa saporiti, hellmut e alice wohl. nesta perspectiva, destacam-se, ainda, autores que abordam o azulejo como parte integrante da arquitectura, tratando de solares, de casas nobres, de jardins, etc.10 . além fronteiras é, também, sintomático a atenção, que a azulejaria portuguesa desperta nos vários investigadores, dos quais se salientam robert chester smith, guy weelen, catherine pasquier, entre outros. os estudos de cariz monográfico têm sido, nestes últimos anos, a grande conquista no respeitante a esta matéria, visto corresponderem a uma maior precisão de investigação. focando conjuntos que permanecem in situ, aprofundando os azulejos de 6 calado, rafael salinas – “o azulejo em portugal”. agenda do crédito predial português, lisboa, 1982. calado, rafael salinas – cinco séculos do azulejo em portugal. correios e telecomunicações de portugal, lisboa, 1986. 7 meco, josé – azulejaria portuguesa. bertrand, lisboa, 1985. meco, josé – o azulejo em portugal. publicações alfa, lisboa, 1993. 8 espanca, túlio – inventário artístico de portugal – concelho de évora. academia nacional de belas artes, lisboa, 1966. espanca, túlio – inventário artístico de portugal – distrito de évora zona norte. academia nacional de belas artes, évora, 1975. espanca, túlio – inventário artístico de portugal – distrito de évora zona sul. academia nacional de belas artes, lisboa, 1978. 9 pereira, paulo (coord.) – dicionário de arte barroca em portugal. editorial presença, lisboa, 1989. pereira, paulo (dir.) – história da arte em portugal. círculo de leitores, lisboa, 1996. 10 a este respeito saliente-se: carita, hélder; cardoso, homem – oriente e ocidente nos interiores de portugal. civilização, porto, 1983. stoop, anne de – quintas e palácios nos arredores de lisboa. porto, 1986. binney, marcus; carvalho, manuel rio de – casas nobres de portugal. difel, lisboa, 1987. sabo, rioletta; falcato, jorge nuno – azulejos: arte e história. azulejaria de palácios, jardins e igrejas em lisboa e arredores. inapa, lisboa, 1998. 5 determinada instituição ou abordando um artista, estes trabalhos consubstanciam uma importante fonte de informação, fundamental para a historiografia desta forma de arte. neste contexto, afiguram-se, entre outros, os trabalhos de luísa arruda11 ; celso mangucci12 e flávio gonçalves13 . estudos pertinentes para a documentação de alguns exemplares da colecção berardo são, ainda, os trabalhos de anne berendsen, josé meco e jay levenson. a estes juntam-se artigos de relevante interesse, produzidos por ana paula correia, manuel frango de sousa e joão pedro monteiro. importa, também, referir que o catálogo da exposição de azulejaria, integrada na europália em 1991, aborda, alguns dos proeminentes painéis da colecção em análise. ambicionando, no decorrer desta dissertação, elaborar a contextualização histórica e proveniência da colecção, saliente-se o papel fundamental da biblioteca de arte da gulbenkian, que ao longo de vários anos procedeu às digitalizações de documentos fotográficos (preto/branco e cor), da autoria de santos simões14 , aquando do seu levantamento e inventário do património azulejar em portugal continental, ilhas e brasil. com o intuito de criar um novo modelo de ficha de inventário, que serviu de suporte ao sistema de inventário e gestão da colecção, recorremos, a um elenco bibliográfico na área da normalização da documentação, da terminologia e da gestão de colecções. neste âmbito, assumiu particular importância o trabalho desenvolvido pelo international committe for documentation (cidoc), organismo do international council of museums (icom), particularmente, o documento de referência sobre esta temática a nível internacional, o international guidelines for museum object information, e o relational data model, importante instrumento para a construção dos 11 arruda, luísa d´orey capucho; coelho, teresa campos – convento de s. paulo de serra de ossa. edições inapa, lisboa, 2004. 12 mangucci, celso – “olarias de louça e azulejo da freguesia de santos-o-velho – dos meados do século xvi aos meados do século xviii”. in al-madan – arqueologia, património e história local. iiª série, nº5, almada, centro de arqueologia de almada, outubro de 1996, pp. 155-168. 13 gonçalves, flávio – “as obras setecentistas da igreja de nossa senhora da ajuda de peniche e o seu enquadramento na arte portuguesa da primeira metade do século xviii”. in boletim cultural da assembleia distrital de lisboa. lisboa, 1982, pp. 5-270. gonçalves, flávio – “as obras setecentistas da igreja de nossa senhora da ajuda de peniche e o seu enquadramento na arte portuguesa da primeira metade do século xviii – conclusão”. in boletim cultural da assembleia distrital de lisboa. lisboa, 1983, pp. 245-270. 14 a colecção de azulejaria portuguesa da biblioteca de arte da gulbenkian é composta pelo levantamento de 4977 fotografias (p&b e cor) realizado por joão miguel dos santos simões entre 1960- 1968 e de que resultou a elaboração de corpus de azulejaria portuguesa, publicado pela fundação calouste gulbenkian entre 1963-1970. os correspondentes ficheiros digitais estão acessíveis na rede local da biblioteca e a partir da internet, desde 2004. 6 sistemas de informação de museus. a experiência espanhola nesta matéria teve, também, um papel orientador, destacando-se o documento produzido pela comisión de normalización documental de museos, intitulado normalización documental de museos: elementos para una aplicación informática de gestión museográfica. no circuito internacional, além do caso inglês e espanhol, foram igualmente importantes para a realização do presente trabalho as categories for the description of works of art (cdwa) da art information task force fundada dentro do j. paul getty trust (getty research institute) e o méthode d'inventaire informatique des objets beaux-arts et arts décoratifs da direction des musées de france. a nível nacional, contraíram um interesse específico, o conjunto de documentos, denominados normas de inventário, inicialmente publicados pelo antigo instituto português de museus (ipm), e continuados pelo actual instituto dos museus e da conservação (imc). principiando, em 1999, com a edição das normas gerais. artes plásticas e artes decorativas, seguiram-se outras categorias e subcategorias, nas quais se enquadram a cerâmica e a cerâmica de revestimento. se, como referimos, a investigação no campo da azulejaria tem assistido, em termos bibliográficos, a mudanças significativas, a relação da museologia com a virtualidade e/ou internet é um fenómeno recente. é, somente, em meados da década de 1990 que esta área do saber passa a ter uma nova realidade, a virtual. a produção documental relativa a esta matéria é ainda muito escassa. no entanto, evocaremos algumas obras já publicadas por andré malraux15 , deloche16 e marília cury17 . no icom não existe um comité específico que trate das questões inerentes à internet e interactividade nos museus. por essa razão, foi criado em 1992, durante um encontro do icom no quebec, um grupo de trabalho específico sobre o uso da internet, estando, o mesmo, adstrito ao international committee for documentation (cidoc). os estudos realizados, neste contexto, têm contribuído, e muito, para a reflexão da temática, com especial destaque para werner schweibenz18 , que tem colaborado, de forma acérrima, para o esclarecimento e desenvolvimento do conceito de “museu virtual”. 15 malraux, andré – o museu imaginário. edições 70, lisboa, 2000. 16 deloche, bernard – el museo virtual. ediciones trea. s.l., gijón, 2003. 17 cury, marília xavier – museologia, museus e globalização. são paulo, 2003. 18 schweibenz, werner; the development of virtual museums, disponível em: http://icom.museum/pdf/e_news2004/p3_2004-3.pdf. 7 reflexo da importância da relação entre a museologia e a virtualidade e/ou internet, como área de estudo para um crescente número de investigadores, são as dissertações produzidas e defendidas nos últimos anos. é certo que estamos perante um cômputo relativamente reduzido, mas as teses já elaboradas e as que se encontram em preparação, testemunham uma vitalidade crescente19 . a estrutura subjacente à criação e programação de um museu, virtual ou não, no âmbito de um mestrado em museologia e museografia, consubstanciar-se-á, também, num repositório de literatura museológica. sem pretensão de fazer uma resenha exaustiva, da bibliografia a que recorreremos, associam-se a esta temática, trabalhos fundamentais de georges henri rivière, henrique coutinho gouveia, francisca hernández hernández, luís alonso fernández, entre outros. prevendo a elaboração dos conteúdos programáticos do museu, resultantes das suas funções museológicas, será indispensável a consulta da documentação produzida por maria olímpia lameiras-campagnolo e henri campagnolo relativa à linguagem museal. dever-se-á assinalar que a metodologia de investigação para esta dissertação se baseou, inicialmente, nas estratégias da pesquisa histórica, que preside à primeira parte do trabalho. procedeu-se à análise e recolha bibliográfica existente, quer ao nível da azulejaria da colecção berardo em particular, quer ao nível da azulejaria em geral. tendo a recolha documental sido efectuada em diversas instituições, merecem especial destaque as bibliotecas da fundação calouste gulbenkian e do museu nacional do azulejo. a primeira, enquanto grande impulsionadora do estudo do azulejo e promotora da brigada de estudos da azulejaria, possuindo várias obras de referência, e um banco de imagens do património azulejar português, de importância capital. a segunda, por ser detentora de uma vasta bibliografia dentro do seu campo temático, recentemente enriquecida, pela doação do valioso espólio de santos simões, figura incontornável da historiografia da azulejaria portuguesa. enquanto metodologia de trabalho foi elaborado um inventário, com base na pesquisa e análise de diferentes sistemas de inventários existentes, dentro e fora da mesma temática. funcionando como um instrumento de investigação de cada exemplar 19 refira-se, a título de exemplo, as seguintes teses: claro, graciete maria dos prazeres – idade electrónica: arte e tecnologia. dissertação de mestrado em teorias da arte apresentada à faculdade de belas artes de lisboa, lisboa, 2000. henriques, rosali – memória, museologia e virtualidade: um estudo sobre o museu da pessoa. dissertação de mestrado em museologia apresentada à universidade lusófona de humanidades e tecnologia de lisboa, lisboa, 2004. sabbatini, marcelo – museos y centros de ciência virtuales. complementación y potenciación del aprendizaje de ciências a través de experimentos virtuales. tese de doutoramento apresentada ao instituto universitario de ciências de la educaión da universidade de salamanca, salamanca, 2004. 8 da colecção, o seu preenchimento visou um extenso trabalho de campo, tendo por objectivo a recolha sistemática da informação de um espólio, que se encontra disperso. posteriormente, procedeu-se à análise exaustiva do tema, à leitura individual dos painéis e à sua ligação com os espaços. a análise iconográfica e a leitura dos espaços, principalmente na azulejaria do século xviii, proporcionou um manancial de informação fundamental para o estudo da colecção. na perspectiva das fontes iconográficas, foi importante o recurso a fontes gráficas e literárias, que estiveram na origem de algumas produções. dado que alguns dos exemplares da azulejaria da colecção berardo foram já estudados por investigadores contemporâneos, ainda no activo, e atendendo ao facto de alguns deles se encontrarem, directa ou indirectamente, ligados à génese da própria colecção, foi essencial, e extremamente profícuo, o contacto com os mesmos. visando a concepção teórica do museu virtual foi necessário proceder à recolha documental na área da museologia e, mais especificamente, na relação desta disciplina com virtualidade e/ou com a internet. neste contexto, foi ainda importante, a análise de algumas unidades museológicas congéneres e o estabelecimento de contactos com especialistas, na área da programação informática e do webdesign, clarificando deste modo, alguns conceitos implícitos na realização do presente trabalho. no que concerne à estrutura da dissertação, entendemos como essencial uma organização tripartida: parte i – a colecção; parte ii – inventário e gestão; parte iii – museus virtuais. uma proposta para a colecção de azulejos. na primeira parte começou-se por abordar a origem e formação da colecção, focando as modalidades e política de incorporação; a tutela; o coleccionador e as iniciativas museológicas anteriores. seguidamente, apresenta-se a colecção, por ordem cronológica, recorrendo a alguns dos exemplares mais relevantes, e que ilustram a história da azulejaria desde o século xv até ao século xx. constituindo esta fase da dissertação, um reflexo teórico do trabalho prático - a inventariação -, a mesma é complementada num volume autónomo (volume iii), onde apresentamos as fichas de inventário dos exemplares abordados no decorrer do texto. em relação, ao património azulejar da quinta e palácio da bacalhôa, por se tratar de azulejos in situ, é abordado num capítulo distinto, onde se faz uma contextualização histórica, atendendo à importância deste património para o entendimento da azulejaria em portugal. a segunda parte deste trabalho é dedicada ao inventário e gestão da colecção. dividida em dois grandes capítulos, começa-se por abordar a importância do inventário 9 na museologia, traçando-se, em seguida, um panorama da realidade actual do espólio, quanto ao frugal inventário e à escassa documentação existentes, que nos serve de suporte para, no capítulo imediato, apresentar e fundamentar o novo modelo de ficha de inventário, fazendo referência à normalização, e terminologia, utilizada. quanto ao inventário da azulejaria in situ, integrada na quinta e palácio da bacalhôa, aduzimos uma nova ficha, diferente da restante colecção, visto que, os exemplares são contemplados na ficha do imóvel, obedecendo a normas de inventariação específicas. o segundo capítulo versa sobre a construção do sistema de inventário e gestão da colecção, que apelidamos de ocp – online control panel. começando por expor o seu modelo; suporte técnico; funcionalidades; segurança; pesquisa e exportação; actualizações e históricos, apresenta-se o ambiente de trabalho do sistema, sendo a descrição do mesmo acompanhada pela explanação gráfica. sob o título museus virtuais. uma proposta para a colecção de azulejos, a terceira parte da dissertação, tem início com uma breve resenha histórico/cronológica sobre os museus e a internet, abordando as diferentes categorias de museus online, consagradas por alguns autores. definindo o conceito de “museu virtual”, com base em alguns estudos, e em confronto com a nossa opinião, terminamos o primeiro capítulo, com a enumeração de algumas vantagens e desvantagens desta tipologia de entidades museológicas. no capítulo respeitante ao museu virtual do azulejo da colecção berardo, começamos por expor os fundamentos inerentes à sua criação, definindo, em seguida, a sua vocação, missão, metas e objectivos. quanto às funções museológicas, as quais darão corpo às diferentes fases de programação do museu, foram descritas, embora tivéssemos em consideração a sua natureza (virtual), endereçando desta forma, a incorporação e conservação dos objectos, para a coordenação física da colecção. com base na vocação e missão do museu enunciamos e definimos o seu público-alvo. em jeito de conclusão, finalizamos a parte de desenvolvimento da presente dissertação, tecendo algumas considerações relativas ao futuro do museu virtual, sob o título reflexões para o seu desenvolvimento conceptual. ainda que, não tivéssemos a intenção de desenvolver, neste trabalho, os diferentes programas intrínsecos a uma programação museológica, cogitamos algumas apreciações, que em nosso entender, são fundamentais para a sua prossecução e sustentabilidade. com este trabalho, ambicionámos estudar uma colecção representativa de uma expressão artística que adquiriu características genuinamente portuguesas, 10 constituindo um factor de identidade, e conceder-lhe um enquadramento museológico, promovendo o seu conhecimento, sistematizando-o e criando condições de fruição no presente e no futuro. no que respeita aos aspectos formais dos textos que se seguem, convém referir que todas as citações são apresentadas em itálico, optando-se, também, por utilizar aspas duplas para as demarcar do restante texto. as notas de rodapé seguem uma ordem sequencial por capítulo dentro de cada parte. dada a diversidade de bibliografia consultada, optou-se por uma divisão temática das referências bibliográficas, visando uma melhor sistematização das mesmas: i – azulejaria; ii – museologia e virtualidade; iii – legislação e iv – websites. como suporte de alguns aspectos de investigação agregamos dois volumes autónomos a este trabalho. o volume ii é constituído por um elenco documental e gráfico, o volume iii apresenta as fichas de inventário, mencionadas no decorrer da presente dissertação. à excepção das fichas de inventário, que estão organizadas sequencialmente por número de inventário, de forma a facilitar a consulta, os restantes anexos estão organizados de acordo com a sua entrada no presente volume, sendo que, todos os documentos apresentados estão referenciados ao longo do texto. 11 parte i – a colecção capítulo i – origem e formação da colecção “al abordar el proceso de formación del museo en un intento de encontrar sus raíces, observamos que es su colección o colecciones lo que le infiere su singularidad y, en definitiva, su razón ontológica.”20 partindo deste pressuposto, consideramos oportuno iniciar o presente estudo, delineando uma visão geral e sintetizada da origem e formação da colecção de azulejos. contudo, antes ainda de traçar o historial da colecção, parece-nos essencial esclarecer este conceito, segundo francisca hernández hernandéz, “colecção” é “(…) aquel conjunto de objetos que, mantenido temporal o permanentemente fuera de la actividad económica, se encuentra sujeito a una protección especial con la finalidad de ser expuesto a la mirada de los hombres.”21 . esta era, também, a opinião de pomian22 , com a qual corroboramos, ou seja, um conjunto de objectos, naturais ou artificiais, mantidos temporária ou definitivamente fora do circuito das actividades económicas, sujeitos a uma protecção especial, com o objectivo de serem expostos publicamente. iniciada nos finais da década de oitenta, a colecção de azulejos, nasce do manifesto desejo de um coleccionador privado, o comendador josé berardo. movido pela memória escolástica de um paladino, o coleccionador conta, na primeira pessoa, a razão impulsionadora deste espólio: “a minha paixão pelos azulejos começou nos bancos da escola. havia, junto à janela da sala de aula, um azulejo com a imagem de um cavaleiro (…). cresci, “percorri as sete partilhas do mundo” e às vezes, vinha-me à memória a figura do cavaleiro, como um sonho… ao regressar a portugal, vindo da áfrica do sul, descobri e, naturalmente, interessei-me e apaixonei-me pela azulejaria portuguesa.”23 . prosseguindo, o objectivo de fazer uma colecção, representativa da história do azulejo em portugal, a aquisição dos exemplares foi sendo feita de modo sistemático, embora não existisse uma política de incorporação definida por escrito. aconselhado por colaboradores, consultores e historiadores de arte, o comendador josé berardo foi constituindo uma colecção, que não deixando de espelhar um gosto pessoal, com a 20 hernández, francisca hernández – manual de museología, editorial síntesis, s.a., madrid, 1998, p. 12. 21 francisca hernández hernández (1998), p. 12. 22 pomian, k. – “a colecção”. in enciclopédia einaudi, imprensa nacional - casa da moeda, lisboa, 1984, p. 53. 23 luísa arruda (2003), p. 9. 12 presença mais reforçada de determinadas tipologias, traduz simultaneamente, importantes obras de síntese da azulejaria portuguesa. ao tentar compreender as motivações e as escolhas que levaram à constituição da colecção, o documento primeiro a considerar é a própria colecção, enquanto objecto privilegiado de observação da personalidade do coleccionador. a colecção de azulejos é, particularmente, expressiva desta situação, retrato e prova remanescente e categórica do indivíduo que, embora valendo-se de especialistas que o aconselharam, patenteou, em muitos exemplares, erudição e decisão própria, convertendo-se em última estância o seu efectivo criador. as aquisições do comendador berardo, podendo, em alguns momentos, sugerir um movimento errático, parecem enunciar uma lógica profunda de coleccionismo, gerida por ecletismo e intuição, estratégia que se torna mais evidente no núcleo de azulejaria arcaica e barroca. excepção feita a seis exemplares, que foram doados à colecção berardo por um coleccionador privado24 , a única modalidade de integração formal dos bens foi a compra, modalidade de incorporação prevista no artigo 13º da lei-quadro dos museus portugueses25 . proveniente de aquisições feitas através de intermediários, directamente aos proprietários privados, ou em hasta pública (leilões), a colecção berardo procede, em parte, de algumas colecções bem conhecidas, nomeadamente, a colecção avilez, associada à produção vinícola da j.p. vinhos de azeitão, a colecção do comandante ernesto vilhena e a colecção coelho da cunha. foi no final da década de oitenta, para enriquecer o jardim tropical monte palace26 , propriedade pertencente à fundação josé berardo, que fez as primeiras aquisições, tentando cobrir alguns dos blocos cronológicos, mais significativos, da 24 lei nº47/2004, de 19 de agosto, artigo 13º, ponto 2, alínea b) doação. 25 lei nº47/2004, artigo 13º, ponto 2, alínea a) compra. 26 situado no anfiteatro do funchal, o jardim tropical monte palace, fica a cerca de cinco quilómetros do centro da cidade, ocupando uma área de 70.000m2 . a sua história remonta ao século xviii com a “quinta do prazer”, na altura, propriedade do cônsul inglês charles murray. posteriormente, em 1897, alfredo guilherme rodrigues, um comerciante madeirense, decide comprar a propriedade, construindo uma casa apalaçada inspirada em mansões e palácios que tinha visto nas margens do rio reno. ladeada por jardins românticos e belas vistas, é no princípio do século xx, que o seu proprietário decide abrir ao público o hotel, então denominado “monte palace hotel”. esta unidade hoteleira funcionou até 1942, ano em que alfredo rodrigues faleceu, sem deixar descendentes directos. por litígios familiares foi vendida em hasta pública, acabando por ser, adquirida, por uma companhia de seguros e, mais tarde, pela companhia de caminhos-de-ferro do monte. após 40 anos de abandono, é em 1987, que o comendador josé berardo adquire este património, que doou à instituição particular de solidariedade social, por ele criada, a fundação josé berardo. passando por um longo processo de recuperação e reflorestação, o jardim tropical monte palace abre ao público em 1991, exibindo o núcleo principal da colecção de azulejos, entre outras colecções, também, patenteadas neste espaço. 13 historiografia desta forma de arte. deste modo, os primeiros painéis incorporados foram apresentados ao público, em 1991, aquando da abertura do jardim. no mesmo ano, e embora a colecção tivesse, ainda, uma dimensão reduzida, alguns dos painéis estiveram presentes na exposição de azulejaria, integrada na europália27 . na sequência dessa importante mostra internacional e a convite da national gallery of art, alguns dos exemplares28 , anteriormente exibidos em bruxelas, viriam a integrar a exposição the age of the baroque in portugal29 , que teve lugar em washington, dois anos mais tarde. ao longo da primeira metade da década de noventa prosseguiram-se as aquisições, embora de forma tímida, representando cerca de um terço do actual espólio. os painéis incorporados continuavam a ser apresentados, apenas, no jardim tropical monte palace, local onde, ainda hoje, se encontra o núcleo central. construindo a sua colecção, sempre obstinado na sua vontade de conseguir o que parecia impossível, antecipando as oportunidades do mercado e aproveitando as suas vicissitudes, o coleccionador viria, no ano de 1995, a retomar, activamente, as aquisições. refira-se, que um dos factores que influenciou, a entrada de um grande número de obras na colecção, foi a realização de dois leilões da casa leiria e nascimento, lda., que fizeram história no mercado leiloeiro português. destes leilões, realizados a 8 de março e 8 de novembro, respectivamente, estavam incluídos inúmeros exemplares da grande colecção do comandante ernesto vilhena. a título de exemplo aluda-se, que na tipologia de registos foram arrematados vinte e quatro exemplares, todos de grande qualidade, publicamente reconhecida pelo investigador santos simões. ainda, no mesmo ano, em 1995, o comendador josé berardo torna-se sócio da empresa bacalhôa vinhos de portugal, então designada j.p. vinhos, que dois anos mais tarde, viria a ser transferida para a propriedade, denominada quinta da bassaqueira30 . convertendo-se, em 1998, accionista maioritário da empresa, estabelecida na zona 27 pereira, joão castel-branco (org.) – azulejos. europália 91, bruxelas, 1991. 28 nomeadamente, os painéis: eleita como sol (inv. 101-205) e formosa como a lua (inv. 101-206). 29 levenson, jay a. – the age of the baroque in portugal. edited by jay a. levenson, national gallery of art, washington dc, 1993. 30 “bassaqueira” é um termo medieval e tem, segundo alguns historiadores, a mesma interpretação que “buçaqueira” (derivado de buçaco) que significa “alusivo à pastorícia”. verdade é, que a maioria dos terrenos conhecidos no limite de azeitão são designados por bassaqueira. reza a história, que estas propriedades pertenceram aos marqueses de vila real e mais tarde a brás de albuquerque. sem certeza histórica que se trataria da mesma área geográfica, da quinta da bassaqueira aqui abordada, não será seguramente muito longe. ainda hoje assim denominada, acolhe desde 1997 a empresa bacalhôa vinhos de portugal, à época j.p. vinhos. transferida para a zona vitivinícola de azeitão, a empresa encontra-se sedeada num edifício emblemático, projectado e, ali construído, por antónio d’avillez. 14 vitivinícola de azeitão, decide expor nas respectivas caves, parte da sua colecção de azulejos. a partir de então, a azulejaria da colecção berardo, estava disponível ao público em dois locais distintos. durante os anos seguintes verifica-se um natural abrandamento do ritmo de aquisições do coleccionador, embora persista nas suas escolhas o gosto pela variedade e a qualidade superior dos painéis. com uma lógica de compêndio que, através dos vários estilos artísticos e períodos cronológicos, pretende representar a história do azulejo em portugal, a colecção assume um carácter didáctico, reforçado pela sua própria estrutura. seguindo a preocupação de cobrir os vários estilos históricos, as várias tendências e os vários nomes, é possível desenhar linhas desta forma de arte, através das múltiplas montagens da colecção, sendo perceptível o cuidado de não haver falhas, criando uma diacronia e um discurso histórico da arte azulejar, no nosso país. a aquisição da quinta e palácio da bacalhôa, no ano de 2000, viria acrescentar um importante contributo. tornando-se um relevante ponto de partida cronológico, para uma viagem, em torno, da almejada história do azulejo em portugal através da colecção, este monumento nacional, marca a entrada dos primeiros conjuntos azulejares in situ, no espólio. o intento de alargar o horizonte temporal até aos primórdios do modernismo, foi desde sempre um desígnio latente da colecção berardo, tentando cobrir os principais protagonistas e facultando uma leitura articulada das diversas correntes, ao abranger artistas que marcaram o início do século passado até aos desenvolvimentos mais recentes da criação artística contemporânea. perseguindo esse propósito foram sendo incorporadas, ainda que timidamente, obras de autores como jorge barradas, júlio pomar, entre outros. a partir de 2007, juntaram-se a estes nomes, outros criadores do século xx como fred kradolfer, manuela madureira, cecília sousa e abel dos santos. em 2008, a amplitude da colecção volta a estender-se com a inclusão de um monumental exemplar modernista de proveniência francesa, adquirido à leiloeira artcurial, em paris, denunciando o desejo de estender o espólio à criação internacional contemporânea. sendo certo que foram os anos noventa, os momentos áureos, ao nível das aquisições, a colecção de azulejos caracteriza-se por ser uma colecção aberta, na medida em que, quando se justifica, poderão fazer-se aquisições, permitindo colmatar eventuais lacunas. no entanto, dada a sua dimensão e abrangência histórico/cronológica, as actuais 15 incorporações são cuidadosamente ponderadas, visando, na sua grande maioria, a produção moderna e contemporânea. exposta nos três locais, anteriormente referidos, esta colecção é tutelada pela fundação josé berardo, instituição particular de solidariedade social, sedeada no funchal e presidida pelo seu fundador, o comendador josé berardo. 16 capítulo ii – apresentação da colecção 1. azulejaria arcaica a prática de revestir paredes com azulejos data da antiguidade e chegou à europa através das trocas culturais que, ao longo dos séculos, se foram realizando entre os povos do médio oriente e os povos europeus. na península ibérica, foram os árabes os responsáveis pela introdução do azulejo na decoração. a sua utilização começou a vulgarizar-se na andaluzia a partir do século xiii. os azulejos, classificáveis por arcaicos, situam-se assim, entre a baixa idade média e meados do século xvi. amplamente estudados por santos simões, com trabalho precursor intitulado azulejaria em portugal nos séculos xv e xvi, insere-se dentro desta denominação os pavimentos cristãos; a azulejaria levantina; as composições alicatadas e a diversa azulejaria sevilhana, sendo esta última, de grande uso no nosso país. vestígios da decoração medieval, presumivelmente datados do século xiii, podem ser encontrados em portugal, no mosteiro de alcobaça e no castelo de leiria, onde se empregaram pavimentos de mosaico vidrado, encadeados de formas geométricas em cores lisas. na segunda metade do século xv, esse tipo de produção, daria lugar às placas cerâmicas para pavimentos levantinos, importadas de manises, de que são exemplo os de forma hexagonal, alfardons, com losetas, as mais pequenas placas, e tijolos com rajolas, guarnecidos com engobe, que adornaram o palácio dos infantes, em beja, lastimosamente assolado em 1895, ou o convento de jesus, em setúbal, as únicas preservadas no local original. os alicatados, característicos de granada, mas também muito usuais em sevilha, entre os séculos xiii e xv, são mosaicos cerâmicos compostos por partes irregulares de cores constantes, ordenadas geometricamente, arquitectando elementos de um desenho pré-estabelecido de tradição islâmica, dos quais resultam composições estreladas, laçarias e estrelas de laço31 . testemunho desta antiga técnica é o painel de azulejos de padrão (inv. 101-396), proveniente da colecção comandante ernesto vilhena. com um 31 na técnica arcaica denominada alicatado, as chacotas – placas de barro seco e cozido – são cobertas com vidrados de cores uniformes e cozidas em fornos cerâmicos entre 960º e 1100ºc, obtendo-se azulejos de uma só cor. sobre estes azulejos de cor lisa desenham-se formas geométricas, que depois são cortadas por uma picadeira ou um alicate. estas peças geométricas preenchem o desenho de composição de alicatado. 17 padrão ornamental constituído por placas cobertas de vidrado estanífero uniforme, branco, e outras coradas de verde e azul, dispostas alternadamente, deduz-se que as peças, fossem, previamente cortadas, na forma pretendida, do barro cru e depois vidradas, dada a diferenciação entre as cores, com concentração de vidrado nos bordos. datável do século xv e de provável produção sevilhana, este exemplar teria como função inicial o revestimento parietal, sendo precisamente essa, uma característica que distingue os alicatados dos pavimentos medievais europeus, tendo os primeiros, uma aplicação, essencialmente, parietal. na segunda metade do século ocorrem tentativas de simplificação do trabalho do alicatado, pretendendo centralizar num ladrilho quadrado de molde levantino os delineamentos de repetição das laçarias geométricas. a técnica usada consistia na colocação de um filete de manganês, normalmente embebido em óleo de linhaça, colocado sobre um motivo cerâmico gravado, visando impedir a mistura dos óxidos aquando da cozedura. conforme santos simões32 era, aliás, uma técnica já bem familiar da europa medieval e praticada nos esmaltes sobre cobre – cujo centro foi limoges –, técnica essa conhecida por cloisoné: processo técnico, que na gíria espanhola, foi comummente designado por cuerda seca. o surgimento da corda seca permitiu uma composição a várias cores no mesmo azulejo; um excepcional aumento da produção; e uma diminuição do preço de custo, dado que, a técnica antecedente por incluir o corte e a aplicação simultânea das peças exigia ladrilhadores especializados, tornando a utilização dos revestimentos alicatados morosa, dispendiosa e de exportação quase impossível. dos poucos exemplares de corda seca representados na colecção berardo destacam-se os painéis de azulejos de padrão hispano-mourisco (inv.101-2 e inv. 101- 3), ambos policromos, datados da primeira metade do século xvi e de produção sevilhana. constituídos pela repetição de um mesmo módulo de padrão de 2x2, respectivamente, apresentam uma decoração geométrica de laçarias, formando composições radiais. se o método da corda seca desempenhava já uma facilitação artesanal, implicava, ainda, o emprego de mão-de-obra relativamente conhecedora. a partir de finais do século xv surge um novo procedimento, que permite obter a separação dos esmaltes. nesta nova técnica apelidada de aresta ou cuenca, como é conhecida em espanha, os azulejos eram decorados com o auxílio de moldes de madeira que, uma vez 32 santos simões (1990), p. 56. 18 pressionados sobre o barro fresco, permitiam, após uma primeira cozedura da peça, a colocação dos pigmentos nos espaços aveolares formados, possibilitando, após uma segunda cozedura, um produto de maior perfeição que o anterior. embora os revestimentos cerâmicos tenham sido usados em portugal desde finais da idade média, decorando-se pavimentos de igrejas e palácios com placas cerâmicas, pode afirmar-se que a azulejaria portuguesa começa no final do século xv, época que marca o início de encomendas a oficinas peninsulares de tradição mourisca. o documento mais antigo que se conhece referente à importação de azulejos data de 147933 . trata-se de abastecimentos da oficina sevilhana de fernán martinez guijarro a portugal, desconhecendo-se o seu destino. entre finais do século xv e a primeira metade do século xvi, o azulejo passa a ser usado em portugal com grandiosa singularidade, guarnecendo inteiramente paredes monumentais, afirmando-se o gosto por espaços ornamentais envolventes, cuja génese pode ser encontrada na presença da apurada cultura árabe na península ibérica. as composições cerâmicas parietais, empregues na andaluzia, devem ter impressionado fortemente o poder régio, pois, como se sabe, a primeira grande encomenda de azulejos sevilhanos para aplicação parietal em portugal foi, entre 1508 e 1509, para o paço real de sintra, por iniciativa do rei d. manuel i (1469-1521). tendo- se interessado pela azulejaria hispano-mourisca quando, em 1498, esteve com sua mulher d. isabel, filha dos reis católicos, em toledo e saragoça, para ser jurado herdeiro das coroas de castela, leão e aragão, visitou a andaluzia, e por sua iniciativa, fez chegar ao porto de belém, em lisboa, no ano de 1508, uma enorme encomenda de 10 146 azulejos destinados à decoração do seu palácio, em sintra. certo era, que o gosto pela utilização de revestimentos cerâmicos, embora de pavimento, estava já enraizado na família real portuguesa e, significativamente, na casa dos duques de beja, pais deste monarca. também a igreja procedeu à encomenda de azulejos hispano-mouriscos para o revestimento das superfícies parietais de muitos dos seus templos, de que é possível destacar a sé velha de coimbra, a igreja de são paulo de frades, perto da mesma cidade, a cripta da igreja de jesus, em setúbal, ou ainda, a sala do capítulo do convento da conceição de beja. a azulejaria mudéjar não se irá confinar à repetição de formas e ornatos islâmicos, inteirando na sua linguagem plástica outros elementos como prodígio 33 perez, josé gestoso y – história de los barros vidrados sevilhanos. sevilha, 1904, p. 149. 19 artístico de interpenetração de culturas, que descreve o mudéjarismo peninsular. de acordo com luísa arruda na azulejaria mudéjar “(…) reconhece-se a presença de um formulário gótico adaptado à padronagem decorativa, em formas vegetalistas, motivos heráldicos, desenhos de tecidos ricos ou utilização ornamental e simbólica de textos em letra gótica. este carácter dever-se-ia, tanto a uma opção dos encomendadores, como à sua absorção pelos artífices.”34 . acrescenta, ainda, a investigadora, que outro aspecto não menos determinante diz respeito à articulação da cerâmica com o espaço arquitectónico e que também anuncia um gosto estabelecido na península ibérica a partir da ocupação árabe. o guarnecimento de superfícies murais para a decoração de fachadas, interiores e jardins funcionaria como memória e adaptação a situações mais permanentes da decoração efémera que utilizava tapeçarias, tecidos e guademecins. efectivamente, a linguagem estrutural da tapeçaria e do tecido mural está presente na organização dos painéis de azulejaria mudéjar, sobretudo na utilização compositiva da padronagem, através de barras e cercaduras, que demarcam os diferentes panos. representam este tipo de cercadura os painéis de azulejos de padrão hispano- mourisco (inv. 101-6 e inv. 101-7). constituídos por barras de padrão, em módulo único, aplicado geralmente em cercadura, ostentam dois pares de folhas entrelaçadas, verticalmente, cujos ramos definem um motivo em corrente. as barras idênticas, que compõem os dois painéis foram, muito provavelmente, montadas após a desintegração da estrutura arquitectónica a que estariam adstritas, pois encontramos na obra de santos simões uma imagem da igreja de são paulo de frades, em coimbra, onde se podem observar exemplares iguais, exercendo a sua função de cercadura35 . se os exemplares mais antigos, fabricados segundo a técnica da corda seca, reproduzem esquemas geométricos de inspiração mudéjar, já outros, de produção posterior, em técnica de aresta, reflectem um gosto goticizante. é o caso do painel de azulejos de padrão hispano-mourisco (inv. 101-176) - de 10x16 azulejos, constituído pela repetição de um mesmo módulo de padrão de 2x2 - em que elementos decorativos góticos foram usados segundo esquemas mudéjares, dando origem a uma composição híbrida, exemplar da interpenetração cultural que caracteriza muita da produção azulejar hispano-mourisca. o friso, onde figuram dois 34 arruda, luísa d´orey capucho – “formas hispânicas. azulejaria portuguesa dos séculos xv e xvi”. in história da arte portuguesa, direcção de paulo pereira, vol. iii, edição círculo dos leitores, lisboa, 1995, p. 366. 35 santos simões (1990), estampa xxviii. 20 ramos de folhagem ondeada, em cujas reservas interiores se encontram flores-de-lis, ritmando o conjunto e simulando uma corrente cujas reservas circunscrevem pares de formas florais estilizadas, é segundo joão pedro monteiro36 , de um tipo muito comum em manises, valência, no último quartel do século xv. também goticizantes são os exemplares de painéis de azulejos de padrão hispano-mourisco (inv. 101-178 e inv. 101-179), sendo este último evocativo da tradição mudéjar dos tectos em madeira. conforme nos lembra o investigador josé meco37 , dos conjuntos portugueses de azulejaria hispano-mourisca, somente um pode ser considerado representativo da maneira de aplicação andaluza (como a da casa de pilatos, em sevilha), trata-se pois, do patenteado na sala do capítulo do convento da conceição, em beja. este notável revestimento do primeiro quartel do século xvi, com diferentes modelos renascentistas de aresta, compreende as superfícies parietais da sala numa integração cuidada, com variados padrões associados a delinear painéis dispostos lado a lado, cingidos por uma cercadura e ultimados por friso com palmetas. na realidade, as restantes aplicações caracterizam-se pelo agrupamento livre dos azulejos, combinando os mais distintos padrões e cercaduras de modo a montarem combinações dinâmicas e contrastadas, integralmente divergentes das disposições de padrões comuns na andaluzia e denunciando já, numa época em que ainda não existia produção portuguesa de azulejos, uma agudeza decorativa própria, bem definida. exemplo paradigmático do gosto e grande autonomia de colocação portuguesa é o painel de azulejos de padrão hispano-mourisco (inv. 101-177), em técnica de aresta. a utilização na composição de seis módulos de padrões diferentes, um dos quais contido em cercadura e colocado como centro de uma composição mais vasta, permite evocar a tal liberdade com que, frequentemente, os ladrilhadores portugueses fizeram uso dos azulejos hipano-mouriscos, e de que é exemplo os revestimentos da sé velha de coimbra. aí, contrariamente ao trabalho realizado no convento da conceição em beja, provavelmente por artífices idos de sevilha, foram aplicadas uma multiplicidade de soluções, cobrindo pilares e paredes, pois os ladrilhadores nacionais, desconhecendo certamente o modo de aplicação habitual 36 monteiro, joão pedro – “a colecção de azulejos da fundação josé berardo”. in islenha, temas culturais das sociedades insulares atlânticas, nº38 – janeiro – junho 2006, direcção regional dos assuntos culturais, madeira, 2006, p. 39. 37 josé meco (1993), p. 187. 21 destes azulejos, socorreram-se da sua imaginação, dando a este templo a “(…) mais versátil decoração da época (…)”38 . é na técnica de aresta, que se produz a maior quantidade de azulejos de lavores, tanto para decoração parietal como pavimentar, sendo das técnicas azulejares arcaicas, a mais representada na colecção berardo. segundo santos simões a época de maior expansão dos padrões de aresta, dataria de 1520 a 1540. no decorrer do século xvi a azulejaria múdejar continua a afirmar-se como gosto, embora os desenhos comecem a modernizar-se através da aceitação de temas ornamentais renascentistas – fitomórficos – acabando por desaparecer as laçarias geométricas. se o painel de azulejos de padrão hispano-mourisco (inv. 101-180), constituído pela repetição de um mesmo azulejo, assinala uma nova evolução estética da produção, fazendo, ainda, a transição para o novo gosto, o painel de azulejos de padrão hispano-mourisco com motivos vegetalistas (inv. 101-181) assume já plenamente no anel duplo, que emoldura o losango com apontamentos vegetalistas, circunscrevendo o quadrifólio cruciforme, uma gramática caracteristicamente renascentista. o trabalho de artesãos árabes é uma expressão da cultura mudéjar, podendo nele coexistir temáticas de origem muçulmana, naturalmente predominantes, com elementos próprios da cultura cristã. diga-se, ainda, que nestes protótipos sevilhanos está já definida o que será uma das mais importantes vocações do azulejo que, futuramente, virá a ser fabricado em portugal: a concepção de padrões destinados ao revestimento de superfícies arquitectónicas por vezes de grandes dimensões. como referimos, datam das primeiras encomendas de azulejaria sevilhana, feitas por portugueses, os ensaios de soluções originais, nomeadamente, no modo como assume a articulação da decoração com o suporte arquitectónico. 2. padronagem maneirista e protobarroca, registos religiosos em meados do século xvi, os azulejos hispano-mouriscos, expressos pelas técnicas de corda seca e aresta, caem em desuso em portugal e são substituídos por azulejos com decoração directamente pintada sobre o vidro, em técnica de majólica ou faiança. introduzida na península ibérica por francisco niculoso, o pisano, desde a sua 38 pereira, joão castel-branco – as colecções do museu nacional do azulejo. instituto português de museus, lisboa, zwemmer, londres, 1995, p.41. 22 chegada a sevilha em 1488, e difundida por ceramistas flamengos vindos de antuérpia, esta nova técnica possibilitava a pintura rápida, tendo-se começado a usar nas oficinas de lisboa, por volta de 1560. aí se produziram os azulejos para a quinta da bacalhôa, em azeitão, núcleo onde os primeiros espécimes portugueses coexistem com a padronagem sevilhana. as novidades técnicas incitaram uma singular renovação da cerâmica em portugal e em espanha, articuladas a um extenso e revolucionário movimento artístico, copiosamente sustentado pelas cartelas, ornatos e composições geradas pelo maneirismo flamengo, que no nosso país foram uma fonte capital para a criação de várias artes ornamentais, como a talha dourada, a escultura decorativa e a pintura ornamental aplicada à arquitectura. perante estes factos, torna-se então clara a génese lisboeta do mascarão (inv. 101-395), de gosto maneirista datável de cerca de 1570, semelhante (senão igual) aos que revestem um alegrete de jardim, na quinta da bacalhôa, aplicados em repetição linear. proveniente da antiga igreja das mercês, em lisboa, santos simões refere-se a este painel, aquando da descrição da colecção do dr. josé coelho da cunha, cuja foi herdada de seu pai, alfredo da cunha. “no belo palácio do largo de s. vicente – outrora casa nobre dos noronhas [actualmente designado por palácio teles de menezes, largo de são vicente, 5, freguesia de são vicente de fora, lisboa] em lisboa, juntaram-se e expõem-se com requintes de bom gosto e critério didáctico, algumas centenas de exemplares de todas as épocas e das melhores qualidades. os azulejos foram adquiridos por alfredo da cunha quando da demolição [da antiga igreja das mercês, em lisboa] e carinhosamente transferidos para a sua residência. quando os vi – em 1950 – logo me chamaram a atenção não só pela sua beleza como pelas semelhanças com alguns dos azulejos da bacalhôa. trata-se de um silhar com sete azulejos de altura, incluindo os de rodapé. repetem-se grandes máscaras entre «cartouches» de ferronerie, em tudo iguais às do canteiro ou alegrete do rapto da europa da bacalhôa. neste caso, porém o conjunto parece mais cuidado, enriquecido com o molduramento de gregas.”39 . a igreja das mercês datava, na sua última forma, dos meados de seiscentos, mas como relembra santos simões, já o padre carvalho da costa, na sua corografia portuguesa alvitrara, que esta assentava no local onde outrora existia uma casa nobre, 39 santos simões (1990), p. 108. 23 que servia também de recolhimento. segundo o investigador, não há dúvidas que os azulejos são certamente de época próxima de 1570 e provenientes da mesma oficina que forneceu os últimos azulejos a afonso de albuquerque (filho), então proprietário da quinta da bacalhôa. o painel apresenta, actualmente, uma cercadura monocromática, sendo que a moldura em grega e o respectivo rodapé devem ter sido substituídos, aquando da transição da colecção do dr. josé coelho da cunha para a colecção do manuel leitão40 . o motivo maneirista central deste exemplar surge, também, embora usado de forma diferente, na igreja de são roque, em lisboa, obra capital da primeira azulejaria portuguesa, assinada por francisco de matos e datado de 158441 . a apurada produção maneirista foi um reflexo do curto período de fulgor e magnificência vivido por portugal, em resultado do comércio das especiarias e da abundância de outros bens provenientes da expansão marítima, conjuntura que ingressou em espontâneo declínio e degradação a partir de meados do século xvi, alcançando séria crise perto do final da centúria, à qual veio juntar-se a perda da independência nacional, repercutindo-se essa situação na economia e na sociedade portuguesa ao longo do domínio espanhol, sentindo-se, ainda, após a restauração. segundo josé meco “a carência de meios e a dispersão da nobreza, bem como a ausência da corte, trouxeram profundas alterações à produção artística nacional, implicando uma fase maneirista pobre, de arquitectura singela, preponderantemente religiosa, na qual trabalharam artífices decoradores de formação não erudita, porque os mestres emigravam e as suas obras, mais dispendiosas, só muito esporadicamente podiam ser pagas.”42 . em contrapartida, neste encadeamento, o azulejo português desenvolveu novas potencialidades decorativas, passando a ser criado particularmente em função da arquitectura que reveste, na qual cumpre um papel dinamizador e modificador do espaço. num espírito radicalmente antagónico ao da azulejaria ornamental maneirista, surgem soluções originais numa manifestação paralela extraordinariamente importante, 40 refira-se que o painel em questão incorporou a colecção berardo por compra directa à colecção do manuel leitão, em 2003. 41 esta obra, sobejamente divulgada, mereceu especial destaque desde haupt (1890), que a desenhou em haupt, albrecht – a arquitectura do renascimento em portugal. do tempo de d. manuel, o venturoso, até ao fim do domínio espanhol. tradução de margarida morgado, editorial presença, lisboa, 1986. introdução crítica e revisão de texto de m.c. mendes atanázio. (edição original em dois volumes, em alemão, sob o título die baukunst der renaissance in portugal, ester band a. m. heinrich keller, 1890) e josé queirós (1907), que exaltou a sua perfeição técnica e sentido decorativo, em queirós, josé – cerâmica portugueza. typographia do annuario commercial. lisboa, 1907. 42 josé meco (1993), p. 198. 24 desenvolvida através das composições de “caixilho”. após um aprofundado estudo dos princípios teóricos a que obedeceram as composições “enxaquetadas” (ou “xadrezadas”), e a génese das organizações decorativas da azulejaria, designadas de “caixilho”, santos simões revela que os ritmos lineares, destas tipologias, se orientavam, na maioria das vezes, diagonalmente. reconhecendo, que o efeito decorativo acarretava uma mudança de direcção contrariando premeditadamente as linhas horizontais e verticais da própria arquitectura43 . “pouco a pouco observamos que estes simples esquemas se ampliam para escalas cada vez maiores, procurando como que uma multiplicação espacial. assim, o primeiro caixilho cujo o módulo é constituído por 1 azulejo, 2 tarjas e o elemento de ligação, pode ampliar-se para uma composição em que há 2 tarjas de lado a lado, alternando nas respectivas cores, e 4 elementos de ligação nos respectivos ângulos com as cores igualmente alternadas.”44 . na verdade, são muitas as combinações de “caixilhos” que se encontram nos edifícios religiosos, nas igrejas, sacristias, corredores, salas de capítulo, claustros e noutros espaços, sobretudo a sul do nosso país. os esquemas de composição dos “caixilhos”, provenientes dos “enxaquetados”, conservam insistentemente as suas linhas rítmicas, alterando apenas o elemento colorido – azul ou verde –, sendo o outro sempre branco. ainda que, com raízes firmadas no século xvi, é apenas nas primeiras décadas do século seguinte, que esta utilização adquire a verdadeira monumentalidade. apresentando esquemas mais complexos, em que os quadrados brancos são substituídos por azulejos de padrão, dando origem às composições de “caixilho compósito”. na colecção berardo existe apenas um painel de azulejos “enxaquetado” (inv. 101-9), representativo dos primeiros esquemas utilizados. feito à base de uma composição de alternância simples – azuis e brancos –, onde prevalecem como linhas de força as diagonais, produzidas pelo efeito cromático das tarjas de cor azul. fazendo de cercadura, possui uma barra, de cor e espessura, igual às tarjas diagonais. produzido, certamente, em lisboa, deverá datar de finais do século xvi, princípios do século xvii. embora, os azulejos “enxaquetados” se prestassem a uma grande variedade de composições decorativas, os casos mais simples, aplicavam-se apenas na parte inferior 43 segundo santos simões, estes esquemas são de criação especificamente portuguesa, sendo ignorados em outros países. santos simões (1971), tomo i, p. 15. 44 santos simões (1990) p. 96. 25 das paredes – silhares –, tendo sido, muito provavelmente, essa, a função inicial do referido exemplar formado por módulo singelo. também, com raízes no século xvi, mas de origem talaverana e sevilhana, são os azulejos de padrão ponta de diamante. conhecidos em espanha por padrão dos clavos ou padron del arzobispo, por ter sido criado para satisfazer uma encomenda do arcebispo de toledo, este tipo de produção policroma, cujo desenho é geralmente constituído por quatro azulejos, tendo como motivo central uma figura de “diamante”, tornou-se extremamente popular. azulejos de ponta de diamante, ainda de produção sevilhana, foram aplicados em parte do revestimento da igreja de são roque em lisboa, em 1596, e na sacristia da igreja do espírito santo, em évora, formando em ambos os casos, tapetes limitados por cercaduras próprias, denominadas de dente de lobo. durante o primeiro quartel do século xvii este desenho vulgarizou-se em portugal, desenvolvendo-se uma produção nacional, cujos exemplares mais antigos são os tapetes da capela da lavegada, em tomar, datáveis de 1602. conhecem-se muitas variedades deste padrão, tendo a sua utilização prolongado no tempo até cerca de 1630. o painel de azulejos de padrão ponta de diamante (inv. 101-8) testemunha este tipo de decoração de influência ítalo-flamenga. considerado um dos melhores exemplos da azulejaria maneirista com motivos de clara referência clássica – óvulos e dardos, ondas e palmetas, cartelas e pontas de diamante, ilusão de volume dado pela marcação das zonas de luz e sombra orientadas a 45º –, está guarnecido com a respectiva cercadura, na base e no topo, faltando aos lados. de acordo com a identificação e catalogação de padrões elaborada por santos simões este exemplar é do tipo p-75 com cercadura c-3445 . o módulo é composto por nove azulejos, um prisma saliente ou reentrante conforme a posição, quatro pirâmides quadrangulares e quatro motivos em cartela. as pirâmides quadrangulares e as cartelas constituem-se como elementos comuns aos módulos adjacentes, construindo um esquema de composição, que se desenvolve em alternância rica de cheios e vazios. a cercadura, designada por dente de lobo, cria uma ilusão de volume, pelo uso de tonalidades azuis sobre fundo amarelo. de cada dente, com terminação em forma de voluta, sai um ramo com flor estilizada, que preenche o espaço livre entre cada dente. a cercadura é rematada, exteriormente, por várias linhas paralelas e uma cana. 45 santos simões (1971), tomo i, pp. 26 e 145. 26 recuando, novamente, até às produções de transição do século xvi para o século xvii, as experiências com composições de “caixilho” começam a adquirir um ritmo decorativo, já definido por grandes diagonais e animado cromaticamente pela inserção harmónica de azulejos de ornatos policromos, que se iria repercutir como “constante” na azulejaria portuguesa de seiscentos. pois, como refere santos simões “(…) é essa organização de efeitos diagonais que continuará a presidir às composições dos “tapetes” quando, abandonados os esquemas de “caixilho”, se vão resolver os problemas decorativos apenas com elementos de padronagem policroma.”46 . o gradual abandono das composições de “caixilho” pode-se ter ficado a dever a vicissitudes várias de ordem económica, relacionadas essencialmente com o custo de aplicação. porque, se é verdade que inicialmente, os azulejos monocromáticos eram de preço inferior, visto não obrigar mão-de-obra experimentada em pintura ornamental, certo era, que a sua colocação seria morosa e dispendiosa em execução do ladrilhador, desempenhando um papel preponderante neste tipo de revestimento. a introdução de azulejos de modelo quadrado e uniforme, viriam a abreviar consideravelmente o tempo de ladrilhamento, diminuindo consequentemente a incidência dessa parte do trabalho no valor global da obra. não tendo conseguido conquistar uma grande clientela, os esquemas de “caixilho”, acabariam por terminar no princípio do segundo quartel do século xvii, cedendo lugar às composições de “tapetes” de padronagem policroma. as composições de padronagem resumem-se a esquemas de grandes tapetes, obtidas através da repetição ritmada de “padrões”, que irá descrever a azulejaria portuguesa do século xvii, absorvendo a quase totalidade da produção47 . neste seguimento, criou-se então, uma enorme variedade de azulejos de padrão destinados ao revestimento de superfícies parietais, que depararam na igreja o seu principal cliente. trabalho oficinal, a riqueza dos azulejos portugueses de padrão do século xvii ficou-se a dever ao modo como a imaginação dos nossos artífices soube executar a partir de uma pluralidade de influências, maioritariamente italo-flamengas, 46 santos simões (1971), tomo i, p. 17. 47 conforme santos simões denomina-se “tapete”, em azulejaria, “(…) a composição para revestimentos parietais cujo efeito decorativo resulta da repetição regular de “padrões”. o “padrão” é, portanto, a unidade de repetição, ou seja: constituído pelo menor número de “elementos” (azulejos tomados individualmente) que definem essa repetição. ao passo que o “tapete” é teoricamente infinito – daí o seu valor decorativo –, o “padrão” pode isolar-se e definir-se pelo número de “elementos” que o completam e pelo “módulo de repetição”. esta era, na quase totalidade dos casos, quadrado, isto é, completava-se um único azulejo (quadrado por definição), em quatro azulejos (2x2), dezasseis (4x4), trinta e seis (6x6), etc., aquilo a que se passava a chamar “quadra”.” santos simões (1971), tomo i, p. 20. 27 mas também extra europeias, como se pode reconhecer pelo padrão que santos simões designou de “camélia”. os interiores desadornados dos nossos templos seiscentistas foram, assim, preenchidos por uma multiplicidade de padronagens, compostas por módulos que variavam entre 2x2 e 12x12 azulejos. ao coexistirem no mesmo espaço módulos de diferentes dimensões, os mais pequenos, eram, geralmente, aplicados nos planos inferiores das paredes. é o caso do painel de azulejos de padrão (inv. 101-182), de evidente influência flamenga, constituído por módulos de 2x2 azulejos, que, de acordo com santos simões, é de grande raridade, localizando-se o único exemplar de que tinha conhecimento num edifício da rua da atalaia em lisboa. este estudioso catalogou-o como p-24 e a cercadura como c-63, mencionando, ainda, que esta última podia também ser vista na ante-sacristia do mosteiro de alcobaça, embora emoldurando um outro padrão48 . também o painel de azulejos de padrão monocromático (inv. 101-185) é constituído por módulos de 2x2 azulejos. santos simões, que o classificou como p- 398, realça a sua estranheza no programa seiscentista, datando-o já da primeira década do século xviii, porventura pelo facto de ser de pintura a azul. no entanto, será mais prudente, pela sua temática, ainda maneirista, de motivos que parecem evocar cornucópias colocadas cruciformemente e unidas por elementos polilobados, colocá-lo no último quartel de seiscentos. o mesmo investigador refere, ainda, o facto de o ter visto repetidamente aplicado no brasil, no palácio saldanha e na rua inácio accioly, em salvador, bem como, em lisboa, no palácio alcáçovas e na quinta do travaz, do sebal49 . a cercadura que neste painel surge a emoldurar o padrão, classificada como c-90, está-lhe também associada, pelo que se depreende das palavras de santos simões, em salvador50 . o painel de azulejos de padrão (inv. 101-183), constituído por módulos de 6x6 azulejos, era geralmente usado nos planos superiores das paredes. definido por dois centros de rotação e um elemento de ligação – neste caso o eixo principal do painel – constituído por uma palmeta cruciforme, vazada losangularmente no centro, de cujos ângulos partem folhas de acanto. os centros de rotação são compostos por ferroneries, apresentando-se um deles quadrilobado com um dos eixos abertos e rematado por palmetas vegetalizantes. este elemento circunscreve quadrifólio de acanto. no outro 48 santos simões (1971), tomo i, p. 36 e p. 150. 49 santos simões (1971), tomo i, pp. 58-59. 50 santos simões (1971), tomo i, p. 150 e p. 156. 28 centro de rotação, a ferronerie dispõe-se em quadrilobo, rematado por pequenos quadrifólios de acanto, entrelaçando-se com o centro de rotação anteriormente descrito. santos simões51 , inventariou cerca de oitenta núcleos deste padrão (p-604), em locais com uma dispersão geográfica assinalável, que vai desde a igreja de são cristóvão, em caminha, passando pelo antigo convento de nossa senhora dos anjos no cabo frio, rio de janeiro, até à capela-mor da igreja de são joão evangelista, no funchal. a extraordinária expansão deste esquema processou-se não só no espaço como no tempo, prolongando-se desde de 1630 até final do século. a sua recorrência ficou-se, certamente, a dever ao grande dinamismo e consequente eficácia decorativa. paradigma da criatividade dos nossos azulejadores de seiscentos é o painel de azulejos de padrão de “marvila” (inv. 101-184), formado por módulos losangulares de 12x12 azulejos, o de maior dimensão concebido no mundo, e que pela sua grandeza destinava-se, apenas, ao revestimento parietal de superfícies colossais. tendo a sua aplicação mais eficaz e espectacular na igreja de marvila em santarém, é correntemente designado como “padrão de marvila”. constituído por catorze tipos de azulejos diferentes (num total de 144) era, naturalmente, dispendioso, pelo que, por norma, figura em “(…) grandes templos com preocupação de ostentar riqueza.”52 . este padrão é inspirado na azulejaria de “caixilho”, onde é manifesta a preocupação de diagonalidade. constituídos por azulejos lisos de colocação oblíqua, separados entre si por estreitas tarjas e pequenos quadrados cerâmicos, que se desenvolveram através da incorporação de azulejos chamados de lavores em substituição dos lisos, que se colocavam nos centros da malha axadrezada. não sendo possível determinar com precisão a época em que surgiu, nem o local para onde primeiramente foi concebido, santos simões julga tratar-se de uma criação de cerca de 1620-3053 . “os esquemas de 4x4 mais simples, porventura também os mais económicos, eram engenhosamente obtidos apenas com dois elementos (4x4/2). é verdadeiramente para admirar o poder de imaginação desses anónimos artistas que saibam tirar partido do azulejo para, com um mínimo de peças elementares, obterem composições relativamente vastas e, sobretudo, de extraordinário efeito decorativo.”54 um dos padrões que mais se popularizou, sendo também um dos mais estéticos, foi o p-401, o qual, somente com dois elementos, muito diferentes entre si, origina uma composição 51 santos simões (1971), tomo i, p. 111. 52 santos simões (1971), tomo i, p. 124. 53 santos simões (1971), tomo i, p. 124. 54 santos simões (1971), tomo i, p. 64. 29 de dezasseis azulejos, cuja reprodução permite a ornamentação de grandiosas superfícies, conjugando ritmos cromáticos e lineares, aparentemente, complexos. a reputação que este padrão lucrou é reconhecida pelas variantes a que deu procedência, chegando ao final do século xvii, e até mesmo aos princípios do século xviii, já com pintura circunscrita aos tons de azul. santos simões toma como exemplos protótipos do p-401 os azulejos retirados da capela designada de “simão preto”, da igreja de santa maria do olival, em tomar, cuja azulejaria, de acordo com o investigador, está relacionada com um documento datado de 1632. representativo deste modelo, o p-401, é o painel de azulejos de padrão (inv. 101-45), com o centro do módulo composto por florão cruciforme, formando quatro pontas de flor-de-lis e quatro folhas de parra, que se entrelaçam em circunferências de fina ferronerie, num total de quatro, circunscritas, dentro de cada módulo. a circundar o florão central, existem folhas de acanto pendentes para o interior que, aos pares, saem de pequeno elemento de ferronerie, que une as circunferências, quando estas se tocam. na ampla produção dos modelos 4x4, foram muito comuns os padrões da “família” dos quadrílobos, tendo-se iniciado a sua criação ainda antes de 1460, a qual se mantém para além do princípio do século xviii, já em colorações azuis. entre vários exemplares da colecção berardo, pertencentes a esta “família”, destaque-se o painel de azulejos de padrão “quadrílobos” (inv. 101-48). classificado por santos simões como p-431, é considerado, pelo mesmo, como um dos “(…) mais antigos e aparece por vezes com um quinto elemento, que não é mais do que rebatimento da matriz – por exemplo na igreja da várzea (santarém).”55 . este tipo de padrão pode, também, ser encontrado no revestimento da nave da igreja matriz de aldeia gavinha, em alenquer, datável de meados do século xvii. no interior das igrejas a padronagem surge, com frequência, circundando pequenos painéis com figuras de santos, simbólicas e cenas narrativas religiosas, realizados por artífices sem formação académica que transpunham, em interpretação ingénua, gravuras que então circulavam internacionalmente servindo como modelos a artistas e a artesãos de diferentes artes decorativas. um dos temas mais recorrentes é o representado na alegoria eucarística (inv. 101-186): um ostensório sustentado (como é o caso) ou ladeado por anjos. este tipo de painel costuma apresentar em baixo uma reserva com legenda alusiva ao “santíssimo 55 santos simões (1971), tomo i, pp. 72-73. 30 sacramento”, e este não é excepção. todavia, tem o interesse acrescido, de por debaixo da legenda, exibir o cronograma 1630, pois a coexistência entre o contorno do desenho a azul, próprio da primeira metade do século e o contorno a manganês, característica da segunda metade, poderia fazer-nos pensar que estaríamos em presença de uma peça datável de meados de seiscentos. de facto, a azulejaria figurativa da primeira metade do século xvii é dominada por temas religiosos, como as narrativas seriadas da vida da virgem e de cristo ou registos de santos, sendo um dos temas mais recorrentes, a representação da eucaristia. segundo santos simões, estes painéis, “aparecem com relativa frequência, já sobre os arcos triunfais, já nas paredes de capelas privativas das irmandades do santíssimo sacramento, já, isoladamente, em outros locais de igrejas ou de claustros. há os que apenas mostram a custódia, sempre pintada a amarelo, sugerindo ouro, destacando-se de um fundo radiado. são igualmente frequentes os que se enriquecem com querubins entre nuvens que se transformam em anjos nos painéis maiores. mais ambiciosos são aqueles em que a custódia, colocada sobre um altar, é adorada por anjos turibulários. em muitos destes painéis se inscreveram dísticos, dos quais o mais comum é: «louvado seja o santíssimo», por vezes ainda acompanhados dos nomes dos doadores.”56 . neste contexto, a alegoria eucarística (inv. 101-186), é uma versão mais elaborada do tema, com a imagem de uma custódia maneirista em templete, contendo no seu interior a hóstia sagrada com a figuração sombreada do calvário, sendo suportado o ostensório por um par de anjos ajoelhados, em posição orante, numa atmosfera de nuvens. na cercadura, surgem querubins, intercalados com elementos de ferronerie. testemunho destas composições figurativas autónomas, simulando quadros de pintura, normalmente integrados nas padronagens de capelas e igrejas, é o registo hagiográfico (inv. 101-441). para a execução deste painel figurativo o pintor serviu-se, muito provavelmente, de uma gravura erudita como modelo, como era já frequente à época, realizando, contudo, uma imagem ingénua de grande força expressiva. a forma da figura e a paisagem que lhe serve de fundo tiram partido dos efeitos claro-escuro, aqui utilizados, para organizar visualmente a imagem, e não como técnica mimética de representação. a título comparativo, veja-se o painel do museu nacional do azulejo, registo de são diogo (mnaz inv. n.º 140) ou os painéis identificados por santos simões57 representando os apóstolos, presentes na igreja matriz de são pedro, na sertã, em castelo branco, cujos 56 santos simões (1971), tomo i, pp. 202-203. 57 santos simões (1971), tomo i, pp. 124-125 e estampa xvii. 31 apresentam uma cercadura e desenho similares ao que figura neste painel. também obra de artesão, encantadora pela ingenuidade, é o registo de santo antónio (inv. 101-438). já o pequeno painel losangular heráldica franciscana (inv. 101-187), poderá ter sido pintado sem o recurso a uma fonte gravada, trabalhando o pintor de memória, visto serem as “armas” desta ordem religiosa sobejamente conhecidas e de fácil execução58 . é de realçar a invulgar forma losangular do painel, bem como, a moldura maneirista, cujo bordo interior é constituído pela corda, um dos atributos de são francisco. também os altares podiam ter aplicações cerâmicas, destacando-se os normalmente designados “de aves e ramagens”, inspirados em tecidos estampados indianos, as chitas, e que constituem um dos mais interessantes testemunhos de transculturação nas artes decorativas portuguesas. como vimos, na imensidade de padrões criados ao longo século xvii empregam-se motivos ornamentais ainda maneiristas – as ferroneries e as folhas de acanto – mas em grandiosa elaboração e escala do desenho, em organizações cenográficas monumentais, já de sensibilidade barroca. “a metamorfose dos espaços conseguia-se pela aplicação de frisos e grandes cercaduras que reforçavam os contornos das paredes, portas e janelas e separam composições de diferentes padrões, que, por lembrarem tecidos e tapeçarias suspensas, são designados de tapete, ocupando os padrões com módulos mais pequenos os níveis inferiores das paredes e os maiores os superiores.”59 marca, também, a produção da primeira metade de seiscentos os vários painéis emblemáticos, hagiográficos e narrativos, que parecendo substituir as pinturas sobre tela, integravam os grandes tapetes de padronagem. 3. composições ornamentais e figurativas segundo reynaldo dos santos, na segunda metade do século xvii, sempre a par das grandes decorações policromas, e ainda em plena efervescência criadora, “(…) surgem nos temas e nos próprios tons dominantes, outras influências, em parte holandesas, que 58 contrariamente, ao que tinha acontecido no século xvi, estas composições figuradas deixaram de ser executadas por pintores cultos, e passaram a ser obra de artesãos, que copiavam com ingenuidade, gravuras de artistas eruditos, divulgados por toda a europa central e ocidental, revelando contudo grande sensibilidade e imaginação visual. 59 aa.vv. – museu nacional do azulejo. roteiro. instituto português de museus, 2ª edição, lisboa, 2005, pp. 56-57. 32 geram na evolução do azulejo nacional uma nova fonte renovadora. assim se inicia a decoração dos painéis historiados, com evocações da vida profana, livros sagrados, ou simplesmente anedóticas; e a cor azul e branca, modelando as formas, entra no gosto das composições murais.”60 . de facto, ao longo da centúria de seiscentos, o gosto por guarnecimentos cerâmicos colossais, para a arquitectura religiosa e civil, descobriu a expressão máxima em composições ornamentais particularmente delineadas para cada espaço, com uma súmula de “grotescos”, ornamentos profanos, desenhados por rafael sanzio sobre os achados arqueológicos do domus aurea em roma. seguindo, contudo, os cânones do maneirismo internacional, os motivos ornamentais como sejam as ferroneries, cartelas, putti, grinaldas e quimeras, foram explanados pela sensibilidade portuguesa adaptando-os ao azulejo, através de uma surpreendente riqueza de imaginário e liberdade interpretativa das fontes iconográficas, registadas com muita imaginação, embora, por vezes, algo ingénuas. aplicando-os em revestimentos decorativos de escala monumental, com perfeita integração no espaço arquitectónico, introduziram outros motivos, heráldicos, civis e religiosos; animais exóticos e fantásticos, arrogando-se como imaginário viçoso potencialmente expansivo, provido por uma pintura, de azuis e amarelos sobre branco, deveras instintiva e voluptuosa. se por um lado a igreja, empenhada em difundir os valores contra-reformistas saídos do concílio de trento, fez uso do azulejo como meio privilegiado de veicular mensagens, também a nobreza, de regresso à corte de lisboa após a restauração de 1640, procede à encomenda de azulejos para os seus palácios de veraneio ou habitação. aí, para além de reflectirem o seu gosto e interesses, figurando cenas de caça ou mitológicas, renovando a temática da azulejaria figurativa portuguesa, que na primeira metade de seiscentos respondera maioritariamente a encomendas da igreja, os azulejos podem assumir uma dimensão política. relatam, então, os feitos militares do proprietário, como é o caso exemplar da “sala das batalhas” no palácio dos marqueses de fronteira em lisboa, ou, mais subtilmente, materializam-se em cenas satíricas, como é o caso das macacarias, assim designadas por serem maioritariamente protagonizadas por macacos, também presentes nos jardins desse palácio. este género de figuração, a macacaria, remete-nos para a inversão simbólica da realidade, que encontrou múltiplas expressões em diversas regiões da europa ocidental, após a descoberta e denúncia de le monde à l’envers ou renversé, sendo intitulada como 60 reynaldo dos santos (1957), p. 68. 33 die verkehrte welt, il mondo alla riversa, el mundo al revés e the world upside down61 . o tema do mundo ao inverso, ou o mundo ao contrário, surge na produção literária do século xvi. terá sido o escritor, e padre francês, do renascimento, alcofribas nasier pseudónimo de françois rabelais (1483-1553), que se serviu da imaginação popular herdada do espírito medieval, da estrutura narrativa das histórias, do estilo burlesco e da riqueza vocabular para tratar alguns dos problemas mais decadentes do seu tempo, como sejam, a administração da justiça, a vivência religiosa ou a guerra justa, publicando uma edição dos aforismos de hipócrates, pantagruel, em 1532, seguido, em 1534, por gargântua. le monde à l’envers, que aparece nas gravuras quinhentistas, ostenta a inversão física, ou qualitativa, e de status entre o homem, o animal, os elementos e os objectos, traduzindo-se na humanização dos animais, como a presa perseguindo o caçador; o céu no lugar da terra; entre diversas outras possibilidades de troca, que elucidam o absurdo das situações, mas também o perigo de se consentir insubordinações. progressivamente, a evolução da irreverência, as quebras de códigos morais e as duras críticas ao poder instituído, além de divertir, começaram a satirizar as inversões correntes, que se assemelhavam à perversão e formulação de ideais relativas a uma nova ordem social. ainda, no âmbito das produções do século xvi, cremos que a temática da macacaria, poderá ficar a dever-se às versões satíricas da poesia épica de iohannes placentius, que sob o pseudónimo de publius porcius editou, em liége, pugna porcorum, em 1530, recorrendo à ideia de transferência para o reino animal. neste caso específico, dos macacos, é particularmente interessante, por tudo o que invocam associado à imitação e arremedo. embora a intenção deste género de representação nos seja ainda desconhecida, é muito provável que o painel “macacaria” – acampamento de um exército junto a uma cidade fortificada (inv. 101-189) tenha sido produzido no contexto da guerra da restauração (1640-1668), possivelmente já depois da vitória das armas portuguesas, pelo que pretenderia satirizar o exército espanhol. assim sendo, não estamos aqui em presença de uma crítica social, como à primeira vista poderíamos pensar, pela 61 a este propósito ver: bergson, henri – le rire. essai sur la signification du comique. paris, 1950; tristan, f.; lever, m. – le monde à l’enver. hachette, paris, 1980; levine, lawrence – black culture and black consciousness. oxford university press, new york, 1993; costa, emília viotti da – crowns of glory, tears of blood: the demerara slave rebellion of 1823. oxford university, new york, 1994; macedo, josé rivair – riso, cultura e sociedade na idade média. edição universidade ufrgs, são paulo, 2000. 34 representação hierarquizada que inclui a figuração de elementos do clero, da nobreza e do próprio rei, mas antes uma sátira mordaz ao inimigo. trata-se de uma representação de um exército junto a uma cidade fortificada. a cena é protagonizada por macacos e felinos, dividindo-se a composição em “quadros” que permitem ter uma ampla visão de um acampamento militar. no canto inferior esquerdo destaca-se, no centro de figuras ocupadas nas mais variadas tarefas, um macaco de chapéu. em segundo plano e tendo a cidade por fundo, outro símio em trajo militar e armado de escudo, urina. um outro, despido e ornado com um tocado de plumas, encontra-se sentado em escada apoiada na torre da muralha, tocando flauta. ao centro, um macaco de trajo guerreiro e capacete emplumado, parece querer estrangular um felino que segura uma lança. no canto inferior direito, junto a uma bateria de canhões, um grupo de símios de que se destaca um que parece ser um dignitário militar e que aponta a cidade a um outro de trajo eclesiástico. superiormente, sentado defronte a uma tenda, está um macaco parecendo representar o rei. a seus pés, ajoelha-se um outro. a cena é completada por outros dois macacos que acompanham um felino. o painel é limitado por cercadura de óvulos alongados e cantos com rosetas de folhas de acanto. proveniente da quinta de santo antónio da cradiceira, turcifal, torres vedras, fazia parte de um conjunto que se dispersou por venda. segundo santos simões, estes azulejos foram arrancados em 1873 da quinta de santo antónio da cradiceira pelo exmo. sr. jaime batalha reis, que os recolheu, em caixotes, com o fim de os mandar restaurar e colocar na quinta da viscondessa, no turcifal, o que não chegou a acontecer62 . refere ainda, que a colecção era constituída, principalmente, por dois painéis de macacarias, respectivamente de 26x11 “macacaria” – casamento da galinha (mnaz inv. nº 400) e 18x11 “macacaria” – acampamento de um exército junto a uma cidade fortificada (inv. nº 101-189), incluindo a cercadura. além destes dois painéis maiores, havia outras composições que eram de silhares baixos (4 azulejos de alto) com cenas de pássaros e gatos, cenas mitológicas, de caçadas e também guarnições murais estreitas, com fábulas, etc. o investigador relata, que estes azulejos acabaram por ser vendidos ao antiquário engenheiro josé manuel leitão, sendo porém, um painel oferecido pelas proprietárias ao museu nacional de arte antiga, 62 santos simões (1971), tomo i, pp. 150-121. 35 encontrando-se, presentemente, no museu do azulejo (mnaz inv. nº400). cinco destes painéis estão, actualmente, no museu municipal de torres vedras63 . procedente da quinta de santo antónio da cradiceira, turcifal, torres vedras, e parecendo ter um sentido crítico, ainda que na forma de fábula, o painel felinos e par de caldeiras (inv. 101-188), em que dois felinos tentam alcançar um par de caldeiras preso nos ramos de uma árvore, apresenta também a densidade cromática e o contorno a manganês do desenho, características da azulejaria portuguesa da segunda metade do século xvii. com a mesma proveniência, o painel intitulado sereia e tritão (inv. 101-567), recentemente incorporado na colecção berardo, poderá ter sido um dos painéis que fazia parte, do referido conjunto, que se dispersou por venda. este último, parecendo, também, ter um sentido crítico, ainda que na forma de seres mitológicos, apresenta, igualmente, uma densidade cromática e o contorno a manganês do desenho, sendo que a policromia exacerbada poderá, decerto, anunciar o esgotamento desta solução pictórica. sendo os azulejos figurativos concebidos em sintonia com o espaço, sagrado ou civil, a que se destinavam, alguns deles, os que exibiam os chamados “grotescos”, tinham uma utilização um tanto ambígua, constituindo uma temática muito ao gosto do maneirismo europeu. ornamentos inequivocamente profanos eram, sobretudo, usados no revestimento de igrejas, em geral depurados dos seus elementos mais sensuais e sempre como envolvimento decorativo de temática religiosa. são exemplares os painéis da capela-mor da igreja do espírito santo de évora, de 1631, e os do nartex da ermida de santo amaro em lisboa, de cerca de 1670. em grande voga na europa desde a descoberta da domus aurea e divulgados por gravuras internacionais, como atrás referimos, estes motivos ornamentais ítalo- flamengos, também conhecidos em portugal como “brutescos”, foram, assim, transformados pela sensibilidade dos nossos pintores de azulejos, que lhes conferiram características próprias, expressas, sobretudo, na transposição para grandes escalas, tantas vezes requisito essencial a uma perfeita integração no espaço arquitectónico64 . na colecção berardo, este tipo de produção marca presença em dois painéis heráldicos “grotescos” e brasão (inv. 101-385 e inv. 101-386), forro interior de nichos em que 63 designadamente os exemplares com os seguintes números de inventário: mmlt. 001176; mmlt. 001177; mmlt. 001178; mmlt. 001179 e mmlt. 001180. 64 a este propósito ver: dacos, nicole – la découverte de la domus aurea et la formation des grotesques à la renaissance. the warburg institute, londres, 1969, pp. 78-99 e serrão, vítor; dacos, nicole – “des grotesques à la peinture de “brutesques”. in portugal et flandre, catálogo da exposição, bruxelas, 1991, pp. 41-53. 36 um brasão, encimado por paquife e ladeado por dois anjos tenentes, ocupa a parte superior da composição, preenchendo os “grotescos” a secção inferior. segundo joão pedro monteiro são provenientes de um palácio da palhavã, em lisboa, e estavam aplicados no jardim sobre o mesmo brasão de “armas”, ao que se julga saber, do fidalgo diogo botelho chacão, que se encontrava pintado na parede65 . desenvolvendo-se a partir de uma genealogia de motivos decorativos com pontos de contacto com os “grotescos”, ou pelo menos com a maneira como estes foram, a maior parte das vezes, entendidos no nosso país – veja-se os exemplos referidos em cima, ou ainda da igreja paroquial de nossa senhora da purificação, em bucelas, e da igreja paroquial de s. mamede em évora – surgem na nossa azulejaria composições como o silhar com heráldica da ordem beneditina (inv. 101-390). trata-se de uma peça de grande interesse com enrolamentos de folhagem de acanto sustidos por serafins, agindo como tenentes. estes ladeiam cartelas circulares de ferronerie em cujas reservas se encontram símbolos do poder temporal (coroa imperial), religioso (tiara papal e mitra, ambas associadas a báculos), e a heráldica da ordem de são bento (leão rompante afrontando báculo e, em segundo plano, torre cilíndrica coberta por cúpula sob a qual se encontra uma estrela). pelos enrolamentos de acanto é próxima do conjunto conhecido como da “sala da caça”, do museu nacional do azulejo, proveniente do palácio da praia em lisboa, e dos invulgares frontais de altar da igreja matriz do salvador, aljustrel, com que tem ainda em comum o mesmo tipo de serafins. exibem todos, o verde malaquite próprio desta fase de produção, em que, na década de setenta do século xvii, se tentou renovar pela exuberância da cor, as soluções policromas até então usadas, e denotam um mesmo entendimento da composição que podem apontar para um fabrico comum. é provável que o par de painéis atlante (inv. 101-190 e inv. 101-191), que sustêm vasos floridos, possam ter estado colocados no mesmo local do silhar com heráldica da ordem beneditina (inv. 101-390), que desconhecemos qual tenha sido, preenchendo entreportas e dispostos simetricamente. a ser assim, e dado ter sido, seguramente, um espaço religioso, é de considerar que estes vasos não sejam meramente decorativos e possam ter um sentido simbólico, à semelhança de outros coevos que representavam a virtude da esperança66 . santos simões, na sua obra dedicada ao século xvii, refere os 65 joão pedro monteiro (2006), p. 42. 66 ver a este respeito: monteiro, joão pedro – “os vasos floridos do convento de nossa senhora da esperança em lisboa”. in azulejo, nº1, museu nacional do azulejo, lisboa, 1991, pp. 33-43. 37 painéis patentes na igreja do antigo convento de santo antónio, em viseu, mostrando, na estampa x, uma fotografia com um par de atlantes idênticos a estes67 . com um novo fôlego na segunda metade de seiscentos, os “grotescos” continuam a acompanhar o processo de alteração do gosto, desta vez assinalado pela pintura a azul com contorno a manganês, cujo exemplo paradigmático é, logo na década de setenta, o já referido conjunto do palácio fronteira. entroncando na mesma matriz decorativa do anterior, o silhar de “grotescos” (inv. 101-192), emoldurado por cercadura de finos enrolamentos de acanto com perfil de corações invertidos, assinala na colecção berardo esta transição. no presente exemplar, a composição dispõe-se simetricamente a partir de um centro constituído por vaso de flores e frutos assente em suporte onde se apoiam, ladeando-o, duas aves. estas afrontam par de serafins segurando fio com duas contas, unido, junto ao remate inferior do vaso, por um rosto de fauno. os serafins estão sentados sobre exuberante composição de enrolamentos de acanto os quais circunscrevem três pares destas figuras. as mais próximas do eixo central tocam trombetas com pendão; os seguintes procuram agarrá-los e os últimos tocam um instrumento musical idiofone de percussão, conhecido por “triângulo”. sobre o suporte onde estes se encontram, um cão brinca com um pendão. este silhar datado do último quartel do século xvii marca, também, aqui a passagem da policromia para a exclusividade do azul e branco, que caracterizou a produção portuguesa da primeira metade de setecentos. 4. primeira metade do século xviii a encomenda de diversos painéis holandeses com temas mitológicos, feita pelo marquês de fronteira, para o seu palácio em são domingos de benfica, por volta de 1670, promove um autêntico fenómeno de “moda”, que irá persistir até meados do século seguinte. tentando competir com uma concorrência de alta qualidade, as oficinas portuguesas vão responder com uma produção de artistas qualificados, e de formação segura na pintura a óleo. recomeçando a assinar as suas obras serão, estes, responsáveis pela afirmação do gosto barroco na azulejaria nacional. no decorrer do período, a que 67 santos simões (1971), tomo ii, pp. 56-57. 38 hoje, os historiadores designam por “ciclo dos mestres”, avultam os nomes do espanhol gabriel del barco, na última década do século xvii; manuel dos santos, antónio pereira, o monogramista p.m.p. e antónio de oliveira bernardes, no primeiro quartel do século xviii; e o filho policarpo de oliveira bernardes até 1740. esgotadas que estavam as incessantemente repetidas soluções policromas do século xvii, este novo ciclo evolutivo da azulejaria portuguesa caracteriza-se, antes de mais, pela pintura puramente a azul, solução que se afirma a partir da última década de seiscentos. simplificando os processos de produção, é incontestável que esta inovação se relaciona com o prestígio de que a cor azul gozava, pela sua associação com a cotada e prestigiada porcelana chinesa – a qual os portugueses foram os primeiros a transportar para a europa em grandiosas quantidades – e, ainda, pelo facto de ser dominante na produção holandesa com que se pretendia pleitear. ocorrendo numa época de grande renovação decorativa das igrejas e palácios, o azulejo nacional vai conhecer uma demanda crescente, retorquindo com sucesso às encomendas de uma sociedade com renovadas necessidades de representação. impondo a sua presença em composições monumentais, de exemplar integração arquitectónica, de tal forma impositivas que estão na origem da falsa teoria que o termo azulejo deriva de azul, o trabalho dos nossos “mestres” deixou de lado os painéis holandeses, cuja pintura demasiado fiel à fonte gravada, era para a nossa sensibilidade, considerada “fria”, conduzindo a um desinteresse gradual, da mais exigente e requintada clientela nacional, por essa produção. felizmente, uma parte considerável das composições concebidas pelos mestres do primeiro quartel do século, programas iconográficos alargados que, nos espaços religiosos, narram a vida de cristo, da virgem maria ou dos santos, subsistem nos edifícios para os quais foram concebidos, em revestimentos por vezes totais, que chegam a cobrir as paredes e se prolongam por abóbadas e cúpulas. um dos motivos utilizado ao longo do primeiro quartel do século xviii, foi a “albarrada”, usado sobretudo no revestimento de espaços conventuais, tendo a sua produção coexistido com a dos painéis narrativos pintados pelos artistas mais qualificados. este motivo chegou ao nosso azulejo no decorrer de seiscentos, onde foi, como referimos a propósito do par de painéis atlante (inv. 101-190 e inv. 101-191), algumas vezes utilizado, com uma intenção simbólica. no século xviii a “albarrada” vulgarizou-se, perdendo o valor de símbolo, passando a ser usada em série, aplicada em alternância com outros motivos. é o caso 39 dos golfinhos afrontados, um dos elementos mais frequentes, mas também um dos mais eficazes do ponto de vista decorativo. os que surgem ladeando o vaso florido da albarrada (inv. 101-194), com as caudas entrelaçadas com os festões pendentes do bojo, conferem à composição ritmos sinuosos – reforçados pela densidade dos enrolamentos de acanto da barra – próprios à exuberância da nossa azulejaria barroca. a julgar pelo par deste painel, presente na colecção berardo – albarrada (inv. 101-91), idêntico ao do museu nacional do azulejo (mnaz inv. n.º 7204, estando contudo desprovido de cercadura), os quais apresentam, ladeando os golfinhos e os enrolamentos de acanto, outros dois vasos floridos assentes em socos, esta albarrada deveria ter sido parte de um silhar de “albarradas”, tanto que apresenta elementos de ligação interrompidos, nomeadamente, no festão, na base onde assentam os golfinhos. na vastidão de exemplares que, na presente colecção, patenteiam este motivo, destacamos o painel de azulejos albarrada com cercadura policroma (inv. 101-193), por se tratar de uma composição híbrida resultante do emolduramento de um painel de “albarrada” do século xviii, por uma barra de azulejos do primeiro quartel da centúria anterior. sem qualquer elemento decorativo a ladeá-lo, o vaso tem, no entanto, a particularidade de exibir o motivo de “escamas”, veiculado pela porcelana da china, sendo idêntico ao vaso que figura noutra albarrada (inv. 101-96), também presente neste espólio, e possivelmente com a mesma proveniência. originário da quinta de são josé em sacavém, concelho de loures, lisboa, esta quinta, de origem seiscentista foi foreira dos duques de bragança. o palacete, que data dos finais do século xvii ou inícios do século xviii, foi comprado, já no século xix, pelo primeiro barão de pomarinho (estevão da costa pimenta de sousa menezes), tendo sido adquirido, em 1940, pelo engenheiro josé manuel leitão. a produção que se destinava a revestir e ornamentar palácios, embora possa surgir também em igrejas e conventos, recorre maioritariamente a estereótipos, autênticas “(…) histórias sem história.”68 , galantes, bucólicas e marítimas, representando gestos quotidianos, ou cenas de caça, mitológicas e guerreiras, tipo de composição inteiramente devedora de fontes gravadas, as quais os pintores dispunham em abundância, usando-as de acordo com as exigências da encomenda e do espaço a preencher. assim, como acontece no silhar cena bucólica (inv. 101-204), não poucas vezes, surgia no meio da composição uma árvore, podendo demarcar as cenas 68 joão castel-branco pereira (1995), p.49. 40 representadas que, por vezes, exibiam temáticas diferentes – veja-se, a título de exemplo, a cena marítima e campestre (mnaz inv. nº. 709) do museu nacional do azulejo – ou, tão somente, com o intuito de alongar o comprimento do painel, de modo a ajustá-lo ao espaço arquitectónico a que se designava. de facto, como refere luísa arruda, os pintores de grande qualidade vindos de uma formação cuidada e academizante, que trabalharam nas oficinas lisboetas no início de setecentos, “(…) transformam totalmente a azulejaria portuguesa, emprestando-lhe uma dignidade artística e ao mesmo tempo um carácter experimental que lhe permite integrar nas imagens dos painéis de azulejos, os estilos artísticos do barroco e rococó, ideias e influências diversas, mantendo-se sempre o sentido de unidade e capacidade de integração na arquitectura que caracterizam a azulejaria portuguesa.”69 . os três painéis das alegorias aos sentidos, visão (inv. 101-99), paladar (inv. 101-100) e audição (inv. 101-101), datáveis do início do século xviii e atribuídas ao monogramista p.m.p., demonstram a influência dos mestres de pintura na azulejaria, pela qualidade das paisagens e figuração das alegorias. estamos em crer que estes exemplares, de temática cara ao barroco, e muito utilizada pelos holandeses – os cinco sentidos –, decoravam provavelmente um salão, ou até mesmo um átrio, de um palácio ou casa nobre, em lisboa. recorrendo às palavras de santos simões, encontramos referência à presença, no quarto de cama da casa dos viscondes de ribamar, rua do poço dos negros, n. 134, de “(…) cinco magníficas figuras de damas, ricamente vestidas, representando os cinco sentidos. um dos painéis (a vista) está alterado.”70 , que acreditamos tratar-se destes exemplares. o mesmo investigador relata, ainda, em nota de rodapé, que “segundo informação fornecida em março de 1976 pela viscondessa de ribamar, parte dos azulejos foram retirados pelos proprietários e encontram-se encaixotados.”71 . assim como refere santos simões, o painel que representa a visão é de dimensões inferiores aos restantes presentes na colecção berardo, apresentando-se a cena central cortada aos lados, sendo esta evidência notada pelo corte existente, numa das extremidades do telescópico, no lado esquerdo do observador, e pelo surgimento de uma mão segurando uma lança, no lado direito do observador. 69 luísa arruda (2003), pp. 57-58. 70 santos simões (1979), p. 284. 71 santos simões (1979), p. 284. 41 numa análise mais cuidada aos painéis relativos aos sentidos do paladar e da audição, apuramos que os mesmos se encontram truncados, sendo que a cercadura de ambos, patenteando anjos nos cantos com cartela dividida, se interligariam, apresentando, por sua vez, uma cartela idêntica à que encima o painel alusivo à visão. constata-se, ainda, que no paladar, a paisagem que surge por detrás da mesa, no lado direito do observador, se interligaria com a que surge à esquerda do observador, no exemplar alusivo à audição, formando um painel, deveras, monumental72 . a cena galante e bucólica (inv. 101-196), produzida, ainda, no primeiro quartel de setecentos, lembra, também, pelo tipo de personagem representado e pela moldura de barra de enrolamentos divergentes de folhas de acanto, o trabalho do monogramista p.m.p.. embora, autor de menor erudição se comparado com os outros pintores do primeiro quartel do século, cuja identidade é até hoje desconhecida, fez, de algum modo, a transição entre o “ciclo dos mestres” e o período seguinte, o da chamada “grande produção”, que se estende pelo segundo quartel, com um trabalho, particularmente, baseado no recurso a imagens estereotipadas. nessa época, o azulejo deixa de possuir, na sua grande maioria, as características individualizadas que nos permitem, no período anterior, fazer corresponder uma obra a um autor. a “grande produção” fica, assim, marcada pela procura crescente de revestimentos cerâmicos como elemento privilegiado de decoração – num mercado que progressivamente se alarga ao brasil –, acarretando a um crescimento do fabrico e à proliferação de artistas, em geral anónimos, que, não obstante, tinham absorvido boa parte dos ensinamentos dos mestres. todavia, é possível, referir o nome de alguns pintores de melhor formação como nicolau de freitas e valentim de almeida. ao longo do período dos “mestres”, e da “grande produção”, a figuração segue duas vias temáticas bem distintas, correspondentes a dois grandes encomendadores: a igreja e a nobreza. a primeira, adoptando o desenvolvimento lógico das composições, que encomendara na centúria anterior, vai requerer a produção de programas iconográficos prorrogados, narrando a vida de cristo, da virgem maria ou dos santos. assim, nos revestimentos interiores de igrejas e conventos continuaremos a encontrar figuração religiosa em azulejos, associada, maioritariamente, a pintura a óleo, escultura e talha dourada, em conjuntos de grande impacto visual, que actuavam sobre os sentidos, cativando os fiéis a quem se destinavam as mensagens veiculadas. a muitos 72 anexo i – reconstituição do painel com alegoria aos sentidos paladar e audição. 42 templos, pertencentes a períodos anteriores ou construídos ainda segundo austeros cânones maneiristas, foi, deste modo, conferida uma dimensão barroca, sintonizada com o novo gosto europeu. o conjunto de painéis proveniente da capela da quinta do relógio, arrentela, seixal, constitui um programa iconográfico coerente. representando, respectivamente, a celebração da primeira páscoa (inv. 101-198), o milagre da multiplicação do pão (inv. 101-199), as bodas de canaã (inv. 101-200), e a última ceia (inv. 101-201), o sentido unitário dos painéis parece ser eucarístico. aparentemente incongruente, em relação ao conjunto, o painel que patenteia a celebração da primeira páscoa – o único relativo a uma cena do antigo testamento – pode, pelo contrário, ser a “chave” para um entendimento iconológico global. trata-se, como referimos, da celebração da primeira páscoa, a qual teve lugar por ocasião das “dez pragas do egipto”. deus ordena que os israelitas se preparem para partir, sacrificando o cordeiro pascal, comendo-o sem lhe quebrar os ossos, de pé e com um bastão na mão como se fossem de viagem. será com o sangue sagrado deste cordeiro, prefiguração de cristo, que se desenhará, em cada casa, o símbolo protector contra a décima praga, a morte de todos os primogénitos egípcios. assim, todo o conjunto remete para a ideia da missa enquanto alimento espiritual, redentor dos pecados, traduzido simbolicamente pelo sacrifício de cristo, e materialmente nos alimentos ofertados (pão-carne, vinho-sangue). nos plintos em que assentam dois dos painéis figuram cartelas contendo, respectivamente, um feixe de trigo na celebração da primeira páscoa e uma jarra no milagre da multiplicação do pão, elementos que reforçam o simbolismo eucarístico do conjunto, visto evocarem os “alimentos” litúrgicos, o pão e o vinho. ao mesmo núcleo de origem pertencia a porta, com crucificação e ermita (inv. 101-202), que sabemos, pela descrição de santos simões, ter estado colocada “(…) espelhando a da pequena sacristia (…)”73 . se ao longo da primeira metade do século xviii, várias foram as igrejas que receberam revestimentos azulejares em trompe l’oeil, que tinham como principal função animar as arquitecturas, simulando portas ou nichos inexistentes, estamos em crer, que no caso presente, a função simbólica sobrepõe-se à preocupação de simular a realidade. assim, esta “porta” apresenta duas cenas diferentes, uma crucificação com maria madalena no plano superior, e um eremita em oração no plano inferior, que podem também indiciar a função da porta que se pretendia 73 santos simões (1979), p. 375. 43 representar. apesar de sabermos pelas palavras de santos simões, que se encontrava defronte da sacristia, facto é, que a reserva pintada entre as duas cenas delimita uma retícula simulando um gradeamento vazado, com pintura a manganês, procurando imitar o de madeira, próprio dos confessionários. se a morte de cristo na cruz consentiu a redenção dos pecados, é através do arrependimento – que a presença de maria madalena vem lembrar – manifesto na confissão e oração, que esta pode ser alcançada. é essa a porta que é necessário transpor para alcançar a eternidade, e é, muito provavelmente, essa passagem que neste painel se pretendia representar. segundo santos simões, a figuração deste conjunto foi inspirada em gravuras, denunciando, o tipo de pintura azul, tratar-se de um trabalho oficinal74 . o sangue derramado por cristo é também redentor das almas do purgatório, e é essa concepção que se afigura no painel crucificação e alminha (inv. 101-203). aqui se apresenta um calvário, estando na base da cruz uma figura orante envolta em chamas. da boca desta figura, típica dos pequenos painéis de azulejos conhecidos como “alminhas”75 , sai uma filactera com a legenda “laivaime srº. com este persiozo sangue”, a qual, se dúvidas houvesse, é modelarmente elucidativa do sentido da cena. uma figuração de eremitas pode, ainda, ser encontrada no painel eremita e paisagem (inv. 101-214), destacando-se a figura de um deles, barbado e descalço, de uma paisagem de um lago ou de um rio, onde outros, capuchos, pescam. painéis deste tipo eram, muitas vezes, aplicados em espaços de clausura de conventos, masculinos e femininos, com a função de relembrar a abdicação à vida profana. este desígnio torna- se mais perceptível quando despontam associados a representações terrenas, como sejam, caçadas e cenas galantes, situação que podemos ver exemplificada no claustro do antigo convento da madre de deus, em lisboa. quando irrompe em espaços religiosos de livre acesso, esta associação de representações, tende chamar a atenção do comum dos fiéis para a possibilidade de dois modos de vida antagónicos. constituindo um programa iconográfico mariano, em que, para além de uma representação de uma imaculada conceição (inv. 101-207), se narram episódios da vida da virgem: apresentação da virgem no templo (inv. 101-208), casamento de josé e maria (inv. 101-209), anunciação (inv. 101-210), visitação (inv. 101-211) e adoração 74 santos simões (1979), p. 375. 75 as “alminhas” são, geralmente, pequenos nichos colocados junto às estradas, comummente nos cruzamentos, para protecção dos caminhantes. incorporando decorações, que rapidamente recorreram ao azulejo, são frequentes as representações sobre o purgatório, bem como, as de santos. 44 dos pastores (inv. 101-212), são os painéis provenientes do oratório de uma casa no largo do gadanha, em estremoz. ao elaborar o inventário artístico do distrito de évora, túlio espanca contactou com os painéis, ainda, in situ, “(…) no oratório, iluminado por gelosias e de tecto fortemente pintado a óleo, com festonadas, vieiras e volutas com enrolamento. os cartões cerâmicos são figurados por cenas marianas, a n.ª s.ª da conceição, casamento da virgem, anunciação, visitação de santa isabel, apresentação no templo e outras de difícil leituras momentânea, pelo facto da capela se encontrar desafectada e cheia de móveis utilitários.”76 . as dimensões que ostentam permitem entender a sua relação espacial em termos de colocação, no revestimento de uma capela ou igreja. assim, com a excepção da representação de nossa senhora da ascensão e da adoração dos pastores, apresentam todos, medidas idênticas, sugerindo uma colocação frontal entre si. o painel final, que de algum modo constitui a síntese narrativa – a adoração dos pastores – estaria colocado frontalmente para o espectador e daí o facto de ser o de maior dimensão. neste contexto, e observando os aspectos formais do conjunto, estamos em crer, que este último painel, como elemento final do programa iconográfico mariano, devesse assentar sobre um silhar. analisando, o espólio da colecção berardo, encontramos um silhar representando um plinto, em trompe l’oeil (inv. 101-213) e um par de enxalços (inv. 101-365 e inv. 101-366), todos provenientes do mesmo local, mas entretanto separados, que acreditamos fazer parte do painel em questão, acentuando deste modo o sentido de monumentalidade e destaque que a própria obra merece77 . uma das mais originais produções do azulejo português do século xviii são as chamadas “figuras de convite”, as quais se colocavam nas entradas dos palácios, nos patamares das escadas e também em jardins, confrontando o espectador, recebendo-o e fazendo-lhe guarda de honra, indicando-lhe o percurso com um gesto de mão ou interpelando-o através de uma legenda. em geral representavam criados, assim como guerreiros, tanto coevos como uniformizados “à antiga”, armados com alabardas, espadas, lanças ou armas de fogo. segundo luísa arruda o carácter do gosto nacional afirmar-se-ia com esta tipologia: “(…) na originalidade do tema e no material que suporta a sua realização 76 túlio espanca (1975), p. 211. 77 anexo ii – reconstituição do painel adoração dos pastores, com os enxalços e silhar representando um plinto, em trompe l’oeil. 45 pictórica, o azulejo. no entanto, estas figuras e a sua articulação com o espaço arquitectónico, integram temas caros ao barroco: as figuras recortadas, em escala natural, colocadas preferencialmente nas entradas dos palácios criam efeitos de surpresa, trompe l’oeil e teatralidade, enquanto que o brilho e a textura dos azulejos jogam com valores de superfície apelando para os sentidos.”78 . a figura de convite “alabardeiro” (inv. 101-110), delineada sobre um fundo arquitectónico em trompe l’oeil, embora, trajando à soldado romano, apresenta já, uma certa graciosidade. conforme relembra luísa arruda, “(…) os drapeados, as ondulações, a decoração das indumentárias militares acompanham atitudes de «salão», gestualidades que sugerem formules de politesse, afastando a rudeza e as atitudes agressivas para os campos de manobra (apesar de aí mesmo, (…) a teatralidade das manobras militares depender tanto dos efeitos dos trajes como das «divertidíssimas marchas»).”. referindo, ainda, que “esta iconografia reporta-se, (…) a indumentárias militares mais ou menos fantasiadas, que derivam de colecções de gravuras, de guarda-roupa para bals masqués, para teatro e ópera.”79 . proveniente da quinta da granja, em benfica, este painel, assim como, a generalidade das “figuras de convite”80 , eram “(…) presenças notáveis nos espaços de entrada e recepção dos palácios e casas nobres portuguesas, representando os rituais de etiqueta da época, a necessidade de animação teatral dos espaços das habitações pela presença de um actor pintado que dialoga com os visitantes. este, (…) lembra outras figuras ainda in situ, como as da escadaria da fundação ricardo espírito santo em lisboa.”81 . inspirada na gravura de clemente bilingue, ilustração de lei e pragmática de d. pedro ii (lisboa, 1689), a figura de convite “porteiro” (inv. 101-197), apresenta o traje que se aproxima da pragmática, nomeadamente: a casaca (vestea), os calções enrolados, meias compridas e sapatos de tacão e fivela, e a cabeleira comprida. esboçando uma vénia e segurando, na mão esquerda, um chapéu, podemo-la comparar à pose da figura de convite do corpo santo de setúbal e às quatro da universidade de évora, sobre a qual luísa arruda esclarece “(…) foram desenhadas de modo a 78 arruda, luísa d´orey capucho – “figuras de convite”. in dicionário da arte barroca em portugal, direcção de josé paulo fernandes pereira e coordenação de paulo pereira, editorial presença, lisboa, 1989, p. 192. 79 arruda, luísa d´orey capucho – azulejaria barroca portuguesa: figuras de convite. edições inapa, lisboa, 1993, pp. 65-66. 80 refira-se que a colecção berardo possui cinco exemplares de “figuras de convite”, uma quantidade significativa quando comparada, por exemplo, ao museu nacional do azulejo, que detém apenas dois exemplares. 81 luísa arruda (2003), p. 58. 46 representarem uma atitude de discreta e elegante subserviência. a indumentária com que se apresentam revela algum aparato mas não tem características militares. a atitude com que estas figuras foram representadas, olhando o espectador e recebendo os visitantes de chapéu na mão – a do corpo santo nitidamente fazendo uma “vénia”, (…) – não parece ser a apropriada à grande nobreza que, aliás, nunca aparecia em público sem arma, símbolo da sua condição de suporte militar da monarquia.”82 . quanto às “figuras de convite” femininas são bastante raras, destacando-se, entre as poucas conhecidas, a presente na colecção do museu nacional do azulejo (mnaz inv. n.º6114), certamente contemporânea à que figura na colecção berardo83 . durante a segunda metade de setecentos continuaram a produzir-se exemplares desta tipologia, adquirindo, contudo, a forma de figuras exóticas com indumentárias extra europeias. é, precisamente, em “figuras de convite”, colocadas no paço dos arcebispos em santo antão do tojal, loures, cerca de 1730, que surge na pintura de parte dos seus uniformes, simulando bordados a ouro, a cor amarela, dando assim início a um regresso a soluções policromas. é o chamado "regresso à cor", fase de transição entre o azulejo azul da primeira metade do século xviii e o policromo que se imporá na segunda. pertencentes ao intitulado “regresso à cor”, na colecção berardo, são os painéis eleita como sol (inv. 101-205) e formosa como a lua (inv. 101-206), ambos recortados, destacam-se pela sua monumentalidade e sentido cenográfico. fazendo parte de um conjunto, que se conhece mais um exemplar, neles figuram, dentro de cartela ladeada por dois anjos, emblemas marianos alusivos às litanias ou ladainhas da virgem. cada um dos emblemas é constituído por legenda em latim electa ut sol (eleita como sol) e pulcra ut luna (formosa como a lua), encimando respectivamente um sol e uma lua – onde simultaneamente com as flores aplicadas nos cruzamentos de uma grelha, encerrada na base arquitectónica, que ambiciona reproduzir gradeamentos em bronze, assoma a pintura a amarelo – sendo o restante espaço preenchido por paisagens. o tema aqui expresso é, como referimos, o das litanias da virgem, orações colectivas baseadas no cântico dos cânticos, compostas por uma parte mutável, que pode ser rezada por quem preside a uma cerimónia religiosa, e uma parte fixa, repetida em coro pelo conjunto de fiéis. nestas ladainhas a parte variável é sempre um dos atributos simbólicos de nossa senhora, como eleita como sol, formosa como a lua, ou estrela do 82 luísa arruda (1993), p. 35 e 38. 83 anexo iii – figura de convite feminina (inv. 101-388). 47 mar (inscrição em versão latina presente no painel que originalmente fez conjunto com estes dois), a que se seguia uma súplica como ora pro nobis (rogai por nós). se a simplicidade dos emblemas e paisagens compreendidos nas cartelas destoam com a monumentalidade das cercaduras e bases arquitectónicas, todos convergem para sublinhar a teatralidade do conjunto. efectivamente, se estas últimas agiam como poderosos dinamizadores da arquitectura em que se inseriam, dando a noção de volumetrias inexistentes, também a paisagem que complementa o emblema funcionava como mero suporte cenográfico, visto que a dimensão da moldura requeria uma cartela contendo um espaço, que lhe fosse proporcional, e que o emblema, só por si, dificilmente preencheria sem afectar a harmonia do conjunto. jay levenson referindo-se a este conjunto, integralmente apresentado, na exposição intitulada the age of the baroque in portugal, na national gallery of art, washington, em 1993, aponta como possível autoria, a oficina de nicolau freitas: “these three silhoutted tile panells decipt the theme of the litany of the virgin. the same subject was rendered in tile panels in the ermida de porto salvo (oeiras), portugal, by the tile painter bartolomeu antunes (1685-1753). in the early 1730s, the first signs of a reappearance of polychrome in tile manufacturing became apparent with the use of yellow. these panels may possibly be attributed to the workshop of nicolau de freitas (1703-1765). this artist was a disciple of antónio de oliveira bernardes between 1720 and 1724. in 1726, nicolau reappeared as painter attached to the irmandade de são lucas in lisbon.”84 . 5. segunda metade do século xviii em meados do século xviii o gosto da sociedade portuguesa altera-se com a adopção de uma gramática decorativa influenciada pelo estilo regência francês, mas sobretudo pelo rocócó, através de gravuras provenientes da europa central. insinuam- se formas, orgânicas e assimétricas, com concheados irregulares, exemplo típico, e folhagens desenhando molduras de recortes complexos nos painéis de azulejos. os efeitos decorativos são alcançados pelo emprego de tons contrastantes de azul, e depois pelo uso de exuberante policromia. 84 jay a. levenson (1993), p. 214. 48 a afirmação deste novo estilo internacional, o rococó, cujo vocabulário decorativo está estabelecido, no azulejo português, por volta de 1745-1755, vai manter- se até cerca de 1780-1790. paralelamente ao prolongamento do painel joanino tradicional, que apenas adoptou elementos deste estilo, sem assimilação dos mesmos, produzem-se grandes silhares com composições de ornatos, para serviço de uma sociedade de corte. por outro lado, tal como em finais do século xvii se assistiu a um “esgotamento” da policromia que conduziu a que o azulejo fosse exclusivamente de pintura a azul, também em meados do século xviii, se processou, como se fez referência, uma nova alteração, mas agora de sentido inverso: após a introdução de pequenos apontamentos a amarelo, a cor regressa definitivamente, passando as cenas centrais dos painéis a ser pintadas a azul (o mais frequente), ou manganês, e as molduras a serem policromas – em verde, manganês, amarelo e azul. constituídas por concheados de diferentes volumetrias e folhas sinuosas, é sobretudo neste elemento que se denota a presença das novas soluções estéticas. a temática permanece, contudo, inalterável. a título de exemplo, as cenas ribeirinhas dos silhares, cenas marítimas (inv. 101-232 e inv. 101-233) e do painel paisagem portuária (inv. 101-234), são do mesmo tipo de outras, que ao longo da primeira metade do século figuraram, assiduamente, nos palácios da nobreza, e tão devedoras quanto elas de fontes gravadas. estas, são aliás recorrentes, sendo frequente encontrar uma mesma gravura na origem de painéis pintados com várias décadas de intervalo, havendo uma enorme liberdade na composição dessas cenas85 . o silhar representando a cena marítima (inv. 101-233), de temática idêntica à do anterior, apresenta, tal como o painel de azulejos paisagem portuária (inv. 101- 234), a particularidade da cena central ser pintada a manganês, solução muito menos frequente que a pintura a azul e, talvez por isso, considerada de maior requinte. não por acaso, são deste tipo, os painéis que constituem o revestimento parietal do canal existente nos jardins do palácio nacional de queluz. 85 conforme: câmara, maria alexandra trindade gago da – “a arte de bem viver”, a encenação do quotidiano na azulejaria portuguesa da segunda metade de setecentos. edição fundação calouste gulbenkian e fundação para a ciência e a tecnologia, porto, 2005, p. 297, “os gravadores mais representativos foram: adam perelle, jean baptiste huet, joannes visscher (e a reconstituição da pintura de paisagem holandesa, também a influência dos água-fortistas venezianos setecentistas), sebastian le clec, jacques callot, jean-baptiste pater, jean baptiste, nicolas e robert bonnard, edmé bouchardon respectivamente sobre música, dança e traje. na linha de jean pillement, com mais incidência no aspecto decorativo, vejam-se os trabalhos de: claude iii audran, bruno pons, e as gravuras de jean le pautre, jacques androuet ducerceau, rosso, zoan andréa, cornelis bos, richard de la londe, cornelis floris, jacques de la joüe, pierre edmé babel, jacques françois blondel, françois de cuvilliés, huet (jean-baptiste e christophe) e nicolas pineau.”. 49 já a cena de caça (inv. 101-392), de meados do século, é ainda de pintura integralmente a azul, podendo ser um dos primeiros exemplares do novo estilo, e exibe, por sua vez, uma das temáticas com maior número de representações na primeira metade da centúria. as caçadas persistem como modelo nas mais variadas áreas decorativas: tecidos, estuques, tapeçarias, cerâmica e azulejos. entre as fontes mais importantes, aparecem as gravuras de antónio tempesta (1555-1630), em circulação até cerca de 1750 e utilizadas durante aproximadamente duzentos anos. no trio de silhares heráldica da família sá (inv. 101-118; inv. 101-223 e inv. 101- 224) é ainda mais evidente a transição do gosto, patente não só na coexistência de elementos decorativos barrocos e rococó, como no contraste dos dois tons de azul empregues – fundamental no evidenciar do motivo heráldico representado – que aqui como que prenuncia a policromia. definidos por moldura simétrica de concheados, da qual pende superiormente uma cartela, em cuja reserva se encontra definido o brasão enxadrezado da família sá. esta moldura circunscreve composições contrastantes de aguadas ténues, de ferroneries envoltas em folhagens de acanto, criando uma reserva ovalada onde figura uma cena campestre, tendo em primeiro plano um camponês acompanhado de um cão e nos planos secundários um barco com pescadores num rio, casas e uma torre86 . tudo indica que estes painéis sejam provenientes do palácio dos marqueses de abrantes, em marvila, havendo uma referência do vendedor sobre a sua proveniência. também o painel visitação (inv. 101-228), – silhar de remate superior recortado, figurando um plinto de feição arquitectónica em trompe l’oeil sobre o qual assenta uma moldura simétrica de concheados, tendencialmente triangular, criando duas reservas, na inferior a representação da visitação inserida numa paisagem tendo, da esquerda para a direita, o burro, s. josé sobre as escadas de um edifício, e a virgem com auréola radiante, grávida, abraçando isabel –, é de pintura integralmente a azul, embora a sua moldura indicie que foi já produzido no terceiro quartel da centúria, de gosto rococó. os painéis de azulejo, intitulados, alexandre combatendo os persas junto ao rio granico (inv. 101-230) e a família de dario cativa perante alexandre (inv. 101-231), representando episódios das conquistas de alexandre na ásia menor, são do tipo de 86 a heráldica da família sá é composta por axadrezado de prata e azul, aqui representada pelo branco do azulejo e o azul da pintura. a mesma composição figura nas armas dos marqueses e duques de abrantes, devido ao título nobiliárquico criado por d. josé v de portugal, por decreto de 24 de junho de 1718, a favor de d. rodrigo de sá almeida e meneses (1676 – 1733), filho de d. francisco de sá e meneses, 1º marquês de fontes e 4ºconde de penaguião. 50 composições que, recorrentemente, eram encomendadas pela nobreza para os seus palácios. estes dois painéis pertenciam a um conjunto de que se conhece pelo menos mais um exemplar (museu nacional do azulejo, mnaz inv. nº. 6392), concebidos a partir de uma série de gravuras de i. audran, por sua vez, inspiradas em quadros de charles le brun, as quais foram usadas em diferentes épocas e de modo diferente pelos nossos pintores de azulejos. a prová-lo está um painel do segundo quartel do século, representando, tal como o painel alexandre combatendo os persas junto ao rio granico, a batalha do rio granico (mnaz inv. nº. 680). quanto ao exemplar a família de dario cativa perante alexandre (inv. 101- 231), nele se representa a família de dario aprisionada por alexandre após a derrota do rei dos persas na batalha de isso. as cenas gloriosas protagonizadas por alexandre da macedónia, poderoso governante da antiguidade clássica, que podia constituir modelo imperial ou par do magnífico rei de portugal, d. joão v, alcançaram grande sucesso neste período. conhecem-se várias representações em painéis de azulejo que tomam como matriz as gravuras reproduzindo os quadros da colecção do rei de frança, luís xiv, da autoria de charles le brun. contudo, a obra de pintura, da qual desconhecemos uma possível reprodução em gravura, que originou esta composição, não é de charles le brun, mas sim de um dos seus distintos discípulos, charles la fosse, intitulada la famille de darius aux pieds d’alexandre87 . comparando com a obra de pintura, destaca-se a liberdade engenhosa com que o pintor de azulejos se serviu da fonte, dela retirando o essencial para dar o ambiente à cena central, modificando algumas personagens, evidenciando-se o acrescento de elementos da natureza, árvore e arbusto de folhas frondosas, à direita do observador, de modo a preencher o painel de azulejos que, por imposições da dimensão da parede, poderia ter uma proporção muito diferente da gravura em que se inspirava. uma das mais interessantes manifestações da azulejaria rococó, com continuidade no período seguinte, o neoclássico, são os “registos”, “(…) pequenos painéis devocionais que tanto se popularizaram no século xviii e que, por semelhança com as estampas (…)”88 passaram assim a ser denominados em portugal. segundo santos simões “o «registo» aparece isolado da decoração e é, na maioria dos casos, um tipo especial de ex-voto, encomendado com intenções piedosas. ainda que estes 87 anexo iv – la famille de darius aux pieds d’alexandre. 88 santos simões (1979), p. 77. 51 quadros provenham dos pequenos painéis do século xvii, eles individualizaram-se no século xviii com características específicas (…)”89 . sendo esta, uma das tipologias, mais representadas na colecção berardo, encontramos vários exemplares, monocromáticos e ainda datáveis, do segundo quartel de setecentos, é o caso da nossa senhora da natividade (inv. 101-215); o santo antónio (inv. 101-391); o são marçal (inv. 101-221); o são miguel arcanjo (inv. 101- 222); o santo antónio e alminhas (inv. 101-225); a santa bárbara (inv. 101-226) e o são jerónimo (inv. 101-227). conforme refere santos simões, os registos enumerados, enquadram-se tipologicamente na própria evolução estilística do azulejo da sua época, “(…) passando dos formatos rectangulares para os quadros recortados nos quais os enquadramentos tomam grande valor ornamental. de pintura azul até cerca de 1760 eles vêm a enriquecer-se depois, com amarelos, verdes, manganês, tal como a restante azulejaria.”90 . o grande terramoto, que destruiu lisboa em 1755, fez multiplicar o uso destes painéis devocionais, em geral recortados, surgindo então isolados em fachadas, por vezes ocupando nichos, colocando os edifícios sob a protecção dos santos representados, em geral os de maior devoção popular, como santo antónio de lisboa, ou protectores contra calamidades, como são marçal (incêndios) e são francisco de borja (terramotos). outros têm composições mais complexas, com nossa senhora e santos. o santo antónio (inv. 101-391), apenas com representação do santo, tem, no entanto, uma composição que reflecte a definição de um altar, cujo fundo fosse constituído por uma pintura, e que tivesse em primeiro plano uma imagem escultórica. o registo nossa senhora da ascensão, são marçal e santo antónio (inv. 101- 235), recortado em concheados e elementos acentuadamente vegetalistas, simétricos, encimado por cruz radiante, apresenta quatro reservas. na central surge a imagem de nossa senhora da ascensão coroada de estrelas, a qual é ladeada por outras duas, de menor dimensão, representando são marçal e santo antónio. na base do registo, uma pequena reserva, ostenta o cronograma 1760. ainda que, o seu local de origem seja desconhecido, este painel integrou a colecção comandante ernesto vilhena, sendo referido, como tal, nas obras de reynaldo dos santos91 e de santos simões92 . 89 santos simões (1979), p. 77. 90 santos simões (1979), p. 77. 91 reynaldo dos santos (1957), p. 151. 92 santos simões (1979), p. 79. 52 se os “registos” com três imagens são menos comuns, este destaca-se ainda, pelo facto das figuras dos dois santos estarem contidas em pequenas molduras cujo contorno exterior é assegurado pela moldura principal. os contornos sinuosos, próprios à estética rococó, são aqui acentuados pelo rebuscado recorte do painel. as semelhanças, entre algumas representações, são expressivas de como este tipo de produção azulejar se multiplicou após o terramoto, tornando-se em verdadeiros estereótipos, o que não obsta a que alguns exemplares sejam de assinalável qualidade. as mesmas gravuras foram incessantemente utilizadas como base das composições, e, na maior parte dos casos, apresentavam variações mínimas, traduzíveis quer na escala em que cada figura era transposta, quer no lugar que ocupavam. a fuga ao estereótipo era, no entanto, alcançada, quer pela multiplicação de reservas – é o caso, como vimos, do nossa senhora da ascensão, são marçal e santo antónio (inv. 101- 235), datado de 1760, – quer pelas diferentes colocações que estas podem ter, de que é exemplo um outro registo, também com a mesma designação, nossa senhora da ascensão, são marçal e santo antónio (inv. 101-236), mas datado de 1786. outros painéis, embora recorrendo às mesmas gravuras, ostentavam também variações, desta feita resultantes de forma natural, pela concepção proveniente de outro centro produtor, como a nossa senhora mãe dos homens (inv. 101-239), de coimbra. se a reconstrução da cidade de lisboa após o terramoto foi decisiva para a multiplicação de “registos” hagiográficos, também a tradição da padronagem, eficaz e de baixo custo, praticamente esquecida durante a primeira metade do século xviii, vai ser recuperada, tendo agora como possível fonte de inspiração tecidos e papéis de parede. para o revestimento dos novos edifícios vão ser concebidos múltiplos padrões, de grande valor decorativo, que hoje designamos como “pombalinos”, boa parte dos quais podem ainda ser vistos nos locais para que foram concebidos. no seu carácter utilitário, este tipo de azulejo dá continuidade aos que, no século xvii, decoraram as paredes de inúmeras igrejas, e antecipa os que a partir do segundo quartel de oitocentos vão forrar as fachadas de milhares de prédios de arrendamento. anunciando a estética neoclássica, os ornatos reduziram-se a coloridas e leves sugestões gráficas e superficiais, espontaneamente realizadas através de pinceladas leves e sensíveis, com sombras discretamente sugeridas por traços mais carregados ou por apontamentos roxos, cujo efeito ornamental se apresenta altamente dinâmico. conforme relembra luísa arruda “a maioria dos padrões resulta de um florão central que se articula com um desenho nas diagonais do quadrado, criando uma 53 quadrícula oblíqua que ocupa o painel e lhe dá um forte sentido de movimento. o azul- cobalto está sempre presente em contraste com tonalidades de roxo-vinoso ou verde com pontuações de amarelo-junquilo. reconhecem-se padrões muito usados nas escadarias de prédios da baixa pombalina.”93 , como é o caso do painel de azulejos de padrão pombalino (inv. 101-242), proveniente da rua da prata, lisboa, formado por florões lanceolados angulares intercalados com quadrifólios, circunscrevendo, em reservas, girassóis, constituindo-se estes como elementos de ligação, de que resulta um dinâmico efeito de uma rede disposta em diagonal. por sua vez, o painel de azulejos de padrão pombalino (inv. 101-243) é um dos mais invulgares padrões “pombalinos”. tendo na sua base um só azulejo, contém apenas metade do motivo, uma estilização de uma margarida. nos cantos contrários, ao lado preenchido com a flor, figuram duas folhas que se constituem como elemento de continuidade, formando uma linha ondeada que percorre verticalmente o painel. da mesma época são os silhares com “almofadas” de pintura marmoreada, exibindo em geral florões no centro, de que encontramos exemplo no silhar com florão (inv. 101-241), e que recordam as esculturas relevadas, que decoram as cantarias de fachadas de numerosos palácios e igrejas coevas. de facto as espécimes ornamentais “(…) são das mais belas e criativas manifestações da azulejaria da época, pela dinâmica movimentação e delicadeza dos ornatos, predominando os concheados autonomizados no espaço interno dos painéis, associados a vasos floridos, faixas, grinaldas, florões, aves, apainelados marmoreados, bustos, pintados em “grisalha” ou fortemente cromáticos. a cor desempenha um papel preponderante nestas obras, adensando-as ou rarefazendo-se em função da dinâmica de contrastes a atingir, através das colorações fortes ou da subtileza impressionista de pinceladas delicadas, que intervêm de maneira decisiva na dinamização dos interiores e dos jardins que ornamentam.”94 . ao longo da segunda metade do século xviii, especificamente, no período pós- terramoto, com a intensificação dos trabalhos de reconstrução da capital, tornou-se necessária um rápida produção de grandes quantidades de azulejo, elemento considerado como um material de acabamento, funcional, nobilitador e social. “a criação e fundação das diversas fábricas de louça em lisboa e no resto do país, inseriu-se dentro de um plano ambicioso e alargado de renovação industrial, com o 93 arruda, luísa d´orey capucho – caminho do oriente. guia do azulejo. edição livros horizonte, lisboa, 1998, pp. 87-88. 94 meco, josé – azulejos de lisboa. catálogo da exposição (estufa fria do parque eduardo vii), museu da cidade e câmara municipal de lisboa, lisboa, 1984, p. 64. 54 objectivo de promover uma produção de qualidade que não esquecesse as inovações tecnológicas, a qualidade artística e o circuito de comercialização do produto.”95 sob a tutela de marquês de pombal foi sendo impulsionada a reestruturação das produções de faiança, o que determinou o surgimento de novas fábricas no país96 , concedendo prerrogativas e contratando técnicos estrangeiros97 . a multiplicação de fábricas e centros cerâmicos, nas últimas três décadas de setecentos, irá coincidir paulatinamente com a afirmação gradual de uma nova estética e de um novo gosto. a partir de 1790 o estilo neoclássico começa a entrar, lentamente, na azulejaria portuguesa, orientando-se, então, a produção de modo a responder a encomendas que se alargam a uma nova clientela. efectivamente, se tanto a igreja como a nobreza continuam a fazer largo uso do azulejo, prolongando as temáticas tradicionais, palacetes e casas de campo de uma nova classe social, a burguesia, em ascensão desde o tempo do marquês de pombal, recebem pela primeira vez revestimentos cerâmicos. à excepção dos programas iconográficos religiosos, destinados a igrejas e conventos, preferem-se temas como exóticas chinoiseries, ou paisagens bucólicas, por vezes associados, como é o caso do silhar ornamental com chinês e paisagens (inv.101-268), transcritos de gravuras rococó de autores como jean pillement e françois boucher, e que pela sua utilização tardia atestam a especificidade do neoclássico português. estes temas figuram, normalmente, em cartelas ou reservas – é o caso das paisagens dos espaldares de banco (inv. 101-254 e inv. 101-255), já do início do século xix – sendo a restante superfície do painel preenchida por ornatos que, progressivamente, as vão secundarizar, afirmando uma nova gramática decorativa em que pontificam grinaldas, urnas, vasos, águias segurando coroas de louros, penas, molduras suspensas e cestos com flores e frutos. 95 maria alexandra trindade gago da câmara (2005), pp. 241-242. na verdade, como salienta a autora, e de acordo com josé viriato capela, a produção e comércio da louça apresentou-se, nos finais do antigo regime, como uma das principais fontes de recursos para algumas comunidades locais, grupos sociais específicos ligados à sua produção e comércio, e como um dos mais importantes elementos para a definição de um quadro, bem mais vasto, de uma região. ver a este propósito capela, josé viriato – exportação de louça de prado para a galiza 1750-1830. cadernos de olaria 2, barcelos, 1992. 96 a propósito das fábricas de louça existentes em portugal durante o século xviii, veja-se: “lista de fábricas instaladas, com participação da junta do comércio, durante a sua existência até à reforma de d. maria”, in macedo, jorge borges de – a situação no tempo de pombal. 3ª edição, lisboa, 1989, pp. 209-217; dias, luís fernando de carvalho – a relação das fábricas de 1788. coimbra, 1955, e queirós, josé – cerâmica portuguesa e outros estudos. organização, apresentação, notas e adenda iconográfica à edição de 1907 por de josé manuel garcia e orlando da rocha pinto, editorial presença, lisboa, 1987. 1ª edição (do autor), lisboa, 1907. 97 entre outros, destaque-se a presença dos italianos tomaz brunetto e josé veroli, que se ocuparam da fundação e direcção da real fábrica de louça, ao rato, de 1767 a 1771. 55 o azulejo de padrão da época, comummente designado como “d. maria” e representado nesta colecção pelo painel de azulejos de padrão dito d. maria (inv. 101-244), é um prolongamento natural do “pombalino”, pois tendo a reconstrução de lisboa continuado durante largos anos, entrando pelo reinado de d. maria i, os edifícios que entretanto ficavam concluídos, recebiam novos revestimentos, cuja concepção acompanhou a evolução do gosto. nos “registos” produzidos no último quartel do século, a transição entre estilos decorativos, faz-se sentir nos enquadramentos em que se inserem molduras de definição essencialmente rectilínea, interior como na nossa senhora do carmo (inv. 101-246), ou exterior como no são marçal e santo antónio (inv. 101-248), articulando-se, por vezes, motivos plásticos do classicismo com um gosto enraizadamente barroco pela encenação. no registo nossa senhora do carmo e são marçal (inv. 101-249), simulando um retábulo, a presença classicizante é assegurada pelas colunas sobrepujadas por entablamento interrompido de frontão triangular, que constituem, lateralmente, a moldura. por outro lado, procurou-se sublinhar um certo carácter de aparição milagrosa através do contraste entre o centro monocromático e fantástico da composição e o enquadramento realista policromo. noutros como nossa senhora da conceição, são marçal e santo antónio (inv. 101-251), produção que o cronograma 1790 permite situar, com precisão, no tempo, as molduras laterais (são marçal e santo antónio) são já, francamente, neoclássicas, enquanto que as centrais (nossa senhora e a cartela com a data), aquelas que envolvem as figuras de maior importância, filiam-se, ainda, no gosto anterior. segundo josé queirós este painel, cujo par faz agora parte do espólio do museu nacional do azulejo (mnaz inv. n.º 6105), encontrava-se originalmente colocado na rua de são marçal, traseiras da casa nº51 que dá para a praça das flores em lisboa, figurando o seu par na outra extremidade do edifício98 . também as personagens representadas são, na sua maioria, recorrentes, seguindo as concepções estéticas do rococó. no entanto, os dois “registos” alusivos a nossa senhora do carmo (inv. 101-246 e inv. 101-247), demarcam-se do tipo de imagem mais comum, sobretudo no primeiro caso, devido à posição da virgem, que surge representada, com o menino sentado no seu joelho esquerdo e segurando na mão direita o globo. 98 josé queirós (1987), p. 218. 56 por sua vez, num outro painel de azulejos, figuras alegóricas e símbolos marianos (inv. 101-250), raro exemplar cerâmico de moldura de cantaria de porta, o estilo neoclássico insinua-se, quer nas figuras representadas, quer na concepção arquitectónica, de linhas rectas, da base e pela representação em trompe l’oeil de um silhar. as duas figuras femininas, simulando estátuas, trajam à maneira clássica. a da esquerda do observador segura as tábuas da lei e a da direita uma espada. “na base dos pedestais, em medalhões ovais suspensos de laços, os símbolos marianos, respectivamente, a porta fechada e a torre.”99 a decoração que enquadra estes elementos representa, igualmente em trompe l’oeil, almofadas rectangulares circunscritas por finos elementos vegetalistas. nas almofadas superiores medalhões, idênticos aos do silhar, circunscrevem o sol e a lua, que como vimos surgem, também, em dois painéis barrocos deste espólio. a rematar a cantaria, numa reserva de moldura vegetalista encimada por um festão pendente, um quinto medalhão, delimita uma coroa sobre o monograma am, “avé maria”. este painel surge na colecção berardo encenando-se a sua utilização original através da colocação em torno de uma moldura em cantaria, que envolve um painel do segundo quartel do século xviii – porta (inv. 101-261) –, em trompe l’oeil, figurando com verosimilhança, uma porta de batentes duplos, com “trabalho em madeira”100 . a gramática decorativa neoclássica é tardiamente assimilada pelo azulejo português, e irá permanecer até cerca de 1830, com expressão já eclética. 6. azulejaria romântica e industrial os primeiros anos do século xix são para as fábricas de cerâmica portuguesas um período de prosperidade, só posto em causa, em finais de 1807, com as invasões napoleónicas. o país mergulha então num período de instabilidade, que se prolongou 99 joão pedro monteiro (2006), p. 51. 100 demonstrando a íntima relação entre o azulejo e a arquitectura, neste caso, pela simulação evidente de uma abertura num muro, esta porta constitui uma solução para a composição de interiores, sobretudo capelas, simulando espaços simétricos, pela colocação deste tipo de painel, frente a portas verdadeiras. além da função de corrigir erros de arquitectura, apresentava-se, também, como uma solução para romper com a monotonia das grandes paredes lisas de espaços interiores. seguindo um gosto maneirista, este tipo de representação em trompe l’oeil prolongou-se até ao século xviii, em cenas magníficas que cobriam os espaços austeros, evidenciados pela arquitectura, abrindo-os, por sua vez, a novos espaços. refira-se, ainda, que este painel esteve patente na exposição europália 91, figurando no respectivo catálogo. joão castel-branco pereira (1991), pp. 136-137. 57 pela revolução liberal e a independência do brasil, culminando numa desgastante guerra civil, acontecimentos que, inevitavelmente, debilitaram as actividades industriais e mercantis. a azulejaria neoclássica continua a ser utilizada ao longo das três primeiras décadas de oitocentos, sem alterações significativas, consubstanciada, pela agitação política e social, e posteriormente pelas lutas liberais, que fizeram diminuir o seu consumo. esta evolução pode ser acompanhada nos numerosos registos datados da colecção berardo. de 1808 é o registo hagiográfico do senhor dos passos e nossa senhora da nazaré (inv. 101-264), onde figuram, em dois grandes medalhões ovais, uma representação do senhor dos passos, e o milagre de nossa senhora da nazaré aparecendo ao cavaleiro, dom fuas roupinho. também, o registo de nossa senhora da conceição, são josé com o menino e são marçal (inv. 101-253) datado de 1802, é uma peça com grande presença, de afirmação do estilo neoclássico, na forma híbrida que conheceu na nossa azulejaria, embora as figuras representadas obedeçam aos estereótipos, que vinham a ser concebidos desde os últimos anos do século xviii, repetindo o habitual elenco de gravuras. já o registo rectangular, de moldura em meia cana e remate superior em frontão quebrado, sobre o qual assenta um vaso florido, intitulado nossa senhora das dores e nossa senhora da ascensão (inv. 101-260) foge, em parte, às representações mais recorrentes. mostrando-se no interior de um medalhão circular, uma pietá com a definição de uma das dores da virgem, que como menciona josé pedro monteiro reflecte “(…) uma intencionalidade próxima da pintura a óleo.”, sendo “(…) também de assinalar a invulgar presença, num painel de temática religiosa, de sombrinhas chinesas, ladeando o medalhão inferior, preenchido por imagem de nossa senhora da ascensão.”101 pouco comum é, também, o registo de santo antónio (inv. 101-263), em que a legenda momposteiro / prevelegiado / da real caza / de s.to antonio, enquadrada numa cartela cruciforme, em trompe l’oeil, assinala a sua proveniência. já o painel com a representarão de são pedro (inv. 101-266), ostentando o cronograma, um tanto tardio, de 1816, é exemplar do tipo de registo hagiográfico, que prolongando as temáticas e gostos estabelecidos, continuar- se-á, ainda, a produzir por mais alguns anos. “se, como se fez referência, as personagens representadas nos registos são recorrentes, em contrapartida encontramos como que uma preocupação em diversificar 101 joão pedro monteiro (2006), p. 49. 58 a sua apresentação, dispondo de modo diferente os medalhões que as contêm, aos quais se conferem também formas diferentes.”102 assim, temos no aludido nossa senhora das dores e nossa senhora da ascensão (inv. 101-260), um grande medalhão circular tendo em baixo uma moldura de volutas de forma, aproximadamente, trapezoidal. no sagrada família, são marçal e santo antónio (inv. 101-258) datado de 1807, um medalhão oval de grandes dimensões, contendo a sagrada família, acompanhada de são joão baptista, um par de anjos e por uma figura feminina, eventualmente santa isabel, e na sua base, colocadas de cada um dos lados, pequenas molduras também ovais. igualmente datado de 1807 é o nossa senhora da conceição, são marçal e santo antónio (inv. 101-262), que apresenta três medalhões ovais, um de maiores dimensões, com a figura da virgem, de pé, com capa e coroa do império do espírito santo, que encima dois outros mais pequenos colocados lado a lado, um com s. marçal e o outro com santo antónio e o menino. o cronograma, que no registo sagrada família, são marçal e santo antónio (inv. 101-258) surge em cartela ovalada entre os dois medalhões, figura agora em cartela rectangular, por debaixo das figuras dos santos. a estrutura compositiva de um outro registo com nossa senhora da conceição, são marçal e santo antónio (inv. 101- 265) é semelhante, embora os dois medalhões, que surgem no plano inferior, envolvendo as mesmas figuras, mas colocadas na posição inversa, sejam polilobados. como podemos comprovar, os registos da colecção, em análise, são representativos das diferentes tipologias produzidas, medalhões circulares e ovais, molduras trapezoidais e rectangulares. o tratamento exterior dos painéis, com o uso de recortes mais ou menos pronunciados, é também decisivo na afirmação da diversidade desta produção, aspecto igualmente corroborado pelos exemplares enunciados. o silhar emblemática cristológica (inv. 101-252), também de tema religioso, pertencente a um conjunto de que se sabe existir outros exemplares, todos eles com emblemática. o símbolo aqui presente, contido numa reserva oval encimada por três querubins sob baldaquino, constitui-se por uma estrela radiante sobre a lua, representada de forma antropomórfica, que obscurece a luz que, sem a sua presença, chegaria à terra. a filactera com a legenda noli me tangere, que remata esta cena, alusiva ao episódio do novo testamento no qual jesus ressuscitado expõe a madalena a sua intangibilidade, remete-nos para o sentido cristológico do painel, que só o conhecimento de todo o programa iconográfico original permitiria descodificar com segurança. 102 joão pedro monteiro (2006), p. 49. 59 a par dos painéis de temática religiosa, surgem agora na azulejaria portuguesa outros narrando histórias de ascensões sociais, de que é paradigma, no início do século, a história do chapeleiro antónio joaquim carneiro (museu nacional do azulejo, inv. 227) em que se conta a vida do encomendador desde a infância, quando trabalhava no campo como pastor, até à idade adulta, em que se tornou num próspero industrial e comerciante. provenientes da casa do protagonista da história, “(…) estes painéis documentam uma novidade no elenco iconográfico da azulejaria portuguesa, relato agora imediato de factos recentes, neste caso, a consagração de uma narrativa de ascensão económica e social de um camponês que se transforma em burguês rico, elemento da classe emergente cuja ideologia será dominante no século xix.”103 . embora inserindo-se no tipo de ciclo narrativo tradicional, alusivo a episódios hagiográficos ou de triunfos guerreiros, os painéis historiados doação da igreja e mosteiro de santa maria ao prior e cónegos de refóios (inv. 101-256) e doação do condado de refóios a menedo afonso (inv. 101-257) – outrora pertencentes a um conjunto, disperso em 1934, colocado na sala de profundis do convento dos cónegos regrantes de santo agostinho, refóios do lima, ponte de lima – têm em comum com a série do chapeleiro o facto de não ter sido concebido através do recurso a uma fonte gravada104 . na verdade, quer a história de antónio joaquim carneiro, quer a da criação e desenvolvimento do convento de refóios, são episódios particulares ou regionais, cuja representação tinha de ser criada pelo pintor, que desta forma gozava de uma maior liberdade de trabalho, mormente ao nível compositivo. ao mesmo convento, mas ao refeitório, pertenciam os espaldares de banco com paisagens emolduradas (inv. 101-254 e inv. 101-255), painéis ornamentais atrás referidos, que no espaço original correspondiam a um conjunto, cujos silhares inferiores corriam acima do nível dos bancos105 . a decoração, de ambos, inscreve-se num fundo amarelo-luminoso e centra-se numa moldura com uma paisagem de campo, à maneira de jean pillement. sob as molduras, a partir de um mascarão, desenvolve-se uma sequência simétrica de espirais adornados com acantos e rosetas, elevando-se lateralmente em dois bustos, onde a moldura é rematada por um vaso florido, ao centro. 103 aa.vv. – museu nacional do azulejo. roteiro (2005), p. 140. 104 a propósito destes painéis consulte-se: aa.vv. – real fábrica de louça ao rato. catálogo da exposição, museu nacional do azulejo, lisboa e museu nacional de soares dos reis, porto, 2003, p. 530. 105 aa.vv. – cerâmica neoclássica em portugal. catálogo da exposição, museu nacional do azulejo, instituto português de museus, lisboa, 1997, p. 138. 60 os painéis integram-se na tradição da metamorfose da arquitectura pelo azulejo, elaborada aqui numa visualidade neoclássica, um fundo de cor clara, de onde se destacam finos elementos gráficos regrados, enquadrando uma paisagem. equívoca simulação de uma abertura para o exterior que procura, de algum modo, evocar a envolvência bucólica do complexo conventual. o museu nacional do azulejo possui, também, um painel (mnaz inv. nº6370), que fazia parte deste elenco, decorando os espaldares de bancos corridos entre pilastras de pedra, e conforme, consta no seu historial, elaborado por josé pedro monteiro, o conjunto que guarnecia o refeitório de refóios do lima foi disperso depois de 1934. segundo santos simões106 , a maioria dos azulejos descritos por mendes norton, na obra études sur les oeuvres d'art de raphael sanzio d'urbino du monastère de refojos do lima107 foi arrancada e vendida, a particulares e antiquários, encontrando-se disseminada. feliciano guimarães, no arquivo de viana do castelo108 ao criticar o livro de mendes norton descreve os azulejos que ainda viu em refóios do lima, em 1934, sendo provável, que nesta desta, ou imediatamente a seguir, os exemplares tenham sido retirados do local de origem109 . nas composições neoclássicas, policromas e radiosas, com grandiosa predominância de fundos amarelos e brancos sobre os quais se distinguem laçarias, urnas, cestos floridos, festões e grinaldas pendentes, mascarões, aves e plumas, assiste- se a uma reinterpretação imaginosa dos ornamentos de robert e james adam, inscrevendo-se em medalhões cenas bucólicas, como as que atrás mencionamos, ou atributos vários caracterizando os espaços para que os painéis foram concebidos. no caso da alegoria à astronomia (inv. 101-150), trata-se de um silhar ornamental, proveniente de uma casa particular no cartaxo. ao centro da composição, contra almofada saliente, está suspenso um medalhão oval com moldura de fita espiralada onde se representa uma figura feminina de pé, vestida de túnica e manto clássicos, segurando um compasso na mão direita e um globo na esquerda. deste conjunto são conhecidos outros painéis representando as artes liberais, e um outro que poderá caracterizar a 106 santos simões (1979), p. 90. 107 norton, thomaz mendes – études sur les oeuvres d'art de raphael sanzio d'urbino du monastère de refojos do lima / par thomaz mendes norton; traduit du portugais par louis carloman capdeville. impremerie nationale, lisbonne, 1888. 108 guimarães, feliciano – arquivo de viana do castelo. vol. i, 1934. 109 na obra études sur les oeuvres d'art de raphael sanzio d'urbino du monastère de refojos do lima, surgem fotografias dos restantes painéis que constituíam esta série, num total de 14 exemplares, bem como, outras duas fotografias, uma panorâmica e outra de pormenor, do refeitório, podendo-se ver a disposição dos painéis in situ. thomaz mendes norton (1888), pp. 54-55 e 65-72. 61 retórica (mnaz inv. nº6399), pertencente ao museu nacional do azulejo. igualmente, produzidos na real fábrica de louça, ao rato, são outros dois silhares de composição ornamental (inv. 101-153 e inv. 101-154), datáveis entre 1820 e 1830110 . terminada a guerra civil em 1834, uma dinâmica burguesia adepta do novo ideário liberal toma em mãos o reactivar do comércio e indústria. à semelhança de muitos outros ramos da actividade industrial, também as fábricas de cerâmica irão ver o seu número aumentado, fundando-se novas unidades, que, de algum modo, substituem as que tendo produzido, desde os anos sessenta do século xviii e ainda de modo semi- industrial, quantidades enormes de azulejos e faianças, tinham fechado as suas portas, na sequência das sucessivas crises políticas e económicas. outras subsistem, juntando- se ao número das que em lisboa, porto e gaia, vão produzir um azulejo, essencialmente utilitário, destinado ao revestimento de fachadas de prédios de arrendamento. oscilando na utilização de técnicas semi-industriais e industriais, como a estampilhagem e a estampagem, as novas fábricas vão conferir ao azulejo um protagonismo crescente, impondo-o como um elemento caracterizador das identidades urbanas. se a maioria da produção terá sido de padronagem, dos mesmos centros produtores saíram, também, painéis figurativos, criação que ainda se encontra pouco estudada. do painel de azulejos paisagem com vegetação e construções (inv. 101-271), por exemplo, podemos dizer, pelas suas características que passam pelo traço do desenho, uso da pintura a azul e recurso à estampilha, que poderá ter sido produzido na fábrica portuense de miragaia, visto ter semelhanças com a faiança, à imitação da louça inglesa de davenport, que aí se concebeu entre 1827 e 1840111 . relativamente ao azulejo de padrão, no porto e gaia, a produção vai ao encontro dos gostos mais enraizados, podendo ver-se um prolongamento da estética barroca, tipicamente nortenha, nos relevos característicos dos azulejos, mais pronunciados, como é o caso do fabrico de massarelos ou das devezas. a este propósito vejamos o caso do painel de azulejos de padrão (inv. 101-274). composto por elementos relevados figurando, angularmente, concheados de acanto unidos entre si, criando reservas losangulares onde se inscrevem, margaridas e quadrifólios vegetalistas, dispostas alternadamente, tem como cercadura um outro padrão, em que as flores centrais a branco são substituídas por azuis. numa primeira observação, afirmaríamos que se trata 110 a propósito destes painéis consulte-se: aa.vv. – real fábrica de louça ao rato (2003), pp. 537 e 539. 111 a este propósito consulte-se: sandão, arthur de – faiança portuguesa, séculos xviii/xix. vol. ii, livraria civilização, 1985, pp. 97-98, 144-145. 62 de dois padrões provenientes do mesmo centro de fabrico. no entanto, analisando cuidadosamente os tardozes, constatamos que os azulejos que compõem a cercadura foram moldados manualmente, verificando-se as marcas deixadas pela pressão dos dedos dos ceramistas, sendo o azulejo, também, mais grosso, ao passo que, aqueles que compõem o centro do painel, patenteiam a quadrícula deixada pela prensagem mecânica, específica da fábrica das devezas112 . concluímos, assim, que o presente exemplar é composto por azulejos realizados nas fábricas de massarelos e de devezas, correspondendo à primeira a cercadura, e à segunda o centro do painel113 . as fábricas de lisboa, como sejam sacavém, constância, ou viúva lamego, vão, por sua vez, produzir milhares de azulejos de padrão que recuperam a tradição seiscentista de revestimento de grandes espaços, trocando então as paredes interiores de igrejas e palácios pelas fachadas de edifícios comuns. expressão um tanto tardia do estilo arte nova, e tendo também como destino a aplicação exterior, separando os andares ou figurando como remate superior, produziram-se entre finais do século xix e inícios do séc. xx inúmeras barras e faixas ornamentais. de grande valor decorativo, exibiam em geral motivos vegetalistas e florais de viva policromia, documentados nesta colecção por vários exemplares, dos quais destacamos o friso com girassóis e malvas (inv. 101-277) produzido na fábrica de sacavém, no último quartel de oitocentos, e no qual, a simetria da composição é acentuada pela presença de uma filactera entrelaçada com as ramagens. conforme alude luísa arruda, quanto à pintura e temas da azulejaria arte nova de produção corrente, apesar de casos particulares, não se produzem grandes criações emblemáticas: “(…) reduz-se o formulário ornamental a declinações florais e animais, onde pontuam, por vezes, cabeças femininas de cabelos esvoaçantes enquadradas por cercaduras desenhadas com os enrolamentos e ondulações típicas dos modelos importados. o acentuado sentido decorativo do desenho é sublinhado por um cromatismo muito desenvolvido, em tons pastéis ou nos acordos e contrastes que as novas tecnologias facilitam. trata-se, na maioria dos casos, de uma produção de pintores-artífices, muitas vezes empregados das fábricas, que reproduzem, engenhosamente, modelos importados.”114 . 112 anexo v – fotografias dos tardozes (centro e cercadura) do painel de azulejos de padrão (inv. 101-274). 113 em relação aos processos de produção das fábricas de massarelos e devezas, veja-se josé meco (1993), pp. 77-79. 114 arruda, luísa d´orey capucho – “decoração e desenho. tradição e modernidade. azulejaria nos séculos xix e xx”. in história da arte portuguesa, direcção de paulo pereira, vol. iii, edição círculo dos leitores, lisboa, 1995, p. 411. 63 a orientação preferencial da produção de azulejos repetitivos ou seriados para o revestimento de fachadas, não obstou, como se disse, que se continuassem a fabricar azulejos figurativos, ainda que, na sua maioria, anónimos. é o caso do painel camponesa alimentando perus (inv. 101-269), tipo de representação que, na sequência de uma tradição setecentista de representações do quotidiano, se aproxima de outras características da época, de que é exemplo o conjunto de uma cozinha de fumeiro, actualmente, exposta no restaurante/cafetaria do museu nacional do azulejo. em alguns trabalhos é possível descortinar os traços que permitem individualizar um “autor”, como é o caso de luís ferreira, conhecido pelo ferreira das tabuletas, director artístico da fábrica viúva lamego, activo na segunda metade do século, época em que foi o grande responsável pela afirmação da azulejaria narrativa no exterior, em especial fachadas e jardins. da sua autoria, e em resposta a uma encomenda que se julga de 1863115 , são os painéis nossa senhora, protectora dos fiéis (inv. 101-272)116 e todos têm a sua cruz (inv. 101-273), parte de um conjunto mais vasto, actualmente disperso, concebido para o jardim da antiga residência de manuel moreira garcia, na rua nova da trindade, em lisboa, onde funcionou durante anos a casa bruxelas, hoje conhecida por palácio trindade (antigo convento da trindade). no característico estilo ingénuo deste pintor, contam-se episódios da vida do proprietário, o galego moreira garcia, fabricante de cerveja, veiculando-se, em simultâneo, a ideologia maçónica de que este era adepto, num registo por vezes de sincretismo com o imaginário cristão, que mais tarde terá um testemunho eloquente na quinta da regaleira, em sintra. embora, o significado dos painéis da presente colecção permaneçam, ainda, por decifrar, pode-se dizer com segurança, que se trata de um tipo de representação, que radica num movimento de uma certa religiosidade sentimentalista, muito em voga a partir de meados do século xix. acreditamos também, ser possível, que os episódios representados na parte inferior esquerda do painel nossa senhora, protectora dos fiéis, sejam alusivos à vida do 115 saporiti, teresa – azulejaria de luís ferreira, o “ferreira das tabuletas”, um pintor de lisboa. edição de autor, lisboa, 1993, p. 65. 116 nos finais da década de 1980, ou princípios da 90, josé manuel leitão (solar – albuquerque & sousa lda.) vende quatro painéis de luís antónio ferreira ao museu nacional do azulejo (mnaz inv. nos 1789-1792) e dois à colecção berardo, em 1991 (inv. 101-272 e 101-273), todos da mesma proveniência. segundo teresa saporiti (1993), p. 81, integrou a colecção berardo, apenas a parte superior do painel nossa senhora, protectora dos fiéis, sendo que a parte inferior, representando um mocho, ficou na posse de josé manuel leitão. estas afirmações são atestadas, pelas fotografias patentes na página 75 (painel in situ, com a parte superior e inferior) e página 81 (pormenor de um painel pertencente ao manuel leitão). convém salientar, que atendendo, ainda, às fotografias de teresa saporiti, constatamos que os 70 azulejos, que compõem hoje a cercadura não pertenciam, originalmente, a este painel. 64 encomendador, e que seja o próprio, uma das figuras, de diferentes estratos sociais, representada no painel todos têm a sua cruz, transportando “a sua cruz”117 . tendo o azulejo figurativo conhecido utilizações diversas ao longo do tempo, conforme a intenção do encomendador, foi com naturalidade que, nas últimas décadas do século xix, passou a ser utilizado como veículo de mensagens publicitárias que, tal como as religiosas e políticas, se pretendiam persuasoras. desde cartelas contendo legendas e letreiros, até ao revestimento integral de fachadas, passando por painéis de dimensão variável, os azulejos publicitários ocupam na história desta forma de arte um lugar de destaque, espelhando muitas vezes a evolução de gramáticas decorativas e contribuindo, decisivamente, para afirmar a presença da figuração numa época de produção massiva de padronagens. o painel a japoneza (inv. 101-275), publicita a fábrica de goma crua com a mesma designação, exibindo a imagem de uma figura feminina oriental, trajando quimono, e segurando um leque e uma sombrinha, que remete de imediato quer para o nome da fábrica quer para a sua actividade. produzido na fábrica roseira, em lisboa, fundada em 1832 por victor rosembaum (naturalizado roseira), sendo a origem do seu fabrico indicada pela inscrição “roseira” colocada inferiormente, do lado direito. sabe- se hoje que esta fábrica não teve a sua origem na da bica do sapato, tendo-se instalado noutro local, o palácio cova na calçada dos cesteiros. realizado por volta de 1880- 1890, este painel figurou na fachada da fábrica japoneza, cumprindo a sua função original, a publicitária. num outro painel propagandista grandes armazéns das ilhas (inv. 101-291) produzido, mais tarde, entre os anos 30 e 40 do século xx, na fábrica lusitânia, em lisboa, optou-se pela figuração de objectos, representativos dos que se propunham ao público, a par com legendas que reforçam as imagens ou remetem para produtos ausentes. representando dois modelos de cadeiras de verga, que ladeiam um armário decorado, frontalmente, com apontamentos florais estilizados, este painel encontrava-se exposto na rua de são bento, fazendo publicidade aos grandes armazéns das ilhas. 117 acrescente-se, ainda, que a azulejaria de luís ferreira, continuando a tradição da figuração a azul e branco, radicada no azulejo da primeira metade do século xviii, demonstra nos vários trabalhos a antiga sabedoria portuguesa na sua articulação com a arquitectura. conforme refere luísa arruda – “decoração e desenho. tradição e modernidade. azulejaria nos séculos xix e xx” (1995), p. 412 “(…) utiliza nas decorações temas alegóricos e neoclássicos revisitados de forma ingénua, porventura segundo indicações dos encomendadores [sendo o caso dos exemplares da colecção berardo, disso exemplo] e modelos (gravuras) (…)”. 65 no último quartel do século xix desenvolve-se em portugal um importante centro de produção cerâmica que será responsável pela divulgação de estéticas modernas – a fábrica de faianças, fundada em 1884 nas caldas da rainha, onde o fabrico industrial para uso corrente obedeceu a preocupações artísticas, aproximando-se da cerâmica a que podemos chamar de “autor”. efectivamente, o seu mentor, rafael bordalo pinheiro (1846-1905), artista de personalidade multifacetada, concebeu mais de duzentos modelos, filiáveis, em boa parte, num movimento internacional de revivalismo da cerâmica do francês bernard palissy (1510-1589), mas também numa produção, que se vinha desenvolvendo nas caldas desde o trabalho da quase lendária figura da ceramista maria dos cacos. denotando-se em parte da produção de faiança preocupações de índole política e social, comuns ao seu trabalho como desenhador e caricaturista, também no padrão de azulejos relevados (inv. 101-276), que idealizou para decoração do bar do pavilhão português da exposição universal de paris, em 1889, em cuja composição, retirada de um túmulo da primeira dinastia da capela tumular do mosteiro de alcobaça, constam escudos com as quinas de portugal, encontramos uma afirmação dos valores nacionais, cara a vários artistas e intelectuais da sua geração. o sucesso das faianças da fábrica das caldas da rainha, em diferentes exposições, valera a bordalo pinheiro ceramista, extensas consagrações e referências elogiosas, na sua época, de eminentes intelectuais como ramalho ortigão118 , joaquim vasconcelos119 , sousa viterbo120 e fialho de almeida121 . provenientes de uma encomenda para o chalet bister, em sintra, mas que nunca chegaram a ser aplicados, são dois dos exemplares desta colecção, painel de azulejos – “padrão bacalhôa” (inv. 101-584) e painel de azulejos relevados – “padrão árabe” (inv. 101-588), que testemunham o início da obra azulejar de bordalo, partindo de inspiração em modelos mouriscos, árabes e renascença, patenteados em diversos locais, como sejam, o palácio de sintra, a quinta e palácio da bacalhôa, entre outros122 . 118 ortigão, ramalho – a fábrica das caldas da rainha. porto, 1891. 119 vasconcelos, joaquim de – “arte decorativa portuguesa”. in notas sobre portugal, vol. ii, imprensa nacional, lisboa, 1908. 120 viterbo, francisco marques de sousa – artes e artistas em portugal: contribuições para a história das artes e industrias portuguezas. lisboa, 1892. 121 almeida, fialho de – “a glória dos vencidos”. in jornal os pontos nos iis, 1891. 122 o museu de rafael bordalo pinheiro possui no seu espólio padrões de “esfera-armilar”, “pé-de-galo” e “bacalhôa”. muitos outros padrões estão, ainda, representados nas colecções do museu de rafael bordalo pinheiro, em lisboa e nos museus das caldas da rainha, nomeadamente, no museu de cerâmica, no museu de josé malhoa e na fábrica bordalo pinheiro. em espanha, no museu de san rafael. 66 segundo luísa arruda “na azulejaria concebida por bordalo destacam-se ainda os azulejos de inspiração arte nova, classificados como «os tardios» por julieta ferrão, reveladores da influência desta nova linguagem ornamental, sobretudo a partir da estada em paris por ocasião da exposição internacional.”123 . exemplos desta inspiração naturalista são os painéis de azulejos relevados borboletas e espigas (inv. 101-585) e rãs e nenúfares (inv. 101-587). embora se desconheça a origem de ambos, o primeiro, podendo apresentar ou não “espigas”, destinava-se à decoração de padarias, tendo sido utilizado em tempos, um padrão do mesmo tipo, no balcão da panificadora de campo de ourique. datados de 1905 e 1904, respectivamente, e assinalados no tardoz com a marca “ff caldas”, apenas o exemplar com padrão de borboletas e espigas, apresenta o monograma do artista, colocado no canto inferior direito de cada azulejo. 7. o século xx nas primeiras quatro décadas do século xx a azulejaria portuguesa fica marcada por um gosto nacionalista e historicista, bem patente nos revestimentos cerâmicos de mercados e estações de caminhos de ferro, locais onde podemos encontrar representações de cenas alusivas às principais actividades laborais ou de lazer de cada região, e aos seus monumentos mais significativos – tendo, muitas vezes, como referência iconográfica, imagens fotográficas veiculadas por postais ilustrados – ou ainda acontecimentos maiores da história de portugal. na esteira de ferreira das tabuletas e do seu discípulo pereira “cão”, surgem agora outros artistas que conservam ligações às fábricas de produção mais corrente. é o caso de leopoldo battistini, pintor e ceramista italiano que de 1921 a 1936 dirigiu a fábrica de cerâmica constância, então sócio maioritário, e que, com viriato silva, assinou, em 1924 o painel d. isabel de aragão separando os exércitos desavindos de d. dinis e do infante d. afonso (inv. 101-288). de proveniência desconhecida, o painel rectangular representa a rainha santa isabel, afastando os exércitos discordantes de seu marido e seu filho. toda a composição é emoldurada por concheados, folhas de palma, flores e quadrícula assinalada nos pontos de intersecção por quadrifólios, numa organização simétrica, estando a moldura assente sobre cantaria falseada, num jogo de côncavos e 123 luísa arruda – “decoração e desenho. tradição e modernidade. azulejaria nos séculos xix e xx” (1995), p. 415. 67 convexos, desaparecendo aos lados sob o desenho da cercadura, e reaparecendo nos cantos superiores. a encimar o conjunto circunscreve uma cartela, ao centro, em concheado, com legenda realizada em letras capitulares azuis – dona isabel de / aragão. curiosamente, surge nesta colecção um painel de azulejos lareira em tromp’oeil (inv. 101-364), que faz conjunto com um candeeiro cerâmico de oito lumes, ostentando a inscrição “criação do mestre battistini em 1935” e a referência “pintou em 1937”. contudo, embora o exemplar patenteie esta inscrição, estamos em crer, que esta obra não terá sido criada pelo próprio battistini, que em 1935 contava com 71 anos, quanto muito, teve a colaboração dos artesãos que trabalhavam na fábrica constância. atestam as nossas afirmações, relativas à não autoria desta obra por battistini, o facto de o mesmo ter falecido em lisboa, a 4 de janeiro de 1936. segundo alice lázaro “(…) devido à louvável mas mal sucedida intenção de maria de portugal [124] em homenagear, provavelmente, o artista italiano, em mudar o nome da cerâmica constância para faiança battistini em 1936, deu origem a que se instalasse a confusão entre a assinatura do ceramista e o novo nome da fábrica, julgando os menos informados que têm em seu poder peças originais de battistini.”125 . interessante é ainda o facto de abaixo da indicação da criação e da sua posterior pintura, na lareira, surgir uma filactera com inscrição alusiva ao primeiro centenário da fábrica constância “1836 – 1936”, situando-se esta data, no período intermédio, entre a criação desta obra (1935) e a da sua posterior decoração (1937). na mesma corrente estética insere-se jorge colaço com oficina na fábrica de sacavém, e, posteriormente, na fábrica lusitânia, ambas em lisboa, porventura o pintor cerâmico mais prestigiado da sua geração, e que fez uso, em suporte cerâmico, das técnicas próprias da pintura a óleo que também cultivava. eminentemente romântica, a sua obra punha em destaque quer os valores pátrios, quer concepções idílicas da natureza e do mundo rural. embora não assinado, é possivelmente de sua autoria, o painel ninfas (inv. 101-287), figurando beldades num jardim, e cuja cercadura, em trompe l’ oeil, evoca o trabalho de talha. conforme refere luísa arruda a obra de jorge colaço, quando comparada com as decorações de outros pintores, “(…) parece 124 maria de portugal, nascida albertina santos, segundo alice lázaro, in: lázaro, alice – leopoldo battistini: realidade e utopia. influência de coimbra no percurso estético e artístico do pintor italiano em portugal (1889-1936). edição da câmara municipal de coimbra, coimbra, 2002, p. 184, foi uma dos aprendizes do pintor-decorador leopoldo battistini, que se especializou em “registos” e painéis de figura avulsa, destacando-se dos restantes, e tornando-se posteriormente sua mulher. maria de portugal foi, também, autora de azulejaria e de peças de cerâmica de vulto. 125 alice lázaro (2002), pp. 264-265. 68 claramente melhor tanto na construção rigorosamente académica das paisagens e figuras, nos enquadramentos que propõe, utilização de gradações e transparências de “azuis-cobalto”, como na tipologia de cercaduras que utiliza”. a autora acrescenta ainda, que “uma característica que distingue o seu trabalho é a qualidade e transparência de azuis quase de aguarela e a construção académica do desenho. estes aspectos prendem-se com a formação e círculo cultural do pintor e, do ponto de vista técnico, com o facto de colaço encarar a matéria cerâmica apenas como suporte bidimensional de pintura ao contrário de bordalo, de formação escultórica, que encara a azulejaria como pertencente ao mundo matérico da faiança, dotada de um determinado carácter e de uma “verdade” própria.”126 . a par da azulejaria figurativa, continuam a produzir-se composições seriadas de repetição. como vimos, para a difusão das novas estéticas da arte nova e, posteriormente, da art deco foram de grande importância as produções massivas de unidades industriais como a fábrica de louça de sacavém e a fábrica lusitânia em lisboa, sobretudo entre as décadas de 1910 e 1930, com azulejos em pó de pedra e técnicas decorativas modernas de estampagem e aerografia. seguindo o gosto art deco, executam-se então painéis para aplicação interior, principalmente em átrios e lojas, produção que surge aqui documentada pelo painel de azulejos aerografados (inv. 101-289), cuja sanefa está duplicada, no que é uma montagem pouco habitual. também para revestimento interior, e possivelmente da mesma fábrica (sacavém), o painel de azulejos de padrão (inv. 101-290), representando uma malha fina de ferronerie, de cor amarela, interligada a intervalos regulares, a octógonos vazados de cor castanha, prenuncia um modernismo que na colecção berardo encontra expressão no painel colheita do cacau (inv. 101-336) de jorge barradas, assinado e datado de 1954. trabalhando, a partir de 1945, na fábrica viúva lamego, jorge barradas (1894- 1971) pintor e ilustrador modernista, do 1º modernismo, contribuiu de forma incessante para um revigorar da cerâmica artística em portugal, conferindo-lhe um carácter moderno, tornando-se assim, um autor de referência para toda uma geração revelada no pós-guerra. a colheita do cacau representa um tema “(…) directamente relacionado com o seu local de aplicação original, o paquete santa maria – que efectuava a carreira para as possessões africanas –, e sequência natural de uma obra cerâmica que se iniciara 126 luísa arruda – “decoração e desenho. tradição e modernidade. azulejaria nos séculos xix e xx” (1995), p. 418. 69 com um convite para a execução de um painel relevado, destinado à sala dos descobrimentos do pavilhão de portugal na world’s fair, a exposição universal de nova iorque, em 1939.”127 . em sintonia com a temática mais recorrente da azulejaria portuguesa da primeira metade do século xx, numa “(…) conciliação entre a tradição e modernidade.”128 , este painel versa, objectivamente, uma alegoria ao infante d. henrique e à escola de sagres. os azulejos de jorge barradas tiveram sucesso imediato junto do público, o que afastou para segundo plano as cópias de modelos joaninos e pombalinos, em voga nos anos 20 e 30 ou a azulejaria de temática naturalista. “como bordalo, jorge colaço e raul lino, barradas contribui com um novo olhar para a capacidade expressiva da azulejaria, fruto da formação independente e autoridade pessoal granjeadas noutros géneros artísticos. (…) a transfiguração da presença humana tocada pelas experiências abstractizantes e surrealista vai marcar a subsequente obra azulejar de barradas. no entanto, outras vias de inspiração marcam trabalhos em que a minúcia de detalhes, a cor e o grafismo depurado lembram a iluminura e a pintura florentinas. os fundos ornamentais, as plantas e outros elementos da natureza, o sol, as águas, as rochas surgem essencialmente como elementos ornamentais e compositivos, como cenários onde se movem as personagens.”129 , sendo o exemplar da presente colecção, bem ilustrativo do exotismo e hiperdecoração dos fundos vegetais, provavelmente, fruto das viagens tropicais que o autor fizera ao brasil e são tomé e príncipe. incidindo na mesma temática, a colheita, desta feita do amendoim, encontramos na presente colecção, um trabalho francês de 1948, intitulado la récolte de l’arachide (inv. 101-609). trata-se de um monumental painel de cerâmica esmaltada composto por 128 azulejos, acrescidos de cercadura e quatro medalhões aos cantos com sol como motivo. encomendado para a fábrica unilever de asnières, em frança, este exemplar está assinado com um monograma pp, cruzado e datado. em portugal, a exploração do azulejo moderno pela sua especificidade matérica, atitude que encontra origem na produção de jorge barradas, irá contagiar diversos autores, dando lugar a uma cerâmica, fortemente marcada por valores escultóricos, reais ou simulados, e pela pesquisa de valores cromáticos. 127 joão pedro monteiro (2006), p. 53. 128 rodrigues, antónio – “1933-1949. ausência e nobilitação do azulejo. a política do espírito”. in o azulejo em portugal no século xx, comissão nacional para as comemorações dos descobrimentos portugueses, inapa, lisboa, 2000, p. 53. 129 luísa arruda – “decoração e desenho. tradição e modernidade. azulejaria nos séculos xix e xx” (1995), pp. 422-423. 70 integrando esta poética dos materiais, está a obra da ceramista cecília de sousa (n. 1937), que, tendo por base uma abstracção sígnica e espacial desenvolvida na década de 1950, tem vindo a explorar a visualidade cerâmica como memória residual da existência. participante assídua das bienais de cerâmica internacionais e cooperadora do movimento de renovação da cerâmica portuguesa do pós-guerra, entre 1954 e 1968, junta-se a uma nova geração de artistas plásticos, como os pintores querubim lapa, júlio resende e júlio pomar, e a ceramista manuela madureira, que colaboram com arquitectos empenhados na experimentação de novas linguagens plásticas. explora neste período as expressividades próprias do fazer cerâmico, numa produção moderna de objectos de tipologias convencionais e revestimentos arquitectónicos em faiança, com estéticas abstractas. em 1964 realiza uma peça, intitulada sol (inv. 101-582), composição com placas cerâmicas formando um sol estilizado, com raios em duas cores alternadas, para o antigo hotel estoril sol, tendo estado aplicada no salão vitória. da mesma proveniência é o conjunto de vinte frisos, que actualmente fazem parte da colecção berardo130 . patenteando várias formas geométricas, nas quais se inserem representações antropomórficas e alguns animais fantásticos, estes frisos cerâmicos da autoria de manuela madureira, revestiam as sobreportas do restaurante principal do hotel. renovando a sua linguagem artística e partindo à descoberta e assimilação contínua de novas técnicas e materiais, a autora confere um sentido de experimentação inovador e autêntico à sua obra. ao nível temático explora o reino animal e vegetal, o universo e a fantasia, conjugando, no seu trabalho, os vários fragmentos do recorte figurativo numa estrutura aparentemente complexa, de onde emerge a sua grandeza simbólica. “um modernismo moderado apoiado por antónio ferro, ideólogo da cultura em portugal aquando das grandes exposições internacionais, encontrava a inspiração em motivos de “arte popular” e para a exposição de paris de 1937 foram criadas lambrilhas por diversos artistas plásticos, como paulo ferreira, fred kradolfer e emmérico nunes, dentro deste espírito (…) ”131 . o museu nacional do azulejo fez uma réplica do primeiro painel modernista com vista aérea e fantasiada de lisboa, projectado por paulo ferreira para a mesma exposição, e posteriormente desaparecido, trata-se do painel de lambrilhas (mnaz invº1934). 130 embora, a colecção berardo tenha incorporado os vinte frisos da manuela madureira, que em tempo decoraram o restaurante principal do hotel estoril sol, remetemos para anexo, apenas, um exemplar ilustrativo do conjunto – friso de azulejos com representações antropomórficas (inv. 101-589). 131 joão castel-branco pereira (1995), p.52. 71 fred kradolfer (1903-1968), co-autor da obra citada, desenvolveu vários trabalhos com artistas consagrados, como sejam, bernardo marques, carlos botelho, emmérico nunes, josé rocha, paulo ferreira e thomaz de mello, grupo conhecido como a “equipa de antónio ferro” ou a “equipa do spn” (secretariado de propaganda nacional). artista multifacetado, deu um grande contributo no progresso das artes gráficas em portugal, tendo utilizado a sua criatividade e apurado gosto estético em distintas actividades artísticas, do cartaz ao vitral, passando pela cerâmica e pelos anúncios luminosos. evidenciando uma enorme aptidão de expressão ao representar elementos do folclore em objectos de uso quotidiano (bilha, pote, espiga, flores, etc.) e da vida campestre (porcos, touros, cavalos, burros, etc.), típicos do país à época, conferiu uma certa modernidade no posicionamento das figuras. entre variados trabalhos da sua autoria, destacam-se os cincos painéis cerâmicos executados para o antigo hotel estoril sol, dispostos à entrada, a decorar os grossos pilares, e que hoje fazem parte da presente colecção. realizados por volta de 1960-1965, três dos exemplares, idênticos entre si, são relevados, figurando um sol antropomórfico no topo e uma sereia no centro da composição, formando uma barra vertical em ambos os lados do painel, onde surgem finos elementos ondeantes132 . os outros dois painéis são policromos e ostentam, também, um sol antropomórfico no topo, tendo na base um vaso, que apresenta como arranjo, três penas de pavão e dois cachos de uvas, dispostos simetricamente. a delimitar estes elementos, no topo e aos lados, desponta uma barra com duas cores e linhas oblíquas paralelas133 . no período pós-guerra, surge um espírito moderno de franca ruptura com as tradições artísticas. na década de 1950, constroem-se então novos edifícios e estruturas urbanas com projectos de jovens arquitectos formados num funcionalismo internacional e que integram obras de jovens artistas plásticos. neste contexto, tenham-se como exemplos, o maior conjunto de azulejaria de linguagem figurativa moderna jamais vista em lisboa, na avenida infante santo; as estações do metropolitano de lisboa, decoradas com azulejos de maria keil, a partir de 1957; o muro de suporte da avenida calouste gulbenkian, de joão abel manta, entre muitos outros. a moderna cultura do azulejo deve-se sobretudo ao notável trabalho do engenheiro santos simões, que em 1971 realiza o congresso internacional de 132 a título de exemplo, remetemos para anexo, o painel de azulejos com sol antropomórfico e sereia (inv. 101-577). 133 a título de exemplo, remetemos para anexo, o painel de azulejos com sol antropomórfico (inv. 101-580). 72 azulejaria, em lisboa, na fundação calouste gulbenkian, seguido de uma eminente exposição de azulejaria contemporânea. de entre os artistas com produção de azulejo desde a década de 1950, destacam-se querubim lapa, manuel cargaleiro, cecília de sousa e rogério ribeiro, essencialmente, pela actualização da linguagem desta disciplina, determinando a continuidade da criação até à contemporaneidade. no terceiro quartel do século xx, a encomenda para edifícios públicos não deixa de crescer, assim como, o interesse da encomenda privada manter-se-ia sempre constante, com acesso a produções de escala menor ou em casos especiais a decorações comissionadas. em 1987, aparece a ratton cerâmicas em lisboa, galeria cujo projecto era propiciar e difundir a criação do azulejo contemporâneo convocando para o efeito artistas nacionais e estrangeiros. fruto desta dinâmica, muitos foram os autores que se interessaram pelas tipologias e técnicas específicas deste suporte, como veículo para as diferentes poéticas particulares. por seu turno, as grandes realizações públicas como lisboa, capital da cultura, em 1994 ou exposição mundial de 1998 têm proporcionado a criação do azulejo contemporâneo. entendida, também, como arte urbana, surgem diversas encomendas pelo país fora, vindas sobretudo das autarquias, sociedades públicas ou comissões. júlio pomar decora o generoso espaço da estação de metropolitano do alto dos moinhos, em 1989, sob o tema de quatro poetas portugueses: camões, bocage, fernando pessoa e almada negreiros, sendo que neste caso, conforme relembra luísa arruda134 , a quadrícula modular do azulejo pouco interessa, salientando-se antes, o branco e o desenho. imbuído do mesmo espírito, pomar desenhou com caligrafia enérgica o painel de azulejos palhaço (inv. 101-372). o painel monocromático, de desenho grafitado e rápido, representa um palhaço a tocar flauta transversal, surgindo em pé, com os seus característicos e enormes sapatos, nariz de batata e roupa larga. assinado no canto inferior direito este trabalho deverá datar da década de 1990. sá nogueira, oriundo da terceira geração de pintura do século xx em portugal, dedica-se também à azulejaria contemporânea, numa manifestação do gáudio pela via da cor, do contraste, da ironia e da surpresa. à semelhança de outras expressões artísticas contemporâneas a azulejaria pretende, também, colocar questões da estética moderna da obra de arte. a estação de metropolitano das laranjeiras, de 1988, é um desses exemplos paradigmáticos, uma 134 luísa arruda – “decoração e desenho. tradição e modernidade. azulejaria nos séculos xix e xx” (1995), p. 431. 73 comemoração de laranjas retratadas e dispostas em proporção despropositada, pela gare e acessos, acabam por se tornarem inquietantes e divertidas, incitando o passageiro a interrogar-se sobre a contemporaneidade, sendo esta uma das funções primordiais da arte. o vigor da criação em azulejo, compreendido como suporte de pensamento artístico contemporâneo é evidente na obra de bela silva, a quem se junta, os nomes de lourdes castro, jorge martins, pedro proença, eduardo nery, luís camacho, fernanda fragateiro, júlio pomar, bartolomeu cid dos santos e antónio costa pinheiro. pelo impacto de obras recentes merecem, ainda, especial destaque menez, paula rego, graça morais e leonel moura. 74 capítulo iii – quinta e palácio da bacalhôa “o palácio e quinta da bacalhôa, em azeitão, formam só por si um monumento artístico da mais alta significação (…) que pode lançar luz sobre um período escuríssimo das artes em portugal, e em que se produzia a grande revolução artística chamada a renascença.”135 é com esta afirmação, que joaquim rasteiro principia a sua modelar monografia136 atinente à história, da notável mansão quinhentista, conhecida por quinta da bacalhôa137 , e considerada como o mais importante repositório de azulejaria primitiva no nosso país. como atrás ficou referido, não é nossa intenção, no âmbito da presente dissertação, proceder a um estudo exaustivo da bacalhôa, mas apresentar o levantamento de algumas peças arquitectónicas sintomáticas e caracterizadoras da história e génesis da azulejaria em portugal138 . 135 joaquim rasteiro (2003), p. 5. 136 na obra de joaquim rasteiro, publicada em 1895, assume particular importância, um suplemento editado em 1898, reproduzindo em litografia, um conjunto de aguarelas da cerâmica da bacalhôa, feitas por a. blanc, bem como, um capítulo separado contendo o ensaio publicado por theodor rogge nas blätter für kunstgewerbe (caderno 3º e 4º, leipzig, 1895), intitulado keramik und decoration in portugal, com tradução portuguesa de hugo mastbaum. 137 embora, inicialmente, a quinta da bacalhôa não tivesse esta denominação, conforme testemunham os diversos legados escritos, tendo sido apelidada pelo nome do sítio, ou dos seus proprietários, (por exemplo: quinta de azeitão em ribatejo; quinta de são simão; quinta da condestablessa; quinta de affonso de albuquerque; quinta do bacalhau, entre outras), optaremos pela designação actual, de forma a facilitar a leitura. 138 relativamente à arquitectura e jardins da quinta e palácio da bacalhôa, destacamos as seguintes publicações: ribeiro, carlos; delgado, j. filipe nery da encarnação – arborização geral do país. typographia da academia das sciencias, lisboa, 1868. portela, manuel maria – notícia dos monumentos nacionaes e edificios e logares notaveis do concelho de setúbal. 1882. sequeira, gustavo de matos – palácios e solares portuguezes. (col. encyclopedia pela imagem), porto, 1900. brüt, f.; cunha, moraes – a arte e a natureza em portugal. emílio biel & cª, porto, 1906. vasconcelos, joaquim de – a arte e a natureza em portugal. 1908. correia, virgílio – um túmulo da renascença – a sepultura de d. luís da silveira em góis. imprensa da universidade, coimbra, 1921. viterbo, francisco marques de sousa – dicionário histórico e documental dos architectos, engenheiros e construtores portugueses a serviço de portugal, imprensa nacional - casa da moeda, lisboa, 1922. reprodução em facsimile do exemplar com data de 1899 da biblioteca da incm. aa.vv. – enciclopédia italiana di scienze, lettere ed arti.vol. v, instituto giovanni trecanni, rizzoli & cª, milano, 1931-39. pevsner, nikolaus – an outline of european architecture. pelican books, 1943. teixeira, carlos – “l´ évolution du territoire portugais pendant les temps anté-mésozoiques”. in suplemento do boletim da sociedade de geografia de portugal, vol. ii, pp. 229-255, porto, 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ensaio, convém, evocar, em linhas gerais, a história da propriedade e dos seus distintos possessores, que ao longo dos séculos, imprimiram um cunho pessoal. no reinado de d. joão i era monteiro mor das matas de azeitão no ribatejo, joão vicente, que segundo joaquim rasteiro “(…) trazia emprazada em vida de três pessoas uma quinta em azeitão que partia de um cabo com affonso annes das leix e do outro com nuno martins.”139 . metade desta quinta pagava foro à coroa, e o restante era foreiro diogo fêo. encontrando-se, joão vicente, velho, cego e pobre, sem condições de cultivar a propriedade e custear os foros, d. joão i decide comprar o domínio directo a diogo fêo, em 1421, tomando para si toda a quinta, que viria a passar para álvaro annes, seu barbeiro. seis anos passados o infante d. joão, mestre da ordem de santiago, filho de d. joão i, compra a grande propriedade em vila fresca de azeitão, e manda erguer um refúgio de caça, fruindo deste espaço durante quinze anos, de 1427 até 1442, ano da sua morte. sucedeu-lhe na posse a filha, d. brites140 , que cinco anos depois, casara com o infante d. fernando, filho do rei d. duarte e irmão de d. afonso v. ainda que, conforme conta joaquim rasteiro, quem observar, atentamente, a quinta e palácio da bacalhôa e os vir minuciosamente encontrará nas edificações diferentes idades e influências das épocas, entre as quais, duas casas com abóbadas ogivais, de cunho gótico, vestígios da habitação do monteiro mor joão vicente, ou do próprio infante d. joão, a primeira edificação, de certo vulto, é decerto obra dos infantes de beja. vivendo na corte de um rei artista, frequentando um meio onde se divulgava as novidades provenientes de itália, a idoneidade e perícia dos mestres, o gosto requintado e a sumptuosidade dos príncipes mecenas das artes; não poderia d. brites, faustosa, princesa e mãe de uma rainha, prescindir de querer imitar, aqueles que eram laureados e aprisionavam as atenções da mais alta e erudita sociedade. apresentada 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ordem de santiago, tinha ainda, a seu favor, o facto de ter herdado a quinta de azeitão, próxima da residência da corte, num local abundante em águas e passível de se construir uma habitação apalaçada, acrescido à conjuntura, de d. joão ii ter uma predilecção por setúbal, local onde possuía extensas propriedades141 . segundo joaquim rasteiro, d. brites “(…) encomendaria os planos de um palácio de campo a architecto hábil e, não o havendo no paiz, vir-lhe-ía o traçado, ou um artista da itália, a este delineou uma villa, que, em uma epocha de transição, saíu n’um género medieval, amodernado por um florentino.”142 . desta época data a construção do palácio, assente no sítio da antiga casa da quinta; a cerca torreada, e alguns revestimentos azulejares quatrocentistas de modelo levantino, testemunhando a preferência que os infantes de beja atribuíam à decoração cerâmica. façamos aqui uma pequena nota relativamente aos exemplares do tipo quatrocentista. vestígios destes azulejos foram encontrados nos restos de um velho pavimento sob o torreão sul do palácio, aquando das obras de reconstrução iniciadas, pela mrs. orlena scoville, em 1937. conforme escreve santos simões143 as poucas peças recolhidas foram guardadas no palácio e pertencem aos tipos de rajolas que se produziam em valência na segunda metade do século xv. todavia, no decorrer do nosso trabalho de campo, não encontramos qualquer tipo de azulejo semelhante ao descrito e ilustrado por santos simões, na estampa vi, modelo e. em contrapartida, descobrimos parte de um azulejo, que aparece representado na mesma estampa – modelo b – também, identificado pelo autor como valenciano144 . ladeado por azulejos sevilhanos de aresta, este exemplar de azulejaria arcaica – levantina – reveste a parte superior do quinto alegrete do muro a oeste, no caminho para a casa da índia145 . esta descoberta vem, efectivamente, confirmar a tese, que já haveria algum azulejamento nas construções da quinta antes da compra por afonso de albuquerque (filho), que adiante desenvolveremos. viúva desde 1470, d. brites oferece ao seu neto d. afonso, filho natural do duque de viseu, d. diogo, a quinta e palácio da bacalhôa por ocasião do seu 141 os infantes de beja, particularmente d. brites, eram considerados os “(…) maiores senhores que nunca houve, em hespanha, que não fossem reis.” in história geneal, livro iii, p. 283, citado por santos simões (1990) p. 55. eram proprietários de grande parte da península de setúbal. 142 joaquim rasteiro (2003), p. 19. 143 santos simões (1990), p. 55 144 anexo vi – exemplos de rajolas valencianas. santos simões (1969), estampa vi. 145 anexo vii – exemplo de rajola valenciana. santos simões (1969), estampa vi, b. e exemplo de rajola valenciana, idêntica à identificada por santos simões (1969), estampa vi, b., colocada no alegrete nº5 do caminho da índia, na quinta da bacalhôa. 77 casamento, em 1501, com d. joana de noronha, filha do primeiro marquês de vila real. da união de d. afonso, que d. manuel fizera condestável de portugal, com d. joana de noronha nasce d. brites de lara. em 1504, morre o condestável, ainda em vida da infanta sua avó, que viria a falecer dois anos depois, passando todos os bens, incluindo a quinta da bacalhôa e dependências, para d. brites de lara, que em 1519, casou com d. pedro menezes, conde alcoutim e terceiro marquês de vila real. a propriedade, que como vimos, era do dote da marquesa, foi por esta vendida a afonso de albuquerque (filho), a 1 de dezembro de 1528, pela quantia de quatro mil cruzados de ouro. iniciando, desde então, uma extensa campanha de obras, introduzindo alterações italianizantes significativas, o novo proprietário irá inovar a edificação de d. brites, assinalando na velha quinta da condestablessa a sua terceira idade, conforme alvitrara joaquim rasteiro. contudo, para que se perceba o gosto que inspirou a reconstrução e ampliação do palácio da bacalhôa, cujo estilo reflecte o gosto da renascença italiana, é importante relembrar alguns factos da biografia de d. afonso de albuquerque, filho. nascido em 1501 era filho, natural e único, do grande afonso de albuquerque conquistador das partes da índia. com cinco anos de idade foi perfilhado por seu pai, com o nome de brás, legitimado a 26 de fevereiro de 1506. no mesmo ano, afonso de albuquerque, o grande, partiu para a índia, deixando o filho aos cuidados da sua tia paterna, d. isabel de albuquerque, casada com d. pedro da silva, o reles (de alcunha). a 15 de dezembro de 1515 afonso de albuquerque a caminho de goa, a bordo da nau flor da rosa, escreve ao rei d. manuel i, uma carta em que lhe dizia: “senhor, quando esta escrevo a vossa alteza, estou com um soluço, que é signal de morte. n’esses reinos tenho um filho, peço a vossa alteza, que m’o faça grande como meus serviços merecem que lhe tenho feito como minha serviçal condição, porque a elle mando, sob pena de minha bençam, que vol-os requeira (…).”146 . d. manuel, quando teve conhecimento da morte de afonso albuquerque e dos seus últimos anseios, ordenou, que brás de albuquerque entrasse no mosteiro de santo elói, a cujos cónegos confiou a sua instrução, fazendo-o trocar o nome pelo de seu pai afonso de albuquerque. pouco tempo depois, casa com dona maria de noronha, filha do primeiro conde de linhares, escrivão de puridade do venturoso, d. antónio de noronha. 146 albuquerque, afonso de – comentários do grande afonso de albuquerque. parte iv, capítulo xlv, citado por joaquim rasteiro (2003), p. 50. 78 senhor de uma grande fortuna, afonso de albuquerque, filho, dá início a uma brilhante carreira como cortesão, político e escritor. ainda antes de adquirir a quinta e palácio da bacalhôa, foi escolhido, conjuntamente, com fidalgos de boa estirpe para acompanhar a sabóia, a infanta d. brites, comandando um dos galeões. a frota ancorou, em nisa, porto do seu destino, a 29 de setembro de 1521, embora a entrada na corte só se tivesse realizado em maio de 1522. durante sete meses os fidalgos, que acompanhavam a infanta, visitaram várias cidades da itália da renascença, facto que viria a explicar o gosto das edificações de albuquerque, em portugal147 . após a aquisição da quinta da bacalhôa, em 1528 como atrás foi mencionado, afonso de albuquerque ordena grandes obras de remodelação, adaptando ao novo gosto artístico e conservando, apenas, as partes da construção antiga com algum interesse estético, designadamente, as torres circulares, de cobertura lobulada, que tal como sugere santos simões, lhe conferem um certo sabor manuelino148 . “foi durante a longa vida de afonso de albuquerque que o palácio de azeitão adquiriu a sua feição mais característica, sendo, sem dúvida, a primeira edificação civil portuguesa, mandada fazer por um particular, onde se patenteiam as formas arquitectónicas renascentistas e, diríamos, modernas.”149 a ampla campanha de obras, entretanto levada a cabo, teria findado por volta de 1554, como atesta o friso do portão principal, que dá acesso ao pátio do palácio, onde consta a seguinte inscrição: anno 1554 – alfonsus albuquercus alfonsi magni indorum debellatoris – sub joanne iii portugaliae rege condidit – anno mdliiii (afonso de albuquerque, filho do grande vencedor dos índios, edificou em 1554, reinado de joão iii). por esta altura, a bacalhôa estaria já em condições de receber ornamentação, e segundo escreve santos simões “(…) foi em sevilha que se forneceu de azulejos [afonso de albuquerque], escolhendo os desenhos mais recentes e originais, produzidos nas melhores oficinas de triana, alguns dos quais encomendados propositadamente.”150 . na verdade, já reynaldo dos santos151 havia comparado os 147 a casa dos bicos em lisboa, a qual afonso de albuquerque era, também, proprietário é um reflexo da cidade de ferrara, itália. 148 santos simões (1990), p. 70, evoca que estas torres “(…) semelhantes na forma da cobertura aos cubelos da torre de belém, teriam ainda feito parte do palácio de d. brites ou, talvez, de alguma obra do tempo da marquesa condestablessa.” afirmando, ainda, que “de facto, correspondem à parte mais antiga do palácio e foi precisamente em uma destas torres – hoje adaptada a oratório – que se encontraram os azulejos de tipo levantino (…)”, atrás mencionados. assim sendo, seria natural, que afonso de albuquerque na sua ânsia modernizadora tenha desaproveitado os tais azulejos pavimentares, provavelmente, muito antiquados para o seu gosto humanista. 149 santos simões (1990), p. 70 150 santos simões (1990), p. 70. 79 padrões da bacalhôa com os da casa de pilatos (sevilha), demonstrando que uma grande quantidade de exemplares idênticos, assim como os de beja, atestariam uma origem comum, proveniente das olarias de triana. das distintas inovações introduzidas por albuquerque, fazendo da bacalhôa um marco da arquitectura civil residencial portuguesa da renascença, não só ao nível do palácio, como dos jardins, – construção singular pela coerência entre o espaço interior e exterior, estabelecendo um todo no qual se conjugam princípios estéticos da expressão mudéjar e renascentista –, os ornatos de barro esmaltado, os medalhões e os azulejos, iriam acrescentar, também, uma importância angular. atendendo, ao propósito do presente estudo, analisaremos agora, o extenso património azulejar, que engrandece e singulariza a quinta e palácio da bacalhôa. do vasto conjunto, que testemunha a azulejaria hispano-mourisca de aresta, merecem especial atenção os diferentes revestimentos da escadaria de entrada152 e duas das divisões da apelidada casa do lago ou casa do prazer153 , por se distanciarem dos modelos convencionais produzidos em sevilha. de acordo com santos simões “independentemente dos desenhos ou padrões, o que imediatamente fere a atenção é a sua organização decorativa a qual vive da disposição diagonal dos azulejos, contrastando com a colocação normal, única conhecida em sevilha. não só a qualidade técnica é excelente como as composições dos desenhos revelam preocupações e requintes estéticos do mais puro renascimento.”154 colocando-nos do lado deste investigador, concordamos que estes azulejos só poderão ter sido elaborados em sevilha, aludindo à qualidade produzida por esse centro de fabrico. todavia, não nos abstraímos, do cuidado decorativo da colocação evidenciar uma nova visão de monumentalidade, muito ao gosto português. esta organização, inédita na andaluzia, poderá ter sido encomendada por afonso de albuquerque (filho), detentor de um excepcional sentido de equilíbrio e bom gosto. o revestimento mais decorativo e raro é, verdadeiramente, aquele que se encontra patenteado, em duas das referidas divisões da casa do lago155 . os da terceira divisão são azuis, verdes e melados, ainda que, os mais notáveis, sejam os da quinta divisão, aberta por cinco arcadas, como uma loggia, sobre o tanque e toda coberta por 151 reynaldo dos santos (1957), p. 51. 152 anexo viii – escadaria principal do palácio da bacalhôa. 153 este espaço arquitectónico é, também, conhecido por casa do fresco ou casa do tanque. 154 santos simões (1990), pp. 70-71. 155 anexo ix – planta esquemática da quinta da bacalhôa. santos simões (1969), estampa xxii. (adaptada) 80 grandiosas estrelas verdes, de oito folhas que quase se justapõem, prescindindo somente de pequenos intervalos com quadrifólios acastanhados e estrias azuis156 . este, invulgar padrão, colocado diagonalmente à maneira da azulejaria coeva, exibe um dos desenhos naturalistas mais sublimes e com coloração mais eficaz de toda a padronagem da época. menos raras, são as placas que envolvem a porta deste compartimento, servindo de rodapé, e apresentando uma excelente composição de ornatos renascentistas realizada com azulejaria de aresta. o conjunto de azulejaria sevilhana, que teve um especial destaque nas remodelações entre 1528 e 1554, é representativo da padronagem com motivos renascentistas dos mais tardios na azulejaria de aresta, datados do segundo quartel do século xvi. “totalmente distintos dos revestimentos mudéjares de sintra ou das combinações de motivos usadas em coimbra, os forros da quinta da bacalhôa apresentam uma monumentalidade e modernidade resultantes da utilização de um único modelo em cada parede e da inovadora colocação diagonal dos azulejos.”157 efectivamente, ao analisarmos os vários padrões de azulejos mudéjares da bacalhôa verifica-se, que domina a aresta, e já em padrões do renascimento. embora, tenhamos mencionado aqueles que se destacam pela sua peculiaridade e magnificência, actualmente, é ainda possível, observar outros exemplares distribuídos pela quinta, sobretudo, no tanque do pátio de entrada; nas molduras de algumas portas e janelas; nos alegretes; nas faixas sobre o tanque (junto à casa do lago), e em alguns bancos do jardim. as diversas estruturas arquitectónicas descerradas pelo jardim foram, minuciosamente, relatadas por joaquim rasteiro, descrevendo-as do seguinte modo: “do lado do muro estes alegretes são a espaço interrompidos por cadeiras de alvenaria revestidas de azulejo; do lado opposto, também a distâncias certas, há uns cubos mais elevados para plantas de maior porte. o azulejo d’estes cubos é sempre de quantidade superior ao dos alegretes, variando no desenho e todo de relevo. entre cubo e cubo e entre cadeira e cadeira, nos pannos de cada alegrete encontram-se quatro formosos azulejos de relevo, assentes em diagonal: são dos mais apurados no gosto, no desenho, nas tintas e no esmalte. o fundo d’estes azulejos é branco, os desenhos folhas e flores de phantasia, e nuns aparecem uns fructos, que na forma se aproximam da romã. os desenhos são combinados para quatro azulejos”158 . os padrões enumerados, com 156 anexo x – revestimento decorativo da terceira divisão da casa do lago. 157 josé meco (1993), p. 191. 158 joaquim rasteiro (2003), pp. 31-32. 81 ramalhetes de romãs dentro de um medalhão de tons azuis e acastanhados, reproduzidos em diferentes alegretes159 , foram identificados, também, por reynaldo dos santos, como idênticos aos da casa de pilatos160 . outros padrões, inconfundivelmente renascentistas, integram os canteiros corridos, que ladeiam o muro limítrofe da quinta, a poente, em direcção à casa da índia. este caminho, designado “caminho da índia”, é ornado por alegretes revestidos a azulejos de aresta, e canteiros corridos de composições de xadrez, dispostos na diagonal, englobando pequenos apontamentos renascentistas, normalmente constituídos por quatro azulejos sevilhanos de aresta. intercalando, os canteiros, encontramos bancos, igualmente, guarnecidos de azulejos de padrão enxadrezado, enquadrados por bordaduras rectilíneas, obtidas por tarjas da mesma natureza e coloração dos azulejos161 . as composições de xadrez, obtidas através da alternância regular de ladrilhos de duas cores, orientadas em diagonais, são visíveis noutras zonas do jardim, principalmente, na alameda a sul. um aspecto curioso da azulejaria da bacalhôa, em tempos lembrado por santos simões162 , é o guarnecimento da parede que limita o tanque a poente. sendo perceptível que se iniciou por eleger azulejos de aresta, muito presumivelmente uma última encomenda de sevilha, o padrão foge da gramática habitual. talvez porque não fossem suficientes para perfazer a ornamentação ou porque se tenha resolvido repetir o mesmo desenho em azulejo pisano, são desta última técnica alguns “remendos”, indiciadores de insipiências técnicas manifestas na imperfeita fixação das cores163 . sobre este assunto, santos simões questiona se teriam sido verdadeiros ensaios e daí resultarem as primeiras tentativas de pintar com cores de pisa. não sugerindo porém uma resposta à sua interpelação, a realidade é que encontramos, no primeiro compartimento da casa do lago, um esquema ornamental praticamente idêntico, embora irrepreensível nos contornos e na fixação das cores. perante os factos, anteriormente expostos, podemos afirmar, que estes tipos de azulejos sevilhanos foram os últimos, que se instituíram em portugal, rematando o ciclo do azulejo mudéjar164 . 159 anexo xi – padrão com ramalhete de romãs. 160 ver a este propósito reynaldo dos santos (1957), p. 50. 161 anexo xii – revestimento do caminho da índia. 162 santos simões (1990), p. 104. 163 anexo xiii – revestimento da parede oeste do tanque. 164 santos simões (1990), p. 71, afirma, ainda, que “ (…) mesmo sob o ponto de vista técnico, notamos em alguns azulejos, certas discrepâncias dos sistemas ortodoxos da “aresta”. as cristas parece já não terem a função de separar os esmaltes mas apenas o de conferir o “relevo” e valor plástico da decoração. na verdade nota-se que os esmaltes cobrem essas “arestas” como se tratasse de pintura. a percentagem de estanho é cada vez maior, o que leva a crer que a técnica dos esmaltes plumbíferos – que 82 no anseio de dotar a sua casa com um carácter moderno, muito próprio do renascimento, afonso de albuquerque decide colocar azulejos de superfície plana, antepondo-os aos de aresta, sendo na bacalhôa, que iremos encontrar os primeiros exemplares de azulejos pisanos, muito provavelmente, produzidos em lisboa. sendo o “novo” azulejo um ladrilho plano, mais simples e de coloração mais suave, adaptava-se melhor à arquitectura das “villas”. como testemunha santos simões “os mensageiros desse novo gosto decorativo para espanha e para portugal haveriam de dar o golpe de misericórdia na azulejaria da tradição mourisca. poderia afonso de albuquerque ter importado esses novos azulejos directamente da flandres ou mesmo de sevilha, onde já se fabricavam, mas julgamos que preferiu tentar o recurso aos “malegueiros flamengos” de lisboa. de facto, a análise dos azulejos “pisanos” da bacalhôa revela características técnicas e artesanais que os afastam dos tipos conhecidos daqueles centros cerâmicos, espanhóis ou flamengos, dando mostra de originalidade bem deferenciada”165 . o mesmo investigador acrescenta, ainda, que na complexidade da azulejaria presente na bacalhôa, dever-se-á fazer uma distinção entre os exemplares destinados à decoração abstracta – tapetes de padronagem de repetição – e aqueles que formam “quadros” ou painéis historiados. no conjunto de azulejaria de padronagem (“tapetes”), podemos considerar: os de modelo pisano, que equivalem a tipos comuns de produção flamenga (antuérpia), tendo sido levados para a holanda e sevilha, comportando algumas variações fruto dos tempos, e que neste caso específico, teriam sido produzidos pelos tais ceramistas flamengos entretanto estabelecidos em lisboa; o revestimento parietal das três divisões de menor dimensão da casa do lago e da casa da índia, constituindo quatro padrões diferentes, ainda que, todos de esquemas radiais e apresentando as mesmas cores: azul, amarelo-claro, verde de cobre, roxo e/ou ocres de manganês; e os dois padrões de desenhos vegetalistas estilizados, patenteados na loggia do palácio, a poente, numa pequena sala utilizada como biblioteca e num banco de jardim. no compartimento central da casa do lago, a disposição dos azulejos na diagonal salienta o resultado caleidoscópio das formas cristalinas, levemente aligeirado por elementos fitomórficos, em que os tons claros de amarelo, verde e azul, combinam justificava a necessidade das separações da corda seca e da aresta – começava a ceder o passo à pintura cerâmica dta “pisana”, ou seja, sobre o azulejo plano.” 165 santos simões (1990), pp. 102-103. 83 harmoniosamente com o fundo branco. os rodapés constituídos por dois azulejos, também de fundo branco, são de traço fino, à maneira ítalo-flamenga. perante esta diversidade no conjunto de azulejos de padronagem, santos simões afirma que se pode separar em duas encomendas, cronologicamente distintas: “(…) uma primeira, cerca de 1560-1565, para a azulejaria da “casa do lago” e da “casa da índia” e outra um pouco mais tardia (1570?) para os padrões da loggia e biblioteca. tal diferenciação é acusada pelo tipo de pintura e espírito decorativo, mais livre no segundo grupo, ainda que tecnicamente menos perfeito.”166 . faz parte dos azulejos de padrão, que o investigador atribui a uma primeira encomenda, um painel policromo (branco, azul, amarelo, verde e manganês), patenteado num dos cubelos cilíndricos com cúpula gomada, localizado na zona nascente da vinha167 . exemplo de um dos primeiros fabricados em lisboa, em técnica de majólica, revela um compromisso do gosto entre a nova técnica e os ritmos radiais geometrizantes de motivos entrelaçados de persistência mudéjar, produzidos em sevilha. o padrão é formado a partir de um módulo de 2x2 azulejos, permitindo uma alternância de dois centros de rotação, estabelecendo um eficaz diálogo entre a rigidez dos motivos geométricos e a organicidade dos fitomórficos e uma alternância entre centros claros e escuros168 . integrando a decoração “atapetada”, albuquerque encomendou painéis historiados, que ostentam figurações mitológicas ou bíblicas. os mais admiráveis encontram-se na divisão central da casa do lago, nomeadamente: a cena do rapto da hipodémia169 , a alegoria ao rio tejo170 e a cena de susana surpreendida pelos velhos171 . com frisos clássicos, de cor azul, e dimensões idênticas, de 8x14, apenas o último painel se encontra completo. o rapto da hipodémia, apesar de muito truncado, trata-se de um notável exemplar, quer pela qualidade do desenho, quer pela qualidade da pintura. realizado sobre uma gravura de enea vico, datada de 1542172 , é representativo da primeira fase de 166 santos simões (1990), p. 104. 167 alguns destes cubelos cilíndricos de cúpula gomada, que delimitam a vinha, possuem, no interior, um pequeno altar de pedra, o que poderá significar terem pertencido a uma via-sacra. 168 anexo xiv – imagem esquemática de localização das capelas da quinta da bacalhôa. 169 anexo xv – painel de azulejos com representação do rapto da hipodémia. 170 anexo xvi – painel de azulejos com representação da alegoria ao rio tejo. 171 anexo xvii – painel de azulejos com representação da cena susana surpreendida pelos velhos. 172 de acordo com as informações do art institute of chicago, que tem a seu cuidado uma estampa, o título original desta obra de enea vico é battle of the lapiths and centaurs, sendo esta, uma designação, que ainda, presentemente, surge como alternativa ao the rape of hippodamia. anexo xviii – gravura da autoria de enea vico, intitulada battle of lapiths and centaurs, ou the rape of hippodamia. 84 produção portuguesa de azulejaria erudita, fortemente influenciada pela hispano- flamenga. este painel, conjuntamente, com a cena de susana surpreendida pelos velhos, apresenta de forma didáctica os apreciados temas do desejo proíbido e do contraste entre a juventude e velhice, o primeiro sob o ponto de vista bíblico e o segundo através da mitologia grega, conforme o decorum do estilo tardo-renascentista. estabelecendo a relação com o programa pictórico da grande loggia do palácio, como adiante veremos, surge a alegoria ao rio tejo, inspirado, também, em gravuras flamengas majestosamente utilizadas como ornatos em mapas ou panorâmicas de cidade. dos três, este é aquele, que se encontra em condições de conservação mais preocupantes, permanecendo, apenas, uma pequena parte do painel e muito fragmentada. relativamente à cena de susana surpreendida pelos velhos, santos simões afirma que o painel “(…) é feito segundo uma estampa de aeneas vico, reproduzindo o célebre quadro de ian metzijs que se guarda no museu de bruxelas.”173 . todavia, como constata ana paula correia “(…) não existe similitude alguma entre o quadro de bruxelas (nº de inventário 2548, nºde negativo 117367 b) e os azulejos da bacalhôa a não ser o tema em comum.”174 , salientando a autora, que o referido quadro está datado de 1567, ou seja, dois anos mais tardio que os azulejos em questão, e ano de morte de enea vico. porém, o presente painel, inspirado numa das passagens do antigo testamento é, indubitavelmente, fruto de uma gravura. atendendo à sua datação, alvitramos como possíveis fontes de inspiração as obras do conhecido bernaert van orley ou de georg penez, o primeiro com um desenho de cerca de 1530 e o segundo com uma gravura de cerca de 1532, ambos os trabalhos intitulados susanna and the elders175 . os compartimentos da casa do lago, que ladeiam a divisão central, encontram- se revestidos de azulejos de aresta, pese embora, no passado tivessem, também, incorporado painéis cerâmicos de majólica. os do segundo compartimento, desapareceram na totalidade, resistindo apenas o alvéolo; o do quarto compartimento, na parede do fundo, apresenta hoje uma cópia produzida no século xix, do painel original, que ostentava uma composição heráldica com as armas dos albuquerques176 , em tons azuis, verdes, amarelos e brancos, descrita por joaquim rasteiro como “(…) montagem das partes existentes do painel alusivo ao rapto da hipodémia, sobre a gravura da autoria de enea vico. 173 santos simões (1990), p. 105. 174 correia, ana paula – “contribuição para o estudo das fontes de inspiração dos azulejos figurativos da quinta da bacalhôa”. in azulejo nº2, museu nacional do azulejo, lisboa, 1992, p.11. 175 anexo xix – obras alusivas ao tema susana surpreendida pelos velhos. 176 anexo xx – composição heráldica com as armas dos albuquerques. 85 n’um escudo de forma muita caprichosa, envolvido em ornatos de enrolados, género de cartoccio typico do auctor, decorado com duas cabeças de satyros. o escudo é esquartelado, como o do portão meridional do pateo. no primeiro e quarto quartéis as armas do reino com oito castellos na orla, esta roxa, certamente porque o fogo alterou o vermelho, aquelles amarellos, as quinas azues em campo branco, no segundo e terceiro quartéis cinco lizes amarellos em aspa sobre campo azul.”177 . no conjunto da azulejaria figurativa, mas ainda, na casa do prazer são notáveis as guarnições dos rodapés. de facto, inicialmente, todas as salas possuíam azulejamento nas paredes, sendo limitado em baixo por um rodapé e em cima por um friso, ambos de azulejos. hoje restam as barras inferiores, em dois dos compartimentos, sendo que, dos frisos superiores subsiste, apenas, o testemunho de joaquim rasteiro que, aludindo ao primeiro compartimento relata: “n’este pavilhão distinguem-se pela belleza as duas tarjas, que no rodapé e junto ao tecto limitam o azulejamento das paredes; são pintadas em quandrangulos de 0,27x0,135m. a tarja superior representava um ininterrupto panorama de montes, castellos, habitações, riachos, a que dão vida creanças que jogam, brincam, banham-se, que se occupam em variados misteres, ou em infantis folgares. a tarja inferior é uma delicadissíma composição de flores de phantasia, rematada nos ângulos da casa e nos cunhaes das portas e janelas por meios corpos phantasticos de homens ou mulheres, que num capricho do desenho fez sair da extremidade de um ramo, ou da corolla de uma flor.”178 . formado por placas rectangulares, este rodapé patenteia uma série de groteschi, ostentando ramagens cujas flores originam esfinges, crianças a tocar flauta e personagens femininos alados, certamente, provenientes das gravuras de cornelis bos, que evoca elementos congéneres179 . ana paula correia180 atesta, que apesar de não se conhecerem gravuras de cornelis bos conservadas no nosso país, a sua influência nas artes plásticas portuguesas começa a ser um facto bem conhecido. acrescentando, que a partir de 1551, o grotesco neerlandês e sobretudo as estampas de bos surgem na iluminura, na escultura, na ourivesaria, mas sempre em obras de qualidade excepcional, encomendas de reis ou de bispos cujo nível cultural exige este novo tipo de imagens, que simultaneamente recordam a erudição do passado e uma interpretação gráfica moderna, quase de avant-garde. 177 joaquim rasteiro (2003), p. 34. 178 joaquim rasteiro (2003), p. 34. 179 anexo xxi – azulejos de rodapé com decoração de grotescos. 180 ana paula correia (1992), p. 13. 86 na obra de sune schèle181 são dadas a conhecer algumas gravuras de cornelis bos, entre as quais, algumas pertencentes às séries de grotescos gravados em roma, no ano de 1548182 . nas estampas patenteadas surgem personagens femininos cuja parte inferior do corpo é vegetal e crianças que saem da corola de uma flor, muito semelhantes aos pintados nos rodapés. contudo, admitimos a hipótese, do autor dos azulejos não ter tido acesso à estampa original, tendo trabalhado com base numa cópia, que ao longo do tempo foi sofrendo alterações. tal consideração advém do facto dos personagens assumirem características mais humanas, evidenciando os seres femininos mais realismo, apresentando-se torneados e com cintura definida, enquanto, os meninos patenteiam cabelos loiros e encaracolados. relativamente às esfinges, estamos em crer, que o pintor ceramista tenha, também, recorrido a uma estampa atribuída a cornelis bos, datável entre 1516 e 1556183 . todavia, embora existam analogias formais, especialmente, na configuração do peito e no realismo meticuloso da face, o entendimento das esfinges da bacalhôa é desigual, pois como cauciona ana paula correia, as figuras “(…) dispostas aos pares como um casal, parecem conversar, sorridentes, e de um modo tão natural que quase nos esquecemos do aspecto monstruoso dos personagens. o carácter fantástico e quase diabólico das gravuras neerlandesas desapareceu praticamente, anunciando as composições de grutescos do século xvii, em que todos os elementos se libertam da estrutura e do espírito primitivos (…)”184 . quanto, a este aspecto, tenhamos em consideração, que a identificação rigorosa das fontes usadas em muitos conjuntos azulejares é dificultada pelo número elevado de reproduções gravadas de obras dos principais mestres europeus e frequentemente feitas por outros artistas, bem como, as diferentes reedições, contrafacções e variantes. multiplicaram-se cópias, quer reproduzindo fielmente originais gravados, quer já com pequenas alterações, amputações ou aditamentos. não esquecendo, ainda, que se aproveitaram de muitas gravuras, apenas, trechos ou pormenores de figurações. a par destas questões, é importante relembrar, que os pintores portugueses, divergindo dos holandeses, que reproduziam as gravuras com grande fidelidade, apostaram numa vertente de cópia criativa, fazendo adaptações admiráveis dos modelos e das fontes de inspiração às 181 schèle, sune – cornelis bos, a study of the origins of netherland grotesque. estocolomo, 1965. 182 anexo xxii – gravuras de cornelis bos com decoração de grotescos. 183 datação atribuída pelo rijksmuseum, amesterdão. anexo xxiii – ficha de inventário do rijksmuseum, relativa à gravura de cornelis bos. 184 ana paula correia (1992), pp. 15-16. 87 necessidades decorativas do azulejo e aos mais variados espaços arquitectónicos, criando obras que podemos considerar originais185 . em relação a estes azulejos, patenteados no rodapé da primeira sala da casa do lago mantém-se, ainda, uma incerteza: quem terá sido seu autor? de que se tratava de um exímio mestre na arte do desenho e do cromatismo não temos dúvidas. a qualidade do traço delicado; o contorno fino e sem hesitações; a selecção e mistura subtil das cores, obtida através do revezamento de pinceladas mais ou menos líquidas, auferindo diversos tons; e a diversificação cromática dos elementos que compõem o conjunto, denunciam a mão de um experiente artista. em 1895, joaquim rasteiro refere que se trataria de um matos, salientando que esse apelido estava inscrito numa cartela, a qual descreve minuciosamente. “é no centro d’esta cercadura, na parede do fundo, que n’um cartoccio está o nome do auctor da composição, e que se para evitar repetições lançou aqui um traço de união para reconhecimento dos seus trabalhos, que no azulejamento abundam. repare-se na forma do pequeno cartoccio que contém a palavra matos, e ver-se-hão reproduzidos os seus traços no emmoldurado escudo de armas da loggia occidental, o mesmo se dá nos dois rios da loggia do palácio da que olha o jardim.”186 . pormenorizou mesmo que, quer antes, quer depois desse nome, figurava um pequeno ornato semelhante aos que procedem as designações dos rios. passados três anos sobre o trabalho de joaquim rasteiro foi publicado o suplemento, feito por a. blanc, embora, o elenco de desenhos exiba, somente, metade da cartela e as últimas três letras do apelido do autor (tos)187 . é a partir do desenho da meia cartela, que santos simões se interroga sobre o nome a que diriam respeito estas três letras. após pesquisa, concluiu que apelidos portugueses terminados em tos apenas ocorrem em bastos, matos e santos. um fragmento encontrado por manuel frango de sousa188 , em 1992, e que fora recolhido e guardado devotamente por mrs. orlena scoville, veio acrescentar a 185 no processo de cópia e da utilização da gravura na pintura do azulejo convém salientar a distinção dos diferentes modos utilizados e analisar qual a atitude que está na origem da cópia. temos assim, a cópia fiel (fidelidade), onde a personalidade do sujeito produtor está ausente, dispondo-se transportar e decalcar o seu modelo na íntegra e a cópia-transformação, ultrapassando uma tradução servil, alterando o modelo segundo uma operação de discernimento e gosto, com maior ou menor criatividade. a este propósito, ver: begemann, haverkamp – creative copies. new york, 1988. 186 joaquim rasteiro (2003), p. 34. 187 anexo xxiv – desenho da autoria de a. blanc, com metade de cartela. joaquim rasteiro (2003), estampa xxxvii. 188 manuel frango de sousa nasceu em 1929, em torres novas. pároco de azeitão desde 1963, dedicou- se à arqueologia, tendo organizado um museu de peças arqueológicas, recolhidas naquela zona. fez pesquisa histórica sobre azeitão e dedicou particular atenção à quinta da bacalhôa, completando, e por vezes rectificando, alguns estudos, através de uma criteriosa e persistente investigação. 88 esta contenda algumas certezas, no que ao apelido do autor dos azulejos, diz respeito. exibindo algumas letras de cor azul, um traço horizontal largo, igualmente azul, abaixo das letras, e um pedaço de cor amarela sob este traço, o fragmento tem, ainda, uns pontos pequenos pintados à direita das letras189 . analisando, escrupulosamente, manuel frango de sousa descobriu que “(…) as letras pareciam ser um i, um v, um i, e metade de um a, o que dava ivia. estudando melhor o fragmento de azulejo, vimos que ivi é, afinal, a parte debaixo de um m, e a restante letra é mesmo metade de um a. tínhamos, pois, encontrado um pedaço de azulejo com as letras ma. fomos comparar o fragmento com o desenho de a. blanc, recompusemos a totalidade do azulejo e verificamos que o pedaço encontrado pertencia à metade que faltava. comprovamos ainda que as letras são do tamanho das que se encontram nos painéis dos rios, identificando-os. o nome matos era desenhado em azul, encontrava-se dentro de uma moldura oval, de traços grossos e simples, também azul, que se prolongava lateralmente por dois espigões. (…) antes e depois do nome estava um pequeno ornato semelhante ao que se segue aos nomes dos rios, nos painéis das alegorias.”190 . tendo francisco de matos assinado os painéis da igreja de são roque, em 1584, é instintivo, que se associe ao matos da bacalhôa. contudo, a diferença cronológica de 19 anos (visto os azulejos da quinta da bacalhôa estarem aliados ao cronograma de 1565), bem como, a disparidade morfológica e técnica, detectada por santos simões, parecem contrapor uma identificação entre os criadores das duas obras. teixeira de carvalho, virgílio correia e reynaldo dos santos foram alguns dos investigadores, que expuseram argumentos para explicar a relação entre francisco de matos e os azulejos da bacalhôa e de são roque, ainda que, nunca tenha passado de possíveis hipóteses. conforme explica santos simões191 será a descoberta de um pintor com o mesmo apelido – marçal de matos, provavelmente avô de francisco – dado como “pintor”, e ainda, com relações próximas aos ceramistas flamengos, justamente em 1575, que trarão mais uma achega para a elucidação da azulejaria da bacalhôa e aos primórdios do fabrico de azulejos em portugal. 189 anexo xxv – fragmento de azulejo contendo parte da assinatura – ma. sousa, manuel frango de – “os azulejos da bacalhôa e o seu autor”. in azulejo nº2, museu nacional do azulejo, lisboa, 1992, p. 20, fig.2. 190 manuel frango de sousa (1992), p.21. anexo xxvi – reconstituição da cartela com assinatura do autor, in manuel frango de sousa (1992), p. 21, fig.3. 191 santos simões (1990), pp. 106-107. 89 apesar das várias conjecturas, sobre o autor que assinou matos, no rodapé da sala de entrada da casa do lago, permaneceremos sem saber se seria marçal, francisco, ou até, um outro pintor de azulejos, com o mesmo apelido. o último compartimento da casa do lago está, também, ladeado por um rodapé com os “grostechi”, ostentando libélulas e macacos192 . devido à sua magnificência cromática, neste friso tudo parece distinto e original, quando na realidade os mesmos motivos surgem invariavelmente e na mesma sequência. à semelhança dos exemplares do primeiro compartimento, o verdadeiro valor destes azulejos está na qualidade do traço e da pintura, na criatividade cromática e na unidade dinâmica do conjunto. testemunhando, ainda, este tipo de gramática ornamental, representada nos rodapés da bacalhôa, a introdução dos motivos grotescos na azulejaria. inteirando os azulejos ornamentais, composições formadas por aglomerações livres e variadas de ornatos, encontramos na quinta da bacalhôa vários figurinos. no acanhado pátio de acesso à casa do lago estão pequenos grupos de azulejos deste tipo com diversa figuração de grotescos193 . esta excepcional e requintada composição maneirista de inspiração flamenga, produzida em lisboa no terceiro quartel do século xvi, exibe painéis centrados, ora por um vaso florido, ora por uma cartela marmoreada, com figuras de faunos nos cantos, presos ao remate dos painéis, numa ambígua criação acentuadamente maneirista. santos simões194 assegura, que pertencem forçosamente ao mesmo autor dos rodapés, atrás mencionados, tendo feito parte da mesma encomenda. ao inverso da tendência preponderantemente pictural dos painéis figurativos, o cunho mais decorativista destas composições tornou-as particularmente habilitadas a cumprirem papéis menos particularizados, mas equitativamente eminentes nos encadeamentos arquitectónicos, facultando aos pintores uma colossal diversidade de expressões e flexibilidade nas composições. por outro lado, o seu interesse foi engrandecido, pelo facto, de composições deste tipo servirem muitas vezes de rodapé a diversos guarnecimentos e de suplemento, ou enquadramento a painéis figurativos, numa grandiosa variedade de meios e de resultados. josé meco, a par de outros investigadores, alude para o facto da génese das composições ornamentais ter-se processado “(…) paralela e simultaneamente à dos painéis figurativos, como consequência igualmente das possibilidades criativas 192 anexo xxvii – rodapé com decoração de grotescos, ostentando libélulas e macacos. 193 anexo xxviii – rodapé com decoração de grotescos. 194 santos simões (1990), p. 106. 90 permitidas pela pintura sobre o esmalte estanífero branco. são exemplos iniciais notáveis os frisos e outras partes ornamentais, com elaborados motivos renascentistas italianizantes, usados por francesco niculoso nas obras criadas em sevilha no primeiro quartel do século xvi (…)”. sendo que, “(…) este tipo de decoração desenvolveu-se em meados do século, como consequência do ascendente decorativo flamengo. os ceramistas da flandres, que implantaram definitivamente as técnicas da pintura sobre esmalte estanífero nos centros de produção peninsulares, introduziram também a nova linguagem maneirista flamenga, nomeadamente os grottesche e as composições de ferronerie, que renovaram a gramática ornamental do renascimento italiano.”195 . na verdade, o recurso a modelos maneiristas na azulejaria possibilitou excepcionais e eruditas composições, durante a segunda metade do século xvi, como atestam os exemplares do pequeno átrio, que dá entrada para a casa do lago. a loggia do lado ocidental do palácio, voltada para o labiríntico jardim de buxo, tem um revestimento de azulejos até 1,72m de altura. incluídos neste tapete cerâmico, de desenho em azul, amarelo, verde e castanho, sobre fundo branco, vêem-se cinco painéis, de 7x13 azulejos, cada, com alegorias de rios196 . ostentando os nomes: dovro, mondegvo, wilo, evphrates e tanvbio, são representados com ânforas, que brotam água em posições “miguelangelescas”, enquadrados por cartelas maneiristas de inspiração flamenga. conforme josé queirós a cartouche, correspondente a cada uma das recostadas figuras, é “(…) de desenho muito parecido com o de alguns trechos dos alizares da capela de s. roque.” 197 . contrariamente, ao que diz theodor rogge no ensaio intitulado keramik und decoration in portugal, e publicado como suplemento na monografia de joaquim rasteiro, não cremos, que estas alegorias sejam “(…) tudo obra de mão de verdadeiro artista e de inexcedível brilho e magnifico effeito.” 198 . colocamo-nos, antes, do lado de santos simões199 ao afirmar, que nem todos estes painéis terão sido pintados pelo mesmo artista. a constatação de uma nítida diferença de qualidade entre eles, acusando o trabalho de dois artífices, um melhor e mais seguro, e outro de menores recursos artísticos, leva este investigador a concluir, que se trataria de uma oficina empregando um “mestre” e, pelo menos, um “ajudante” ou “aprendiz”. na realidade, observando, 195 josé meco (1993), pp. 113-114. 196 anexo xxix – painéis figurando alegorias aos rios. 197 josé queirós (1987), p. 206. 198 joaquim rasteiro (2003), p. 93. 199 santos simões (1990), p. 106. 91 atentamente, as alegorias verificam-se algumas diferenças, nomeadamente, ao nível do desenho, de que é exemplo notório, o painel com personificação do rio eufrates. aqui, o traço fino e delicado, bem como, o trabalho de sombreado, marcam a diferença em relação aos restantes. quanto aos rios seleccionados, dois portugueses e três simbolizando a europa, a áfrica e a ásia, julgamos tratar-se de uma alusão ao êxito dos navegadores portugueses, que nessa época levaram o país a um lugar cimeiro na europa. contribuindo para esta teoria, o facto da família do encomendador ter cooperado decisivamente nesse sucesso, visto que o proprietário, à data, era filho de afonso de albuquerque, o grande, conquistador das partes da índia. ao grupo de azulejos com inferiores recursos artísticos pertence a ornamentação de um alegrete cujo espaldar representa um rapto de europa e, na parte inferior, uma composição ornamental composta por máscaras e adereços arquitectónicos de inspiração flamenga, repetidos linearmente200 . segundo ana paula correia, para a realização do painel superior, “(…) o artista inspirou-se directamente numa gravura sobre madeira de virgil solis, realizada para ilustrar a edição das “metamorfoses” de ovídio publicada em 1563 por johan spreng e utilizada novamente em 1581 como ilustração da “emblemata” de nicolas reusner. esta gravura de virgil solis não é uma gravura original. solis limita-se a interpretar uma gravura sobre madeira de bernard salomon, destinada a ilustrar as “metamorfoses” impressas em lyon por jean de tournes em 1557. as “metamorfoses” de ovídio ilustradas por bernard salomon e editadas por j. de tournes em várias de línguas tornaram-se uma das principais fontes de inspiração da majólica italiana na segunda metade do século xvi. (…) nos azulejos da bacalhôa são pequenos pormenores que nos levam a pensar que o seu autor teve como modelo a versão de virgil solis. o véu de europa e a cauda do touro são iguais à versão de solis e nos azulejos.” 201 . é muito provável, que as estampas de solis tivessem chegado a portugal através de christophe plantin202 . 200 anexo xxx – painel de azulejos com a cena alusiva ao rapto da europa. 201 ana paula correia (1992), pp. 10-12. anexo xxxi – o rapto da europa. gravura sobre madeira de virgil solis. 202 a partir de 1550, christophe plantin afirma-se como impressor e negociante de estampas, colaborando para a difusão dos grotescos de jacques androuet du cerceau e de séries ornamentais de floris, cornelis bos e vredeman de vries. prosperando, por essa altura, um comércio extraordinariamente fecundo entre plantin e j. cock, sobretudo de livros de sepulturas, perspectivas, ornamentos e cartelas, colecções de gravuras de cunho histórico ou mitológico. muitas destas estampas tinham como destino a exportação e propagação na península ibérica, particularmente, através de benedictus arias montanus (ver a este propósito: delen, a. j. j. – histoire de la gravure dans les anciens pays-bas et dans les provinces belges. (deuxième partie) les graveurs d’estampes. paris, 1935, pp. 150-159 e voet, l. – “christophe 92 o rapto de europa, como todas as representações promovidas pelo texto das metamorfoses, foi extraordinariamente prezado no século xvi, levando-nos a considerar, que o autor da bacalhôa estaria, completamente, inteirado do entendimento cultural da sua época ao fazer uso das gravuras, suas contemporâneas. sendo este um tema de figuração profana mitológica, fusão de fábula moralista e conto imaginário, concede ao artista variadas faculdades de criação. como atesta, ana paula correia203 , no caso particular da quinta da bacalhôa, o pintor “foge” ao carácter moralista de ovídio e adequa a imagem ao local a que esta se destinava, ou seja, o jardim de um palácio, sítio de repouso e deleite. a europa abandona a sua feição cândida e reservada das gravuras de salomon e de solis e desponta como um ser voluptuoso, iconograficamente mais próximo de vénus. com o espaço organizado em diagonal vemos, no triângulo inferior direito, as companheiras de europa, que ficaram em terra, sendo a outra parte do painel ocupada pelo mar, no qual europa inicia a sua travessia, segurando com a mão direita um dos chifres do touro. depois de analisarmos a azulejaria figurativa da bacalhôa, podemos concluir que, tal como sucedeu nos azulejos de padrão, também para estes, houve um escalonamento em tempo. assim, os painéis e rodapés da casa do lago, marcados pelo cronograma 1565 e as ornamentações dos alegretes do pátio, fizeram parte de uma primeira encomenda, ostentando produções de qualidade, acentuadamente, superior. no caso das alegorias dos rios, afiguradas na loggia, e os painéis do alegrete do rapto de europa, parecem pertencer a um segundo pedido, provavelmente, posterior e com um artista de segunda água204 . como vimos, o singular revestimento azulejar da quinta e palácio da bacalhôa, quer ao nível da azulejaria mudéjar, quer ao nível dos primeiros exemplares de azulejos pisanos, feitos em lisboa, datam da época de afonso de albuquerque. todavia, continuaremos, agora, com uma breve elucidação, dos subsequentes proprietários desta quinta-museu. apesar da união de afonso de albuquerque (filho) com d. maria de noronha terem nascido dois filhos – antónio, que morreu jovem, e d. joana de albuquerque, primeira mulher de d. fernando de castro, primeiro conde de basto, capitão-mor de plantin et la péninsule ibérique”. in christophe plantin et le monde ibérique, catálogo da exposição, musée plantin moretus, antuérpia, 1993, pp. 55-77). 203 ana paula correia (1992), p. 12. 204 são, igualmente, desta opinião os investigadores josé queirós e santos simões. 93 évora e que faleceu sem geração – o filho do grande, afonso de albuquerque, morre em 1581 sem deixar descendência. após prolongadas demandas judiciais a propriedade foi atribuída, em 1609, a d. maria de mendonça e albuquerque cujo marido, d. jerónimo manuel, tinha por alcunha “o bacalhau”, ao qual se relaciona a designação de “bacalhôa”, que passaria a fazer mais sentido, a partir da administração de d. francisca de noronha, em 1730. foi durante a permanência d. jerónimo manuel, detentor do morgado durante vários anos, que ocorreram reparações na quinta e palácio, muito provavelmente, continuadas pelo seu filho d. jorge, que também habitou o palácio, onde viria a falecer em 1651. estamos em crer, que o revestimento de um dos alegretes do “caminho da índia”, datável da primeira metade de seiscentos, será fruto dessas reformas. trata-se de um exemplar dos primeiros azulejos de padrão de fabrico português, com um módulo de quatro azulejos, identificado por santos simões como p-32. ostentando um fundo azul e amarelo, em alternância, com base no esquema da estrela e cruz, transporta um sentido decorativo oriundo das laçarias, de atavismo mudéjar205 . reforça a nossa hipótese, deste revestimento ter resultado das obras d. jorge, filho do “bacalhau”, a seguinte afirmação de joaquim rasteiro: “em 1623 ainda encontro residindo na quinta um joão real, ladrilhador, que aqui poderia estar na reparação do azulejamento.”206 . de proprietário em proprietário, a quinta chega ao século xix num péssimo estado de abandono. herdada, em 1853, por d. joão afonso da costa e sousa macedo e albuquerque, segundo conde de mesquitela – filho de d. luiz da costa e sousa macedo e albuquerque, primeiro conde de mesquitela, e d. maria ignácia de saldanha – o qual não dedica muita atenção à propriedade, deixando-a perto da ruína, como nos faz saber joaquim rasteiro “da sua casa foi um mau administrador; as suas propriedades rústicas ou urbanas distinguiam-se pelo desleixo total, e por se verem cair a pedaços.”207 . a 24 de setembro de 1890, morre com 75 anos e sem descendência, sucedendo-lhe na quinta, palácio e mais propriedades de azeitão o seu irmão d. luiz antónio da costa e sousa macedo e albuquerque. contrariamente, ao seu antecedente, o então proprietário, procede a uma reconstrução meticulosa. exemplo do seu cuidado é a série de aguarelas pintadas por a. blanc, em 1898. 205 anexo xxxii – primeiro alegrete do caminho da índia. padrão composto por um esquema de estrela e cruz, inspirado em laçarias. 206 joaquim rasteiro (2003), p. 31. 207 joaquim rasteiro (2003), p. 83. 94 no ano de 1903, d. carlos compra o palácio à família mesquitela. novamente vendido, pouco depois da proclamação da república, a propriedade volta a um estado deplorável de negligência208 . em 1937, uma senhora de nacionalidade norte-americana mrs. orlena scoville compra a quinta e palácio da bacalhôa. detentora de um gosto e sensibilidade invulgares inicia uma obra de salvamento e reconstrução, sem a qual esta propriedade não se encontraria nas condições actuais. estas importantes obras de restauro ficaram a cargo do arquitecto norte júnior e do engenheiro hidráulico santos simões. assim, após um percurso acidentado, e por vezes degradante, a bacalhôa, volta pelas mãos da benemérita mrs. scoville ao seu verdadeiro esplendor. thomas scoville, neto de mrs. orlena scoville e possuidor da quinta e palácio, põe o conjunto à venda em 1997. três anos mais tarde, a propriedade é adquirida pelo comendador josé berardo, actual proprietário. 208 relativamente, ao péssimo estado de conservação da quinta e palácio da bacalhôa, ver a descrição de raul proença, feita no início da década de 20. proença, raul – guia de portugal. vol. 1. lisboa, 1924. 95 parte ii – inventário e gestão da colecção capítulo i – o inventário 1. o inventário na museologia desde o advento dos primeiros museus que o homem procura armazenar e coleccionar os testemunhos materiais da sua presença na terra, aos quais atribui um sentido distinto, consentindo assim uma continuidade temporal que continuará para além da sua, relativamente, lacónica existência. o objecto museal atinge desta forma, na sociedade contemporânea, um significado de preciosidade, que é necessário salvaguardar e cujo estudo aprofundado facultará, às gerações futuras, e mesmo à nossa, alcançar um saber mais vasto da própria história da humanidade. os museus, enquanto repositórios por excelência destes testemunhos, têm então a enorme responsabilidade de adquirir, conservar, estudar e divulgar a cultura material209 , que têm ao seu cuidado, para que o conhecimento seja compreendido por um maior número possível de pessoas. contudo, para que o museu possa exercer a sua missão basilar com êxito, é condição fundamental que conheça previamente o seu património artístico que, em última análise, é o próprio significado da sua existência. cumprindo os seus propósitos, o museu teve que se munir de sistemas de classificação e registo dos bens culturais que têm vindo a ser alvo de constante desenvolvimento, acompanhando, de resto, as mudanças verificadas no campo dos estudos da museologia, bem como, e ainda com maior dependência, a evolução tecnológica do último século. na verdade, desde que irromperam os primeiros museus criaram-se sistemas de registo e classificação dos objectos relativamente simples, que teriam como objectivo o conhecimento dos bens existentes, compreendendo este procedimento uma forma elementar de os salvaguardar210 . todavia, com o desenvolvimento e democratização dos museus e com o progresso das ciências que se reúnem em torno destas instituições, percebeu-se a indispensabilidade da criação de sistemas de classificação e registo de 209 conforme a definição de museu do international council of museums, disponível em: http://icom.museum/statutes.html#2. 210 embora não se trate, especificamente, de um museu, recorde-se a título de exemplo, o que sucedeu após a extinção das ordens religiosas em portugal, em 1834, onde foram feitos, por cada convento extinto, arrolamentos dos bens existentes, dando especial destaque aos bens de carácter artístico, que hoje compõem, na sua maioria, as colecções dos museus tutelados pelo estado. 96 informação sobre as colecções que fossem para além do simples registo. a necessidade de registar para salvaguardar ainda se mantinha, como é axiomático, mas foram sendo criadas outras às quais foi, e é necessário, dar resposta. as experiências passadas, na área do registo e da documentação do património cultural, vem conferir aos objectos museais, o que atrás mencionámos, ou seja, uma importância capital, enquanto fonte de conhecimento, devendo ser tidos, cada vez mais, em consideração na construção e análise da história e compreensão do mundo, dado que contêm em si informação inestimável. importa saber procurar, registar e sistematizar os dados adquiridos nos diversos estudos efectuados, de forma a facultar a utilização desta informação para auferir uma melhor percepção do passado. neste ponto os museus assumem uma importância extrema, dado que é destes a responsabilidade de os estudar e divulgar e perceber o(s) seu(s) significado(s) dentro do tempo no qual foram utilizados e/ou criados. a importância do inventário, enquanto instrumento de preservação e segurança das colecções é reconhecida pelo icom como “(…) indispensable, for purposes of identification, protection, interpretation, and physical preservation of movable objects, (…)”211 . recorde-se, ainda, a proficuidade da inventariação, prevista na lei de bases do património cultural português “(…) o levantamento sistemático, actualizado e tendencialmente exaustivo dos bens culturais existentes a nível nacional, com vista à respectiva identificação”, salientando, o legislador, que o inventário abrange os bens independentemente da sua propriedade pública ou privada212 . a lei-quadro dos museus portugueses refere que todos os bens incorporados no museu são, obrigatoriamente, objecto de elaboração do correspondente inventário museológico213 . segundo, a mesma lei, entenda-se por inventário museológico “(…) a relação exaustiva dos bens culturais que constituem o acervo próprio de cada museu, independentemente da modalidade de incorporação.”214 , acrescentando ainda, que “o inventário museológico visa a identificação e individualização de cada bem cultural e integra a respectiva documentação de acordo com as normas técnicas mais adequadas à sua natureza e características.”215 . 211 icom, the importance of documentation in http://www.object-id.com/heritage/intro.html. 212 lei nº107/2001, de 8 de setembro, artigo 19º, nº1 e 2. 213 lei nº47/2004, artigo 15º, nº1. 214 lei nº47/2004, artigo 16º, nº1. 215 lei nº47/2004, artigo 16º, nº2. 97 considerando que o inventário tem por objectivo primeiro a identificação individualizada de cada uma das peças, a sua realização deverá ter em conta os princípios básicos de normalização internacionalmente adoptados no âmbito da museologia, embora, salvaguardando, as particularidades dos acervos e a vocação específica das diferentes instituições que os abrigam. assim, o inventário poderá ser mais ou menos desenvolvido consoante a natureza e características dos acervos, no entanto, existem campos obrigatórios, nomeadamente, número de inventário; nome da instituição; denominação ou título; autoria; datação; material; dimensões; descrição; localização; historial; modalidade e data de incorporação. associadas a estas informações, deverão constar todas as outras, que as complementam, quer sejam de carácter formal; histórico; artístico; iconográfico; simbólico ou contextual. a cada objecto museológico, deverá corresponder, pelo menos uma fotografia, essencial, ao reconhecimento dos mesmos. salienta-se, que sendo o inventário museológico um instrumento transversal de aprofundamento das práticas museológicas, enquanto ferramenta de gestão do acervo e documento de trabalho, deverá ser periodicamente revisto e actualizado, permanecendo constantemente em aberto, para o qual contribuirão, a investigação científica, o avanço tecnológico e a prática museológica. aos inventários manuais que proliferaram por diversos museus216 , associaram-se as vantagens da democratização da tecnologia, através da criação de hardware e software, a custos cada vez mais baixos e significativamente mais acessíveis, no que diz respeito à sua utilização por utilizadores não especializados. sendo a informatização dos inventários museológicos uma matéria relativamente recente, ela inscreve-se, como anteriormente foi mencionado, em práticas tão antigas como a existência dos museus que, desde de sempre, inventariaram, mais ou menos profundamente, as suas colecções. “por isso, há um legado adquirido que tem de ser utilizado, determinando, muitas vezes, particularidades de opções a considerar e, eventualmente, a valorizar.”217 todavia, as imposições próprias da informatização – que devem ser equacionadas paralelamente às da museologia contemporânea e às dos saberes técnicos e científicos das distintas 216 conhecem-se várias fichas de inventário, ou inventários parcelares, elaborados pelas mais diversas instituições, desde tempos remotos, geralmente simples elencos de peças ou, se mais preciosas, com alguns dados técnicos. 217 aa.vv. – normas de inventário. normas gerais. artes plásticas e artes decorativas. instituto português de museus, 2ª edição, lisboa, 2000, p. 7. 98 áreas das colecções – obrigam, hoje, a uma postura de supremo rigor conceptual, apontando a premência do estabelecimento de terminologias, glossários e thesauri de referência indubitável. como afirma hernández “cada museo, antes de iniciar el proceso de informatización de sus colecciones, tiene que realizar un estudio detallado del volumen de las mismas y de su naturaleza para pasar, posteriormente, a elaborar el programa de acuerdo com sus necesidades y objetivos.”218 . pensamos, ser do conhecimento geral, que os inventários dos museus e a sua informatização têm tido um desenvolvimento relevante na última década, potenciados pelo rápido crescimento e implementação tecnológica que coloca ao dispor, desta e de outras áreas do trabalho museal, um maior número de recursos e ferramentas219 . a modernização dos museus em todas as suas áreas potencia, também, um melhor cumprimento das suas funções, nomeadamente, as de protecção, salvaguarda, valorização e divulgação das suas colecções. neste contexto, a informatização dos inventários, a par da implementação de programas específicos para esse fim, estabelece um eixo estrutural da lei-quadro dos museus portugueses220 , que constitui uma referência no plano nacional. a aplicação informática, que aqui defendemos possibilitará às entidades museológicas, não só a facilitação e normalização do inventário, bem como, a inclusão de um conjunto de ferramentas visando a gestão integrada das colecções em contextos de actividades diversas, como a circulação de peças, organização de exposições temporárias, gestão de depósitos, entre outros. com a disponibilização de tais ferramentas e com a implementação de programas próprios, os museus irão dispor de instrumentos nodais de gestão da informação produzida e partilhada pelos seus vários sectores de actividade, e, como tal, em factor de rentabilização de trabalho e capitalização de conhecimentos e procedimentos em torno do património cultural. actualmente, o processo de inventariação é uma acção sistemática de carácter científico, englobando a totalidade de cada peça, em diferentes níveis de abordagem, de modo a permitir o seu conhecimento exaustivo. é um processo activo que não se fica na formação duma base de dados, mas que inclui e exige a sua gestão continuada e a sua dinamização. 218 francisca hernández hernández (1998), p. 157. 219 a utilização das tecnologias acarreta, normalmente, um melhor aproveitamento dos recursos humanos e do tempo utilizado nas suas tarefas diárias. 220 ver a este propósito o artigo 20º(informatização do inventário museológico) da lei nº47/2004. 99 2. antecedentes: inventário anterior num total de 609 exemplares, a colecção berardo encontra-se parcialmente inventariada em suporte digital. tendo dado início ao trabalho de inventário informatizado, em finais da década de noventa, a equipa adstrita a esta matéria, constituída por informáticos e por um técnico superior da área do património cultural, começou por analisar as várias aplicações informáticas, disponíveis no mercado. no entanto, após a análise de diversos programas, consideraram que a oferta, à época, era desajustada da realidade da colecção. para o efeito, foi desenvolvido pelo departamento de informática, um programa interno, terminado em 2002. o resultado foi uma aplicação informática adaptada à colecção, e flexível, na medida que permitia eliminar ou acrescentar campos, a qualquer altura. com o passar dos anos, o crescimento da colecção; a detecção de lacunas da ficha de inventário, então desenvolvida; a escassez de preenchimento de novas fichas; a evolução do conceito de “inventário” e “gestão de colecções”; e o desenvolvimento das tecnologias, ditaram uma revisão, visando o desenvolvimento do mesmo, quer ao nível do inventário propriamente dito, quer ao nível da gestão integrada da colecção em contextos de acções diversas, como a organização de exposições temporárias, a gestão de depósitos, circulação de peças (dentro e fora da colecção berardo) e intervenções de conservação e restauro. pese embora, a equipa de informática da colecção berardo tenha uma larga experiência nesta área, dada a diversidade de colecções pertencentes à sua tutela, nomeadamente, a arte moderna, minerais, estanhos, porcelanas, entre outras, tornou-se primordial uma actualização dos programas de inventário, no qual decidimos incluir a colecção de azulejos, concedendo-lhe um especial destaque, enquanto objecto de estudo da presente dissertação. o novo modelo de ficha, bem como, o sistema de inventário e gestão da colecção, foram desenvolvidos de acordo com os novos modelos nacionais e internacionais, dos quais falaremos mais adiante, e com as necessidades actuais. relativamente, ao anterior inventário da colecção de azulejos, aludimos para o facto, da estrutura utilizada na sua construção, ter sido as folhas de cálculo (excel), utilizadas para um propósito diferente daquele para o qual este tipo de tecnologias são desenvolvidas, nas quais são vertidos em colunas (campos) e em linhas (diferentes registos de informação) os dados relativos ao objecto. na verdade, embora fosse intitulada 100 de base de dados, não a consideramos como tal, sendo que, numa efectiva base de dados, a informação da colecção é guardada num computador sistematicamente, de forma a que seja possível, com a utilização de um software (dbms – data base management system) apropriado, utilizá-la para obter determinadas respostas221 . o processo de construção deste tipo de “base de dados”, à semelhança do que aconteceu, um pouco, por todas as instituições a nível nacional que tinham à sua guarda acervos culturais222 , ligou-se directamente às necessidades sentidas na altura, sendo que raramente eram entendidas como uma resposta global aos problemas de documentação das colecções. à informação de base que era incluída na “estrutura” inicialmente considerada, juntavam-se, sem qualquer cuidado que não fosse a necessidade imediata de registar um determinado tipo de informação, outros campos (no excel em colunas) que possibilitavam o registo da informação em falta. muito facilmente este tipo de processo não estruturado, ao gosto das carências imediatas, originava uma amálgama de informação, dificilmente pesquisável e utilizável, nos diferentes contextos do trabalho museal. para complicar esta confusão, a ausência de uma terminologia pensada antecipadamente e controlada por thesauri ou listas de terminologia adoptadas e previstas pela instituição, fazia com que a informação relativa a determinado assunto se aparentasse completamente impossível de encontrar. tecnologicamente, este tipo de soluções, utilizado no primitivo inventário da colecção de azulejos é, também, muito limitado. não permite a utilização de determinados campos de uma forma estruturada ou interligada com relações a outros campos, impossibilitando o cruzamento de dados; não tem controlo da informação registada e consente erros básicos, sem hipótese de correcção, ou com correcção dificultada. outra das desvantagens do antigo sistema de inventário empregue pela colecção berardo era a não permissão da partilha de informação com base numa rede centralizada onde exista controlo de acesso por utilizador ou perfis de utilizador223 . 221 importa referir que embora o microsoft excel, enquanto folha de cálculo, permite fazer algum tratamento de dados, nunca deverá ser considerado uma base de dados. 222 saliente-se, que segundo o inquérito realizado por alexandre matos, em 2006, num universo de 143 museus portugueses, a mais antiga referência à aquisição de uma base de dados para registo de informação sobre os objectos é relativa ao ano de 1989, sendo que, a maior percentagem de museus que adquiriram uma base de dados reporta-se ao ano de 2005 (14,47% do total da amostra). inquérito realizado no âmbito da dissertação do mestrado em museologia, sob a égide os sistemas de informação na gestão de colecções museológicas. contribuições para a certificação dos museus, apresentada à faculdade de letras da universidade do porto, no ano de 2007, disponível em: http://www.museusportugal.org/alexandre/multimedia/file/tese_alexandrematos.pdf. 223 a título de exemplo, refira-se que não é possível partilhar um ficheiro de excel, de forma a que este possa ser acedido por duas, ou mais, pessoas ao mesmo tempo. 101 a falta de estudo e documentação sobre a colecção de azulejos, fruto do deficiente e incompleto inventário preexistente, impedia que a mesma fosse dada a conhecer de forma coesa e pudesse realmente ter uma utilidade pedagógica e científica. conjugando alguns campos de informação, que em nosso entender, satisfazem, apenas, e de forma incompleta, dois critérios fundamentais do inventário museológico, o registo/cadastro224 e o inventário sumário225 , a “base de dados”, então utilizada, revelou- se obsoleta e desadequada às necessidades actuais da colecção. atendendo ao estudo a que nos propusemos na presente dissertação e à importância deste património cultural, decidimos fazer uma nova proposta de ficha de inventário, que deu origem a uma nova base de dados, acrescentando aos critérios iniciais (o registo/cadastro e o inventário sumário), o inventário desenvolvido226 e a gestão227 . na verdade o projecto desenvolvido, que adiante apresentaremos, extrapola o conceito de “base de dados”, indo mais além do inventário, e constituindo-se, por isso, num sistema completo de documentação da colecção, aliando o inventário à gestão da própria colecção. saliente-se, ainda, que do anterior inventário utilizámos, apenas, os números de inventário, embora, tivéssemos necessidade de acrescentar novos números, uma vez que a colecção não estava toda inventariada e dado que, ao longo deste processo, foram sendo adquiridos novos exemplares. 3. novo modelo de ficha de inventário com o objectivo de elaborar um novo modelo de ficha de inventário para a colecção de azulejos, começamos por perceber qual o ponto de situação, a nível internacional e nacional, nesta matéria. 224 entenda-se por “registo/cadastro” a base do inventário, ou seja, o registo mínimo de informação sobre os objectos, considerando neste grupo todos os campos obrigatórios (número de inventário; designação e/ou título; autoria; data; medidas e proprietário). 225 por “inventário sumário” entendemos o registo de informação básica sobre o objecto, devendo ser considerados neste critério todos os campos de informação, que não sendo essenciais para a imediata identificação e registo/cadastro inicial, constituem informação muito relevante sobre os objectos, nomeadamente: descrição; técnica; materiais; medidas; localização. 226 entenda-se por “inventário desenvolvido” o registo de toda a informação produzida com o continuado estudo da colecção, devendo ser considerados neste critério todos os grupos de informação em que se possam registar dados obtidos com o estudo dos exemplares a longo prazo, designadamente, estilo; função inicial/alterações; marcas; inscrições; iconografia; bibliografia, entre outros. 227 por “gestão” entendemos o registo de todos os dados relativos a processos de gestão da colecção, nomeadamente, movimentação das obras; exposições; conservação; restauro, seguro, entre outros. 102 no âmbito nacional, a carência de uma reflexão sobre a metodologia, a normalização e a escassez de perseverança na sua aplicação, são factores que conjuntamente convergem para resultados individuais e que, regra geral, não cooperam para os propósitos do inventário. em nossa opinião, a normalização da metodologia, as normas de registo da informação e o aperfeiçoamento progressivo das linguagens documentais empregues nas diferentes áreas temáticas, são condições fundamentais à eficácia operante das entradas e, naturalmente, a uma nomenclatura semelhante, conjuntura imprescindível no processo de partilha e recuperação da informação. a inventariação da cerâmica de revestimento exige o conhecimento de um vocabulário e de uma terminologia específica que facultem uma utilização precisa. no entanto, e tal como refere o caderno de normas de inventário, relativas à cerâmica de revestimento, “se para algumas áreas existem já, a nível nacional e internacional, terminologias e procedimentos estabelecidos, esta é uma área onde os instrumentos são inadequados e/ou inexistentes.”. o mesmo manual acrescenta, ainda, que o “(…) vocabulário da cerâmica em geral e os termos técnicos apresentam vários problemas, como por exemplo, o facto de um mesmo vocábulo na linguagem corrente, nas obras de divulgação e na gíria profissional, ter frequentemente significados múltiplos e, algumas vezes, discrepantes.”228 . no decorrer do processo de criação de um novo modelo de ficha, e com base na normalização, nacional e internacional, bem como, na terminologia existente na área do objecto de estudo, formulámos diversas questões, que desde do primeiro momento, nortearam a proposta, que adiante apresentaremos. do elenco interrogativo destacamos algumas questões, que em nosso entender não se ajustam, apenas, à realidade desta colecção, sendo transversais a outras colecções e entidades museológicas, e que ambicionamos ver respondidas através da elaboração do novo modelo de inventariação, nomeadamente: que informação se deve registar sobre os objectos? qual o procedimento de registo? que campos são necessários para contemplar toda a informação disponível? qual a linguagem mais apropriada para utilizar neste processo? que ferramentas utilizar? que regras e boas práticas podemos utilizar como referência na documentação das colecções? o que pretendemos obter do registo dessa informação? de que forma poderemos usufruir dessa informação no futuro? de que forma podemos legitimar a qualidade do trabalho realizado? 228 aa.vv. – normas de inventário: cerâmica de revestimento. artes plásticas e artes decorativas. instituto português de museus, 1ª edição, lisboa, 1999, p. 18. 103 a estas perguntas tentamos responder ao longo deste capítulo, apresentando um novo modelo de ficha de inventário, que serviu de base a um instrumento, ainda mais amplo, o sistema de inventário e gestão da colecção229 , o qual apelidamos ocp – online control panel. 3.1. normalização “a normalização da metodologia de inventariação com regras estabelecidas de observação do objecto e de registo da informação, bem como o aprofundamento gradual das linguagens documentais para cada área temática, são factores imprescindíveis para a consulta eficaz das fichas e, consequentemente a uma classificação com critérios comuns e rigorosos, condição indispensável no processo de partilha e recuperação da informação em ambiente informático.”230 ao concebermos um novo modelo de ficha de inventário, que servirá de suporte a uma base de dados, integrando um sistema de documentação de gestão da colecção, temos que pensar, previamente, de forma meticulosa na sua construção. é de fundamental importância a criação e existência da normalização para que a tarefa de documentação do património cultural resulte com sucesso, conferindo as bases necessárias à informatização. em nosso entender, a normalização deverá ser uma base sólida, um modelo com regras de estruturação de informação precisas que faculte que os dados inseridos sejam depois lidos, indexados, cruzados entre si e, não menos importante, pesquisados e reavidos de forma satisfatória, e de acordo com os interesses do utilizador comum. no presente trabalho, a abordagem à normalização de documentação e gestão de colecções, teve como principal fonte a experiência de trabalho do international committe for documentation (cidoc231 ), organismo do international council of 229 o sistema de inventário e gestão da colecção elaborado no âmbito do presente trabalho, dá corpo ao capítulo ii, da parte ii. 230 aa.vv. – normas de inventário. cerâmica. artes plásticas e artes decorativas. instituto dos museus e da conservação, 1ª edição, lisboa, 2007, p. 13. 231 desde 1978, altura em que foi estabelecido um conjunto mínimo de categorias de informação para registo dos objectos museológicos com base numa proposta feita por robert g. chendall e peter homulos, existe no âmbito do cidoc um documento de referência que viria a ser colocado à consideração dos seus membros e recomendada a sua utilização às comissões nacionais dos diversos países que integram o icom. à época, a necessidade de implementar regras para a identificação e registo da história da evidência humana, era imperativa. existiam, efectivamente, alguns projectos pontuais em diversos museus e países, mas nunca se tinha discutido esta questão de uma perspectiva mais alargada. o cidoc é o local por excelência para discutir esta temática, não apenas por razões de ordem formal, mas 104 museums (icom) que tem a seu cargo a investigação deste tema e a produção e divulgação das boas práticas neste assunto. o trabalho então desenvolvido por este comité possibilitou que em 1992, na conferência do icom no quebéc, se reavaliasse a situação da altura e principiasse a criação de um documento de boas práticas na matéria que pudesse ser disseminado e utilizado pelos diversos membros da instituição. esse foi o começo do que actualmente conhecemos como international guidelines for museum object information, o documento de referência sobre esta temática a nível internacional, apresentado na conferência trienal do icom de 1995, em stavanger, noruega232 . importa aqui salientar que este documento do cidoc incorpora, como atrás foi dito, a experiência de diversos especialistas de documentação, bem como, a experiência de diferentes projectos de documentação em museus, tendo em consideração as normas existentes em alguns países como os estados unidos, o canadá e o reino unido, as quais abordaremos. um outro aspecto, não menos importante, e que vem referido na introdução do documento, intitulado, international guidelines for museum object information: the cidoc information categories, é relativo ao facto destas linhas orientadoras não constituírem um produto final, devendo por isso, ser tidas em conta como um elemento em construção com todas as vicissitudes daí decorrentes. o documento mencionado, refere ainda que: “the guidelines can be adopted by an individual museum, national documentation organization, or system developer, as the basis for a working museum documentation system.”233 , sendo de evitar que sejam negligenciadas por todas as entidades que tenham a intenção de criar uma norma própria234 . no entanto, como atrás fizemos alusão, este não foi o único caminho seguido pelo cidoc, também, o relational data model viria a se tornar um importante instrumento para a construção dos sistemas de informação de museus. este modelo estabelece definições e uma estrutura formal para descrever os conceitos implícitos e explícitos e as relações usadas na documentação do património. o objectivo principal do cidoc conceptual reference model (crm) é “(…) to promote a shared understanding of principalmente por contar com algumas centenas de especialistas de mais de 60 países que trabalham diariamente na implementação de sistemas de informação para essa finalidade. 232 também nesta conferência foi apresentado o cidoc relational data model resultante do trabalho do data model working group e que se torna o documento fundamental na construção de sistemas de informação capazes de registar e documentar de forma eficiente o património cultural. 233 introduction to the international guidelines for museum object information: the cidoc information categories. international committee for documentation, disponível em: http://cidoc.ics.forth.gr/docs/guidelines/guideint.htm#int2. 234 a espanha e o reino unido são exemplo de alguns dos países que criaram normas próprias, tendo em consideração a adequação das guidelines do cidoc às leis e procedimentos, que as mesmas obrigam no âmbito nacional. 105 cultural heritage information by providing a common and extensible semantic framework that any cultural heritage information can be mapped to. it is intended to be a common language for domain experts and implementers to formulate requirements for information systems and to serve as a guide for good practice of conceptual modelling. in this way, it can provide the "semantic glue" needed to mediate between different sources of cultural heritage information, such as that published by museums, libraries and archives.”235 . actualmente, o crm conta já com treze anos de experiência, divididos entre o cidoc documentation standards working group e o, mais recentemente o cidoc crm special interest group (sig), tendo sido admitido, em 2006, como documento de trabalho à norma iso236 com a designação iso 21127:2006237 . a análise ao crm foi fundamental, enquanto regra de criação do modelo, que adiante iremos apresentar, possibilitando-nos perceber de que forma poderíamos estabelecer normas, enquadradas nos princípios internacionais, mas adaptadas às necessidades e especificidades da colecção em estudo. embora, muito exaustivo, o documento produzido pelo cidoc, não foi elaborado com a intenção de ser seguido à risca por todas as instituições. no presente caso, o documento serviu de base de trabalho, visando a construção do esquema de dados a ser utilizado pela colecção berardo segundo as necessidades próprias da colecção de azulejaria. para a construção da nossa ficha de inventário e posterior base de dados foram respeitadas as normas do icom, particularmente, do international committe for documentation (comité internacional para a documentação em museus), anteriormente expostas, mas foram também considerados um conjunto de iniciativas nas distintas áreas da normalização de documentação que trabalham em parceria com o cidoc, bem como, outras normas internacionais e nacionais de referência, que agora abordaremos de forma sintética. a norma proposta e gerida pela museum documentation association (mda), o specturm, é uma referência para a documentação nos museus do reino unido, reconhecido internacionalmente como um dos documentos mais importantes nesta área. publicado pela primeira vez em 1994, o specturm tornou-se um standard em 2005 depois de ter sido alvo de uma intensa reflexão por mais de 100 instituições, num 235 the cidoc conceptual reference model. what is the cidoc crm, disponível em http://cidoc.ics.forth.gr/. 236 iso - international organization for standardization. 237 “iso 21127:2006 establishes guidelines for the exchange of information between cultural heritage institutions. in simple terms this can be defined as the curated knowledge of museums.” in information and documentation - a reference ontology for the interchange of cultural heritage information. disponível em http://www.iso.org/iso/iso_catalogue/catalogue_tc/catalogue_detail.htm?csnumber=34424. 106 processo que se iniciou em 2003. hoje, esta norma é aberta a todos os que a pretendam utilizar e é feita de acordo com os requisitos de documentação exigidos para os museus que pretendem ser acreditados oficialmente no reino unido pelo the museums, libraries and archives council238 . o specturm é dividido em dois módulos principais: os procedimentos e os requisitos de informação. o primeiro define os procedimentos que devem ser utilizados nos museus, em termos de documentação, ou seja, sempre que um objecto é incorporado, emprestado, transportado, sujeito a uma acção de conservação ou restauro. o segundo módulo consiste nos requisitos de informação imprescindíveis para a documentação das colecções, nomeadamente, a propriedade do objecto, a sua história, as acções de restauro a que já foi sujeito, qual a sua proveniência, entre muitos outros exemplos239 . no nosso entender, o specturm é um caso exemplar em todos os aspectos. não sendo apenas um standard de dados que possibilita a construção de uma base de dados, é sobretudo uma norma de procedimentos que permite aos técnicos nos museus, mesmo sem um sistema de informação, ter acesso aos passos fundamentais para documentar uma qualquer acção comum, no âmbito da gestão das colecções. um outro exemplo relevante, e que na presente dissertação teve um “papel” orientador, é o espanhol. em 1998 foi publicada, pela dirección general de bellas artes y bienes culturales, órgão do ministério da cultura espanhol, a normalización documental de museos: elementos para una aplicación informática de gestión museográfica, que é fruto do trabalho da comisión de normalización documental de museus240 presidida por andrés carretero pérez e coordenada por marina chinchilla goméz. o objectivo deste trabalho foi facultar aos museus uma inestimável ajuda no tratamento e gestão da documentação associada ao património cultural, de forma a facilitar o seu trabalho diário e a permitir um melhor serviço para investigadores e público em geral. resultado deste documento foi a criação, pelo próprio ministério, de uma aplicação informática (designada por domus), que seria utilizada numa primeira fase pelos museus estatais (tutelados directamente pelo ministério da cultura espanhol), mas cujo objectivo é abranger o máximo de museus possível, independentemente da sua 238 entidade oficial no reino unido para a acreditação dos museus. define e desenvolve a estratégia nacional no âmbito dos três tipos de instituições que tutela. informação disponível em http://www.mla.gov.uk/. 239 estes são alguns dos tipos de informação que o specturm trata, de uma forma estruturada e normalizada, permitindo às instituições museais a sua utilização para a obtenção de um conhecimento aprofundado das suas colecções. 240 carretero, andréz – normalización documental de museos: elementos para una aplicación informática de gestión museográfica. dirección general de bellas artes y bienes culturales, madrid, 1998. 107 tutela administrativa. para o efeito o ministério tem vindo a desenvolver um conjunto de convénios com as comunidades autónomas e com outras entidades no sentido de criar uma rede que permitirá aceder à informação de uma forma coerente e uniformizada241 . salientamos, ainda, que este mesmo standard permite a todas as empresas que desenvolvem software, a possibilidade de se harmonizarem com a norma vigorante para que os seus sistemas de informação possam ser utilizados por um qualquer museu de espanha, sem prejuízo de virem a inteirar a rede de comunicação, um dos objectivos principais do ministério. a existência da norma possibilita, como atrás referimos, esta situação. no âmbito internacional, além do caso inglês e espanhol, foram também importantes para o presente trabalho as categories for the description of works of art (cdwa242 ) da art information task force fundada dentro do j. paul getty trust (getty research institute) e o méthode d'inventaire informatique des objets beaux-arts et arts décoratifs da direction des musées de france243 . ao nível nacional não consideramos que actualmente exista, ainda, o que se pode apelidar, à semelhança do caso espanhol, uma “normalização documental dos museus portugueses”, ou seja, um documento técnico que contenha em si definições de estruturas de bases de dados e procedimentos a adoptar pelos museus na gestão das suas colecções, nem tão pouco, algumas linhas orientadoras nesta matéria. embora, em meados da década de 1990, tenha sido criado um projecto dentro do então designado instituto português de museus (ipm), hoje instituto dos museus e da conservação (imc), que tinha como desígnio prover aos museus tutelados pela administração central um programa que pudesse alcançar os objectivos de uma melhor inventariação e gestão das colecções das referidas instituições, o matriz244 , alguns aspectos da normalização foram deixados ao descuido. efectivamente, hoje, o matriz é uma ferramenta utilizada pelos museus tutelados pelo imc, bem como, por um conjunto de outras instituições no país, e é já uma plataforma desenvolvida e comercializada por uma empresa privada. na verdade, o que faltou, neste processo de criação de uma ferramenta informática que pudesse, a curto prazo, resolver um dos principais 241 disponível em: http://www.mda.org.uk/memp.htm. 242 disponível em: http://www.getty.edu/research/conducting_research/standards/cdwa/. 243 disponível em: http://www.culture.gouv.fr/documentation/joconde/fr/partenaires/aidemusees/intro- methode.htm. 244 o matriz - inventário e gestão de colecções museológicas é um programa concebido e desenvolvido pelo então instituto português dos museus (ipm), em parceria com a softlimits, de forma a possibilitar a informatização do inventário dos museus, a digitalização dos respectivos acervos e colecções, assim como a gestão dos processos de circulação das peças museológicas. 108 problemas da documentação nas instituições museológicas, a sua informatização, foram algumas etapas e considerações de basilar importância sobre esta temática. no entanto, apercebendo-se o antigo ipm, da necessidade de criar algumas normas para os utilizadores deste sistema de informação, produziram-se posteriormente um conjunto de documentos, intitulados normas de inventário245 , que reúnem alguns dos procedimentos a seguir na inventariação das colecções, baseadas ainda, na aplicação matriz, utilizada pelo referido instituto. estas normas de inventário são, em todo o caso, limitadas. são-no porque se reportam, especificamente, a determinadas categorias de objectos, incluídas em três grandes super-categorias criadas na definição do programa matriz: artes e artes decorativas, arqueologia e etnologia, negligenciando áreas como a ciência, os transportes, a história natural, entre outros, com alguma representatividade no tecido museal nacional. sem prejuízo, do que anteriormente afirmamos, entendemos, contudo, que estas normas são uma boa ferramenta de trabalho para os colaboradores de todos os museus, devendo servir de base para uma análise e discussão mais aprofundada na definição de procedimentos a eleger pela generalidade dos museus. ainda, no âmbito nacional, parece-nos pertinente referir um outro sistema de informação, com alguma relevância no processo de inventário e gestão do património à abrigo dos museus, que foi criado em parceria pela sistemas do futuro e pela polícia judiciária do porto (núcleo de furtos de obras de arte), mais comummente conhecido como in arte. esta aplicação, actualmente com uma versão mais complexa, conta desde 1996 com um crescente número de museus como utilizadores e tem sido, a par do matriz nos museus tutelados pelo imc, a principal ferramenta utilizada para a documentação do património em portugal. tendo-se afirmado como um sistema de informação eficaz nos museus que o utilizam, refira-se que para tal contribuiu o facto da empresa sistemas do futuro organizar, periodicamente, encontros científicos em que o principal objecto de discussão são os assuntos relacionados com a documentação das colecções e a sua normalização. com esta breve análise às normas nacionais e internacionais na área da normalização da informação no campo museológico, e a alguns sistemas de informação existentes no mercado, não foi nossa pretensão apresentar um novo modelo, até porque, 245 refira-se, que as primeiras normas de inventário a ser publicadas foram as normas gerais. artes plásticas e artes decorativas, no ano de 1999. depois, seguiram-se as de pintura; escultura; mobiliário; cerâmica de revestimento; alfaias agrícolas; tecnologia têxtil; cerâmica utilitária; arqueologia e cerâmica. 109 esse deverá ser um trabalho moroso de discussão e análise de uma equipa pluridisciplinar, que envolva diferentes instituições. contudo, ao propor um sistema de inventário e gestão para a colecção de azulejos, consideramos fundamental, a compatibilização da informação com as normas, para já, instituídas, sendo para isso necessário traçar o panorama nacional e internacional. foi, na certeza que a estrutura utilizada na construção da nossa base de dados era determinante para que o processo de documentação fosse bem sucedido, que analisamos, o maior número possível de soluções existentes no nosso país e além fronteiras. 3.2. terminologia como atrás ficou referido, a inventariação da cerâmica de revestimento demanda o conhecimento de um vocabulário e de uma terminologia especializada que permitam a sua correcta utilização. contudo, embora os instrumentos existentes nesta área sejam inadequados, conforme relata o próprio organismo governamental que tem a responsabilidade de definir políticas e estratégias de actuação para os museus, o instituto dos museus e da conservação, não existindo terminologias e procedimentos estabelecidos, temos que reconhecer o esforço, que nos últimos anos tem vindo a ser feito por parte dos profissionais desse mesmo instituto e do museu nacional do azulejo, com a publicação no âmbito das normas de inventário e de catálogos nos quais são definidos os termos mais apropriados para utilizar no registo da informação, conducente ao tratamento normativo dos revestimentos cerâmicos246 . ainda, neste contexto, e de acordo com paulo henriques, antigo director do museu nacional do azulejo e actual director do museu nacional de arte antiga, é de toda a justiça referir a figura do grande estudioso e sistematizador do azulejo em portugal, joão miguel dos santos simões, que estabeleceu uma terminologia, que pela sua pertinência actual, é 246 a par destas iniciativas meritórias, embora pontuais, encontramos alguns projectos, que ainda fora do âmbito da colecção em estudo, merecem um especial destaque no contexto museológico nacional. em 2004, foi publicado o thesaurus – vocabulário de objectos de culto católico, pela fundação casa de bragança, no seguimento de um projecto internacional, e que constitui um exemplo a seguir para a criação de thesauri multilingues, designado thesaurus multilingue del corredo eclesiastico, que teve início na década de 1990, sob a responsabilidade do ministero per i beni e la attivitá culturali. no âmbito regional, é também de salutar, a criação de um conjunto de thesauri, a par da implementação do sistemas de gestão de informação por parte dos museus da direcção regional de cultura dos açores, com o objectivo de normalizar e aferir a terminologia utilizada. saliente-se, ainda, alguns museus nacionais que utilizam thesauri internacionais como matriz para a construção dos seus próprios, quer fazendo simples traduções dos termos adoptados, quer utilizando a estrutura dos thesauri já publicados e utilizados com sucesso, para a construção das estruturas terminológicas que pretendem utilizar para organizar os conteúdos inseridos nos seus sistemas de gestão. 110 considerada possível de ser documentalmente fixada no caderno de normas de inventário da cerâmica de revestimento247 . a normalização de conteúdos deverá ser uma base sólida, um modelo com regras de estruturação de informação precisas, autorizando que os dados inseridos sejam depois lidos, indexados, cruzados entre si e, essencialmente, pesquisados e recuperados de forma satisfatória por parte do especialista, ou do utilizador comum, e de acordo com os seus interesses. ou seja, permitir que os dados se transformem em informação, contribuindo assim para que o conhecimento do património cultural possa ser estendido ao maior número de pessoas possível. existem, também, outros factores importantes, que resultam da aplicação da norma, e embora não sejam perceptíveis num primeiro momento, são determinantes em diversos momentos de um projecto de documentação da colecção. a partilha de informação; a importância do valor da informação a longo termo, e a especialização dos recursos humanos são três aspectos fundamentais, que a uso de standards consente harmonizar. “na actualidade são cada vez mais os exemplos de instituições que necessitam de trocar informações sobre o património que têm à sua guarda. uma exposição sobre um dado autor, por exemplo, mesmo que seja coordenada por determinada instituição, necessita da colaboração de diversas instituições que detêm objectos realizados por ele. a criação de vocabulários estruturados para a catalogação e registo dos objectos, bem como para a procura de certos termos numa pesquisa é outro dos factores que implica troca de informação. num e noutro exemplo é mais do que relevante a utilização da norma, para permitir uma comunicação sem ruído, na qual emissor e receptor percebam fidedignamente a mensagem.”248 a elaboração de aplicações de gestão de thesauri (em casos mais complexos) ou de listas terminológicas hierárquicas (estruturadas ciclicamente com nível principal e dependentes, como é o caso do presente estudo) dentro dos sistemas de gestão, possibilita listar os termos mais utilizados na documentação da colecção, de tal modo que seja permissível auferir um controlo e eficácia na linguagem da base de dados. com o objectivo de conceber um sistema de inventário e gestão da colecção de azulejos, desenvolvemos uma terminologia inerente, com base no trabalho até à data 247 conforme paulo henriques in aa.vv. – normas de inventário. cerâmica de revestimento. artes plásticas e artes decorativas (1999), p. 12. 248 matos, alexandre – os sistemas de informação na gestão de colecções museológicas. contribuições para a certificação dos museus. dissertação do mestrado em museologia, faculdade de letras da universidade do porto, porto, 2007, p. 12. 111 produzido pelos organismos e equipamentos culturais, a nível nacional e internacional, nesta matéria249 , de forma a facultar, futuramente, a troca de informação normalizada. todavia, parece-nos aqui importante, realçar que a nossa proposta é uma estrutura aberta, fruto de uma abordagem tão exaustiva quanto possível dentro dos limites estipulados para uma dissertação de mestrado, não devendo ser considerada como um modelo inflexível. pretendemos com o presente trabalho dar um pequeno contributo a um processo que deverá, imperiosamente, envolver uma grande parte da comunidade museológica nacional. no desenvolvimento da supracitada terminologia efectuou-se por um lado a identificação e definição dos termos, e por outro a relação entre os mesmos e as suas hierarquias. assim, aludiremos agora, aos seguintes campos de informação: categoria; subcategoria; denominação; outras denominações; técnica; estilo; estado de conservação e modalidade de incorporação. dentro da super-categoria artes plásticas e artes decorativas temos, então, a categoria: cerâmica. a categoria estabelece o primeiro nível de classificação das colecções museológicas. no caso da colecção em estudo, este nível, reúne objectos que têm como matéria de base substâncias inorgânicas, usualmente terras, com características de plasticidade, que adquirem resistência mecânica quando sujeitas a cozedura, e sobre as quais se pode assentar, igualmente por cozedura, a decoração. segundo, as normas de inventário “existe, porém, outra classificação, que corresponde à funcionalidade dos objectos e que com maior eficácia permite a sua gestão no que diz respeito às colecções dos museus. trata-se da criação de subcategorias que, muito embora sejam dependentes da categoria, contemplam objectos que apresentam analogias funcionais e formais é o caso da cerâmica de revestimento.”250 . 249 dos vários trabalhos consultados, salientámos, a nível nacional, a especial importância do instituto dos museus e da conservação, especificamente, do departamento de património móvel (secções de inventário e digitalização e classificação e inventariação) e a experiência do museu nacional do azulejo. ao nível internacional, destacamos o international committe for documentation (cidoc), organismo do international council of museums (icom), e mais concretamente, o documento, anteriormente mencionado, international guidelines for museum object information: the cidoc information categories; o trabalho desenvolvido pelo collections department, especialmente o ceramics and glass collection, do victoria and albert museum; as referências mundiais criadas pelo british museum, particularmente o materials thesaurus (thesaurus para a descrição e classificação dos materiais encontrados nos objectos museológicos) e o object name thesaurus (thesaurus para a classificação e descrição das designações dos objectos museológicos), e a publicação do getty institute, intitulada art & architecture thesaurus (thesaurus para a classificação da terminologia utilizada nos campos das artes visuais e arquitectura), que contribuiu largamente para o desenvolvimento da normalização de conteúdos. 250 aa.vv. – normas de inventário. cerâmica de revestimento. artes plásticas e artes decorativas (1999), p. 20. 112 a subcategoria não sendo um tipo de informação fundamental à classificação dos objectos, é um desenvolvimento da categoria, que corresponde, deste modo, a uma especificação de ordem funcional. a terminologia cerâmica de revestimento possibilita o agrupamento de qualquer corpo cerâmico designado a ser aplicado na arquitectura, individual ou conjuntamente, exterior ou interior, numa ampla sucessão de formas, funções, decorações e técnicas de fabrico, pavimentos, tectos, entre outros. a característica comum a estes objectos, de base argilosa, decorada, e vitrificada, ou não, numa das faces, atende a um amplo universo de tipologias. produtos cerâmicos, como sejam, a telha, o mosaico, o tijolo, ou até mesmo, a produção artística contemporânea, inserem-se por definição, nesta subcategoria. relativamente à identificação do objecto, elaboramos listas terminológicas para a denominação e outras denominações. quanto ao primeiro campo de informação251 , identidade rigorosa e inequívoca do objecto, tivemos em consideração as designações patenteadas nas normas de inventário, anteriormente citadas, estando as mesmas normalizadas e apoiadas em conceitos internacionalmente aceites e adoptados. ora vejamos: “desde que a cerâmica de revestimento constitui objecto de inventariação que se adoptaram critérios de classificação nesta área nos quais se incluíam frequentemente designações que associavam indiferentemente caracterizações técnicas, funcionais e decorativas. por exemplo azulejo de aresta; azulejo de figura avulsa. analisando a cerâmica de revestimento relativamente à sua funcionalidade e utilização, registamos os seguintes termos: azulejo; painel de azulejos; placa; painel de placas; mosaico cerâmico; telha decorativa e tijolo decorativo.”252 . como atrás ficou referido, no desenvolvimento da terminologia, realizou-se a relação entre os termos e as suas hierarquias. assim sendo, para o campo outras denominações correspondem apenas duas denominações, o azulejo e o painel de azulejos253 . ou seja, para azulejo temos as seguintes identificações: azulejo de barra; azulejo de cercadura; azulejo de figura avulsa; azulejo de friso; azulejo de padrão; azulejo de pavimento; azulejo de rodapé e azulejo hispano-mourisco. para painel de azulejos, consideramos como outras denominações, os seguintes termos: albarrada; 251 por questões de organização da presente dissertação, optámos, por colocar as listagens terminológicas, em anexo. quanto à denominação, consulte-se o anexo xxxiii – listagem relativa à denominação. 252 aa.vv. – normas de inventário. cerâmica de revestimento. artes plásticas e artes decorativas (1999), p. 23. 253 anexo xxxiv – listagem relativa a outras denominações. 113 alegrete; alminha; figura de convite; frontal de altar; painel de azulejos alicatados; painel de azulejos de composição figurativa; painel de azulejos de figura avulsa; painel de azulejos de padrão; painel de azulejos enxaquetados; painel de azulejos enxaquetado compósito; painel de azulejos hispano-mouriscos; registo e silhar. em relação a este campo, os termos utilizados possibilitam a identificação do objecto, tendo por base, a sua forma, função e técnica de aplicação como revestimento. as outras denominações aqui patenteadas remetem para um vocabulário, usualmente, empregue por alguns especialistas na área, que de modo diferente, designam o mesmo objecto, ou seja, o nome pelo qual a peça é vulgarmente conhecida, mas que extravasa o conceito estrito da denominação. contudo, importa realçar, que nem todos os objectos poderão preencher este campo, sendo o mesmo de carácter facultativo, contrariamente à denominação, que é de carácter obrigatório. no que diz respeito à técnica, embora as normas de inventário, gerais254 e as de cerâmica de revestimento255 , aconselhem a enunciar, as técnicas de fabrico e as de decoração, neste caso, optou-se por referir, apenas, as técnicas de decoração. pois, por questões de ordem científica, não nos era possível, no curto espaço de tempo deste estudo, proceder a análises pormenorizadas. no entanto, sendo o inventário, um instrumento de trabalho, sempre em aberto, e dado, que estamos perante uma estrutura, desenvolvida pelos informáticos da própria colecção berardo, no futuro, poderão ser incluídos novos campos, sendo que, a informação adicional, só irá enriquecer o espólio em análise. por enquanto, e no âmbito das técnicas de decoração, definimos as seguintes: aerografia; alicatado; aresta; corda seca; cromolito; enxaquetado; enxaquetado compósito; esgrafitado; esmaltagem; esponjado; estampagem; estampilhagem; fotoimpressão (ou fotocerâmica); incrustação; lustre; majólica; relevo; tubagem e serigrafia256 . o campo de informação intitulado por estilo foi, também, alvo de uma terminologia específica257 . entendendo-se por estilo uma definição generalista, que agrupa concepções artísticas e técnicas, definimos os seguintes: azulejaria arcaica; renascentista; maneirista; tardo-maneirista e protobarroca; barroco; rococó; pombalino; neoclássico; romântica e industrial; arte nova; art deco; modernista (1900-1950); moderno (1950-1980) e contemporâneo (1980 até à actualidade). 254 aa.vv. – normas de inventário. normas gerais. artes plásticas e artes decorativas (2000). 255 aa.vv. – normas de inventário. cerâmica de revestimento. artes plásticas e artes decorativas (1999). 256 anexo xxxv – listagem relativa às técnicas. 257 anexo xxxvi – listagem relativa aos estilos. 114 em nosso entender, o estado de conservação é um dos campos que deverá conter uma terminologia precisa de forma a facilitar e optimizar a troca de informação, quer dentro da própria instituição que tutela a colecção, quer com instituições exteriores, sendo certo que necessitará de um sub-campo para especificações do estado seleccionado em função do objecto em presença. a avaliação do estado de conservação de um objecto vai além do seu aspecto físico mais imediato, estando também relacionado com a integridade dos materiais que o constituem, ou seja, com o processo degenerativo a que todos os materiais estão submetidos258 . no artigo 13º da lei-quadro dos museus portugueses259 são enumeradas onze modalidades de incorporação. no entanto, dado o carácter da colecção em estudo, não nos fazia sentido, contemplar determinados tipos de modalidades, nomeadamente, o depósito, o achado, entre outros. assim, o presente campo será indexado, considerando, unicamente, os seguintes modos de incorporação260 : compra, doação e legado261 . salientamos, que os termos patenteados nas listas terminológicas apresentadas, deverão ser utilizados sempre que a informação a carregar na base de dados seja passível de ser organizada de forma estruturada (indexada). não se aplicará este caso a campos de descrição, ou outros de “texto livre”, que o sistema poderá conter. 3.3. apresentação da nova ficha o novo modelo de ficha de inventário, por nós proposto, foi especificamente idealizado para a colecção de azulejos e comporta várias categorias de informação, pressupondo um conceito de inventário desenvolvido, na medida em que a identificação do objecto deve ser complementada com diversos dados caracterizadores, particularmente a sua proveniência precisa, o conhecimento do percurso realizado desde a sua criação até à condição de objecto museal, bem como, a sua divulgação através de exposições e publicações várias. a estruturação dos capítulos e a ordenação dos campos de informação acompanha de perto a estrutura da ficha de inventário, que serviu, posteriormente, à base de dados inerente ao sistema de inventário e gestão da colecção. 258 anexo xxxvii – listagem relativa aos estados de conservação. 259 lei nº47/2004. 260 embora, sejam apenas indexadas algumas modalidades de incorporação de acordo com a natureza da colecção de azulejos, a base de dados tem capacidade, para integrar, no futuro, outras modalidades. 261 anexo xxxviii – listagem relativa às modalidades de incorporação. 115 a primeira informação patenteada na ficha é relativa à propriedade do objecto a inventariar. todavia, não foi criado um campo para a identificação da instituição proprietária, dado que no caso do presente inventário seria redundante, conduzindo a uma repetição da informação. todas as peças da colecção berardo são propriedade da mesma instituição e pertencem a um único proprietário. de qualquer forma, essa situação está salvaguardada, uma vez que há sempre a presença do logótipo e designação da colecção berardo. a classificação é, então, o primeiro macro-campo desta ficha, encontrando-se subdividida em super-categoria, categoria e subcategoria. embora, estes três campos estejam estáticos ao longo de todo o processo de inventário, visto estarmos a tratar de uma colecção de azulejos, logo inserida na subcategoria de cerâmica de revestimento, consideramos pertinente a sua inclusão, sendo esta, uma forma normalizada de classificação reconhecida nacional e internacionalmente. o segundo macro-campo é relativo à identificação do objecto. os campos que compõem esta categoria de informação principal são: número de inventário; outros números de inventário; denominação; outra denominação; título descritivo; título de autor; descrição; referências externas; representação iconográfica; heráldica/insígnias e conjunto. apesar das normas de inventário, nacionais e internacionais, aconselharem a que o número de inventário seja um campo alfanumérico de forma a permitir a introdução de acrónimos utilizados comummente pelas entidades museológicas, neste trabalho e por uma questão de organização e estruturação da base de dados, utilizamos um código numérico que identifica a colecção, sendo este, o procedimento adoptado pela sua tutela262 . o campo intitulado outros números de inventários contempla, quer os números de inventário anteriores, intrínsecos à colecção berardo (inventários antigos), quer aqueles que estiveram associados aos objectos antes de incorporarem a colecção, como é o caso, dos painéis pertencentes à antiga empresa vitivinícola j.p. vinhos, actual bacalhôa vinhos de portugal, ou os números associados aos diversos leilões, nomeadamente, os da leiria e nascimento, lda., na sua maioria provenientes da colecção comandante ernesto vilhena. o registo desta informação detém especial importância, no âmbito das investigações e estudos efectuados, permitindo resgatar novos dados, de capital interesse, para a documentação dos objectos. 262 o código que identifica a colecção de azulejos é o 101, sendo este número seguido, por um hífen e pelo número de inventário, atribuído de forma sequencial. 116 a informação relativa aos campos da denominação (identidade rigorosa e inequívoca do objecto) e outra denominação (outras denominações pelas quais possa ser conhecido o objecto, nomeadamente, por tradição ou publicação anterior) é registada, recorrendo às listagens de terminologia, anteriormente abordadas. quanto aos títulos, ainda que as normas de inventário263 definam, somente, a designação de título, incluindo, neste campo, os títulos de autor, os iconográficos, ou os populares (vulgarizados), no nosso entender, e após a consulta de outros sistemas de inventário, nacionais e internacionais, faz mais sentido, separar o título que é originalmente atribuído pelo autor, ao qual designamos de título de autor, do título sugerido pela sua representação, ao qual apelidamos de título descritivo. assim sendo, por título de autor entende-se, unicamente, a denominação original atribuída pelo próprio autor, razão pela qual, este campo será mais utilizado na produção contemporânea. quanto ao título descritivo é usual, na categoria da cerâmica de revestimento, que o mesmo seja sugerido pela representação, tenhamos por exemplo, o caso dos títulos iconográficos. partindo deste pressuposto, entenda-se, que o título descritivo poderá ser ditado pela sua representação, bem como, pelo nome que o objecto tem sido identificado ao longo dos tempos (título popular/comum). a descrição é um campo de texto alargado para a introdução livre de informação relativa à descrição do bem patrimonial em presença. dever-se-á descrever concisa, objectiva e imparcialmente, aquilo que se vê no objecto e não o conhecimento que dele se detém. a descrição de inventário deverá reger-se pelos critérios definidos pela história da arte, distinguindo a descrição conceptual da descrição estrutural. dever-se-á começar por descrever do geral para o particular, identificando o tema ou motivo principal e o(s) secundário(s), seguidos da descrição da forma e/ou da composição, figurativa ou abstracta. o campo referências externas264 deverá considerar informações atinentes aos objectos museológicos pertencentes a outras colecções, públicas ou privadas, que estejam relacionados com o objecto inventariado e outras que, por qualquer circunstância ou a diferentes níveis, lhe estão ou estiveram remotamente associados. o 263 aa.vv. – normas de inventário. normas gerais. artes plásticas e artes decorativas (2000), p. 21. 264 as diversas fichas de inventário, que tivemos acesso, têm diferentes designações para este campo. as normas gerais do instituto dos museus e da conservação, por exemplo, intitulam de objecto relacionado. a introdução deste campo, no presente modelo, prende-se com o tipo de colecção em estudo, pois tratando-se de azulejaria, consideramos, que faria todo o sentido a sua inclusão, na medida em que, a grande maioria, dos objectos foi retirada do seu local original, causando a dispersão de alguns conjuntos. assim, a possível associação destes exemplares tornar-se-á, deste modo, indispensável ao historial dos mesmos, bem como, à historiografia desta forma de arte. 117 objecto relacionado deverá, sempre que possível, ser identificado com o maior rigor, através do registo da sua denominação, proprietário, localização, número de inventário e fotografia. quanto à representação iconográfica poderá, ou não, estar contida na própria descrição geral do objecto. porém, sendo a iconografia um campo da representação por primazia, e porque a complexidade de determinadas peças assim o obrigam, as imagens, símbolos e motivos que compõem o(s) tema(s) mencionados na descrição, deverão ser reconhecidos e analisados neste campo. a linguagem natural empregue na descrição, deverá neste campo ser substituída pela linguagem documental, através da escolha de descritores temáticos, genéricos e específicos ordenados num processo hierárquico. entenda-se por representação iconográfica as cenas históricas, mitológicas, bíblicas, alegóricas, bem como, as de costumes e paisagens. dever-se-á ter em conta, nos símbolos de representações de ideias ou conceitos, de ordem moral ou intelectual, as suas formas, cores, posicionamento relativo na obra e significado intrínseco (por exemplo: os símbolos eucarísticos; os símbolos marianos, etc.). relativamente, aos atributos específicos de cada imagem, como no caso dos santos, e as características que contribuem para a sua identificação, deverão também, ser enumeradas. neste campo dever-se-á fazer referência ao elenco decorativo da guarnição, por exemplo: ornamentação (cartelas, ferroneries); ornamentação antropomórfica (putti, atlantes); ornamentação vegetalista (festões, enrolamentos); ornamentação geométrica (laçarias), entre outras. relativamente à heráldica/insígnias dever-se-á iniciar com a descrição do campo e só, posteriormente, descrever as peças heráldicas, ou insígnias, que guarnecem ou definem zonas específicas265 . após a localização exacta da heráldica, ou insígnia, dever-se-á, sempre que possível, precisar a identificação do seu detentor266 . o último campo respeitante à identificação é o conjunto, permitindo registar os dados de objectos, que dentro da colecção berardo, pertencem ao mesmo conjunto de origem. entenda-se como elementos do conjunto, os objectos que provenientes do mesmo local estabelecem, por exemplo, uma relação tipológica ou um programa iconográfico, entre outros267 . 265 conscientes de que na descrição heráldica dever-se-á usar com rigor a terminologia própria desta disciplina, pretendemos, futuramente elaborar listas terminológicas, fundamentadas em bibliografia específica. 266 sendo uma representação muito frequente na cerâmica, a heráldica poderá revelar dados inequívocos para a identificação do proprietário, do encomendador, ou ainda, da proveniência da peça. 267 sendo este, um campo indexado, e de gestão da colecção, será abordado, mais aprofundadamente, aquando da apresentação do sistema de inventário e gestão. 118 o terceiro macro-campo é referente à identificação e registo da autoria/produção do objecto. designamos esta categoria de informação como autoria/produção, porque entendemos que os dados sobre a produção e a autoria podem ser complementares em determinadas situações e porque em determinadas ocasiões sucede uma delas, sendo que a informação a guardar, num e noutro caso, é muito similar. os campos que compõem esta categoria são: autor; atribuído; justificação da autoria; assinatura; localização da assinatura; oficina/fabricante; cidade de fabrico; país de fabrico; marca; localização da marca e inscrição/legenda. no campo autor deverá constar o nome do criador do objecto, recorrendo à base de dados de autores, na qual ficarão registadas todas as informações complementares268 . quando não for conhecida a identidade do autor da peça, dever-se-á indicar desconhecido. ainda, no contexto da autoria, sempre que se estiver em presença de um pseudónimo, vulgarizado pela historiografia, o mesmo será registado no campo de notas públicas269 . a atribuição de uma peça a determinado autor deverá ser registada no campo atribuído, sendo para isso necessário, marcar um “visto”, dado que o nome deverá estar contemplado na listagem de autores, anteriormente mencionada. as atribuições deverão ser feitas através de uma aproximação tipológica/formal ou técnica, com outras devidamente assinaladas; por prova documental, sendo necessário a sua referência; por tradição ou atribuição feita por algum investigador, devendo a mesma ser referenciada, em campo próprio – justificação da autoria. no caso das obras assinadas, a autoria deverá ser justificada inscrevendo obra assinada. para as obras atribuídas a determinado autor a mesma deverá ser referenciada neste campo. as normas gerais do imc, associam o campo da justificação da autoria, à assinatura e à sua localização, no entanto, em nossa opinião, e de acordo com outras normas consultadas no decorrer do trabalho de investigação, consideramos, que estes 268 embora, as normas gerais do imc recomendem a inscrição, dos locais e datas de nascimento e morte, entre parêntesis e sempre que conhecidos, à frente do nome do autor, no presente sistema de inventário e gestão da colecção, optámos por fazer a biografia do autor, em campo próprio, proporcionando o acesso a um tipo informação mais alargada, facto pelo qual, neste ponto, não colocamos os dados, acima indicados. 269 uma das regras estabelecidas, aquando da criação do novo sistema de inventário, foi a seguinte: quando o campo definido não “servir”, no mínimo 10% da colecção, não deverá ser criado, sendo essa informação salvaguardada num campo complementar. o caso do pseudónimo é um desses exemplos. até à presente data registámos no universo da colecção, apenas, o luís antónio ferreira, dito ferreira das tabuletas, pelo que não se justifica a inclusão do campo. o mesmo acontece, com as co-autorias, possuindo a colecção berardo, somente, um painel de azulejos produzido por leopoldo battistini e viriato silva, sendo o único caso de co-autoria, esta informação ficará salvaguardada no historial da peça. se pensarmos que esta é uma colecção aberta, poderá surgir a questão das novas incorporações, no entanto, não acreditamos que os novos exemplares possam representar 10% destas situações. mas, ainda assim, caso suceda, o sistema de inventário e gestão da colecção, poderá, nessa altura, ser ajustado à realidade da colecção, sendo uma estrutura flexível e desenvolvida internamente. 119 campos deverão estar relacionados entre si, mas deverão ter entradas autónomas. assim, no campo assinatura deverá ser feita a transcrição e/ou descrição e/ou descodificação da assinatura. na localização da assinatura deverá ser registada a informação textual acerca da localização precisa da assinatura na obra, acompanhada de fotografia de pormenor. relativamente ao campo oficina/fabricante entender-se-á, por oficina o local onde diferentes intervenientes trabalham sob a orientação de um mestre que, usualmente, lhe atribui a designação. podendo, ainda, ser identificada pelo nome da localidade onde se situava ou situa. por fabricante entender-se-á um local específico onde são realizados trabalhos manuais ou mecânicos e fabricados objectos tipologicamente idênticos ou afins. a cidade de fabrico é um campo de abrangência geográfica restrita, designadamente, uma cidade, referente ao local de produção de uma determinada obra, enquanto que, o país de execução é um campo para designação de unidade geográfica mais vasta, particularmente, o país, onde a obra foi produzida. outros campos de informação que dizem respeito à informação intrínseca dos objectos é a marca e inscrição/legenda. as marcas patentes nos objectos estão, na sua maioria, directa ou indirectamente associadas ao processo de produção dos mesmos. no caso da cerâmica de revestimento, deverão ser consideradas, entre outras: marcas de oficina, de fabricante ou centro de fabrico. a marca existente deverá ser descrita e fotografada. no caso de existir, mais do que uma marca, deverão ser fotografadas individualmente. associado a esta informação está o campo intitulado localização da marca, onde deverá ser registada a informação textual relativa à sua localização exacta. quanto à inscrição/legenda deverá entender-se toda e qualquer referência textual incisa, gravada, pintada, impressa ou estampada na obra. sempre que possível, deverá ser referida a técnica, idioma, e localização da inscrição. esta deverá ser transcrita e/ou descodificada, conforme as recentes normas de transcrição paleográfica. para inscrições com mais de uma linha, utilizar-se-á uma barra (/), indicando o final de cada uma. no caso de inscrições com caracteres especiais, ou cuja interpretação seja dúbia, a mesma dever-se-á fazer acompanhar de uma fotografia com boa definição. o quarto macro-campo é relativo à datação do objecto, sendo que, a esta categoria de informação associamos o estilo, pelo facto de estar, intimamente ligado à época de produção da obra. assim, os campos que compõem esta categoria são: período; século; ano; justificação da data e estilo. o primeiro campo, o período, embora deva ser preenchido, para todos os objectos inventariados, permitindo mais possibilidades de pesquisa, será de especial 120 utilidade para peças, em que a datação não é precisa. sendo um campo indexado, dará a possibilidade de referenciar um determinado intervalo no século (por exemplo: primeiro quartel; primeira metade, etc.), fazendo uma correspondência imediata em anos e tentando, sempre que possível, restringir a datação a um intervalo mínimo. no século deverá ser registado, única e somente, o século de produção do objecto, sendo, também, um campo indexado. no campo do ano deverá ser inscrito o ano de produção do objecto270 . quando não existirem certezas, relativamente, à datação deverá ser colocado um ponto de interrogação, dentro de parêntesis (?), quando a data for aproximada dever- se-á colocar a abreviação de cerca (c.), antes dos algarismos. quanto à justificação da data, no caso das obras com datação expressa, a justificação faz-se localizando-a na obra, por exemplo: obra datada no canto inferior esquerdo, azulejo b2. em situações, que a data não esteja muito legível, dever-se-á associar uma fotografia de pormenor. para as obras não datadas, fundamentar-se-á a datação proposta por aproximação formal e técnica com obras do mesmo autor, ou semelhantes. desconhecendo ao autor, datar- se-á: com base documental, mencionando as fontes; pela identificação de determinados elementos; por tradição ou atribuição feita, referindo os fundamentos da tradição, ou o nome do investigador. neste campo, poder-se-á, ainda, incluir datações sugeridas por investigadores ou estudiosos da obra, sempre que estas sejam discrepantes da inscrita nos campos anteriores, e estejam devidamente fundamentadas. o estilo é um campo indexado, devendo entender-se por esta designação uma definição generalista, que agrupa concepções artísticas e técnicas. sempre que o objecto patenteie elementos de mais de um estilo artístico, deverá ser registado o predominante, estando a restante informação salvaguardada num campo adicional. o macro-campo, que se segue no modelo de ficha de inventário, aqui proposto, é relativo à informação técnica do objecto. os campos que compõem esta categoria são: matéria; técnica; notas da técnica; cor; descrição das cores; número de azulejos; especificações do número de azulejos; dimensões dos azulejos; azulejos em falta; tipo de módulo; número de módulos; número de módulos incompletos e azulejos em falta nos módulos. 270 embora, os campos de data devam ser, tanto quanto possível, formatados para conterem datas, nas bases de dados de gestão de colecções essa situação é, muitas vezes, desaconselhável, pelo facto de muitas vezes ser impossível de determinar, dia, mês e ano da datação atribuída aos objectos. existindo esta limitação tecnológica, o melhor é optar por um campo de texto nestes casos e normalizar, internamente, a forma como se introduz este tipo de informação. 121 no campo intitulado matéria identificar-se-á os materiais componentes do objecto. no caso desta colecção, o campo será indexado, sendo que o suporte cerâmico poderá ser em: barro; grês; pó de pedra ou porcelana, e o seu tratamento final, engobado, vidrado ou esmaltado. na técnica, pelas razões anteriormente expostas, identificar-se-á, apenas, as técnicas de decoração. sempre que se tratar de uma técnica mista, dever-se-á referir a técnica respeitante ao material de maior relevância na concepção do objecto, sendo a outra informação complementada no campo notas da técnica. neste último campo, serão, também, inscritas as especificações sobre a técnica registada no campo anterior. relativamente aos campos da cor e descrição das cores, o primeiro será indexado e deverá conter, somente, as opções: monocromático e policromático; o segundo é de texto livre e deverá compreender a enumeração das cores representadas no objecto. os quatro campos que se seguem nesta categoria de informação estão, intimamente, relacionados entre si, ora vejamos. no número de azulejos dever-se-á enumerar o número total de azulejos, que compõem o objecto inventariado, nomeadamente, os azulejos recortados, caso existam. no campo designado especificações do número de azulejos, dever-se-á enumerar o número de azulejos recortados, assim como, a quantidade de azulejos que constituem as cercaduras. no campo dimensões dos azulejos deve-se registar a medida individual do azulejo, e no caso de existir mais do que uma medida standard, a mesma deverá, também, ser inscrita. quanto ao campo azulejos em falta, é específico para as obras incompletas, devendo ser feito o registo do número de azulejos em falta, mediante o seguinte procedimento: identificação dos elementos da obra com uma letra correspondente a cada fiada horizontal associada a um número para cada fiada vertical. os campos que se seguem são, única e exclusivamente, destinados aos exemplares denominados por: azulejo de padrão ou painel de azulejos de padrão. ao registar a informação relativa ao tipo de módulo, dever-se-á entender por módulo, a unidade de repetição composta por um ou vários azulejos, cuja justaposição cria o revestimento de padrão. os motivos decorativos são concebidos tendo em vista o uso em repetição, existindo para tal elementos de ligação e alternância dos centros que garantem a continuidade da trama ornamental do padrão. a este campo deverá estar associada uma imagem do módulo completo. no número de módulos dever-se-á registar a quantidade de módulos, que compõem a unidade museológica. no caso dos azulejos de padrão de módulo único, o número de módulos será coincidente com o 122 número de azulejos. para os restantes tipos de módulos, registar-se-á o número de módulos completos existentes. visando contemplar os exemplares compostos por mais do que um tipo de módulo, foram adicionados mais dois campos: tipo de módulo b e tipo de módulo c, sendo que, a cada um deles deverá corresponder uma fotografia do respectivo módulo. assim, o primeiro a ser registado na ficha de inventário (o tipo de módulo a) será o mais representado no objecto, seguindo-se a mesma regra para os subsequentes. no caso do objecto possuir mais do que três tipos de módulos, a informação deverá ser registada em notas públicas. como o próprio nome indica, no campo número de módulos incompletos inscrever-se-á o número de módulos incompletos, e no caso do objecto possuir mais do que um módulo incompleto, a indicação dos mesmos, deverá ser separada por ponto e vírgula (;). associado a esta informação está o campo azulejos em falta nos módulos onde dever-se-á registar o número de azulejos em falta, dentro de cada módulo, respectivamente, e conforme a seguinte norma: identificação dos elementos do módulo com uma letra correspondente a cada fiada horizontal associada a um número para cada fiada vertical. caso o objecto tenha mais do que um módulo incompleto, o número de módulos e a indicação dos elementos em falta, deverá ser separada dos restantes por ponto e vírgula (;). a sétima categoria de informação é relativa à origem do objecto, tendo como campos: a proveniência; o historial e a função inicial/alterações. no primeiro campo deverá ser feita referência à origem remota da peça. no historial compreender-se-á o percurso efectuado pela mesma, desde que foi executada (contexto de criação e utilização) até ao seu novo estatuto de objecto museológico. este campo poderá comportar informações respeitantes ao seu encomendador; local a que se destinava; antigos proprietários; entre outros dados, que possam contribuir para o seu melhor conhecimento. poder-se-á, ainda, acrescentar uma segunda fase da vida do objecto, abarcando o percurso realizado após a incorporação na colecção até à actualidade271 . no campo função inicial/alterações deverá ser inserida informação sobre a função inicial da peça, e/ou alterações que esta tenha sofrido ao longo da sua existência, relativamente à sua forma ou função. as dimensões encabeçam a categoria que se segue, constituindo uma informação intrínseca a todos os objectos. os campos que compõem esta categoria são: as dimensões 271 saliente-se, que em algumas fichas de inventário, dada a escassez de informação e os prazos do presente trabalho, não permitiram recuperar os dados relativos às diferentes fases percorridas pelo objecto. 123 sem suporte; o tipo de suporte e as dimensões com suporte272 . segundo os processos normalizados para o tratamento documental de objectos museológicos, a cerâmica de revestimento usa, como unidade de medição o centímetro, sendo a internacionalmente adoptada. embora, tenhamos optado por colocar as diferentes dimensões em campos individuais, facilitando deste modo a pesquisa, a ordenação das mesmas deverá ser: altura, largura e espessura. no caso das peças com contorno irregular, como alguns dos registos, considerar-se-á as dimensões máximas da figura geométrica em que se inscrevem. esta regra é, também, válida para os fragmentos de peças regulares e irregulares. quanto ao diâmetro, foi aqui equacionando, tendo em conta, as produções contemporâneas. o peso, ainda que, actualmente permaneça sem preenchimento273 , deverá ser considerado em quilogramas, mas com duas casas decimais. por razões de museografia, de extrema importância para o acondicionamento, embalagem e transporte, as dimensões sem suporte e com suporte, exigem especificação, em campo próprio. no primeiro caso, registar-se-ão as dimensões máximas da peça, livre de suportes ou molduras, sendo que, no segundo deverá inscrever-se, igualmente, as medidas máximas, mas contemplando o suporte e/ou moldura. quanto ao tipo de suporte é um campo indexado, permitindo seleccionar da listagem preestabelecida a opção do objecto a inventariar. o macro-campo seguinte é relativo à incorporação, ou seja, à entrada formal do objecto na colecção. embora, na ficha de inventário, que estará disponível ao público em geral, contemple, apenas, a data de incorporação e modalidade de incorporação, existem outros campos de consulta interna que compõem esta categoria, nomeadamente: a descrição; as notas de incorporação e os documentos associados à incorporação, campos fundamentais na gestão da colecção. em relação à modalidade de incorporação dever-se-á recorrer à lista fechada com os termos legalmente previstos e, 272 segundo a normalização do cidoc, os campos necessários para esta categoria de informação são: o tipo de medida – campo que recorre a lista de termos previamente construída pela instituição onde constarão os tipos de medida adequados ao registo desta informação para as colecções existentes. altura, largura, comprimento, profundidade, peso, densidade, diâmetro, área, entre outros, são alguns dos tipos mais comuns; valor – campo numérico, com o mínimo de duas casas decimais, onde será registado o valor encontrado na medição dos objectos (a indicação das casas decimais é importante, dado que muitas medidas resultam em números inteiros, todavia, cada instituição poderá optar por incluir, se tal for conveniente, mais casas decimais, nestes campos); unidade de medida – este campo, que deverá recorrer também a uma listagem auxiliar de termos, servirá para registar a unidade de medida que é utilizada na medição de objectos. as unidades de medida (centímetro, milímetro, metro cúbico, quilograma, grama, etc.), que o museu utilizará são determinadas pelo próprio e poderão ser diferentes consoante o tipo de objecto. 273 visto que a colecção berardo está, na sua grande maioria, em exposição, no decorrer deste trabalho, foi impossível preencher este campo, dada a morosidade da acção, bem como, os recursos humanos e logísticos, que estariam inerentes. 124 anteriormente mencionados, indicando o modo como a peça foi incorporada. na descrição, campo de texto, dever-se-á adicionar informação complementar sobre a modalidade de incorporação, indicada no campo anterior. no caso da compra, por exemplo, deverá ser mencionado o último proprietário, a entidade que procedeu à venda, o custo da peça e qual a modalidade de pagamento (cheque, transferência, dinheiro, etc.). nas notas dever-se-á registar os contactos do vendedor, no caso de se tratar de uma aquisição, bem como outras informações pertinentes, relativas à incorporação. relativamente aos documentos associados colocar-se-á o número de inventário da documentação associada à modalidade de incorporação. no caso da compra, por exemplo, cópia da factura, cheque, comprovativo de transferência, entre outros. tratando-se de uma doação deverá ter associado o contrato entre as partes, e de um legado referência ao testamento. a conservação perfaz o décimo macro-campo englobando as seguintes categorias de informação: condição; notas; responsável e data. conforme foi explicado no sub- capítulo da terminologia, o estado de conservação da peça deverá ser registado numa lista predefinida, sendo que cada entrada nessa lista contém os dados relativos à condição do bem patrimonial. nas notas, campo de consulta interna, justificar-se-á a opção tomada no campo anterior, fundamentando as razões que estiveram na base da escolha. a linguagem deverá ser resumida e lacónica, e as deficiências constatadas no objecto deverão ser registadas por ordem de importância. nos campos responsável e data deverá constar o nome do técnico que procedeu à análise do estado de conservação e a respectiva data de observação. este último campo deve utilizar as datas do sistema operativo em utilização, de forma a evitar erros de digitação. o macro-campo que sucede a conservação é a localização. os campos que compõem esta categoria de informação são: local; local específico; cidade; região; país e data. no local registar-se-á o sítio onde a peça se encontra localizada, quer seja em exposição, reservas, depósito ou outros. no caso da presente colecção, as alternativas são as seguintes: jardim tropical monte palace; quinta e palácio da bacalhôa274 ; quinta da bassaqueira; quinta dos loridos e quinta da cancela. o campo local específico reportar-se-á à cota, ou seja, a localização específica da peça em cada um dos locais referidos no campo anterior (por exemplo: alameda; sala; andar; etc.). a 274 relativamente às peças da quinta e palácio da bacalhôa, reportamo-nos, neste sistema de inventário, apenas aos exemplares deslocados, ou seja, aos que não são originários desse espaço, mas que de momento, se encontram em exposição. quanto aos exemplares in situ deverão fazer parte, da ficha de inventário do próprio edifício, que adiante abordaremos. 125 cidade, região e país, que deverá ser registada, respeitará a localização indicada nos campos precedentes, sendo o campo intitulado por data, relativo à data em que peça foi instalada no local acima mencionado275 . à categoria de informação designada por exposições correspondem vários campos de informação, nomeadamente: título da exposição; data de início; data de fim; descrição da exposição; nome da instituição; morada; código postal; estado; país, telefone; fax; e-mail; website; contacto; link da exposição e notas. embora, este macro-campo contenha todas estas informações, só serão disponibilizadas ao público em geral as seguintes: título da exposição; data de início; data de fim; descrição; nome da instituição e país, sendo as restantes para uso interno da gestão da colecção. neste seguimento, deverão ser mencionadas, nesta categoria, todas as exposições em que a peça esteve presente. os vários campos mencionados poderão ser desmultiplicados, quantas vezes forem necessários, em função do objecto que se estiver a inventariar, criando deste modo, um histórico, relativamente a esta chancela. ou seja, o mesmo objecto poderá ter várias entradas de exposições, repetindo os campos, apesar de conter informações distintas. convém, ainda, salientar que este é um campo indexado, ou seja, no caso de determinada exposição ter tido mais de um objecto da colecção patente, o evento será lançado uma única vez, sendo-lhe associado as obras que figuraram na respectiva mostra. o décimo quarto macro-campo é relativo à bibliografia do objecto, sendo que, para esta categoria de informação seguimos o que ditam as normas gerais: “na bibliografia de inventário (…) serão apenas referenciadas: obras gerais ou específicas em que a obra aparece citada; obras gerais ou específicas indispensáveis ao estudo e referenciação da peça (paralelismos estético-formais, analogias que permitam a datação ou a atribuição de autor, de fabrico, etc.). genericamente, não serão incluídas obras de contextualização.”276 . à semelhança de outras categorias, os campos que compõem a bibliografia serão inseridos, uma única vez, numa tabela anexa, constituindo um elenco bibliográfico, a partir do qual se poderá relacionar uma referência com o objecto a inventariar. ao seleccionar no campo da bibliografia uma 275 saliente-se, que devido à inexistência deste campo no inventário anterior, é-nos completamente impossível, precisar as datas em que as peças foram instaladas nos locais de exposição permanente, acima mencionados. sendo essa uma informação relativa à gestão da colecção, mas que não foi salvaguardada, ao longo dos tempos, assumimos que a data agora registada corresponde à data de preenchimento da ficha, de forma a não incorremos em imprecisões temporais. contudo, com a criação desta nova ficha de inventário, e do subsequente sistema de inventário e gestão, essa informação, passará a ser introduzida, bem como, todas as suas movimentações, internas ou externas, possibilitando criar “históricos” de localização das peças. 276 aa.vv. – normas de inventário. normas gerais. artes plásticas e artes decorativas (2000), p. 65. 126 entrada de tabela já existente, dever-se-á, apenas, especificar a(s) página(s) onde se faz referência à peça em causa, fazendo uma distinção entre a informação textual e a imagem gráfica e/ou visual. a categoria de informação intitulada notas comporta dois tipos de campos: notas públicas e notas privadas. sendo ambos de texto, no primeiro dever-se-á registar informações de carácter adicional, que por qualquer motivo não ficaram contempladas nos campos precedentes, ou observações suplementares que o inventariante considere relevantes e que possam estar ao dispor do público em geral; no segundo poderão ser incluídas informações de carácter privado, que dizem respeito, apenas, à entidade que tutela e coordena a colecção. quanto às últimas categorias, designadamente, a informação do registo e a actualização, já não são relativas ao objecto a inventariar, mas sim à validação da informação registada. contemplando os campos: responsável e data, são de preenchimento obrigatório, identificando quem preenche ou actualiza a ficha da peça. tal como acontece, noutras categorias, a data na qual é criado o registo do objecto no sistema de inventário emprega as datas do sistema operativo em utilização, de forma a evitar enganos de digitação. 4. azulejaria in situ: quinta e palácio da bacalhôa a inventariação de peças musealizadas, retiradas da sua integração arquitectónica originária, cerâmicas de revestimento ou de aplicação arquitectónica, foi sistematizada nas normas de inventário, editadas em 1999, pelo antigo instituto português de museus, tentando dar uma solução estruturada e completa à multiplicidade dos objectos que revestem os edifícios e monumentos, desde o padrão às composições narrativas, passando pelas placas cerâmicas, telhas ou outros elementos cerâmicos da arquitectura. todavia, o património integrado, isto é, aqueles bens culturais que ainda fazem parte dos imóveis, ou lhes estão fisicamente adstritos, designadamente as pinturas murais, os revestimentos azulejares, os cadeirais e arcazes das igrejas, os altares, os tectos em caixotões e respectivas pinturas, os elementos decorativos sobre estuque e em pedra, os órgãos e os vitrais, entre outros, continuam até hoje, dez anos passados, sem uma estrutura formal de inventariação e classificação. 127 também em 1999 foram editadas, pelo mesmo instituto, as normas de inventário dirigidas especificamente para a categoria de cerâmica de revestimento, documento onde ficou registado, pelo paulo henriques, então director do museu nacional do azulejo, a importância da existência de um instrumento normalizado, afirmando que “(…) deverá o museu nacional do azulejo ponderar um sistema de inventariação de revestimentos cerâmicos in situ antigos e contemporâneos que, com excessiva frequência, são alvo de destruição e roubo.”277 . quatro anos depois, o mesmo responsável, volta a frisar publicamente, que o museu nacional do azulejo continua a considerar a elaboração de uma ficha de inventariação para a azulejaria in situ, persistindo na “(…) procura de uma solução eficaz para colocar à disposição de autarquias e instituições que possuam pessoal técnico capaz de preencher estas fichas de inventário de azulejo in situ, garantindo-se deste modo o seu melhor estudo e conhecimento, com a sua consequente valorização e salvaguarda.”278 . na verdade o património integrado, e particularmente o revestimento azulejar, urge ser registado e documentado, permitindo tal procedimento construir um quadro geral do estado de conservação dos conjuntos de azulejo aplicados nas arquitecturas, evitando a sua grande delapidação por destruição, vandalismo e furto, muito usual neste tipo de património. podemos mesmo afirmar que a primeira medida de conservação do um bem patrimonial é dar-lhe uma existência através de um documento, seja uma simples ficha de levantamento, ou uma ficha sistemática de inventariação. possuindo, actualmente, os bens móveis uma estrutura formal de identificação, nos quais se inclui as peças de azulejaria musealizadas, é urgente a inventariação do azulejo em portugal entendido, em sentido lato, como bem imóvel, ou património integrado, assim classificado por estar fixo numa superfície parietal e ser parte indispensável das funcionalidades prática, estética e simbólica do edifício que integra, com frequência compondo o próprio espaço e transportando-o de sentidos. como refere paulo henriques, esta preocupação não é nova, pois “(…) quando no final da década de 1950, o engenheiro joão miguel dos santos simões organiza com o apoio da fundação calouste gulbenkian as brigadas de azulejaria, designação que por si só revela a consciência que aquele investigador tinha da extensão e complexidade de meios humanos e materiais necessários a esta inventariação, ensaia 277 aa.vv. – normas de inventário. cerâmica de revestimento. artes plásticas e artes decorativas (1999), p. 12. 278 henriques, paulo – “a inventariação e classificação do património em azulejo”. in azulejo 8/11, instituto português dos museus, museu nacional do azulejo, lisboa, 2003, p. 57. 128 uma metodologia de inventariação que se revelou eficaz na sua planificação de levantamento e registo.”279 . contudo, persistem em escassear os instrumentos de inventário para este tipo de património in situ, com excepção feita ao programa in patrimonium – gestão integrada do património, e à possibilidade de extensão do programa matriz. o primeiro foi desenvolvido pela empresa sistemas do futuro, que tem vindo a incrementar vários programas com base nas normas nacionais e internacionais, vocacionados para a área da gestão do património, nomeadamente, o in arte (património móvel); o in doc (património documental); o in domus (património imóvel); o in memoria (património imaterial) e o in natura (património natural). o in patrimonium – gestão integrada do património, permite uma gestão global do património cultural e vem dar continuidade à linha de produtos, com as mesmas características técnicas, mesmo tipo de interface e qualidade. num conceito de gestão global este instrumento integra numa única aplicação toda a informação existente nos diferentes módulos (in arte; in doc; in domus; in memoria e in natura), permitindo uma melhor gestão e integração do património, sendo o único no mercado nacional, que contempla o património integrado. quanto ao programa matriz – inventário e gestão de colecções museológicas desenvolvido pela empresa softlimits em parceria com o instituto dos museus e da conservação, e utilizado por mais de uma centena de instituições de referência na protecção e salvaguarda do património cultural, embora privilegie a abordagem aos objectos de cerâmica entendidos como unidades museológicas, poderá segundo os seus autores, estender-se naturalmente às peças cerâmicas ainda hoje integradas na arquitectura. certamente que uma ficha de inventário, para conjuntos conservados nas arquitecturas, deveria ser sustida de registos gráficos com plantas de localização dos objectos nos espaços e historiais de propriedade e intervenções realizadas nos edifícios, elementos primordiais que conjecturam a articulação funcional com as instituições que tutelam e trabalham com o património edificado como, por exemplo, o igespar – instituto de gestão do património arquitectónico e arqueológico e o ihru – instituto da habitação e reabilitação urbana, não se esquecendo, pelo passivo histórico que é o arquivo santos simões, da fundação calouste gulbenkian que, pioneiramente, apadrinhou a construção do corpus de referência da nossa azulejaria. 279 paulo henriques (2003), p. 54. 129 perante este panorama nacional decidimos, no presente trabalho e relativamente ao revestimento azulejar da quinta e palácio da bacalhôa, ainda, in situ fazer uma actualização à ficha de inventário do imóvel com apoio no estudo e investigação apresentado na primeira parte da dissertação, sendo que, estes exemplares, pertencentes à mesma tutela são parte integrante da colecção berardo. tendo por base a ficha da antiga dgemn – direcção geral dos edifícios e monumentos nacionais280 , agora parcialmente integrada no ihru – instituto da habitação e reabilitação urbana, resultante da reestruturação e redenominação do antigo inh – instituto nacional de habitação, tendo nele sido integrados o igaphe – instituto de gestão e alienação do património habitacional do estado e parte da própria dgemn, acrescentamos e actualizamos a informação patenteada no campo intitulado: descrição complementar relativa à azulejaria, e adicionamos, no campo das observações, o estado de conservação deste património azulejar281 . a actualização destes dois campos permitiu inserir novos parâmetros, tendo em conta a reunião da seguinte informação: identificação dos conjuntos exemplares mais significativos do palácio, jardim e vinha, englobando as diferentes estruturas arquitectónicas existentes, como sejam, os pátios, alegretes, a casa da água, a casa do lago, entre outros; descrição; algumas características técnicas; dimensões, em alguns casos; registo dos elementos em falta; registo do estado de conservação do revestimento e do suporte arquitectónico. no futuro, e de acordo com os possíveis desenvolvimentos referentes à normalização desta matéria, ambicionamos associar ao sistema de inventário e gestão da colecção de azulejos por nós desenvolvido, uma nova aplicação com fichas específicas e unitárias para o património integrado, indexando, como é lógico, o revestimento azulejar ao edifício. pois, em nossa opinião, estes conjuntos deverão estar relacionados com a restante colecção, embora devam ser autonomamente inventariados porque, in extremis entenda-se que poderão vir a ser retirados do seu contexto, quer por questões de conservação; furto ou troca de proprietário. 280 palácio da quinta da bacalhôa em vila fresca de azeitão, ficha nº pt031512060005, disponível em: http://extranet.monumentos.pt/monumentos/forms/002_b1.aspx. 281 anexo xxxix – ficha de inventário da quinta e palácio da bacalhôa (adaptada). 130 capítulo ii – sistema de inventário e gestão da colecção “na museologia contemporânea, os sistemas de inventário e os sistemas de gestão de colecções têm vindo a tornar-se mais complexos e mais exigentes em concordância com as tarefas cada vez mais especializadas dos museus. a utilização de sistemas informáticos tem vindo a permitir que tal complexização seja fundamentalmente ónus dos que concebem os sistemas, desejando-se que o utilizador final tenha um acesso simplificado, funcional e eficiente. assim, na concepção de um sistema de inventário museológico e de gestão de colecções de museu, torna-se necessário um trabalho de equipe, onde as exigências de uma museologia contemporânea sejam apresentadas por alguém com formação específica na área e as potencialidades de um sistema informático sejam desenvolvidas, também, por especialistas.”282 na verdade, o trabalho de recolha e sistematização dos dados que deverão compor a informação sobre as colecções tem, obrigatoriamente, de ser feito pelos colaboradores dos equipamentos museológicos/culturais, e em estreita relação com os informáticos, quer sejam internos ou externos à instituição. possuindo a colecção berardo, colaboradores que reúnem valências nas áreas da informática e da museologia, optou-se, no presente caso, por uma solução desenvolvida internamente, criando um sistema construído de raiz e capaz de responder com eficácia a todas as exigências colocadas. interessou-nos sobremodo a definição do que seria o sistema informático, que viria a possibilitar o inventário e a gestão continuada da colecção de azulejos. analisando a oferta de mercado nesta área, constatámos que os produtos existentes, embora muito desenvolvidos, não respondiam às necessidades específicas da colecção, limitando o prosseguimento de algumas tarefas, por nós estabelecidas, e impossibilitando o cruzamento de alguns campos. o facto de construir um programa novo, que pudesse alcançar os objectivos de uma melhor investigação e gestão da colecção, protege-nos, também, de alguns dos riscos inerentes à aquisição de produtos, deste tipo, comercializados por terceiros, como seja, a sua sustentabilidade económica e durabilidade no mercado. salientando-se, ainda, que por se tratar de uma aplicação interna tem outro tipo de flexibilidade, sendo possível, a qualquer altura, criar e 282 gouveia, feliz; lira, sérgio – “sistema de inventário e de gestão de colecções para o ecomuseu de barroso”. in actas das xvi jornadas sobre a função social do museu, câmara municipal de montalegre e ecomuseu de barroso, montalegre, 2006, pp. 95 a 101. disponível em: http://www2.ufp.pt/~slira/artigos/minom.pdf 131 modificar as especificações e funcionalidades da mesma, face às necessidades da colecção, ou mesmo, face a futuras alterações e actualizações da normalização. a análise das normas nacionais definidas pelo imc e utilizadas pelos museus portugueses, bem como, das internacionais, produzidas pelos diversos organismos mais referenciados em relação a standards documentais, como o cidoc, a mda, ou o chin283 , possibilitou a sua posterior utilização, de forma a concebermos uma solução que as conjugasse e, finalmente, reunir os recursos técnicos para a construção de uma base de dados e um sistema de gestão da informação, destinados ao registo e documentação deste património azulejar. como atrás ficou referido, na criação do sistema de gestão, tivemos também, em especial consideração, as outras duas vertentes da normalização documental, a dos conteúdos e a dos procedimentos. a constituição de um eficaz processo de documentação da colecção obrigou-nos a que se pensasse a longo prazo e não nos resultados imediatos. 1. modelo o modelo de dados que propomos foi construído tendo em consideração uma base de dados relacional. a sua organização, assente no modelo relacional, foi concebida, no pressuposto essencial de que a informação deverá ser estruturada e que nunca será introduzido, mais do que uma vez, o registo relativo a um objecto, exposição, documento, ou outros, nas diferentes tabelas, que inevitavelmente serão criadas para cada um desses aspectos. este método de estruturação de dados, em diversas tabelas, que são associadas logicamente entre si mediante atributos comuns, permite que qualquer registo possa ser encontrado no sistema de inventário e gestão da colecção através das relações existentes entre as diferentes tabelas, tendo como vantagem principal evitar a duplicação de informação numa só tabela, como acontece no modelo documental284 . nas tradicionais bases de dados documentais a informação concentra-se, somente, numa ficha de identificação, não existindo qualquer diferenciação entre as diversas matérias tratadas. informação como as referências bibliográficas, os processos de restauro, as 283 canadian heritage information network, disponível em: www.chin.gc.ca. 284 o modelo documental consiste em bases de dados em que toda a informação é carregada numa só tabela, sem outra estruturação de dados que não a simples definição de campos. 132 fotografias da colecção, ou as exposições, citando apenas alguns exemplos, são tratados em campos existentes na própria ficha de inventário dos objectos. ora, como é de conhecimento comum, este tipo de situação não é o mais correcto em termos de registo informático, na medida em que, permite e facilita o erro de introdução, dificulta visões parciais de informação e impossibilita a pesquisa em muitas situações. para responder a este tipo de problemas o ocp – online control panel, designação por nós atribuída ao sistema de inventário e gestão da colecção de azulejos, foi desenvolvido numa base de dados relacional, ou seja, é uma única base de dados com diferentes tabelas interligadas entre si, que atenuam a ocorrência de erros na introdução de dados, minimizam a repetição da informação e facultam o estabelecimento de relações entre as diversas tabelas (ou se quisermos, as pequenas bases de dados presentes neste tipo de estrutura) existentes no sistema. arriscando traçar uma “imagem visual” do sistema, trata-se, basicamente, de uma estrutura de forma circular onde existe uma parte central relativa aos exemplares azulejares (objectos museológicos) e à informação directamente relacionada com estes, intrínseca ou extrinsecamente, e radialmente um sistema de tabelas que por sua vez constituem, em alguns casos, diferentes bases de dados, ligadas directamente à tabela central (ou base de dados central), que como mencionámos é referente ao inventário dos objectos. a ligação destas tabelas processa-se de dois métodos distintos. um directo, no qual alguns dos campos existentes no inventário recorrem à informação, previamente, registada nas tabelas exteriores285 , nomeadamente, no caso dos autores, denominação, estilo, entre outros. para estes campos é possível um controlo efectivo da informação através de tabelas auxiliares, carregadas e geridas pela instituição, reunindo informação que será recuperada a partir do inventário. como referimos previamente, minimiza-se, deste modo, o risco de duplicação da informação e, por outro lado, optimizam-se os níveis de carregamento dos dados. o outro método é indirecto, sendo indispensável a intervenção do inventariante, para estabelecer, de que forma se deverá efectuar a relação entre a informação e objecto em presença, tome-se como exemplo a bibliografia de um painel de azulejos, embora a referência bibliográfica de determinada obra possa já constar no sistema associada a outro exemplar, deverá ser feita uma ligação à(s) página(s) relativa(s) ao bem patrimonial em questão. 285 ao registo prévio, em tabelas exteriores, apelidamos de indexação. 133 todavia, o elemento principal do sistema de inventário e gestão da colecção é o registo da informação dos objectos. a sua centralidade e destaque na “imagem visual”, anteriormente referida, é intencional, remetendo para a importância que foi dada a esta matéria na construção da estrutura de dados, pois sem o registo da informação correcta sobre os objectos, dificilmente se poderá gerir uma colecção em toda a sua amplitude e especificidade. concluindo, temos várias bases de dados dentro de uma só, ou melhor, uma base de dados relacional estruturada de acordo com a normalização nacional e internacional existente, e criamos uma ferramenta transversal a todo o sistema, que autoriza os utilizadores a criar e classificar todas as relações e interdependências que entenda necessárias à boa documentação da colecção, de forma a obter, através da pesquisa, toda a informação relativa a um objecto, ou mesmo a qualquer outro aspecto existente no ocp, como sejam, as exposições, referências bibliográficas, conjuntos, etc. 2. suporte técnico a construção do sistema de inventário e gestão da colecção de azulejos, o ocp, utiliza uma solução online de gestão, sendo que, a plataforma de desenvolvimento escolhida foi baseada numa estrutura de programação em script286 , a asp – active server pages287 , criada pela microsoft. a estrutura de programação utilizada foi seleccionada, na medida em que possui diversas vantagens, fundamentais, ao projecto que ambicionávamos, sobretudo, a independência do utilizador, sendo possível a qualquer utilizador de internet, independentemente, do sistema operativo utilizado, aceder a sites ou páginas em asp, visto que todo o processamento de informações é feito no servidor; código de programação protegido, ou seja, os visitantes de sites ou páginas em asp visualizam, unicamente, os 286 linguagem de script é uma linguagem de programação realizada do interior de programas e/ou de outras linguagens de programação, não se limitando a esses ambientes. as linguagens de script servem para estender a funcionalidade de um programa e/ou controlá-lo, através da api – application programming interface (ou interface de programação de aplicativos). 287 a asp – active server pages (ou páginas activas de servidor) é uma estrutura de programação em script que se serve da vbscript, jscript, perlscript ou python processadas pelo servidor para a criação de conteúdos dinâmicos na web (world wide web). com o objectivo de facultar a produção de páginas e aplicações web activas, proporciona uma maior interacção com o utilizador. esta estrutura de programação funciona, naturalmente, em servidores windows, através do serviço iis (internet information service) – o servidor web da microsoft, ou do pws (personal web server) em ambientes com windows nt/2000, possuindo, ainda, a vantagem de correr noutras plataformas, como o linux. 134 resultados do processamento em páginas html288 , o que impede que o código de programação seja visualizado; e o bom funcionamento na visualização e manipulação de informações em bases de dados que suportam obdc – open data base connectivity. a solução informática da ocp, realizada por um técnico interno da colecção berardo289 , funciona online com a base de dados assente, temporariamente, em microsoft office access290 . assim que o seu desenvolvimento atinja uma maturação razoável, a mesma será então migrada para mysql, que é um sistema de gestão de bases de dados (sgbd - sistema gestor de base de dados), que utiliza a linguagem sql – structured query language (ou linguagem de consulta estruturada) como interface291 . todavia, actualmente, a aplicação obtida, oferece já um interface de trabalho bastante amigável, coerente e eficaz, caracterizando-se, ainda, pela facilidade de utilização, que será mantida, aquando da futura migração. relativamente, à escolha de uma solução de gestão online prende-se com vários aspectos. em nosso entender, consegue ser a mais eficaz, podendo assim ser acedida por qualquer um dos colaboradores da colecção, em qualquer lugar com acesso à internet e em simultâneo, servindo igualmente de fonte para o site geral da colecção berardo292 e para o futuro museu virtual (ao nível do inventário), não existindo deste modo, a necessidade de duplicação da informação. ao optar por uma solução online dispensamos de igual forma da instalação de software específico nas máquinas, uma vez que o acesso faz-se usando apenas um browser de internet293 (internet explorer ou mozilla firefox), e todas as actualizações são realizadas a nível de servidor, estando de 288 html – hyper text markup language, é um conjunto de códigos ou descrições usados na construção de páginas de internet. 289 o informático responsável por este projecto é o hugo martins, actualmente, developer na colecção berardo, e detentor de uma larga experiência na área da programação. 290 o microsoft office access é um sistema relacional de administração de bases de dados da microsoft, que combina o microsoft jet database engine com um interface gráfico do utilizador (graphical user interface). permite o desenvolvimento rápido de aplicações que envolvam a modelação e estrutura de dados. 291 o mysql é actualmente uma das bases de dados mais utilizadas internacionalmente, com mais de 10 milhões de instalações pelo mundo. entre os utilizadores do mysql estão instituições como: nasa, u.s. army, us. federal reserve bank, friendster, banco bradesco, lufthansa, associated press, entre outros. 292 independentemente, da criação do futuro museu virtual do azulejo da colecção berardo, existe e continuará a existir o site geral do “universo” da colecção berardo, incluindo todas as colecções integrantes, disponível em www.berardocollection.com. de momento, apenas, a de arte moderna e contemporânea possui um inventário, relativamente desenvolvido, embora não tão completo, como o que aqui propomos. no entanto, faz parte dos objectivos da tutela, com base no presente trabalho, criar sistemas de inventário e gestão para as restantes colecções, respeitando como é claro, as especificidades de cada uma delas, para que essa informação possa integrar o referido site, sendo que por agora, o que existe é, somente, uma breve apresentação das colecções, associado a um número de inventário e à fotografia dos objectos. 293 o browser de internet é um programa de computador que habilita os seus utilizadores a interagirem com documentos virtuais da internet, também conhecidos como páginas html, que estão hospedadas num servidor web. 135 imediato disponíveis para os utilizadores. assim, os utilizadores serão tantos quantos se desejar, sem necessidade de nenhuma instalação específica, e podendo aceder ao sistema de onde estiverem. deste modo, a coordenação da colecção pode multiplicar livremente os pontos de acesso internos e externos294 , transformando o sistema num efectivo portador de informação cultural e científica a todo o universo da rede. falta, finalmente, referir que do ponto de vista formal, apesar de se estruturarem categorias de informação distintas e separadas entre si, existem aspectos comuns que importa reter sobre esta estrutura de dados. em primeiro lugar, todas as categorias de informação têm os formatos dos campos utilizados normalizados, ou seja, ao campo de texto utilizado na descrição, por exemplo, correspondem as mesmas características (em termos de tamanho e formatação) dos campos semelhantes encontrados nas restantes categorias de informação propostas. esta normalização foi, também, tida em conta na criação da base de dados, sendo extensível aos campos de texto das tabelas auxiliares. dentro deste âmbito, importa ainda mencionar que os campos de informação podem assumir uma de quatro tipologias principais: campo de texto livre, campo de conteúdo seleccionado de uma lista pré-definida, campo alfanumérico (datas, dimensões, identificador de módulos, valores, entre outros) ou, campo de inserção de um ficheiro autónomo (imagens fixas, imagens em movimento, documentos, gráficos, entre outros). 3. funcionalidades constituído por bases de dados intercomunicantes, visando o inventário e a gestão, este sistema é um instrumento global de gestão e documentação da colecção de azulejos, que tanto permite o carregamento de fichas de inventário, como o proveito dos dados inseridos, para auxílio à realização de outras actividades museológicas, que envolvem o manuseamento e a movimentação dos exemplares dentro e fora da colecção berardo. quanto à tarefa de inventário foi já explicada no capítulo anterior, sendo que no ambiente de trabalho do sistema ocp – online control panel, iremos complementar a informação em falta, relativa à sua apresentação gráfica, aludindo para algumas normas de preenchimento. agora, neste ponto, reportar-nos-emos à função de gestão e documentação do espólio, embora de forma sucinta, visto estar directamente aliançado 294 em relação aos utilizadores externos, falaremos mais adiante. 136 ao modelo relacional, seleccionado para o desenvolvimento da presente aplicação e, anteriormente, exposto. este módulo, se assim o quisermos apelidar, permite o registo e gestão de todas as circunstâncias associadas aos processos de circulação dos objectos, designadamente exposições temporárias, rotação de exemplares nas exposições permanentes, organização de reservas, acções de conservação preventiva e restauro, entre outros. dentro desta tarefa, e associados às movimentações dos objectos, serão, também, registadas as informações relativas aos contratos de seguro. o grupo de tarefas referente à documentação permite, sempre com base na estrutura relacional, o registo de toda a documentação relacionada com os bens patrimoniais inventariados, bem como, com outras tarefas presentes na aplicação, como por exemplo, uma ficha de exposição. neste caso, para além do sistema autorizar o registo da referência de um determinado objecto presente num catálogo de uma dada exposição, permite, também, associar a ficha bibliográfica desse catálogo com a ficha da exposição a que ele se refere. assim teremos a exposição relacionada com o catálogo que a acompanha, e com todos os objectos, que se encontram representados nesse catálogo. importa referir que as conexões, acima descritas, só poderão ser estabelecidas, após a inventariação no sistema, quer do objecto, quer do documento que lhe está associado. ainda, no âmbito das relações, estas poderão ser de dois tipos, por um lado as relações pré-existentes que o inventariante deve registar, visando a conservação da memória; por outro, as relações resultantes da interpretação realizada pela própria tutela ou fruto de investigações e estudos realizados por especialistas. na primeira tipologia de relação, temos o exemplo, da documentação associada à incorporação, designadamente, facturas, cópias de cheques, comprovativos de transferência, recibos, entre outros. neste caso, aquando da entrada formal do objecto na colecção, a documentação associada era já existente, tratando-se pois, de uma relação pré-existente. assim, cada documento é inventariado por si próprio, estabelecendo, posteriormente, relações entre eles e com o objecto em questão. na segunda tipologia, podemos apontar como exemplo, a descoberta, por via da investigação, de uma gravura, que inspirou determinado painel de azulejos pertencente à colecção berardo. este tipo de informação gráfica deverá ser associado ao painel, como documentação histórica, sendo resultado de uma interpretação posterior à sua incorporação. é, também, no domínio da gestão, que o sistema permite registar a circunstância e criar uma lista de objectos associados cujos dados do inventário podem ser transferidos 137 automaticamente. esta situação verifica-se, por exemplo, no caso dos conjuntos. primeiramente, o inventariante cria o conjunto, intitula-o e descreve-o, associando, à posteriori, os objectos relacionados, designados por elementos do conjunto. as funcionalidades do sistema de inventário e gestão possibilitam, deste modo, reter, ordenar e fornecer informação, facultando o cruzamento dos dados introduzidos, ou seja, características fundamentais para uma gestão completa e eficaz da colecção de azulejos. 4. segurança a segurança do sistema estabelece-se a dois níveis: a segurança da informação, propriamente dita, e a segurança dos utilizadores. relativamente à segurança da aplicação e da informação introduzida está contemplada pela existência de dois servidores, em locais distintos do território nacional. contudo, tratando-se de uma solução web, a segurança é redobrada, sendo o seu alojamento fornecido pela madbug.com, uma empresa especializada na área, e que mantém o seu normal funcionamento num servidor fixo, no reino unido. a escolha desta localização geográfica deve-se à optimização da disponibilidade para utilizadores europeus, evitando deste modo, transferências transatlânticas. quanto aos utilizadores e às diferentes utilizações que um sistema desta natureza deve responder, definimos vários privilégios para dar solução a diversas necessidades nomeadamente, e por razões de segurança, impedir a corrupção de dados vitais para o seu correcto funcionamento. deste modo distinguimos, inicialmente, dois tipos de utilizadores: os internos à colecção berardo e os externos. dentro dos internos identificamos três perfis-tipo de utilizadores com privilégios distintos, a saber: a administração do sistema, que tem acesso a funções de administração, podendo para além de ler e alterar as fichas existentes, apagar registos e alterar as permissões dos outros utilizadores; a gestão que tem autorização para fazer tudo sem restrições, podendo inserir, ler, alterar e eliminar as fichas sem limitação, e pode também, gerir as tabelas auxiliares, fazendo uso da introdução, alteração e eliminação de elementos dessas tabelas; e o inventário, que permite inserir e ler sem restrição, mas só pode alterar e eliminar as fichas que tenha criado com o seu login pessoal, podendo ainda, introduzir dados nas tabelas auxiliares. importa referir que o sistema reconhece estes três níveis, mediante um acesso realizado, em qualquer dos 138 casos, com o nome do utilizador e uma palavra-chave. para os utilizadores internos não há informações restritas, sendo que, as limitações só se verificam ao nível da alteração ou inserção de dados, eliminação e criação de fichas. para os utilizadores externos identificamos dois tipos: o investigador e o público em geral. para o primeiro foram consagrados privilégios especiais no que respeita à precisão da informação histórica e científica, podendo aceder às informações disponíveis, com as limitações que o administrador do sistema considerar necessário impor e através do nome de utilizador e palavra-chave que lhe seja atribuído. neste sentido, informações confidenciais, como por exemplo, valores de aquisição, seguro ou notas privadas, não estarão disponíveis. dispondo, apenas, do modo de pesquisa, contrariamente ao que acontece aos utilizadores internos, este tipo de utilizador terá critérios limitados, estando impedido de pesquisar determinados campos, ainda que, tratando-se de um utilizador que acede ao sistema com intenções de investigação, este tipo de restrição será unicamente reduzido ao essencial. quanto ao segundo tipo de utilizador externo, o público em geral, foram reconhecidos menos privilégios do que ao investigador. sem necessidade de login, tem à sua disposição um modo simplificado de pesquisa de informação, onde os campos disponíveis e os valores introduzidos nos próprios campos estarão muito limitados. 5. pesquisa e exportação a consulta da informação reunida no sistema é assegurada através da pesquisa, que dirige o utilizador, interno, para a estrutura da ficha de inventário, onde todos os campos são pesquisáveis. actualmente, dentro desta função, está apenas disponível uma pesquisa simples, por uma só palavra ou frase. todavia, no futuro, serão implementadas novas funcionalidades como pesquisas avançadas, multi-campo e múltiplas palavras- chave, assim, esta função, permitirá determinar cruzamentos mais complexos dos campos existentes, combinando diversos critérios de pesquisa com total fiabilidade e sucesso de resultados. associada a esta função, existirá, também, a possibilidade de observar, simultaneamente, diferentes imagens de um ou mais objectos, mediante o álbuns de imagens. fazemos aqui, uma chamada de atenção, relativa à integração de dados e fotografias no sistema, sendo a mesma feita através da digital lightbox (banco de imagens da colecção berardo), que é mantida e constantemente actualizada pelo fotógrafo interno da colecção. 139 no modo de pesquisa, o sistema cede listagens de campos que correspondem ao requerido, podendo o utilizador pesquisar por qualquer campo, indicando ou não, valores de pesquisa para os campos seleccionados. os resultados obtidos, em forma de texto ou listagem, poderão ser exportados para diversos formatos, nomeadamente, csv295 , word, excel e pdf. a opção exportar além de servir para fazer exportações dos dados obtidos em determinada pesquisa efectuada, serve, também, para exportar fichas completas de inventário296 , listagens de referências bibliográficas, localizações, exposições, autores, entre outros, para as aplicações, anteriormente referidas, de modo a que a informação possa ser tratada de outra forma. 6. actualização e históricos após o inventário dos objectos e registo das suas relações, o processo não se encontra concluído, pois a qualquer momento é possível enriquecer este tipo de informação, salientando que o mesmo poderá acontecer na sequência de novos dados e/ou relações fruto de investigações realizadas posteriormente, ou fruto dos próprios objectos. não sendo, estes últimos, entidades absolutamente duráveis, sofrem deterioração natural ou humana, intervenções de conservação ou restauro, são utilizados em exposições temporárias ou emprestados a outras instituições, são alvo de actuações administrativas ou contratuais (preenchimento de uma ficha de empréstimo ou a realização de uma apólice de seguro, por exemplo), ou em última estância, podem até ser abatidos ao inventário por razões fundamentadas. assim, a presente estrutura da base de dados contém tabelas e campos necessários para o registo do maior número de informação possível, considerando alguns princípios fundamentais, como o histórico da informação ou a necessidade de criação de mais do que um registo em determinadas categorias de informação. um dos casos mais elucidativos da importância dos históricos é o estado de conservação, este tipo de informação relativa à condição do objecto, nunca deverá ser perdida, quer seja 295 o csv (comma-separated values) é um formato de arquivo que armazena dados tabelados, separados por um delimitador, que usa a vírgula e a quebra de linha para separar os valores. o formato usa, também, as aspas em campos nos quais são usados os caracteres reservados (vírgula e quebra de linha). essa força no formato torna o csv mais amplo, que outros formatos digitais do mesmo segmento. 296 idênticas às que dão corpo ao volume iii da presente dissertação. 140 em detrimento da introdução de um novo estado de conservação, quer seja ocasionado por um restauro. à semelhança do que acontece com a categoria de informação estado de conservação, a importância da possibilidade de registar distintas localizações para um só objecto é determinante nesta categoria. o historial dos locais pelos quais passam os objectos fica registado neste grupo de informação devido a essa capacidade, através da qual podemos inserir um novo registo de localização, sem perder qualquer informação dos registos anteriores. o sistema, ao encontro desta necessidade, não conhece apenas os objectos inventariados, mas permite, também, registar e actualizar as acções de que foram alvo, conservando a memória de todos esses registos. o princípio, que aqui alvitramos, é neste tipo de bases de dados, de gestão de colecções, imprescindível, sendo esta uma das razões apontadas na impossibilidade de utilizar bases de dados documentais, ou que recorrem apenas a uma tabela, visto que os exemplos acima referidos, o estado de conservação e a localização, a par de muitos outros, implicam uma prática assente neste pressuposto. a presença de diferentes registos respeitantes ao mesmo objecto, em cada categoria de informação, perfazendo um “histórico de registos” só é possível, no sistema desenvolvido, devido à utilização de tabelas independentes, interligadas aos objectos, que permitem a existência das relações de um número infinito de registos em qualquer categoria, para apenas um registo de inventário, ou seja, várias localizações, vários estados de conservação (com datas diferenciadas), para o mesmo objecto. assegurado este princípio, importa referir, que este esquema de organização consente uma evolução da estrutura de dados sem os condicionalismos existentes noutros sistemas. se a um dado momento, houver alteração das normas em vigor, podem ser acrescentadas, ou eliminadas, categorias de informação sem prejuízo para o funcionamento da restante base de dados, melhorando assim a execução do sistema no inventário e registo de objectos, bem como, a gestão da colecção. 7. ambiente de trabalho do sistema ocp – online control panel para iniciar a sessão de trabalho com o ocp, o utilizador tem quer ter acesso, obrigatório, à internet, independentemente, do sistema operativo utilizado. como atrás ficou referido, a opção por uma solução em ambiente online dispensa a instalação de software específico, sendo o acesso feito através de um browser de internet, no seguinte 141 endereço: www.berardocollection.com/ocp/dev101. por motivos axiomáticos, a primeira página do ocp é relativa ao login, assim, mediante o registo do utilizador e da sua palavra-chave, dá-se entrada no sistema (fig. 1). apresentaremos agora o ambiente de trabalho do ocp, onde estão disponíveis, todas as opções desta aplicação informática, que serão ilustradas, e brevemente descritas, dado que os seus conteúdos foram já abordados anteriormente. ao entrar no sistema, deparámo-nos com uma tabela, que ocupa cerca de 75% do ecrã (fig. 2). distribuída por sete páginas, esta tabela contém os 609 objectos que compõem, actualmente, a colecção de azulejos, sendo que por cada página são apresentados 100 exemplares, os quais podemos visualizar recorrendo ao scroll. nesta primeira tabela surgem alguns elementos identificativos dos objectos de forma a tornar mais fácil a sua pesquisa, embora, seja também possível, fazê-la na área superior do ecrã, estando designada em inglês, por search. os elementos identificativos, organizados horizontalmente, são: a imagem do objecto; número de inventário (designado por work id); título descritivo; título de autor; período e século de fabrico. no seguimento da mesma linha, apresentam-se quatro ícones, informaticamente normalizados, que possibilitam, visualizar, editar, copiar e eliminar a ficha de inventário. ainda, no prolongamento horizontal da tabela, é possível aceder a tabelas auxiliares de gestão da colecção, nomeadamente: localização; restauro; conservação e documentos associados. fig. 1 142 na primeira página, do lado superior esquerdo, surge uma listagem constante, ao longo de toda a aplicação, com outras tabelas auxiliares à gestão e inventário da colecção, estando, também, incluído o elenco de índices. ao clicar no ícone “editar”, no ecrã principal, surgirá a ficha de inventário, onde poderão ser inseridos os dados de um novo objecto, ou actualizadas as informações de um outro, já inventariado. o ecrã de ficha de inventário é constituído por sete separadores, que agrupam os dados em grandes áreas temáticas: identificação da peça (fig. 3); autoria e fabrico (fig. 4); historial (fig. 5); dimensões (fig. 6); incorporação (fig. 7); notas (fig. 8) e registo (fig. 9). ao activar qualquer um dos separadores surgirá uma lista de campos, sendo que, os de preenchimento obrigatório estão assinalados com um asterisco encarnado. os restantes campos são facultativos e visam o registo de informação destinada a uma melhor caracterização do objecto e posterior consulta. como ficou referido, alguns dos campos patenteados na ficha de inventário encontram-se indexados, assim, ao clicar na seta de sentido descendente, abrir-se-á uma janela, com uma listagem terminológica predefinida, da qual o inventariante deverá seleccionar, mediante as características do objecto em presença, a opção ajustada. depois de preenchidos os campos que integram os sete separadores, o utilizador deverá clicar no “edit”, para guardar a informação processada. no caso, dos campos assinalados como obrigatórios, não se encontrarem preenchidos, surgirá uma mensagem de erro, indicando qual o campo cujo preenchimento está em falta, sendo o inventariante remetido para esse mesmo campo. fig. 2 – tabela de entrada no sistema 143 fig. 3 – separador: identificação da peça 144 fig. 4 – separador: autoria e fabrico 145 fig. 6 – separador: dimensões fig. 5 – separador: historial 146 fig. 7 – separador: incorporação fig. 8 – separador: notas 147 terminada a inserção dos dados nos primeiros separadores, voltamos ao ecrã inicial, onde serão preenchidos outros campos de inventário, que se dividem em sub- campos, possibilitando, igualmente, a gestão do próprio espólio. seguindo, pela ordem de apresentação, temos: a localização, área que nos permite construir uma lista com as diferentes localizações do objecto ao longo do tempo, correspondendo a entrada mais recente da lista, à sua localização actual (fig. 10 e 11); o restauro, área que faculta, também, a formação de um histórico com as intervenções de conservação e restauro, que o objecto vai sofrendo (fig. 12 e 13); a conservação, que analogamente, aos campos anteriores possibilita a criação de históricos, contemplando sub-campos como a “condição”, estado de conservação em que o objecto se encontra, devendo ser preenchido a partir de uma lista predefinida e que auxilia o utilizador a atribuir o estado actual, embora tenha sido considerado um campo para notas mais específicas (fig. 14 e 15); e finalmente, os documentos associados, área onde pode ser registado qualquer tipo de documentação relacionada com a peça, desde relatórios de conservação e restauro, a facturas de incorporação, pedidos de empréstimos, entre outros, listando uma série de documentos de diferentes tipologias, nomeadamente, administrativos, históricos e/ou financeiros (fig. 16 e 17). importa, salientar, que esta documentação fica associada ao objecto através do preenchimento dos sub-campos identificativos do documento fig. 9 – separador: registo 148 (controle intelectual), bem como, pela cópia que constará na aplicação (controle físico), sendo este último, um requisito obrigatório deste campo. fig. 10 – localização (página inicial) fig. 11 – localização (campo por preencher) 149 fig. 13 – restauro (campo por preencher) fig. 12 – restauro (página inicial) 150 fig. 14 – conservação (página inicial) fig. 15 – conservação (campo por preencher) 151 fig. 16 – documentos associados (página inicial) fig. 17 – documentos associados (campo por preencher) 152 fazem, ainda, parte do inventário quatro categorias de informação, patenteadas no lado superior esquerdo do ecrã, designadamente: exposições (fig. 18 a 22) bibliografia (fig. 23 a 26); seguros (fig. 27 e 28) e conjuntos (fig. 29 a 33). na primeira categoria deverão ser mencionadas todas as exposições em que a peça esteve presente, onde o inventariante poderá identificar, mediante uma lista, a exposição, ou exposições, relacionadas com a peça referenciada. no caso de determinada exposição não se encontrar listada, o utilizador, terá de criar uma ficha de exposição, preenchendo o conjunto de campos correspondentes. as categorias de informação intituladas de bibliografia e seguros têm um funcionamento idêntico à categoria anterior. a primeira deve conter referências bibliográficas de obras relacionadas com o objecto a inventariar, e a segunda as diferentes apólices estabelecidas para a colecção. relativamente aos conjuntos, o procedimento é semelhante; são criados vários conjuntos, aos quais são atribuídas designações e descrições, constituindo deste modo uma listagem, à qual o utilizador deverá recorrer, quando necessitar de associar um novo elemento do conjunto. fig. 18 – exposições (página inicial) 153 fig. 19 – exposições (campo por preencher) fig. 20 – exposições (campo preenchido) 154 fig. 21 – exposições (listagem de objectos associados a uma exposição) fig. 22 – exposições (associação de um objecto a uma exposição) 155 fig. 23 – bibliografia (página inicial) fig. 24 – bibliografia (campo por preencher) 156 fig. 26 – bibliografia (associação de um objecto a uma referência bibliográfica) fig. 25 – bibliografia (listagem de objectos associados a uma referência bibliográfica) 157 fig. 28 – seguros (campo por preencher) fig. 27 – seguros (página inicial) 158 fig. 30 – conjuntos (campo por preencher) fig. 29 – conjuntos (página inicial) 159 fig. 32 – conjuntos (listagem de objectos pertencentes a um conjunto) fig. 31 – conjuntos (campo preenchido) 160 ao clicar na opção “indexes” (fig. 34), patenteada na lista do lado esquerdo do ecrã, o utilizador tem acesso a todos os campos indexados, ou seja, aos ecrãs de gestão de tabelas auxiliares da aplicação (tabelas de: tipos de imagem; tipos de suporte; tipos de documentos; tipos de módulo; cor; técnicas; estilo (fig. 35 e 36); denominações; outras denominações; condições de conservação; modalidades de incorporação; propriedade; períodos; século; super-categorias; categorias; sub- categorias; países e nacionalidades). a única categoria de informação, também, indexada, mas que não está nesta listagem, é os autores (fig. 37 a 39), tendo-se considerado que a localização mais apropriada era no ecrã principal, dada a sua pertinência na consulta interna. esta última categoria é constituída pelos seguintes campos: apelido; nome; nacionalidade; biografia (texto livre); ano de nascimento e ano de morte, sendo o apelido e a nacionalidade de preenchimento obrigatório. no caso dos autores desconhecidos, no primeiro campo obrigatório deverá constar “desconhecido”, e no segundo “n/a” (não atribuído). importa, ainda, salientar que todos os campos do ocp são bilingues, razão pela qual, à designação dos mesmos, sucede entre parêntesis curvo, a indicação do idioma, português (pt) e inglês (en). fig. 33 – conjuntos (associação de um objecto a um conjunto) 161 por razões de segurança, ao sair da aplicação, o inventariante deverá utilizar, sempre, a opção de logout, localizada no ecrã principal. fig. 34 – tabela de entrada no sistema com listagem de indexes fig. 35 – listagem com a indexação de estilos 162 fig. 36 – estilos (campo por preencher) fig. 37 – listagem com a indexação de autores 163 fig. 38 – autores (campo por preencher) fig. 39 – autores (campo preenchido) 164 parte iii – museus virtuais. uma proposta para a colecção de azulejos capítulo i – internet e museus a adaptação às novas formas de divulgação da informação e do conhecimento é fundamental para os museus, como forma de responder satisfatoriamente às sociedades de informação actuais, entre as quais se distinguem os produtos multimédia e mais concretamente a internet, indo ao encontro de soluções viáveis que atenuem a distância entre as instituições e o exterior, sobretudo junto do público mais jovem. as ferramentas originárias dos avanços tecnológicos têm extensíssimos potenciais ao nível pedagógico297 . a internet é o meio de divulgação e comunicação que liga computadores em todo o mundo através de uma rede telefónica global, entre dígitos electrónicos. no início dos anos noventa do século xx foi concebida a primeira página ilustrada na internet, que já permitia a ligação a outras páginas através de hiperligações entre códigos simples e editáveis. a tecnologia digital desenvolveu-se de tal forma, que hoje está presente em muitos actos do nosso quotidiano. transversal a todas as áreas, esta evolução, alterou também a imagem das instituições museológicas, que se tornaram mais ambiciosas. é em meados da década de noventa, que a museologia passa a ter uma nova realidade, a virtual. os museus, como qualquer instituição, passaram a estar presentes na internet. o impacto da internet nas nossas vidas é inquestionável. o crescimento constante de websites é notável e cada vez mais exigente, conjugando a utilização de imagens gráficas, fotografias, sons, vídeos e animações. impulsionando o acesso ao museu de um público distinto, que habitualmente não era seu, o espaço virtual ganha cada vez mais importância no nosso quotidiano. na web, não há limitação de espaço expositivo, a informação encontra-se presente sob diversas formas e compete ao usuário manuseá-la, endereçá-la consoante os seus interesses, a partir de qualquer lugar, durante 24 horas por dia, escolhendo o tipo de informação que lhe interessa receber. 297 como refere maria de lourdes lima dos santos, antiga investigadora coordenadora do instituto de ciências sociais da universidade de lisboa e presidente do observatório das actividades culturais, jubilada desde novembro de 2007, assistimos à “(…) emergência de transformações que envolvem novas estratégias por parte dos agentes implicados (…) trata-se da passagem de uma cultura em que o analógico e o impresso eram dominantes para uma cultura predominantemente digital, o que, noutros termos significa passar de uma filosofia centrada no produto para uma filosofia de serviço (…)” in santos, maria de lourdes lima dos (editorial) – publicação quadrimestral do observatório das actividades culturais, nº3. março, 1998, p. 3. 165 a primeira conferência relativa ao uso da hipermédia298 e da interactividade nos museus teve lugar em pittsburgh, na pensilvânia, em 1991. a partir dessa altura a international conference on hypermedia and interactivity in museums299 tem realizado conferências bianuais, nos estados unidos e na europa, visando a discussão das novas tecnologias nos museus. também, no sentido de promover o potencial multimédia interactiva nos programas do museu, tem sido, fundamental, o papel do mda – museum documentation association300 , tendo organizado em cambridge um congresso sobre museus e interactividade, em 1993. relativamente ao icom – international council of museums, não existe nenhum comité específico, que trate das questões inerentes à internet e interactividade nos museus. embora o avicom – international committee for audiovisual and new image and sound technologies, criado em junho de 1991, compreenda dois grupos de trabalho, dedicando-se um deles ao multimédia (cinema, vídeo, multimédia e internet), criado em 1992, durante um encontro do icom no quebec, um grupo de trabalho específico sobre o uso da internet, estando, o mesmo, adstrito ao cidoc – international committee for documentation. em 1996, o grupo de trabalho finalizou um documento sobre o uso da multimédia nos museus, que havia começado um ano antes, durante um encontro na noruega. no entanto, o documento elaborado aborda, muito mais, as questões relativas à multimédia e a preservação do património através das novas tecnologias nos museus, do que propriamente o uso da internet nos mesmos301 . um ano mais tarde, em 1997, a internet é, novamente, chamada a debates na área da museologia. intituladas de museums and web302 , estas conferências são organizadas anualmente, tendo lugar nos estados unidos ou no canadá. o objectivo é reunir os profissionais dos museus, principalmente aqueles ligados às áreas das novas tecnologias da informação e da comunicação (tic), apontando questões pertinentes. 298 a hipermédia engloba recursos de hipertexto e multimédia. 299 no endereço: http://www.achimuse.com/conferences/ichim.html, site da instituição archives & museums informatics, pode-se encontrar informações sobre todas as conferências realizadas. 300 o mda - museum documentation association é uma organização sem fins lucrativos, criada na inglaterra, em 1977 e, que tem como objectivo desenvolver actividades de discussão, publicação e formação na área da documentação museológica. todas as informações relativas às actividades desenvolvidas estão disponíveis no site do mda: http://www.mda.org.uk. 301 o documento final produzido pelo grupo de trabalho pode ser encontrado no site do cidoc, através do endereço: http://www.willpowerinfo.myby.co.uk/cidoc/multi1.htm. 302 os programas das conferências, bem como, as publicações das discussões estão acessíveis no site: http://www.archimuse.com/conference/mw.html. 166 apesar de tudo, não obstante de alguma falta de acção efectiva, tem-se nos últimos anos, assistido ao desenvolver de alguns estudos, trabalhos e debates nesta matéria. como defende castells303 o uso dos novos media e as consequências da sua massificação na sociedade actual são cada vez mais ponto de análise e reflexão. em poucos anos a “rede” deixou de lado a aura de alta tecnologia, para se tornar um movimento cultural importante, envolvendo milhões de pessoas304 . actualmente, vivemos a transição do paradigma do ontem, da sociedade nacional, e do hoje, da sociedade global. o potencial social das tic e os efeitos que produzem na forma de pensar e agir de cada indivíduo são indiscutíveis. a par destas mudanças, também, a instituição museológica sofreu grandes alterações e foi alvo de uma benéfica discussão, que produziu novas formas de pensar o museu, consciencializando-se de que necessita de se libertar do seu espaço tradicional e limitado, para se tornar acessível ao grande público. é premente, e fundamental, a adaptação do museu às necessidades da sociedade actual que se encontra em constante mutação. como disse mário moutinho “não foi a museologia tradicional que evoluiu para uma nova museologia mas sim a transformação da sociedade que levou à mudança dos parâmetros da museologia.”305 . ao longo da década de noventa, a proliferação do uso da internet, possibilitou que unidades museológicas pudessem interagir de forma globalizada, alterando a noção de tempo e espaço. hoje, o museu do espaço virtual nunca fecha. 1. categorias de museus na internet ao consultarmos a internet deparamo-nos com vários museus, sob as mais variadas formas. para werner schweibenz306 podem ser identificadas quatro categorias: o museu brochura, o museu conteúdo, o museu aprendizagem e, finalmente, o museu virtual 307 . 303 castells, manuel – a era da informação: economia, sociedade e cultura. fundação calouste gulbenkian, lisboa, 2002. 304 esta ideia é, também, defendida por michel dertouzos, na obra what will be - how the new world of information will change our lives, publicada em são francisco, no ano de 1997. 305 moutinho, mário c. – museus e sociedade: reflexões sobre a função social do museu. museu etnológico monte redondo: cadernos de património 5, universidade lusófona de humanidades e tecnologias, 1989, p. 36. 306 schweibenz, werner – the development of virtual museums. icom news nº3, france, 2004, também disponível online em: http://icom.museum/pdf/e_news2004/p3_2004-3.pdf, consultado a 21 de maio de 2008. 307 “the following categories of museum, developing into the virtual museum, can be identified on the internet: the brochure museum, the content museum, the learning museum, the virtual museum” tradução livre, in werner schweibenz (2004), consultado online. 167 segundo o autor, da universidade de saarland, alemanha, o museu brochura é, basicamente, um site que contém a informação básica sobre o museu, como sejam, os tipos de colecções, os contactos, entre outros. o seu objectivo é apenas informar os potenciais visitantes da sua existência. na segunda categoria, surge o museu conteúdo que, embora, constituído por um site, apresenta as suas colecções, convidando o visitante a explorá-las online. o conteúdo apresentado é orientado ao objecto, em tudo semelhante à base de dados da colecção. é mais útil para profissionais do que para o público em geral, visto o conteúdo não se encontrar didacticamente orientado. a sua finalidade é fornecer um retrato detalhado das colecções do museu. o museu aprendizagem continua a ser um site mas que oferece diferentes pontos de acesso aos visitantes, de acordo com a sua idade e nível de conhecimento. a informação apresentada é orientada ao contexto, e não ao objecto. este tipo de site tem uma preocupação pedagógica subjacente, estabelecendo links para informações adicionais, o que motiva o visitante a aprender mais sobre o tema e a revisitar o site. o objectivo do museu aprendizagem é fazer com que o visitante volte ao site e estabeleça uma relação pessoal com a colecção e, idealmente, vá ao museu ver os objectos reais. a última categoria apontada por werner schweibenz é o museu virtual que, paralelamente ao museu aprendizagem, pretende não só fornecer informação sobre as colecções do próprio museu, mas também estabelecer ligações (links) com outras colecções digitais308 . neste sentido, os museus virtuais são criações que não encontram paralelo no mundo real. este aspecto é, basicamente, a implementação da visão do andré malraux do “museu sem paredes” 309 . 308 “the brochure museum: this is a web site which contains the basic information about the museum, such as types of collections, contact details, etc. its goal is to inform potential visitors about the museum. the content museum: this is a web site which presents the museum’s collections and invites the virtual visitor to explore them online. the content is presented in an object-oriented way and is basically identical with the collection database. it is more useful for experts than for laymen because the content is not didactically enhanced. the goal of this type of museum is to provide a detailed portrayal of the collections of the museum. the learning museum: this is a web site which offers different points of access to its virtual visitors, according to their age, background and knowledge. the information is presented in a context-oriented way instead of being object-oriented. moreover, the site is didactically enhanced and linked to additional information that motivates the virtual visitor to learn more about a subject they are interested in and to revisit the site. the goal of the learning museum is to make the virtual visitor come back and establish a personal relationship with the online-collection. ideally, the virtual visitor will come to the museum to see the real objects. the virtual museum: the next step on from the learning museum is to provide not only information about the institution’s collection but to link to digital collections of others. in this way, digital collections are created which have no counterparts in the real world. this is the implementation of andré malraux’s vision of the “museum without walls”. tradução livre, in werner schweibenz (2004), consultado online. 309 conforme andré malraux (2000). 168 segundo uma tipologia criada por maria piacente310 , no ano de 1996 e citada por teather e willhem311 , em 1998, existem três tipos de sites de museus, que podem também corresponder às diferentes fases de evolução de um determinado site ao longo do tempo. a primeira categoria é o folheto electrónico, sendo, basicamente o correspondente ao museu brochura, reconhecido por werner schweibenz. contendo informações sobre a história do museu, horários, localização, contactos, serviços e actividades, tem como objectivo a apresentação da instituição. nestes casos, a internet funciona como uma forma de tornar o museu mais conhecido, possibilitando também, um acesso facilitado pelos utilizadores da rede mundial. a segunda categoria apontada é o museu virtual ou espaço informativo. reproduzindo uma cópia virtual idêntica ao museu real, apresenta informações mais detalhadas sobre as colecções, muitas vezes recorrendo a bases de dados; os conteúdos das exposições e, por vezes, possibilitam uma visita virtual com base na realidade. conforme relembra rosali henriques na sua dissertação de mestrado em museologia, nesta categoria, “ (…) a instituição apresenta informações mais detalhadas sobre o seu acervo e, muitas vezes, através de visitas virtuais. o site acaba por projectar o museu físico na virtualidade e muitas vezes apresenta exposições temporárias que já não se encontram mais montadas em seu espaço físico, fazendo da internet uma espécie de reserva técnica de exposições. além disso, muitos deles disponibilizam bases de dados do seu acervo, mostrando objectos que não se encontram em exposição naquele momento (…)312 ”. a terceira, e última categoria, é o museu interactivo ou espaço interactivo. disponibilizando recursos hipertextuais/interactivos que são complementares e prolongamentos dos conteúdos presenciais oferecidos no museu, pretendem facilitar a visita presencial ao museu mostrando parte dos seus conteúdos e ampliando a documentação que o visitante não poderá encontrar na instituição. nestes casos poderá existir uma relação entre o museu virtual e o museu físico, mas são adicionados elementos de interactividade que envolvem o visitante. dependendo da instituição museológica, o museu virtual poderá reproduzir os conteúdos expositivos do museu físico ou, noutros casos, ser completamente diferente. na opinião de maria piacente o que torna estes museus interactivos é a forma como comunicam e trabalham com o público, promovendo e facilitando a interacção. 310 piacente, maria – surfs up: museums and the world wide web. master of museum studies program, university of toronto research paper, 1996. infelizmente não tivemos acesso às informações originais. 311 teather, lynne; willhem, k. – “web musing: evaluating museums on the web from learning theory to methodology”. in museums and the web, new orleans, 1999, disponível em: http://www.archimuse/mw69/papers/teather/teather.html, consultado a 23 de maio de 2008. 312 rosali henriques (2004), pp.5-6. 169 a proposta de criação do museu virtual do azulejo da colecção berardo patenteada nesta dissertação insere-se na terceira categoria apresentada por piacente. embora, em nossa opinião, esta deveria ser denominada por “museu virtual”, onde o site deixa de ser simplesmente um meio representativo de um espaço físico, para passar a ser sujeito, tornando-se num produto autónomo, com valor por si mesmo. ao fazermos menção às categorias de museus existentes na internet, importa salientar, que as duas primeiras, são as mais representadas na realidade portuguesa, sendo que, a maioria dos sites dos museus nacionais são de carácter informativo e não disponibilizam outros recursos para além de informação. tal facto, poderá acontecer por falta de interesse e de sensibilidade dos gestores para uma necessidade actual e/ou por carência financeira313 . 1.1. conceito de museu virtual o conceito de museu virtual é algo ainda muito novo na museologia. só na década de 90, com a proliferação da internet comercial a partir de 1994, é que os museus se começaram a apresentar de forma virtual, sendo que, a discussão teórica sobre os museus virtuais é, ainda, muito incipiente, sem existir um consenso, acerca do que distingue um site de um museu virtual. muitos autores apontam a diferença ligada à virtualização dos objectos e a sua representação online. neste sentido, a maioria dos museus tem optado por criar sites que representam o seu espaço físico, não tirando assim partido das potencialidades de interacção da internet. pierre lévy, um dos mais conhecidos teóricos contemporâneos entusiastas das tecnologias informatizadas afirma que os pretensos museus virtuais actuais “ (…) não são muitas vezes senão maus catálogos na internet, enquanto que o se “conserva” é a 313 ainda que muitas instituições utilizem a internet como um painel para afixar as suas informações institucionais, e não, como uma ferramenta interactiva, alguns museus possuem já interessantes sites institucionais, disponibilizando informações sobre os seus objectos e sobre as actividades culturais desenvolvidas, tendo a internet como um aliado de divulgação e comunicação, que possibilita a interacção com os seus utilizadores/visitantes. estes, não restringem a sua presença na web a apresentações de boletins, folhetos, catálogos, na medida em que permitem uma maior interacção e troca de conhecimentos com o público, com outras instituições e com outros especialistas. no panorama nacional destaque-se o site do museu nacional de arqueologia premiado pela unesco, no ano de 2002, com o galardão de “web art d’or”, o melhor site de museus do mundo. a par desta instituição museológica, outras tuteladas pelo instituto dos museus e da conservação tem vindo a alterar a sua presença na internet, salientando-se o museu nacional de arte antiga e o museu nacional do azulejo, que mais recentemente reestruturou o seu site, encontrando-se disponível ao público desde dezembro de 2008. saliente-se, ainda, que nesta matéria, as instituições privadas muito têm contribuído para este desenvolvimento, nomeadamente, o museu calouste gulbenkian e o museu de serralves, que através das suas acções sensibilizaram e incentivaram o progresso de equipamentos nacionais congéneres. 170 própria noção de museu enquanto “valor” que é posta em causa pelo desenvolvimento de um ciberespaço onde tudo circula com fluidez crescente e onde as distinções entre original e cópia já não têm evidentemente razão de ser.”314 . segundo werner schweibenz este conceito está em constante construção e, é fácil confundi-lo com outras denominações, tais como: museu electrónico, museu digital, museu online, museu hipermédia, meta-museu, museu cibernético, cibermuseu, ou, ainda, museu no ciberespaço315 . tratando-se de uma temática recente nesta área, não há consenso, em relação ao que deverá ser considerado museu virtual ou, simplesmente, um site de um museu. assim como referimos, a maioria dos autores, que tem trabalho sobre esta questão, tende para uma definição ligada à virtualização dos objectos e à sua apresentação online. no entanto, parece-nos redutora esta visão, atendendo ao facto que um museu virtual poderá ter duas configurações: uma, será realmente, como defendem alguns autores, um museu essencialmente virtual, ou seja, sem correspondência no mundo físico; mas, poderá também, ser um museu virtual que tem correspondência no mundo físico, quer trate-se de um “museu/edifício”, quer trate-se de uma colecção existente fisicamente, como no caso do museu virtual do azulejo da colecção berardo. assim, um museu virtual será uma vertente complementar, dado que a colecção se encontra exposta e acessível ao público. a vertente virtual contribuirá, desta forma, para uma nova perspectiva de interacção com o património. antonio battro defende que o museu virtual é muito mais do que colocar fotografias das reservas, colecções e exposições temporárias na internet. trata-se, pois, de construir um museu totalmente novo316 . nesse sentido, o museu virtual não é a reprodução do museu físico, mas um museu completamente novo, criado para traduzir algumas das funções museológicas no espaço virtual. entre outros autores que se debruçaram sobre a problemática dos museus virtuais, destacamos ainda bernard deloche, que na obra intitulada “le musée virtuel”, publicada em 2001, estuda a questão da virtualidade no processo museológico, 314 lévy, pierre – cibercultura. instituto piaget, lisboa, 2000, p. 281. 315 “it is called an on-line museum, electronic museum, hypermuseum, digital museum, cybermuseum or a web museum depending on the backgrounds of the practitioners and researchers working in this field.” tradução livre, in werner schweibenz (2004), consultado online. 316 “el museo virtual es mucho más que poner fotos en internet de las reservas, colecciones permanentes y muestras temporarias. se trata de concebir un museo totalmente nuevo.” tradução livre, in battro, antónio – museos imaginarios y museos virtuales. fadam, agosto de 1999, disponível em: http://www.byd.com.ar/bfadam99.htm consultado a 14 de maio de 2008. 171 baseando-se nos museus de arte317 . afirmando que o museu é um templo da imagem, utiliza o conceito de museu paralelo, ou seja, defende que o museu virtual é aquele que existe na virtualidade, quase como um substituto, um museu sem lugar e sem paredes. na nossa opinião, o museu virtual não é um museu substituto. discordamos da posição de deloche, pois entendemos que o museu virtual, sendo uma vertente virtual de um museu físico, é um museu complementar. neste sentido, o museu virtual poderá ser tão ou mais eficaz do que o museu físico, mas nunca o substituirá, será antes uma nova perspectiva de interacção com o património cultural. conforme refere rosali henriques “(…) muitos autores ainda vêem o museu virtual como um simulacro de um museu físico, ou seja, estão arraigados no conceito de museu como um espaço de exposição de determinada colecção. e isso, infelizmente, restringe o uso da internet pelos museus, tornando os seus sites, mesmo aqueles mais interessantes e atractivos, apenas em sites de museus e não museus virtuais.”318 . a visão de alguns destes autores reporta-nos para uma outra questão, de todo pertinente, quando reflectimos sobre o conceito de museu virtual, trata-se pois de entender a concepção utilizada por alguns sites de museus, inclusive alguns museus virtuais, que veiculam a ideia de museu enquanto edifício que preserva uma, ou mais colecções, para deleite do seu público. esta é uma noção de museu implantada no século xix e que a nova museologia interrogou, refutando-a com uma nova concepção de museu, que tem por base, o património cultural de uma determinada comunidade, estabelecida num determinado território. ao reproduzir a configuração de um edifício, com todas as suas características e especificidades, o museu virtual estará a reforçar o conceito de museu presente na mentalidade da grande maioria das pessoas. até os projectos de museus, essencialmente, virtuais, como é o caso do museo virtual de artes (muva), pensado já com este intuito, continuam a fortalecer essa ideia319 . desenhado em vrml – virtual reality modeling language, uma linguagem vectorial utilizada em desenhos 3d e multimédia, este museu reproduz as divisões físicas de um museu dito tradicional. ao aceder à morada electrónica do muva, o visitante depara-se com uma zona ajardinada, que circunda o edifício virtual. seguindo as indicações entra na área de acolhimento onde encontra um balcão informativo e os 317 deloche, bernard – le musée virtuel: vers un éthique des nouvelles images. presses universitaires de france, paris, 2001. 318 rosali henriques (2004), p. 16. 319 o museo virtual de artes (muva) é um museu virtual com reproduções de obras de arte uruguaia, mantido pelo jornal el país. disponível em: http://muva.elpais.com.uy/ . este espaço conta já com dois edifícios de exposições virtuais que podem ser visitados separadamente, o muva i e o muva ii. 172 acessos às diferentes galerias de exposições, individuais e colectivas, todas visitáveis. o visitante escolhe o percurso movimentando o rato e selecciona as salas onde quer entrar e as obras a ver com detalhe, podendo obter mais informação. através das escadas, ou dos elevadores, acede aos vários pisos, encontrando no decorrer do circuito expositivo coffe-shops, entre outros serviços, que embora representados visualmente, não têm utilidade, servindo meramente de “cenário”. para maria luísa bellido gant o muva enquadra-se na mais avançada tipologia de museus virtuais, defendendo que “(…) se esctructura como um auténtico museo, con seis plantas, todas ellas navegables, vestíbulo, passilos, escaleras, ascensores, (…)”320 . opinião que discordamos por duas razões distintas, primeiramente porque um museu virtual é já um autêntico museu, sendo que, na nossa perspectiva, não necessita de reproduzir fisicamente um museu para ser considerado um autêntico museu virtual, e em segundo lugar, porque a existência de uma visita virtual não é sinónimo da existência de um museu virtual. o que está aqui em causa não é debater a utilização do muva, socorrendo-se ao edifício para mostrar que é um museu virtual, mas sim a percepção de que para ser considerado um verdadeiro museu virtual não é necessário reproduzir um museu físico. como museus verdadeiramente virtuais, scheiner distingue o indigenous tribal culture virtual museum, apoiado pela unesco, relativo às tribos da tailândia, e na américa latina o museu virtual da estética, sedeado na universidade do norte colombiano. para esta autora os museus físicos consideram o conceito de museu virtual “(…) apropriado para caracterizar a metamorfose aplicada à imagem e ao texto, matérias de que se compõem a realidade à realidade comunicacional da maioria dos museus. esta metamorfose garantiria aos museus acessibilidade e disponibilidade jamais antes experimentadas – proposta altamente sedutora, pelo menos para os museus “tradicionais”, cujo objectivo maior é relacionar-se com o “público”. aqui, todos os recursos de documentação, interpretação e conservação são transformados em representação icónica, sinalética, dos acervos preservados. o meio virtual garante um potencial infinito de acessibilidade.”321 . no nosso entender, o museu virtual é aquele que desenvolve as suas funções museológicas, ou parte delas, num espaço virtual, podendo, ou não, apresentar-se como interface de instituições museológicas construídas no espaço físico. consideramos que o 320 gant, maria luísa bellido – artes, museos y nuevas tecnologias. gijón, trea, 2001, p. 342. 321 scheiner, teresa cristina moletta – imagens do “não-lugar”: comunicação e novos patrimónios. tese de doutoramento em comunicação e cultura, universidade federal do rio de janeiro, rio de janeiro, 2004, pp.262-263. 173 autêntico museu virtual não pode, apenas, apresentar reproduções das suas colecções, mesmo que devidamente catalogadas, deverá também, fazer uso da internet enquanto espaço de interacção e mediação, através das suas funções museológicas, desenvolvendo actividades onde o público possa interagir com as referências patrimoniais por si conservadas, mesmo que virtualmente. 1.2. vantagens e desvantagens dos museus virtuais analisando de forma crítica as possibilidades e limitações únicas deste meio e atendendo ao forte peso que as tic têm na sociedade contemporânea, é necessário que as instituições culturais procurem optimizar as suas vantagens e atenuar as suas desvantagens, sendo estas uma realidade que não podemos subestimar. embora, paralelamente, deva-se valorizar o insubstituível de uma visita presencial ao museu ou espaço cultural, pois a experiência estética do contacto directo com o objecto cultural não se pode reproduzir, num ambiente digital, acreditamos que quando falamos em museus virtuais online322 , afiguram-se mais benefícios do que prejuízos. relativamente às vantagens salientamos: a democratização do acesso à informação e ao espólio; facilidade de comunicação entre pessoas e instituições; a universalização das oportunidades, eliminando barreiras espaciais, geográficas e temporais; a possibilidade de estruturar a informação, recorrendo ao hipertexto, nomeadamente, em diferentes níveis articulados em função do utilizador a que se dirige, dos seus interesses e necessidades e de organização dos conteúdos de acordo com as estratégias divulgativas ou educativas da instituição; bem como, a utilização e conjugação de diversos tipos de suporte, designadamente texto, áudio, vídeo e imagem, muito úteis às necessidades desencadeadas pelos conteúdos que se pretendem disponibilizar em sites de museus. a presença de um museu na internet além de permitir uma maior interacção com o público, facilita o usufruto de uma importante ferramenta de marketing cultural, como defende alison griffiths “(…) such technologies have changed the physical character of the museum, frequently creating striking juxtapositions between nineteen century 322 a chamada de atenção para museus virtuais “online”, deve-se ao facto de muitos dos estudiosos, nesta matéria, defenderem que a virtualidade não está necessariamente ligada à internet. afirmam, os mesmos, que os museus podem ser virtuais, sem que para isso tenham de estar online, podendo fazê-lo, nomeadamente, através de cd-rom’s, quiosques, etc. relativamente a esta posição, apresentamos algumas ressalvas, no entanto, para que não existam dúvidas, quando doravante fizermos menção ao museu virtual do azulejo da colecção berardo, referimo-nos a um museu online. 174 monumental architecture and the electronic glow of the twentyfirst century computer screen. via the world wide web, the museum now transcends the fixities of time and place, allowing virtual visitors to wander through its perpetually deserted galleries and interact with objects in ways previously unimaged.”323 . a internet tornou-se para as instituições museológicas um veículo eficaz para a divulgação de catálogos, boletins informativos, e-mails, troca de informações entre especialistas, etc., de forma a difundir o trabalho desenvolvido. assim como ficou referido, possibilitando uma maior interacção com o público e com especialistas, a internet veio facultar uma rede de troca de experiências e conhecimentos entre instituições com objectivos semelhantes ou convergentes. o museu virtual permite a efectivação de uma nova visita, abrangendo determinados objectos e percursos expositivos, que não são possíveis de realizar no espaço museológico tradicional, criando novas perspectivas de apresentação do acervo. “quando se passa para o campo virtual, o campo de acção alarga-se dando origem a múltiplos percursos interactivos. outra forma de utilização da internet são as parcerias institucionais, em que determinado museu convida outras instituições a participar com conteúdos específicos, criando exposições virtuais, com conteúdos culturais e patrimoniais de vários museus.”324 ou seja, mais do que um veículo de divulgação e comunicação, bem como, ferramenta de marketing, a internet possibilita a montagem de uma rede de ligações entre várias instituições afins e com objectivos similares. este uso pode ser feito através de listas de discussão; blogues; fóruns; rede de comunicação, etc., pois a internet permite uma troca de experiências entre profissionais da museologia de uma forma mais rápida e consistente. tal como refere rute machado, na citação atrás enumerada, este meio faculta colaborações multi-institucionais, criando laços virtuais com outras instituições de forma globalizada, alterando a noção de tempo e de espaço. como defende cruz o visitante assiste à “(…) imposição de um espaço tecnológico, ou melhor, do tecnológico como espaço, como palco por excelência, da abertura dos possíveis da experiência – o ciberespaço.”325 . ou seja, o objecto museológico abre-se, deste modo, à experiência estética através do virtual, através de um artifício: a imagem virtual. a expressão “imagem virtual” abrange as imagens 323 griffiths, alison – “media technology and museum display: a century of accommodation and conflict”. in rethinking media changes, mit press, london, 2003, pp. 375-389. 324 machado, rute – “museus virtuais: a importância da usabilidade na mediação entre o público e o objecto musueológico”. in livro de actas – 4º sopcom, associação portuguesa de ciências da comunicação, universidade lusófona de humanidades e tecnologias, lisboa, 2005, p. 1542. 325 cruz, m. – “media art ou mediacracia”. in catálogo de cyber 98, lisboa, 1998, p. 12. 175 numéricas e a ideia de simulação do real. a mais valia desta realidade é o facto de ditar um novo meio de contemplação. o testemunho museal é representado pelo artifício e as tic utilizam-no de forma a possibilitar a experiência estética. pois, como relembra josé bragança de miranda “(…) a articulação da técnica e da estética são duas faces do mesmo processo de linearização do real pelo código digital.”326 . assim sendo, o sujeito, enquanto fruidor de toda a experiência estética, é, simultaneamente produtor da realidade. no contexto dos museus virtuais, a progressão faz-se de página em página, como se deambulássemos de sala em sala, interagindo com os objectos e redescobrindo, e reinventando, o percurso expositivo. o recurso às tic para a produção desta nova realidade integra o conceito de interactividade no percurso museológico e faculta ao visitante diversas alternativas de fruição. com possibilidade de escolher e interagir com o espaço museológico cada visitante terá a sua própria experiência. “rapidamente as instituições museológicas se aperceberam das vantagens e potencialidades da internet, massiva, rápida, imediata, económica, monopolizadora do quotidiano do trabalho e do ócio, sendo que cada vez mais gente tem possibilidades de aceder às novas tecnologias ou tem à disposição recursos facilitadores para tal.”327 a internet patenteia um incomensurável potencial informativo e comunicativo, quer em questões de celeridade de circulação, quer em número de pessoas e áreas geográficas que abrange. devido às suas características de imaterialidade, instantaneidade e multimédia, democratiza o acesso à informação e conhecimento de determinados tipos de bens; facilita a comunicação entre pessoas e instituições e universaliza oportunidades, eliminado barreiras espaciais, geográficas e temporais. no que diz respeito às desvantagens do museu virtual, consideramos, essencialmente dois aspectos. o primeiro é respeitante ao design e manutenção do museu online, diga-se, tão importante como no caso de um museu físico. no entanto, tratando-se de um museu virtual, não será “visitado” com tanta frequência, como se de um museu físico se tratasse, assim sendo, corre o risco de se negligenciar a imagem da instituição. a não actualização da informação, ao invés de potencializar novos visitantes, poderá afastá-los, expondo a unidade museológica a uma “má publicidade”. 326 miranda, josé bragança de – “o design como problema”. in autoria e produção em televisão interactiva, universidade lusófona de humanidades e tecnologias, lisboa, 2003, p. 300. 327 pinho, joana maria balsa carvalho de – “museus e internet. recursos online nos sítios web dos museus nacionais portugueses”. revista textos de la cibersociedad, 8. temática variada, 2007. disponível em: http://www.cibersociedad.net, consultado a 14 de maio de 2008. 176 o segundo aspecto, que poderá ser apontado pelos defensores acérrimos do museu dito tradicional, é a privação por parte dos visitantes a uma experiência estética plena dos cinco sentidos, aquilo a que muitos autores consideram a “aura do objecto museológico”. embora, no caso em estudo não se coloque essa questão, pois ainda que a colecção berardo não possua um museu do azulejo no universo físico, a colecção existe e continuará a existir e a ser visitável, apesar de geograficamente dispersa, sendo este um aspecto que merece a nossa consideração. os bens culturais encerram em si mesmos, uma materialidade, que ainda não é possível ser plenamente compreendida no universo virtual. apesar de defendermos as inúmeras vantagens das tecnologias, reconhecemos as limitações que as mesmas ainda têm, para já, no que respeita a uma adequada interpretação da realidade e do universo sensorial. referimo-nos por exemplo à dimensão real dos painéis, ou seja, teremos exemplares monumentais e outros de dimensão reduzida, todavia, a sua apresentação virtual não irá permitir, ao visitante, ter a mesma percepção, que teria no universo real, pese embora as dimensões estejam mencionadas na respectiva legenda. relativamente aos exemplares relevados, colocamos a mesma questão, ainda que, a alta qualidade e definição da imagem permita fazer aproximações, a percepção do relevo, será sempre diferente, da experiência real. contudo, questionámos se a utilização destas novas ferramentas tecnológicas constitui, no presente, uma interpretação significativamente deficiente da realidade que se tem quando temos oportunidade de ver o objecto no museu. não consideramos que as limitações sejam assim tão grandes, pelo que enunciamos algumas apreciações que pensamos poder elucidar esta problemática. ao visitarmos um museu físico encontramos os objectos dispostos, na grande maioria das vezes, em vitrinas. estes objectos, muitas das vezes tridimensionais, demandam uma leitura integral da sua forma, da qual o visitante é privado pela existência das estruturas expositivas, a que nos referimos. de igual forma, um quadro ou um painel de azulejos, objectos bidimensionais, são somente contemplados e fruídos pelo público na dimensão que o conseguimos ver, à semelhança do que acontece num monitor. queremos com isto dizer que na sala de um museu físico, com vitrinas, perdemos a profundidade do campo visual da mesma forma que num museu virtual. conforme refere nuno moreira “muitos poderão argumentar que a definição das imagens virtuais não é adequada. mas não nos parece justa tal afirmação, na medida em que o investimento que é feito, muitas das vezes, na concepção destas plataformas é muito inferior ao que é feito para produzir um espaço físico expositivo. 177 além do mais, a distância a que, muitas vezes, somos condicionados a ver os objectos num museu devido às baias de segurança, aos alarmes, às marcas dissuasoras no pavimento ou à sempre atenta guardaria dificulta significativamente uma percepção de todos os seus pormenores, na sua verdadeira essência – se nos é permitido o romantismo do termo.”328 . ainda neste contexto, salientamos que a utilização de plataformas informáticas possibilita-nos, por exemplo, com recurso a softwares relativamente acessíveis, conceber imagens “tridimensionais” que nos facilitam a observação do objecto rodando-o em todas as direcções, ou através de aproximações sucessivas (zoom), observar a pincelada que o autor usou, bem como, a quantidade de pigmento. em nosso entender, esta faculdade, vem configurar uma relação com os objectos mais próxima e exploratória caucionando um aumento de interactividade que, pelos motivos acima expostos, se tornam muitas vezes vedados num museu tradicional. relativamente ao acesso do público, quanto ao uso das tecnologias, nuno moreira diz que “se é verdade que hoje ouvimos muitas vezes falar nos infoexcluídos, também é verdade que essa franja da população é composta por pessoas na sua maioria de idade mais avançada que não tiveram a oportunidade de gestar já com um teclado e um rato apensos ao cordão umbilical. sabemos também que os jovens – para seu próprio mal – são cada vez mais sedentários, dependendo do computador – ou pelo menos do acesso à internet, quer seja pelo ordenador referido, pelo telemóvel, televisão ou quaisquer outros equipamentos que garantam esse acesso privilegiado ao mundo - para a maioria das suas actividades diárias que não estritamente fisiológicas. ora, estes são a futura população adulta mundial, a mesma que usufruirá, como nós hoje fazemos, do legado histórico e cultural que foi sendo preservado. assim, parece de extrema vantagem que, cada vez mais, se garanta a virtualidade das colecções museológicas.”329 . ao reflectir sobre estas questões não temos a pretensão de fazer uma apologia às tic e aos museus virtuais, nem tão pouco, desacreditar a importância dos museus físicos, queremos apenas demonstrar que as diferenças entre ambos, não são tão significativas, quanto alguns autores pretendem atestar. a existência de um museu virtual na internet com correspondência no mundo físico, além de funcionar como “cartão de visitas”, possibilita o acesso ao património cultural de forma mais ampla, 328 moreira, nuno – “a conservação das evidências materiais – a “segunda vida”. in revista museu, 2008. disponível em: http://www.revistamuseu.com.br/18demaio/artigos.asp?id=16513, consultado a 20 de setembro de 2008. 329 nuno moreira (2008). 178 facultando a disseminação da cultura e destacando a interactividade como factor primordial para aproximar as visitas virtuais das experiências reais. se pensarmos em termos comparativos, e no caso específico do museu virtual do azulejo da colecção berardo, as vantagens são inúmeras: a maioria dos internautas que, do mundo inteiro, vierem aceder ao museu, corresponde à mesma quantidade de pessoas que, de outro modo, jamais viriam a portugal para conhecer a colecção. como explica ruth perlin “(…) works of art, their contexts, and their display arrangements are being electronically transported out of the exhibit spaces to be examined and visited in homes and other settings by individual who may never enter the art museum.”330 . acreditamos vivamente, que a virtualidade das colecções museológicas, é uma enorme vantagem para o desenvolvimento humano e enriquecimento das sociedades. 330 perlin, ruth – “media, art museums and distant audiences”. in the virtual and the real, 2000, p. 84. 179 capítulo ii – museu virtual do azulejo da colecção berardo 1. fundamentos para a sua criação actualmente, embora sejam cumpridas algumas das funções museológicas, a colecção de azulejos é, apenas, uma “colecção visitável”, enquadrando-se, no ponto 1, do artigo 4ºda lei-quadro dos museus portugueses331 , ou seja, um “(…) conjunto de bens culturais conservados por uma pessoa colectiva, pública ou privada, exposto publicamente em instalações afectas a esse fim, mas que não reúna os meios que permitam o pleno desempenho das restantes funções museológicas (…)”. uma colecção não é um museu. um museu vive da colecção, mas também do trabalho de exposições, permanentes, e/ou temporárias, dos serviços educativos, das publicações, do facto de se inscrever como agente no tecido cultural do país. a colecção berardo é o núcleo principal a partir do qual se desenvolve um projecto museológico, propondo a criação do museu virtual do azulejo, enquanto, modelo de divulgação e gestão da própria colecção. são muitos os fundamentos para a criação desta unidade museológica, quer pela importância desta arte em portugal, quer pela importância da colecção em particular. todavia, estas premissas poderão ser agrupadas em três vectores fundamentais, que de uma forma ou outra, integram todos os outros, e que aliados, constituem uma irrefutável base de fundamentação para a necessidade da criação de um museu virtual do azulejo da colecção berardo: i) a importância fundamental do fabrico do azulejo. considerado como forma de arte e uma das mais fortes manifestações culturais portuguesas, o azulejo, reflecte as transformações culturais, sociais e económicas vividas em portugal (ultrapassando a mera função utilitária e elemento de intervenção e de cultura das cidades, do país e do mundo); ii) a necessidade urgente de inventariar, estudar, investigar, preservar e divulgar uma colecção privada, de elevada qualidade e que permite percorrer seis séculos da história do azulejo em portugal332 ; 331 lei nº47/2004. 332 saliente-se, que as primeiras funções, designadamente, o inventário, o estudo e a investigação, ainda que por definição, se mantenham constantemente em aberto, possibilitando o aprofundamento da informação, fizeram parte dos objectivos da presente dissertação, dando inclusive corpo à primeira e segunda parte do trabalho em presença. 180 iii) a possibilidade de juntar virtualmente uma colecção que fisicamente está dispersa, imprimindo um discurso museológico que visa o conhecimento histórico/cronológico, científico e estético deste património cultural. a lei de bases do património cultural português333 estabelece a política e o regime de protecção e valorização do património cultural, visando deste modo a democratização da cultura através da compreensão, permanência e construção da identidade nacional. segundo o artigo 2º, nº1: “para os efeitos da lei integram o património cultural todos os bens que, sendo testemunhos com valor de civilização ou de cultura portadores de interesse cultural relevante, devam ser objecto de especial protecção e valorização”. entenda-se como interesse cultural relevante “(…) designadamente histórico, paleontológico, arqueológico, arquitectónico, linguístico, documental, artístico, etnográfico, científico, social, industrial ou técnico, dos bens que integram o património cultural reflectirá valores de memória, antiguidade, autenticidade, originalidade, raridade, singularidade ou exemplaridade.”, conforme o ponto nº3, do mesmo artigo. com base nestes pressupostos e, tendo em conta, que o azulejo é uma das expressões referenciais da cultura artística portuguesa, torna-se fundamental a criação de um museu, neste caso virtual, que contribua para o acréscimo de conhecimento e de informação histórica e artística deste património. pese embora, exista no nosso país, o museu nacional do azulejo, que meritoriamente tem estudado, investigado e divulgado a arte azulejar, a unidade museológica, aqui proposta, visa alargar o conhecimento através de diferentes exemplares, complementando e interligando a informação, de forma a contribuir para o maior saber da nossa história e, abranger, cada vez mais, um público nacional e internacional heterogéneo. 2. vocação, missão, metas e objectivos o museu virtual do azulejo da colecção berardo assume-se como uma unidade museológica privada, permanente, sem fins lucrativos, que tem como missão divulgar e estudar o património azulejar, com especial incidência na arte azulejar portuguesa, 333 lei nº107/2001. 181 através da apresentação de obras da colecção e, simultaneamente, sensibilizar, captar e fidelizar públicos desenvolvendo o seu interesse pelo azulejo, através de acções nas áreas da educação e divulgação. sem personalidade jurídica própria o museu virtual do azulejo da colecção berardo é equacionado integrando a estrutura da sua tutela, a fundação josé berardo, constituindo uma unidade orgânica própria, directamente dependente de um director-geral. quer pela sua implementação territorial e virtual, quer pelo interesse e expressividade do seu tema – o azulejo, uma das manifestações referenciais da cultura artística portuguesa – será assumidamente de dimensão internacional, quer ainda pela proveniência da colecção334 , o museu virtual do azulejo da colecção berardo assume- se como um museu de âmbito internacional. de natureza uni-disciplinar, este museu insere-se no campo temático dos museus de arte. relativamente às relações estabelecidas com outras instituições e entidades, o museu terá, obrigatoriamente, uma ligação administrativa à sua tutela, a fundação josé berardo, instituição particular de solidariedade social. as relações temáticas serão estabelecidas com instituições museológicas, “para- museológicas”, espaços expositivos, galerias, especialistas, investigadores, bem como, outros equipamentos culturais congéneres, de nível nacional e internacional. no panorama nacional, o museu nacional do azulejo e o museu calouste gulbenkian, ocuparão um lugar de destaque, todavia, instituições como: o museu nacional machado de castro; o museu de cerâmica; o museu de alberto sampaio; o museu frederico de freitas; o museu de lamego; o museu-escola de artes decorativas portuguesas/ fundação ricardo espírito santo silva; o museu nacional de arte antiga; a casa- museu dos patudos; o museu da cidade; o museu da guarda; o museu de évora; o museu de francisco tavares proença; o museu dos condes castro de guimarães, e o museu nacional soares dos reis, que preservam nos seus acervos exemplares de azulejaria, inventariando, catalogando e estudando esta forma de arte, serão instituições com as quais o museu virtual do azulejo da colecção berardo estabelecerá relações de proximidade335 . a nível internacional o museu criará ligações com diversas instituições, 334 como já foi referido, a colecção de azulejos é composta por painéis de origem portuguesa, bem como, um núcleo de azulejos hispano-mouriscos e alguns exemplares contemporâneos de produção internacional. 335 ainda, ao nível das relações temáticas, refira-se a importância do projecto “sos azulejo” de iniciativa e coordenação do museu de polícia judiciária, órgão do instituto superior de polícia judiciária e ciências criminais, que nasceu da necessidade imperiosa de combater a grave delapidação do património azulejar português, que se verifica actualmente, de modo crescente e alarmante, sobretudo por furto, mas também por vandalismo e incúria. de facto, o património histórico e artístico português não se perde apenas por 182 das quais destacamos: o rijksmuseum e o stedelijk museum, na holanda; o musée d’ansembourg, na bélgica; o museo de cerâmica de onda; o museo de bellas artes; o museo arqueologico y etnologico de granada; o museo arqueologico nacional; o museo de cerámica de manises; o museo nacional de artes decorativas e o museo de bellas artes de castellón, em espanha; o musée de la céramique e o musée national de la céramique, em frança; o british museum, o victoria and albert museum, e o gladstone pottery museum, no reino unido. ainda, no âmbito das relações temáticas, o museu estabelecerá ligações a associações e outras entidades, designadamente, o metropolitano de lisboa; o palácio da fronteira; a associación de ceramistes de catalunya; a associazione amici del museo internazionale delle ceramiche; a british ceramic confederation; a british ceramic research; o european ceramics work centre; o centre de recherche de l’industrie belge de la ceramique; a international academy of ceramics; a tiles and architectural ceramics society, entre outras. quanto às relações geográficas, podemos considerar que se desenvolvem a dois níveis, no plano físico e no virtual. ao nível físico estabelecerá relações com as autarquias locais, nomeadamente, com a câmara municipal de setúbal e com a câmara municipal do funchal, bem como, com as escolas da área envolvente, através do serviço educativo. ao nível virtual estabelecerá ligações com outras instituições culturais de actuação no universo físico e na internet, como sejam, a european ceramic tiles circle; a tile heritage foundation; a society of america mosaic artists; a foundation of friends of the dutch tile museum, ou a ascer – asociación española de fabricantes de azulejos y pavimentos cerámicos. tendo em conta a missão do museu virtual do azulejo da colecção berardo podemos distinguir as seguintes metas336 : - garantir a conservação e salvaguarda dos bens patrimoniais; motivos criminais, mas também por ausência de cuidados de conservação: relações de causalidade tornam a prevenção criminal e a conservação preventiva deste património indissociáveis. “assim o projecto sos azulejo, a par de pretender implementar na comunidade uma estratégia assertiva, pragmática e eficaz de prevenção criminal, opta por alargamento multidisciplinar de abordagem a esta problemática que engloba a vertente da conservação preventiva, consciente de que só um investimento de salvaguarda global do património cultural poderá ter garantias mínimas de eficácia.” disponível em: www.sosazulejo.com, (programa). desta abordagem global e multidisciplinar nasceu a necessidade de obtenção de parcerias, nomeadamente, com o instituto politécnico de tomar; instituto de gestão do património arquitectónico e arqueológico; associação nacional de municípios portugueses; guarda nacional republicana e a polícia de segurança pública, cuja junção permitirá uma optimização dos recursos e a cobertura do leque de vertentes necessárias à protecção abrangente do património azulejar português. refira-se que a assinatura deste protocolo data de 15 de março de 2007 e a apresentação ao público do projecto “sos azulejo” foi a 28 de fevereiro de 2008. 336 entenda-se como “metas” alvos de natureza qualitativa que a instituição pretende alcançar a longo prazo. 183 - promover a investigação científica e produção de conhecimento da colecção, sobre os diferentes contextos de produção artística, através de recursos internos e em parceria com entidades terceiras, nacionais ou estrangeiras; - desenvolver o interesse do público pelo património azulejar e dar a conhecer a evolução da história do azulejo em portugal através de projectos didácticos, dinâmicos e flexíveis; - possibilitar o desenvolvimento de um vasto e plural programa de extensão cultural em articulação próxima com criadores, investigadores, críticos, historiadores e docentes dos vários níveis de ensino; - contribuir para o desenvolvimento de novas audiências e novas relações com os públicos; - contribuir para que o museu se torne um campo para o debate de ideias, a construção de significados e de múltiplas representações, um espaço de plurivocalidade e acessibilidade; - promover o desenvolvimento de uma programação diversificada e transversal, assente numa perspectiva, educativa construtivista crítica, capaz de fomentar o cruzamento de olhares e leituras e de contribuir para o alargamento das acessibilidades; - manter critérios de qualidade na divulgação da arte azulejar, com especial enfoque para a produção de contexto nacional, e simultaneamente promover o fácil acesso, por diferentes públicos, à informação produzida, diversificando os níveis e formas; - estreitar o diálogo com outras colecções e espólios, alargando o âmbito da colecção; - possibilitar o intercâmbio de obras e exposições com outras instituições nacionais e internacionais, no universo físico e virtual; - consolidar o exercício dum conjunto de boas práticas, inerentes a uma museologia actual e actuante; - desenvolver novos espaços de cultura, em diferentes suportes, alargando e diversificando públicos, e concebendo e implementando projectos educativos especificamente destinados a públicos com necessidades especiais. o museu virtual do azulejo da colecção berardo, embora tenha o dever de conservar e recuperar o património azulejar e as memórias inerentes à sua história, tem igualmente o dever de criar condições para o surgir de novas memórias, investindo numa política cultural que responda às expectativas da comunidade “virtual” e que, 184 simultaneamente, constitua uma proposta de modernidade face à heterogeneidade de interesses do público que o visita. de um modo específico e sistemático, o museu propõe-se dar consecução aos seguintes objectivos: - salvaguarda do património azulejar da colecção berardo, através das funções museológicas nas áreas de inventário, estudo e conservação; - promover o apoio à investigação na sua área de actuação, através da disponibilização de meios e da constituição de bases de apoio à investigação; - desenvolvimento e concepção de uma base de dados, que viabilize o inventário integral e pormenorizado da colecção, bem como, a sua gestão337 ; - promover a edição de trabalhos científicos sobre a história do azulejo em portugal e de temas ligados ao património azulejar; - assegurar a preservação e conservação dos bens, promovendo programas de acção e intervenção nesta área; - desenvolvimento de uma programação temporária qualificada que incentive a permanente actualização do conhecimento sobre a colecção e que estabeleça o confronto com a produção artística em contexto nacional e internacional; - promover a produção ou co-produção de obras contemporâneas; - servir de plataforma/interface para a apresentação da colecção, fomentando visitas reais aos diferentes núcleos expositivos; - disponibilização de informações relativas à colecção passíveis de serem descarregadas num formato digital ou impresso, servindo de complemento a uma visita real338 ; - desenvolvimento de parcerias institucionais e de relações com diversos agentes sociais, designadamente através da participação de mecenas e dos amigos do museu; - construção de espaços de reflexão, diálogo e debate sobre o património azulejar e seus campos de estudo associados, através da criação de blogues e fóruns de discussão. 337 com base neste objectivo foi concebido e desenvolvido o sistema de inventário e gestão da colecção, por nós designado por ocp, apresentado no capítulo ii, da parte ii. 338 tendo em conta a escassez de informação relativa à azulejaria, nos locais físicos onde a colecção berardo se encontra exposta ao público, nomeadamente, na quinta e palácio da bacalhôa, na quinta da bassaqueira – bacalhôa vinhos de portugal e no jardim tropical monte palace, o museu virtual, possibilitaria descarregar a informação, quer em formato digital, para um telemóvel ou para um personal digital assistant, vulgo pda ou handhelds, quer fazer impressão de um ficheiro pdf (portable document format), de forma a complementar o percurso expositivo “tradicional”, com informação mais desenvolvida e aprofundada sobre os exemplares. 185 3. funções museológicas339 o novo conceito de museu e as novas práticas museológicas estão materializadas na definição do icom: “o museu é uma instituição permanente, sem fins lucrativos, ao serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberto ao público, e que adquire, conserva, estuda, comunica e expõe testemunhos materiais do homem e do seu meio ambiente, tendo em vista o estudo, a educação e a fruição.”340 e na lei-quadro dos museus portugueses: “museu é uma instituição de carácter permanente, com ou sem personalidade jurídica, sem fins lucrativos, dotada de uma estrutura organizacional que lhe permite: (…) c) garantir um destino unitário a um conjunto de bens culturais e valorizá-los através da investigação, incorporação, inventário, documentação, conservação, interpretação, exposição e divulgação, com objectivos científicos, educativos e lúdicos; d) facultar acesso regular ao público e fomentar a democratização da cultura, a promoção da pessoa e o desenvolvimento da sociedade.”341 . o museu virtual do azulejo da colecção berardo será um espaço virtual de mediação e de relação do património azulejar com os utilizadores. complementando uma colecção visitável, dispersa geograficamente, e desenvolvendo as seguintes funções museológicas342 : estudo e investigação; inventário e documentação; interpretação e exposição; e educação. o estudo (trabalho de aprofundamento, sobre um, ou vários temas, objectos ou colecção, visando o alargamento do saber e permanecendo sempre em aberto, sendo completado com várias investigações) e a investigação (recolha de informação documental, fotográfica, gráfica, e/ou audiovisual, que ajudam a contextualizar um objecto, circunscrevendo-o num determinado espaço-tempo museal) alicerçam as acções desenvolvidas no âmbito das restantes funções do museu, designadamente “(…) para estabelecer a política de incorporações, identificar e caracterizar os bens culturais incorporados ou incorporáveis e para fins de documentação, de conservação, de interpretação e exposição e de educação.”343 . 339 no âmbito das funções museológicas, remetemos o estudo e investigação, e o inventário e documentação, para a primeira e segunda parte da presente dissertação (parte i – a colecção e parte ii – inventário e gestão da colecção), onde abordamos pormenorizadamente estes aspectos. 340 extraído dos estatutos do icom, adoptados na 16ª assembleia-geral do icom (haia, holanda, 5 de setembro de 1989) e alterados pela 18ª assembleia-geral do icom (stavanger, noruega, 7 de julho de 1995) e pela 20ª assembleia-geral do icom (barcelona, espanha, 6 de julho de 2001) artigo 2º: definições. 341 lei nº47/2004, artigo 3º. 342 conforme lei nº47/2004, artigo 7. 343 lei nº47/2004, artigo 8. 186 o inventário museológico, enquanto, relação exaustiva de todos os objectos que constituem o acervo do museu, tem como objectivo inicial identificar individualmente cada uma das peças. como atrás ficou referido, no presente caso, a sua realização contemplou, e continuará a contemplar, os princípios básicos de normalização internacionalmente adaptados, no âmbito da museologia, embora, salvaguardando, as particularidades da colecção e a vocação específica da instituição, que a tutela. associada ao inventário, a documentação possibilitou o complemento de registos subsequentes, que permitiram aprofundar e disponibilizar informação sobre os exemplares, assim como, acompanhar e historiar o respectivo processamento, sendo esta uma acção, fundamental, na actividade do museu, que aqui propomos. no contexto das funções museológicas, o museu virtual, dado o seu cariz incorpóreo não poderá cumprir a incorporação, assim como, não poderá, também, assegurar a conservação dos objectos. todavia, atendendo à sua correspondência no universo físico, esta será uma actividade que ficará adstrita à coordenação (física) da colecção berardo, pertencente à fundação sua homónima. quanto à conservação, embora, virtualmente não possa ter uma intervenção activa nesta área, poderá angariar meios e fundos; promover a salvaguarda através da divulgação e de acções específicas que venha a desenvolver, ou mesmo contribuir para um melhor conhecimento das técnicas e método de conservação/restauro do património azulejar. dar um enquadramento museológico a este imenso património cultural irá permitir que, o mesmo usufrua dos benefícios inerentes à actividade museal. embora, a colecção de azulejos estivesse parcialmente inventariada, este enquadramento, vem garantir a finalização e aprofundamento do processo de inventariação e documentação, através da criação de raiz de um sistema de inventário e gestão, específico para a colecção, bem como, fomentar o desenvolvimento de estudos científicos sobre o mesmo património, optimizando e consolidando a salvaguarda e a conservação dos exemplares. no seguimento do inventário, aprofundamento do estudo e documentação da colecção, sucede-se a divulgação, apresentando e dando a conhecer o espólio ao público. fruto da interpretação museológica, ou seja, da capacidade de transformar as mensagens e/ou dados situacionais (inerentes a cada objecto, ambiente ou situação) em mensagens contextuais (inserindo o objecto num determinado contexto cultural, social e/ou histórico, dentro do mesmo campo de pertinência), sendo o seu resultado a linguagem museal, produtora, num espaço-tempo específico, de uma rede diversificada de mensagens dirigidas, de acordo com a natureza dos seus constituintes e do seu 187 ordenamento, a várias categorias de utilizadores internos e externos do museu, resulta a exposição. constituindo uma das funções essenciais do museu, sendo o seu meio por excelência, é o instrumento da sua linguagem particular. é através da exposição que o museu comunica com o público, apresentando e divulgando o seu património museológico; transmitindo conhecimentos; promovendo a investigação científica e desenvolvendo a sua função didáctica e lúdica. inerente às funções museológicas mencionadas depara-se o enquadramento cultural e educativo, que no caso em estudo, irá imprimir uma dinâmica cultural através da actividade museal não só ao nível virtual, assim como, ao nível presencial344 . o museu irá desenvolver de forma sistemática programas de mediação cultural e actividades educativas, que contribuam para o acesso ao património azulejar, com o objectivo fundamental de criar relações entre a colecção e os visitantes (público real e público potencial). este relacionamento dever-se-á concretizar de forma dinâmica e flexível, adequada aos interesses e expectativas dos visitantes. através do serviço educativo, o museu virtual elaborará estratégias pedagógicas, que permitam desenvolver uma comunicação eficaz, resultando numa interacção efectiva e continuada. fora de um sistema formal de aprendizagem, a educação neste contexto, define- se como experiência museal, um conjunto total de conhecimentos, emoções, sensações e vivências experimentadas como resultado da interacção com os objectos, com os discursos e espaços do museu, mesmo que virtuais. 4. público-alvo actualmente, os museus estão a defrontar um desafio fundamental: a comunicação com o seu público. o espaço fechado em si próprio, criado com o propósito primordial de preservar e salvaguardar o património cultural, está a indignar- se, tendo como desígnio a transmissão de um conceito e a facilitação aos diferentes públicos, de experiências sensíveis mediante a interligação com o objecto museal. 344 o museu virtual do azulejo da colecção berardo irá estabelecer uma ligação aos espaços expositivos (quinta e palácio da bacalhôa, quinta da bassaqueira e jardim tropical monte palace), de forma, a criar condições adequadas ao acolhimento do público. no museu virtual será contemplado um “espaço”, onde, serão sugeridos percursos históricos, temáticos ou cronológicos em torno da colecção, visando o conhecimento físico do espólio. 188 como defende hugues de varine “ (…) é no contacto sensorial entre o homem e o objecto que o museu encontra a sua justificação e por vezes a sua necessidade.”345 . atendendo à nossa proposta, desenvolvida no universo virtual, o museu, como importante meio de comunicação, tem de usufruir de todo este desenvolvimento comunicacional e tecnológico, no sentido de satisfazer as novas correntes da museologia que se inclinam, cada vez mais, sobre o papel do museu na sociedade contemporânea. esta nova existência arvora uma questão relevante. “(…) the tension between the museum as a site of uplift and rational learning as opposed to one of amusement and spectacle.”346 . os museus podem ser mais aprazíveis para o público se disponibilizarem mais informação e entretenimento, ou a combinação dos dois – edutainment 347 – estabelecendo um espaço atractivo com idoneidade para aumentar e multiplicar as experiências sensoriais e cognitivas, que cada visitante pode usufruir. como consequência desses enormes desafios e transformações, que nas últimas décadas, a sociedade da informação e do conhecimento, tem vindo a colocar às instituições dedicadas à “(…) troca de informação e à formação do conhecimento.”348 , nas quais os museus se encontram claramente incluídos, estes têm vindo a ser confrontados com a necessidade de repensarem o seu papel e, em última análise, a própria identidade e relevância “(…) enquanto espaços de construção do conhecimento, o que lhes tem colocado desafios e aberto oportunidades para o desenvolvimento com os públicos e com as colecções, repensando e reequacionando os espaços e as formas para este encontro.”349 . dada a especificidade institucional do museu virtual do azulejo da colecção berardo, são variados os tipos de público-alvo, desde o investigador ao professor, passando pelos estudantes, técnicos, turistas, instituições similares, galeristas, antiquários, coleccionadores privados e o público em geral. a existência na internet, deste espaço museológico, expande as possibilidades de disseminação da informação 345 varine, hugues de – “le musée au service de l’homme et du developpement” (1969). in vagues: une anthologie de la nouvelle museologie, éditions w/mnes, paris, 1992, p. 52. 346 alison griffiths (2003), p. 376. 347 o conceito de edutainment é defendido por mintz (mintz, a. – “thats’s edutainment!”. in museum news, november/december, 1994, pp. 32-35.) as visitas aos museus, físicas ou virtuais, são momentos privilegiados de aprendizagem, proporcionando uma combinação de lazer e educação – edutainment – que se entretece com as experiências e vivências dos indivíduos, perdurando na memória muito para além do momento em que acontecem. 348 silverman, l. – “visitor meaning-making in museums for a new age”. in curator 38/3, 1995, pp. 161-169. 349 silva, susana gomes da – “museus e públicos: estabelecer relações, construir saberes”. in revista turismo & desenvolvimento nº5, 2006, pp. 161-167. 189 e/ou visita para inúmeros usuários, ou seja, os visitantes virtuais, que podem, também, vir a ser visitantes presenciais. à semelhança do que acontece nos museus ditos tradicionais, também nos museus virtuais, se fala, cada vez mais, da educação museal, exaltando o espaço museológico como um espaço para o debate e a construção de ideias numa lógica de aprendizagem ao longo da vida – long life learning – o que pressupõe um alargamento da noção de público tradicional350 . neste sentido, o museu que neste estudo propomos, através da sua programação, procurará investir, progressivamente, na conquista, diversificação, integração e fidelização de múltiplas audiências (a partir do universo de públicos reais e potenciais), designadamente, dos públicos adulto e sénior, que têm vindo a adquirir um crescente relevo nos programas de actividades educativas e culturais, desenvolvidas por instituições congéneres. assente na sua vocação, missão e objectivos, o museu virtual do azulejo da colecção berardo, procurará desenvolver uma programação variada dirigida quer à comunidade escolar (professores, educadores, alunos de todos os níveis de ensino), quer aos restantes públicos especialistas e não especialistas (crianças, jovens, adultos, famílias, pessoas com necessidades educativas especiais, seniores, profissionais da educação, dos museus e da cultura), erigindo-se como um espaço vivificante de comunicação, construção, criatividade e relacionamento. 5. reflexões para o seu desenvolvimento conceptual para organizar um museu é necessário, antes de mais, conhecer bem o património museológico e a sua principal área de influência: públicos e “território”351 . neste sentido, e cientes que só o conhecimento profundo da colecção de azulejos nos autorizaria a obter um programa que a organizasse cientificamente, sendo essa a base para todo e qualquer projecto museológico que daí pudesse advir, iniciamos o presente trabalho com o estudo e investigação da colecção, recorrendo à inventariação sistemática da mesma. no decurso desse longo processo reunimos um conjunto de 350 esta afirmação é feita no contexto do público escolar e o público infanto-juvenil serem os mais representados nas estatísticas dos visitantes de museus e aqueles que mobilizam a maior parte dos recursos educativos destas instituições e, embora seja crucial reforçar que não se pode (nem de deve!) de forma alguma reduzir a função educativa dos museus ao trabalho realizado com grupos escolares e crianças, é importante reconhecer a importância e peso destes segmentos de público na programação destas instituições. 351 entenda-se por “território”, o espaço virtual, onde será implementado o museu. 190 documentação que nos conduziu à fundamentação da instituição museológica proposta. absolutamente necessária para elaborar os diferentes programas, nomeadamente, o expositivo e o educativo, a documentação é, também, fundamental para o desempenho das actividades do museu: desde a investigação, a gestão da colecção até à exposição, às edições e ao serviço educativo, constituindo-se como uma fonte básica de informação sobre o espólio e orgânica do museu. concluída a primeira fase para a criação do museu virtual do azulejo da colecção berardo definiu-se a sua missão, que de forma explícita, responde à essência e à razão da sua existência. tendo em especial consideração a colecção em causa, e as perspectivas de futuro (em função do que ela é e pode vir a ser), estabeleceu-se a vocação do museu, mediante a delineação da sua abrangência territorial; a caracterização do seu campo temático; e a definição do seu âmbito disciplinar; da sua dependência administrativa (tutela) e dos seus espaços de actuação (relação estabelecida com outras instituições e entidades). assim, com base na sua fundamentação teórica, enumeramos as metas e objectivos, sendo que aos primeiros correspondem alvos de natureza qualitativa que a instituição museológica pretende alcançar a longo prazo, e aos segundos a realização quantitativa de cada uma das metas, a curto prazo. após a definição da missão, vocação, metas e objectivos, etapas fundamentais para a constituição de qualquer equipamento cultural congénere, estipulamos as funções museológicas, as quais darão corpo às diferentes fases de programação do museu. no entanto, tendo em atenção o objectivo e os prazos inerentes a uma tese de mestrado, pareceu-nos despropositado desenvolver, no presente trabalho, os vários programas intrínsecos à programação museológica. a sua prossecução resultaria num universo maior do que poderíamos analisar no espaço temporal disponível, e que no nosso entender, extrapolava os propósitos de um estudo elaborado neste âmbito. todavia, em jeito de conclusão, desta terceira parte da dissertação, julgamos pertinente, incluir algumas considerações relativas ao futuro do museu virtual, sob o título reflexões para o seu desenvolvimento conceptual. na elaboração de um projecto museológico torna-se obrigatório realizar previamente uma programação. o primeiro trabalho a efectuar consiste em definir com clareza o que se pretende fazer, o objecto ou campo de trabalho. como salientava joão couto, já na década de 1960, “um museu tem sempre de obedecer a um programa 191 (…)”352 , opinião que corroboramos, embora acreditemos que a programação não deve ser inflexível, na medida em que os resultados da pesquisa poderão levar a uma reformulação da mesma, quer no sentido da sua ampliação, por surgirem dados imprevistos, quer no da sua contracção, por não permitirem a abordagem de alguns conteúdos. durante o período de investigação e de desenvolvimento do projecto museológico, a programação deverá ser revista periodicamente, ajustando-se à realidade em presença e às necessidades sentidas. de certo modo, ao estabelecermos os pressupostos teóricos da unidade museológica que aqui alvitramos, estamos já a programar, pois como refere francisca hernández hernández “la experiencia ha demostrado que la definición de un programa, antes de realizar cualquier intervención museológica, es de gran eficacia tanto cuando se aplica a proyectos importantes, como a otros sencillos y de menor complejidad, puesto que permite assegurar una asistencia técnica y prática que comienza desde la definición de los objetivos hasta la puesta en funcionamento del museo.”353 . entendemos assim, que a programação é o estudo ou o conjunto de estudos que tem por fim precisar os objectivos do museu, ou seja, desenvolvê-los, completá-los e verificar a sua coerência. importa, ainda, salientar que a programação museológica, enquanto proposto de concretização espacial (topológico) das funções museológicas, irá dar origem a diferentes tipos de programa, que por sua vez, se multiplicarão em sub-programas. como atrás ficou referido, embora, não tenhamos intenção de desenvolver aqui os diversos programas inerentes à criação do museu virtual do azulejo da colecção berardo, consideramos fundamental que na sua continuação, seja tido em conta, os seguintes programas: o científico; o museológico/expositivo; o “arquitectónico/ museográfico/virtual”; o educativo; o de divulgação, e o de organização-gestão. o programa científico, que deverá ser da responsabilidade da equipa de investigação com apoio no estudo e pesquisa realizado, deverá estabelecer os conteúdos que serão tratados a curto, médio e longo prazo, tratando-se, basicamente, da materialização da vocação do museu em temas. os conteúdos programáticos que serão produzidos no âmbito do programa científico deverão ter em consideração a natureza e especificidade da colecção; os objectivos e a missão designados, e as características do próprio museu. dos vários grupos temáticos que deverão ser elaborados, um dos temas base para a estruturação deste programa deverá versar a “história do azulejo”, ou seja, a 352 couto, joão – “conversas sobre museologia”, in ocidente, nº30, fevereiro 1964, p. 99. 353 francisca hernández hernández (1998), p. 119. 192 apresentação desta forma de arte, desde os primeiros exemplares artesanais até à produção contemporânea. iniciando o assunto desde a antiguidade com prática de revestir paredes com azulejos, que chega à europa através das trocas culturais estabelecidas ao longo dos séculos, entre os povos do médio oriente e os povos europeus, até à introdução na península ibérica, onde se vulgarizou a sua utilização, a partir do século xiii. assim, dever-se-ia principiar a história dando especial destaque, ao azulejo, como hoje o conhecemos, que surge em espanha, e passa a ser usado em portugal, entre finais do século xv e a primeira metade do século xvi, com grandiosa singularidade, e que se mantém até à actualidade, constituindo uma das referências patrimoniais incontornáveis do nosso país. percorrendo, deste modo, os cinco séculos da narrativa azulejar em portugal, este deveria ser um grupo temático basilar, na criação do museu. o programa museológico deverá ser desenvolvido, aplicando os diferentes conteúdos programáticos, elaborados no programa científico, a um circuito expositivo, que em nosso entender, deverá abranger duas áreas distintas: a área de exposição permanente e a área de exposições temporárias. no caso da exposição permanente, consideramos que o ponto de partida deveria ser a “história do azulejo”, contada de forma cronológica e com o objectivo de mostrar a evolução da azulejaria através dos objectos da colecção berardo, que permitem ilustrar e cobrir, o arco secular desta forma de arte, oferecendo uma sequência lógica e facultando ao visitante uma leitura exacta do espólio. contextualizando-o na história da cultura portuguesa, a temática deveria ser desenvolvida nos seus múltiplos aspectos, nomeadamente, artísticos, sociais, históricos e científicos. assim, a exposição permanente, deveria abordar todas as fases, que o azulejo assumiu em portugal, ao longo dos tempos, desde os esquemas de soluções geometrizantes dos artífices hispano- mouriscos, dos séculos xv e xvi, à copiosa e variada padronagem de tapete, policroma e azul e branca, dos séculos xvii e xviii, passando pelas criações da azulejaria maneirista de influência itálo-flamenga, e logrando a sua expressão máxima nos grandes painéis historiados da época de magnificência do rei d. joão v, a que se seguiu a produção prática e repetitiva da fase pós terramoto, legitimada pela urgência de produção em grande número. além destas épocas mais marcantes, a exposição deveria, também, versar criações de outro tipo, igualmente significativas pela habilidade criativa, pela expressão pictórica, pelo brilho dos esmaltes, pelas razões decorativas e conjugações de enorme harmonia e unidade, como sejam, os azulejos de figura avulsa, os frontais de altar, os painéis da apurada pintura do “ciclo dos mestres”, os painéis 193 neoclássicos, numa duradoura produção em que o recurso à policromia foi alterando com o recurso ao azul e branco, predominante. quanto às exposições temporárias julgamos que deverão ter a duração de seis meses, de forma a compreender um número de visitantes significativo e heterogéneo; desenvolver a sua função educativa; imprimir uma dinâmica semestral, mantendo o museu sempre actualizado, e possibilitar a sua rentabilização. enquanto, que a exposição permanente não poderá, dentro de certos limites, “fugir” a um critério cronológico, as exposições temporárias poderão recorrer a critérios temáticos, técnicos, estilísticos, ou outros, combinando inclusive mais do que um critério de organização. após o estudo da colecção, sugerimos, a título de exemplo, uma exposição de registos, atendendo à representatividade e diversidade das tipologias incorporadas, desde medalhões circulares e ovais, passando por molduras trapezoidais e rectangulares, até ao tratamento exterior dos próprios painéis, com uso de recortes mais ou menos pronunciados, todos representados no presente espólio. o número significativo destes testemunhos e o facto de muitos deles se acharem datados, faz deste núcleo um valorizado documento para o estudo a azulejaria em geral, especialmente, do período que vai do século xviii até 1834, com a extinção das ordens religiosas em portugal, por decreto do governo liberal. a exposição deveria englobar o estudo de diversas vertentes dos registos hagiográficos incorrendo, numa primeira parte, em questões estilísticas e de gramática decorativa; em aspectos comparativos quanto a outras manifestações artísticas contemporâneas, tais como, a talha e a arquitectura; inclinando-se também sobre as oficinas e fábricas, os casos exímios e seus autores; e ainda, sobre os novos caminhos e tendências. numa segunda parte, dever-se-ia incidir sobre os aspectos iconográficos, antropológicos e sociológicos. pelo facto das representações, mais frequentes, desta tipologia de azulejos ter sido condicionada, não só, pelos acontecimentos naturais (terramotos e incêndios), cuja representação em termos das mentalidades foi marcante, mas variando também, conforme a conjuntura histórica, religiosa, social, económica, política e ideológica, do momento, entendemos que esta exposição temporária poderia chegar a um universo de visitantes relativamente heterogéneo e com interesses distintos. no âmbito do programa museológico, importa ainda salientar, que quer se trate de uma exposição permanente ou temporária, o museu terá de elaborar um projecto expositivo descrevendo: o tema; o plano director dos conteúdos (análise e síntese da investigação, que 194 deram origem ao programa científico); os objectivos; a descrição da exposição; o discurso expositivo; a selecção dos objectos354 e a sua relação com o discurso expositivo. o programa que intitulamos de “arquitectónico/museográfico/virtual” deverá prever a descrição teórica da organização formal e funcional do museu virtual, ou seja, delinear os diferentes espaços virtuais que o irão constituir e a forma que se organizam, definindo, ainda, o tipo de informação e a forma como a mesma deverá ser patenteada ao visitante355 . o desenvolvimento deste programa deverá contemplar o mapa do museu virtual, que será obrigatoriamente desenvolvido em diálogo aberto com museólogos, programadores informáticos e webdesigners. no entanto, sendo essa uma parte mais prática e funcional, parece-nos de extremo interesse, referir aqui, a circunspecção dos conceitos inerentes a um desenho e imagem, que se pretende cuidada, garantindo critérios de acessibilidade, navegação fácil e intuitiva; navegabilidade, organização lógica, e usabilidade, linguagem correcta e simples, à semelhança do discurso museológico. a usabilidade terá uma importância fundamental na criação do museu virtual, pois como relembram day e evers, ela preocupar-se-á de forma especial com o utilizador/visitante final, atendendo às suas características e necessidades específicas356 . podemos considerar, que a navegação num museu virtual é, em certa medida, uma experiência análoga à visita de um museu físico, pois existem mapas, esquemas, panfletos ou sinalética, que ajudam o visitante a tirar um melhor proveito da sua visita. visto que na internet o acervo que poderá ser colocado online é muito amplo é essencial ter em atenção os diferentes públicos e os seus distintos interesses. neste aspecto, a importância do design de interface e da usabilidade é crucial, tendo em consideração a multiplicidade de audiências, as várias expectativas e a mensagem que se deseja comunicar. assim, será um grande desafio para o webdesigner devido à pressão gerada entre a necessidade de transmitir conteúdos de forma rápida e eficiente e a necessidade de um design apelativo. como refere steve krug, especialista em usabilidade na internet, quanto mais 354 quanto à selecção de objectos, o museu, por ser de natureza virtual, tem a grande vantagem, de poder utilizar objectos, que estejam na exposição permanente, caso os mesmo sejam necessários para o discurso expositivo temporário. esta situação, é também válida, para os empréstimos de instituições terceiras, ou seja, caso se necessita de um testemunho para complementar o projecto expositivo, podemos recorrer ao empréstimo a outros equipamentos museológicos nacionais ou internacionais, e mesmo que o objecto em questão esteja exposto fisicamente não será impedimento, sendo para isso necessário, solicitar apenas à instituição tutelar os direitos de cedência temporária da imagem. 355 tratar-se-á, de uma espécie de guião que será entregue a um programador e webdesigner visando a construção do museu virtual. 356 day, donald; evers, vanessa – “the role of culture in interface acceptance”. in s. howard; j. hammond; g. lindegaard (ed) – human computer interaction interact'97. chapman and hall, london, 1997, disponível em: http://staff.science.uva.nl/~evers/pubs/interact.pdf . 195 heterogénea é a audiência mais difícil se torna criar um museu que vá de encontro às necessidades e expectativas dos seus visitantes357 . ao longo dos anos, o processo de comunicação foi sofrendo alterações, sendo que, hoje, já não pode ser compreendido como um processo para massas, nos termos de um procedimento de um-para-muitos. presentemente, os mesmos processos de comunicação consistem num modelo de um- para-um ou de muitos-para-muitos358 . o museu virtual do azulejo da colecção berardo deverá fazer todos os esforços para conseguir ir ao encontro das necessidades de várias audiências, apresentando nesse sentido, o mesmo conteúdo de várias formas. em 2004, paul marty e michael twidale realizaram um estudo sobre a usabilidade dos museus virtuais, cobrindo vários tipos de museu, nomeadamente, de arte, ciência, história e cultura, com colecções distintas, e cujos públicos principais eram estudantes, escolas, crianças e adultos. concluíndo, os autores referem que: “the designers of museum web sites often invest huge amounts of time and money in developing extensive web sites with fabulous content. not analyzing these web sites for usability can mean users of the site will fail to discover and appreciate this rich content — a frustrating experience for both museum professionals and museum visitors.”359 . aludindo às afirmações, podemos destrinçar alguns aspectos, fornecidos por este estudo, e que deverão ser tidos em consideração na criação do museu virtual. assim sendo, temos: multiplicidade de conteúdos disponíveis, gerando uma grande quantidade de informação e uma aplicação muito extensa e complexa, que poderá confundir o visitante, levando mesmo à desistência; designs muito elaborados, dando demasiada importância ao lado artístico em detrimento da usabilidade, podendo, por vezes, distrair o visitante desviando-o do objectivo que o levou a visitar o museu; interfaces demasiado exploratórias, ou seja, que tal como no museu físico estimulam o visitante a explorarem o espaço expositivo virtual, forçando-o a percorrer um determinado percurso imposto pelo espaço museológico virtual; linguagem muito hermética utilizando directrizes de acordo com termos específicos do processo museológico; entre outros. 357 krug, steve – don't make me think: a common sense approach to web usability. new riders press, 2nd edition, berkeley, 2005. 358 o novo encaminhamento dos processos de comunicação vai ao encontro do conceito p2p (peer-to- peer), defendido por ross e nightingale, na publicação intitulada media and audiences: new perspectives, editada em londres, pela open university press, em 2003. 359 marty, paul f.; twidale, michael – “lost in gallery space: a conceptual framework for analyzing the usability flaws of museum web sites.” in first monday, volume 9, number 9, september 2004. disponível em: http://firstmonday.org/htbin/cgiwrap/bin/ojs/index.php/fm/article/view/1171/1091. 196 a navegação e a usabilidade do museu virtual, podem assim ser comprometidas, se não existir um programa consciente sobre os elementos do design e da ergonomia de interfaces, que proporcionam uma maior navegabilidade nestes ambientes. é fundamental, que um projecto desta natureza, siga e respeite integralmente os padrões do w3c – world wide web consortium, que é um consórcio de empresas de tecnologia, actualmente com cerca de 500 membros, que tem por objectivo elevar a internet ao seu potencial máximo, desenvolvendo protocolos comuns e fóruns abertos que promovem a sua evolução. o w3c desenvolve tecnologias denominadas padrões da internet, para a criação e interpretação de conteúdos para a internet. assim qualquer projecto desta natureza, desenvolvido segundo estes padrões, será acessível e visualizado por qualquer pessoa (incluindo os utilizadores com dificuldades acrescidas) ou tecnologia, independentemente do hardware ou software utilizados. as directivas deste consórcio destinam-se a todos os autores de conteúdos web e aos programadores de ferramentas para criação de conteúdos, tendo como principal objectivo promover a acessibilidade, eliminando barreiras tecnológicas360 . ainda dentro do programa “arquitectónico/museográfico/virtual”, importa referir algumas regras do grafismo a ser aplicadas ao museu virtual. a tipografia deverá ser clara e objectiva, devendo ser utilizadas fontes sem serifa, ao contrário do que normalmente é aconselhado nos museus físicos, pois nestes ambientes facilitam a legibilidade e o reconhecimento das letras no ecrã do computador. as cores podem funcionar como ajuda na orientação dos campos temáticos, auxiliando a visita, mas devem ser usadas com cuidado e de forma bem explícita, visto que poderão, também, indicar links de hipertexto. quanto ao alinhamento dos textos não existe uma regra específica, fazendo apenas a ressalva, que os mesmos deverão estar alinhados com coerência, ao longo de toda a aplicação. finalmente, dever-se-á ter atenção ao uso de grids361 , facilitando a usabilidade do visitante, pois sempre que o mesmo procurar alguma informação no interface estará no lugar esperado362 . sendo uma estrutura bem 360 fundado por tim berners-lee, em 1994, o w3c produz várias directrizes nesta matéria, sendo um dos documentos base o web content accessibility guidelines 1.0, constituindo-se uma referência para os princípios de acessibilidade e concepção. no site do consórcio, http://www.w3.org/, estão disponíveis todos os documentos produzidos. 361 o grid, ou malha gráfica, funciona como uma espécie de modelo bidimensional para organização dos elementos gráficos no ecrã. o objectivo do grid é ajudar o designer gráfico a criar o diagrama do conteúdo de uma página de forma harmoniosa para o visitante, através da valorização da estrutura e coesão do layout. 362 salientamos, ser de extrema importância, o acesso, por parte do visitante a todos os ícones (botões), em qualquer área do museu. estes ícones deverão, também, estar sempre no mesmo local do interface, facilitando a visita. 197 feita, o uso dos grids irá garantir uma melhor legibilidade, reconhecimento, alinhamento, compreensão da mensagem e composição. em relação, à museografia, que incluímos neste programa com uma designação pouco usual, prende-se com o facto de se tratar de um museu virtual, assim referimo- nos, essencialmente, à componente semântica, ou seja, à história do percurso que acaba por ser transversal ao programa científico e museológico, e à componente plástica, incidindo sobre o arranjo gráfico, anteriormente, abordado. no programa educativo deverão ser planeadas algumas actividades de extensão cultural, que poderão ser desenvolvidas no contexto “virtual” do museu, como sejam as acções de serviço educativo, e/ou fora deste, nomeadamente, visitas guiadas aos espaços expositivos físicos e a realização de roteiros complementares ao espólio em questão. o programa educativo deverá apostar em criar relações estreitas com a comunidade de forma a: estimular o interesse do público pela azulejaria, através de acções nas áreas de educação, da divulgação e da animação; contribuir para a captação, formação e fidelização de novos públicos, “virtuais” ou físicos, através de uma acção, que incentive a integração e a participação de diferentes nichos da comunidade; e dinamizar as exposições virtuais, e os espaços físicos, através do desenvolvimento de programas lúdicos e criativos. numa sociedade cada vez mais rica em tecnologia e informação, o museu virtual poderá servir como fonte de experiência e aprendizagem acessível a todos quantos estejam interessados. a novidade desta experiência é a assunção que esta se possa realizar quer transpondo a entrada de um edifício (espaço físico), quer usando um computador, tratando-se em ambos os casos de uma experiência museal363 . uma das características da internet que favorece a sua utilização, sobretudo para fins didácticos e educativos, em meios formais, incluindo os museus, é precisamente o seu potencial interactivo. a interactividade permite ou facilita uma relação activa entre o utilizador e a instituição/objectos museológicos, o visitante deixa de se um espectador 363 autores como john h. falk e lynn d. dierking têm optado por conceber aprendizagens susceptíveis de serem desenvolvidas no espaço museológico como um todo, englobando-as num processo mais vasto, o da “experiência museal” (da expressão inglesa – museum exprience). pela expressão experiência devemos entender aqui, o conjunto total de aprendizagens, emoções, sensações e vivências experimentadas como consequência desta interacção com os objectos, com os discursos e espaços dos museus, ou seja, o resultado de uma visita ao museu que persistirá muito para além do momento específico em que decorreu. a este respeito ver: falk, john h.; dierking, lynn d. – learning from museums: visitor experiences and the making of meaning. lanham, oxford, walnut creek, altmaira press, new york, 2000. 198 passivo e converte-se num sujeito activo, podendo tomar decisões e ser o protagonista do processo de aprendizagem, interagindo com a informação disponibilizada364 . sem substituir outros meios, mas em complementaridade com eles, a utilização da internet, em meio museal, poderá ser um complemento importante para alcançar os fins propostos, neste processo de implementação e consolidação das experiências para e pelo património cultural. num ambiente virtual com possibilidades de interacção, o visitante torna-se um participante activo da sua própria aprendizagem, aliando as potencialidades da apresentação digital aos processos de construção do conhecimento e da aprendizagem. a utilização de produtos multimédia como ferramenta desses processos desperta um grande interesse na sociedade actual, principalmente junto aos mais jovens, atendendo aos benefícios que poderá trazer, nomeadamente, proporcionando aos utilizadores o desenvolvimento das suas capacidades críticas e de auto-aprendizagem, preparando-os para enfrentarem os desafios deste novo século. numa perspectiva mais prática, o programa educativo do museu virtual do azulejo da colecção berardo, deverá contemplar uma diversidade de actividades para diferentes públicos, tais como: actividades lúdicas a serem desenvolvidas online ou apresentando a possibilidade de download; promoção de actividades incentivando o público infanto-juvenil, por exemplo, à criação de um espaço dentro do serviço educativo, onde os alunos elaborem as sua próprias exposições virtuais, configurando-se deste modo, um novo modelo de relacionamento com a sociedade, no qual se destaca o sentido de colaboração e participação; fichas educativas referentes aos espaços expositivos físicos, incluindo os painéis in situ da quinta da bacalhôa, que funcionem como fichas de observação para acompanhamento das visitas de modo a adequar os conteúdos da exposição às necessidades pedagógicas dos diversos públicos; disponibilização de vários canais permanentes de divulgação histórica e artística destinada a alunos e professores do ensino formal, não-formal e informal e ao público em geral, 364 a interacção dos vários factores é aquilo a que os especialistas chamam de “modelo de experiência interactiva”. este modelo foi concebido para criar uma imagem coerente e total da experiência museal, orientando aqueles educadores que pretendem proporcionar vivências qualitativas. identifica uma conceptualização da visita ao museu considerando a interacção de três factores: o contexto pessoal, social e físico. para compreendermos o modelo é imprescindível assumir que cada um destes contextos é construído pelo visitante ao longo da visita e informado pela experiência que está a viver. esta experiência é singular porque tudo aquilo que o visitante faz ou sente é filtrado pelo contexto pessoal, mediado pelo contexto social e integrado no contexto físico. o modelo define-se como um conjunto tridimensional, constituído por três esferas interactivas que representam cada um dos contextos. a qualquer momento, um ou mais contextos, podem assumir maior relevância na experiência e influenciar a perspectiva do visitante. 199 divulgando as artes plásticas e decorativas, e em particular a azulejaria; publicações periódicas desenvolvidas especialmente para a visita virtual, mas com possibilidade de impressão ou download (para diferentes equipamentos, como os pda’s); criação de uma rede de comunicação entre especialistas e públicos interessados na temática do museu, promovendo a interacção e aprendizagem por meio web, construindo, colectivamente, conhecimentos e veiculando, socialmente, a valorização do azulejo como elemento caracterizador da identidade nacional; entre muitos outros eventos, que poderão fazer parte de um programa dinâmico de actividades capaz de responder aos interesses de um conjunto diversificado de públicos, visando por um lado a captação de novos visitantes e, por outro, a formação de públicos cada vez mais vastos, conhecedores e rigorosos, estabelecendo com eles relações estreitas e duradouras. entendemos, que um movimento dinâmico entre o real e o virtual, o passado e o presente, poderá suscitar uma experiência capaz de promover uma aprendizagem marcante e reflexiva sobre a temática do museu. o programa de divulgação deverá contemplar duas áreas de actuação distintas, uma relativa ao projecto editorial e outra ao projecto de difusão e marketing. no primeiro caso deverá ser elaborado um plano de publicações em diferentes suportes, sendo que as de formato digital, deverão ter possibilidade de download. as edições terão como objectivo a divulgação e valorização da colecção. no âmbito do projecto de difusão deverá assumir especial importância a comunicação institucional, a relação com a imprensa e o marketing, áreas em que cada vez mais os museus vão apostando de forma a projectar e melhorar a sua imagem como instituição, facultando a relação com outras instituições, a divulgação das suas actividades e difusão das suas funções, acções e colecções. esta área deverá abranger outras instituições, público em geral, técnicos e profissionais de diversos sectores. em função dos objectivos e recursos do museu virtual deverão ser criados diferentes materiais de divulgação, devendo ser consideradas as seguintes questões: quais as estratégias a desenvolver; quais os circuitos de distribuição; qual a forma de assegurar a divulgação permanente; que continuidade e periodicidade será possível; qual a sustentabilidade; a verificação da eficácia/sucesso das estratégias, entre outros. o estudo, e selecção dos canais de comunicação é também, de extrema importância, seleccionando os mais adequados ao público que o museu pretende atrair, tentando seguir sempre estratégias viáveis, e optimizando os recursos existentes. 200 a título de exemplo, neste campo deverão distinguir-se acções de explicação e uso do logótipo e normas de utilização, bem como, a disponibilização da agenda com eventos relacionados com o museu ou com áreas de interesse congénere. e complementarmente, a criação de mailing lists, newsletter ou alertas relacionados com os eventos a realizar. ainda, na área de divulgação, deverá ser pensada a criação de uma loja virtual com venda online, onde sejam disponibilizados os catálogos, as publicações internas ou externas, dentro da mesma temática, e merchandising diversificado. o programa de organização-gestão é basicamente um programa de operações, que dará resposta à necessidade de fasear devidamente o projecto do museu, em que o grau de especialização é muito elevado, e de clarificar as responsabilidades, tendo, simultaneamente, um papel pedagógico e financeiro muito importante: pedagógico, porque adverte os responsáveis, dos diferentes departamentos, a tomar decisões técnicas no momento oportuno; financeiro, dado que permite o controle incessante dos custos. neste programa deverá ser feito um planeamento das responsabilidades de cada departamento do museu, para assegurar a concretização dos conceitos e dos objectivos predefinidos. instrumentos de gestão como mapas de trabalho ou cronogramas são indispensáveis neste âmbito, evitando deste modo qualquer derrapagem de conteúdos, custos ou prazos de execução. a par dos programas anteriormente esboçados, na criação do museu virtual do azulejo da colecção berardo dever-se-á ter em consideração: os recursos humanos adstritos, definindo um quadro de pessoal, interno e externo, inferindo quais as suas competências e responsabilidades; os recursos logísticos, nomeadamente, as infra- estruturas necessárias ao seu funcionamento, mencionando quer os locais de trabalho destinados ao quadro de pessoal interno, quer os espaços designados ao armazenamento da informação, que dará corpo à unidade museológica; e os recursos financeiros, fazendo uma explanação dos custos de implementação e manutenção. a manutenção do museu virtual e a actualização permanente de conteúdos e actividades associadas será, de facto, o grande desafio, pois implicará um estrutura orgânica e financeira subjacente e em permanência. perspectivando uma estratégia de sustentabilidade para o futuro, o museu poderá, por exemplo, angariar meios e fundos, promovendo a salvaguarda através da divulgação e de acções específicas que venha a desenvolver, ou mesmo contribuir para um melhor conhecimento das técnicas e métodos de conservação/restauro do património azulejar. 201 no delineamento das estratégias futuras entendemos como fundamental o estabelecimento de parcerias, pois como afirma raquel henriques da silva “nestas áreas [parcerias], a reflexão a fazer passa por ter coragem de alterar sistemas de relacionamento social herdados do passado e criar um novo relacionamento orientado por valores de partilha corresponsabilizada, delinear um conjunto de objectivos e estratégias que não pretendam apenas suprir as insuficiências ou as linhas programáticas da equipa do museu mas pô-la ao serviço dos objectivos mais amplos que não podem ser estreitamente os seus. (…) os parceiros encontrados são estrategicamente veículos fundamentais que em função dos seus próprios, possam contribuir para finalidades conjuntas.”365 . as parcerias abrem as portas da instituição para a realidade exterior, desenvolvendo o relacionamento entre profissionais de várias áreas. assim, as redes de contactos externos irão reforçar a extensão do trabalho desenvolvido pelo museu e, simultaneamente, fomentar e fortalecer o contacto com parceiros, que partilhem interesses e perspectivas comuns. em nossa opinião, este tipo de trabalho apresenta várias vantagens, sobretudo, o engrandecimento de projectos; o aconselhamento específico; a diminuição de custos; uma maior facilidade de obtenção de financiamentos; a simplificação na concepção e produção de recursos; e a permuta ou empréstimo de equipamentos e outros recursos físicos e/ou humanos. ou seja, o propósito fundamental é criar sinergias entre instituições, que têm como missão, a preservação e divulgação, do património cultural. 365 silva, raquel henriques da – “política educativa: objectivos.” in actas encontro museus e educação, lisboa, 10 e 11 de setembro 2001, p.19. 202 conclusão se é verdade que cada coleccionador é singular, não é menos verdade, que toda a colecção é uma forma de auto-retrato. o coleccionador josé berardo, detentor de diversas colecções, é sobretudo conhecido pela colecção de arte moderna e contemporânea que, além de acolher autênticos núcleos de excelência, é uma referência no panorama internacional, permitindo acompanhar os principais movimentos artísticos do século xx. com mais de 500 artistas representados, o espectro temporal da colecção berardo inicia-se em 1909, com uma pintura cubista de pablo picasso, tête de femme, e vai até aos mais recentes desenvolvimentos da produção artística coeva. fonte inesgotável de criatividade e de possibilidades de inovação, não só pela riqueza dos seus conteúdos, mas também pela constante aquisição de obras, a colecção possibilita diversas e actualizadas leituras da arte contemporânea. em abril de 2006, fruto da vontade conjunta do estado português e do coleccionador privado, é criado o museu colecção berardo nos espaços expositivos do centro cultural de belém, um amplo edifício projectado pelos arquitectos vittorio gregotti e manuel salgado. representando um marco indelével no cenário cultural do nosso país, esta nova instituição consagrada à arte moderna e contemporânea apresenta, desde de junho de 2007, os núcleos primordiais da colecção, assim como, exposições temporárias. no entanto, sendo a colecção de arte moderna e contemporânea, no âmbito do “universo berardo”, a mais conhecida do público nacional e internacional, a sua génese é posterior ao objecto de estudo da presente dissertação. iniciada na década de 80, época em que o coleccionador regressa à sua terra natal, a colecção de azulejaria funda, de certo modo, uma fase inicial das colecções, organizadas de forma sistemática, revelando o gosto pela arte portuguesa. podemos mesmo certificar que se trata de uma afirmação das suas raízes, imbuído de um sentimento de amor e devoção à pátria, evocando uma portugalidade que pulsa para além da metrópole. num acto de afecto ao país onde nasceu e ao qual pertence, o coleccionador procura através desta arte secular, recuperar a memória de portugal que, indubitavelmente, se faz das memórias das suas gentes, das suas terras e das suas regiões. embora a portugalidade não seja uma geografia, mas sim um património imaterial, intangível, ao decidir iniciar uma colecção de arte moderna e contemporânea, o comendador berardo transcende a portugalidade que tão bem revela, para ganhar a arte da universalidade. 203 prosseguindo o objectivo de reunir um conjunto de obras, representativas da história do azulejo em portugal, a aquisição dos exemplares foi sendo feita de modo sistemático. aconselhado por colaboradores, consultores e historiadores de arte, este coleccionador privado foi constituindo uma colecção, que não deixando de espelhar um gosto pessoal, com a presença mais reforçada de determinadas tipologias, traduz simultaneamente, importantes obras de síntese da azulejaria portuguesa. ao tentar compreender as motivações e as escolhas que levaram à constituição da colecção, o documento primeiro a considerar é a própria colecção, enquanto objecto privilegiado de observação da personalidade do coleccionador. a colecção de azulejos é, particularmente, expressiva desta situação, retrato e prova remanescente e categórica do indivíduo que, embora valendo-se de especialistas que o aconselharam, patenteou, em muitos exemplares, erudição e decisão própria, convertendo-se em última estância o seu efectivo criador. as aquisições podendo, em alguns momentos, sugerir um movimento errático, parecem enunciar uma lógica profunda de coleccionismo, gerida por ecletismo e intuição, estratégia que se torna mais evidente no núcleo de azulejaria arcaica e barroca. composta por mais de 600 exemplares datados entre o século xv e a actualidade, quase todos de origem portuguesa, com excepção de um pequeno núcleo de azulejos hispano-mouriscos, a colecção de azulejos da fundação berardo é considerada a melhor colecção privada e a segunda maior do país, logo após a colecção do museu nacional do azulejo. nesta colecção encontramos peças de referência da qual destacamos o mascarão (inv. 101-395), de gosto maneirista datável de cerca de 1565/1570; o painel de azulejos de padrão de “marvila” (inv. 101-184), com um módulo padrão de 12x12, o de maior dimensão concebido no mundo, sendo constituído por catorze tipos de azulejos e representativo da criatividade dos nossos azulejadores de seiscentos; o painel “macacaria” – acampamento de um exército junto a uma cidade fortificada (inv. nº 101-189), cerca de 1665; o silhar com heráldica da ordem beneditina (inv. 101-390), com enrolamentos de folhagem de acanto sustidos por serafins, agindo como tenentes, datável do terceiro quartel do século xvii; a cena galante e bucólica (inv. 101-196), produzida no primeiro quartel de setecentos de autoria do monogramista p.m.p.; o conjunto de painéis proveniente da capela da quinta do relógio, arrentela, seixal, que constitui um programa iconográfico coerente, representando, respectivamente, a celebração da primeira páscoa (inv. 101-198), o 204 milagre da multiplicação do pão (inv. 101-199), as bodas de canaã (inv. 101-200), e a última ceia (inv. 101-201); o par de painéis eleita como sol (inv. 101-205) e formosa como a lua (inv. 101-206), emblemas marianos alusivos às litanias ou ladainhas da virgem; as quatro figuras de convite, entre as quais se encontra uma figura de convite feminina (inv. 101-388), do segundo quartel do século xviii; as dezenas de registos, representativos das diferentes tipologias produzidas, medalhões circulares e ovais, molduras trapezoidais e rectangulares; ou os painéis historiados doação da igreja e mosteiro de santa maria ao prior e cónegos de refóios (inv. 101-256) e doação do condado de refóios a menedo afonso (inv. 101-257), cerca de 1805, outrora pertencentes à sala de profundis do convento dos cónegos regrantes de santo agostinho, refóios do lima, ponte de lima. o século xix está representado com um importante núcleo de azulejos de produção semi-industrial e industrial da fábrica roseira, fábrica cerâmica viúva lamego, fábrica constância, fábrica de louça de sacavém, todas em lisboa; da fábrica de massarelos do porto e fábrica das devesas, de gaia; e da fábrica de cerâmica das caldas da rainha. o intento de alargar o horizonte temporal até aos primórdios do modernismo, foi desde sempre um desígnio latente da colecção berardo, tentando cobrir os principais protagonistas e facultando uma leitura articulada das diversas correntes, ao abranger artistas que marcaram o início do século passado até aos desenvolvimentos mais recentes da criação artística contemporânea. perseguindo esse propósito foram sendo incorporadas, obras de autores como jorge barradas, júlio pomar, fred kradolfer, manuela madureira, cecília sousa ou abel dos santos. com uma lógica de compêndio que, através dos vários estilos artísticos e períodos cronológicos, pretende representar a história do azulejo em portugal, a colecção assume um carácter didáctico, reforçado pela sua própria estrutura. seguindo a preocupação de cobrir os vários estilos históricos, as várias tendências e os vários nomes, é possível desenhar linhas desta forma de arte, através das múltiplas montagens da colecção, sendo perceptível o cuidado de não haver falhas, criando uma diacronia e um discurso histórico da arte azulejar, no nosso país. no ano de 2000, a aquisição da quinta e palácio da bacalhôa, viria acrescentar um importante contributo. tornando-se um relevante ponto de partida cronológico, para uma viagem, em torno, da almejada história do azulejo em portugal através da colecção, este monumento nacional, marca a entrada dos primeiros conjuntos 205 azulejares in situ, no espólio. esta compra poderá ser entendida com um regresso, por parte do coleccionador, à portugalidade. para além do seu valor arquitectural e simbólico, a quinta e palácio da bacalhôa é considerada como o mais importante repositório de azulejaria primitiva em portugal. esta notável propriedade foi integralmente remodelada por afonso de albuquerque (filho) entre 1528 e 1554, concedendo-lhe a sua feição mais característica, que simboliza, incontestavelmente, a primeira edificação civil portuguesa, mandada fazer por um particular, onde se revelam as formas artísticas renascentistas, no qual a azulejaria sevilhana de aresta teve um especial destaque. completamente distintos dos revestimentos hispano-mouriscos de sintra ou das combinações de motivos usados em coimbra, os forros da quinta da bacalhôa ostentam uma monumentalidade e modernidade provenientes do aproveitamento de um só modelo, em cada parede, e do inovador emprego diagonal dos azulejos. do vasto conjunto, que testemunha a azulejaria hispano-mourisca de aresta, merecem especial atenção os diferentes revestimentos da escadaria de entrada e duas das divisões da apelidada casa do lago ou casa do prazer, por se distanciarem dos modelos convencionais produzidos em sevilha. as composições dos desenhos revelam não só uma excelente qualidade técnica, bem como, preocupações e requintes estéticos do mais genuíno renascimento. verdadeiro museu do século xvi, encontramos na bacalhôa os últimos azulejos do tipo sevilhanos que se instalaram em portugal, encerrando o ciclo do azulejo mudéjar, e os primeiros exemplares de azulejos de majólica, provavelmente feitos em lisboa, figurativos ou de padrão, enriquecendo o inventário da azulejaria portuguesa quinhentista. na verdade, sem grandes interrupções na história da arte portuguesa o azulejo manteve-se, ao longo dos séculos, pelo simbolismo religioso, pela durabilidade, pela combinação com outros materiais, pela luz, cor e economia, pelos ensinamentos que transmitiu, pelo sentido decorativo e por constituir um elemento caracterizador da nossa cultura. cientes da herança sócio-cultural que o azulejo estabelece, constituindo assim a alma portuguesa reflectida na arte, na história e no processo criativo dos autores, o presente trabalho, possibilitou que fosse realizado, pela primeira vez, um estudo da 206 azulejaria da colecção berardo no seu todo, tendo como principal objectivo conceder um enquadramento museológico, que potencie o seu valor histórico, estético e cultural. o objecto museal atinge, na sociedade contemporânea, um significado de preciosidade, que é necessário salvaguardar e cujo estudo aprofundado facultará, às gerações futuras, e mesmo à nossa, alcançar um saber mais vasto da própria história da humanidade. os museus, enquanto repositórios por excelência destes testemunhos, têm então a enorme responsabilidade de adquirir, conservar, estudar e divulgar a cultura material, que têm ao seu cuidado, para que o conhecimento seja compreendido por um maior número possível de pessoas. contudo, para que o museu possa exercer a sua missão basilar com êxito, é condição fundamental que conheça previamente o seu património artístico que, em última análise, é o próprio significado da sua existência. cumprindo os seus propósitos, o museu teve que se munir de sistemas de classificação e registo dos bens culturais que têm vindo a ser alvo de constante desenvolvimento, acompanhando, de resto, as mudanças verificadas no campo dos estudos da museologia, bem como, e ainda com maior dependência, a evolução tecnológica do último século. deste modo, o estudo e investigação da colecção fundaram as restantes funções museológicas desenvolvidas neste âmbito, sobretudo, o inventário e documentação, dada a sua transversalidade no método museal. certos da importância fundamental da documentação, na perspectiva da conservação do espólio, revestindo-se em primeira análise e a par do inventário, a tarefa essencial de qualquer projecto museológico, desenvolvemos uma ferramenta informática de registo e gestão da informação, a qual apelidamos ocp – online control panel. a concepção, e operacionalidade, do referido instrumento de trabalho, possibilitou um saber mais aprofundado sobre este património, promovendo a realização de estudos que tiveram sempre em linha de conta análises colaterais, relativamente às diferentes disciplinas que neste contexto interagem. o conhecimento obtido facultou, deste modo, a proposta de criação do museu virtual do azulejo, permitindo uma eficaz contextualização deste espólio, que infelizmente chegou até nós, como acontece um pouco por toda a parte, desmembrado e espoliado dos seus contextos originais e que, num espaço museal, poderia ver adequadamente reencenados e coreografados, esses mesmos contextos, pelos investigadores da área. em nossa opinião, um museu, independentemente da sua natureza, constituir-se-ia também como um espaço mais vocacionado para a utilização pedagógico-didáctica, no que se refere ao estudo da azulejaria portuguesa, permitindo, igualmente, a 207 (re)aprendizagem da história de portugal, da história da arte e da arquitectura portuguesa, assim se recuperando uma parte da nossa memória histórica, patrimonial e artística. durante o processo de desenvolvimento conceptual da nova ficha de inventário, que posteriormente, serviu de base ao sistema de inventário e gestão da colecção, (ocp), deparamo-nos com várias questões, nomeadamente: que informação se deve registar sobre os objectos? qual o procedimento de registo? que campos são necessários para contemplar toda a informação disponível? qual a linguagem mais apropriada para utilizar neste processo? que ferramentas utilizar? que regras e boas práticas podemos utilizar como referência na documentação das colecções? o que pretendemos obter do registo dessa informação? de que forma poderemos usufruir dessa informação no futuro? de que forma podemos legitimar a qualidade do trabalho realizado? respondendo a estas questões no decurso da presente dissertação, socorremo- nos da normalização, nacional e internacional, existentes. todavia, verificamos que a parca existência de documentos normativos na área da gestão do património cultural, continua a ser uma realidade no nosso país. a consciencialização da importância da existência de uma norma que, de acordo com a normalização internacional, nas suas mais distintas valências, pudesse responder às necessidades do tecido museológico nacional e possibilitar a todos os profissionais da área, o acesso a um documento claro e eficaz para a compreensão das várias questões técnicas presentes na documentação, é, em nosso entender, absolutamente fundamental. embora, como atrás foi referido, reconheçamos o esforço salutar, que tem vindo a ser feito por parte do imc, bem como, por parte dos diversos museus portugueses, que no seu trabalho diário, muito têm contribuído para esta questão, a escassez de uma reflexão sobre a metodologia e a normalização, por parte da comunidade envolvida, e a falta de persistência na sua aplicação, são factores que conjuntamente têm contribuído para soluções individuais, inviabilizando a partilha da informação produzida no contexto museal. não obstante, dos fundamentos agora enunciados, admitimos que a tarefa é íngreme, demorada e obriga a uma constante actualização, mesmo depois de se chegar a um documento normativo. ou seja, a documentação mesmo que normalizada, deve ser alvo de mecanismos regulares de controlo, que garantam a validação de critérios comuns no processo generalizado de informatização, a sua (re)avaliação e (re)adaptação às necessidades específicas de cada colecção. 208 a análise das normas nacionais definidas pelo imc e utilizadas pelos museus portugueses, bem como, das internacionais, produzidas pelos diversos organismos mais referenciados em relação a standards documentais, como o cidoc, a mda, ou o chin, possibilitou a sua posterior utilização, de forma a concebermos uma solução que as conjugasse e, finalmente, reunir os recursos técnicos para a construção de uma base de dados e um sistema de gestão da informação, destinados ao registo e documentação deste património azulejar. como atrás ficou referido, na criação do sistema de gestão, tivemos também, em especial consideração, as outras duas vertentes da normalização documental, a dos conteúdos e a dos procedimentos. assim, desenvolvemos o sistema de inventário e gestão da colecção de azulejos com base na normalização internacional alvitrada, sendo que, a nível nacional, recorremos às normas de inventário editadas pelo imc, com especial destaque para a categoria de cerâmica e a subcategoria de cerâmica de revestimento. a ferramenta informática obtida possibilitou-nos assim, a normalização da metodologia, das regras de registo da informação e o melhoramento progressivo da linguagem documental utilizada nesta área temática. elegendo-os como factores indispensáveis à eficácia funcional das entradas e, concludentemente, a uma classificação homogénea, condição fundamental no processo de partilha e recuperação da informação processada. seguindo os desígnios a que nos propusemos, dotamos a colecção de azulejos de um novo sistema de inventário, que nos permitiu documentar de forma mais completa e aprofundada, os objectos que a constituem. no decorrer do complexo e moroso processo de inventariação encontramos documentos de incorporação; identificamos proveniências e autorias; agrupamos conjuntos originais; estabelecemos datações, mediante estudos e investigações realizadas; elaboramos historiais; registamos estados de conservação; reunimos e adicionamos referências bibliográficas; desvendamos fontes de inspiração; identificamos marcas e inscrições; associamos exposições; assinalamos heráldicas e insígnias, entre muitas outras categorias de informação, que deste modo, sistematizado e organizado, evidenciam as inúmeras potencialidades da colecção. neste âmbito importa, ainda, referir que a aplicação informática, agora desenvolvida, possibilitará às entidades museológicas, não só a facilitação e normalização do inventário, bem como, a inclusão de um conjunto de ferramentas visando a gestão integrada das colecções em contextos de actividades diversas, como a circulação de peças, organização de exposições temporárias, gestão de depósitos, entre 209 outros. com a disponibilização de tais ferramentas e com a implementação de programas próprios, os museus irão dispor de instrumentos nodais de gestão da informação produzida e partilhada pelos seus vários sectores de actividade, e, como tal, em factor de rentabilização de trabalho e capitalização de conhecimentos e procedimentos em torno do património cultural. contudo, relembramos, que sendo o ocp uma ferramenta de trabalho flexível, e o inventário, por definição, um processo em aberto, este é o princípio de um percurso, que se deseja dinâmico, e para o qual contribuirão a investigação continuada, o avanço tecnológico e a prática museológica. visando a divulgação do manancial informativo auferido na primeira fase deste projecto e perspectivando a possibilidade de juntar virtualmente uma colecção que fisicamente se encontra dispersa, imprimindo deste modo, um discurso museológico que aponte para o conhecimento histórico/cronológico, científico e estético deste património cultural, alvitramos a criação do museu virtual do azulejo. uma colecção não é um museu! um museu vive da colecção, mas também do trabalho de exposições, permanentes, e/ou temporárias, dos serviços educativos, das publicações, do facto de se inscrever como agente no tecido cultural do país. neste sentido, a azulejaria da colecção berardo é o núcleo principal a partir do qual se desenvolve um projecto museológico, propondo a criação do museu virtual do azulejo, enquanto, modelo de divulgação e agregação da própria colecção. a adaptação às novas formas de divulgação da informação e do conhecimento é fundamental para os museus, como forma de responder satisfatoriamente às sociedades de informação actuais, entre as quais se distinguem os produtos multimédia e mais concretamente a internet, indo ao encontro de soluções viáveis que atenuem a distância entre as instituições e o exterior, sobretudo junto do público mais jovem. as ferramentas originárias dos avanços tecnológicos têm extensíssimos potenciais ao nível pedagógico. actualmente, vivemos a transição do paradigma do ontem, da sociedade nacional, e do hoje, da sociedade global. o potencial social das tic e os efeitos que produzem na forma de pensar e agir de cada indivíduo são indiscutíveis. a par destas mudanças, também, a instituição museológica sofreu grandes alterações e foi alvo de uma benéfica discussão, que produziu novas formas de pensar o museu, consciencializando-se de que necessita de se libertar do seu espaço tradicional e limitado, para se tornar acessível ao grande público. é premente, e fundamental, a adaptação do museu às necessidades da sociedade actual que se encontra em constante 210 mutação. deste modo, a proposta exposta assenta na nova realidade de expansão da rede de comunicações, reflectida no uso dos novos media e nas consequências da sua massificação na sociedade contemporânea. o museu, enquanto importante meio de comunicação, tem de aproveitar todo este desenvolvimento comunicacional e tecnológico, no sentido de satisfazer as novas correntes da museologia, que se inclinam cada vez mais sobre o papel do museu na sociedade actual. os novos media, e a internet em particular, são um instrumento valioso no processo de comunicação entre o museu e o seu público. a sua utilização como complemento, ou não, do espaço físico das instituições museológicas vem facilitar a emissão da mensagem desejada e prender a atenção do visitante, facultando uma nova visão dos objectos museais. é neste cenário, associado ao avanço das novas tecnologias, e consequentemente o desenvolvimento da sociedade, que o museu virtual do azulejo se apresenta como facilitador da recepção informativa, pedagógica e estética do objecto museológico. no ambiente digital, o visitante deixará de ser um sujeito passivo, que apenas reage à mensagem transmitida, passando a ser incentivado a participar e interagir com o espaço, de acordo com a sua experiência, gosto pessoal e nível cultural. a internet patenteia um incomensurável potencial informativo e comunicativo, quer em questões de celeridade de circulação, quer em número de pessoas e áreas geográficas que abrange. devido às suas características de imaterialidade, instantaneidade e multimédia, democratiza o acesso à informação e conhecimento de determinados tipos de bens; facilita a comunicação entre pessoas e instituições e universaliza oportunidades, eliminado barreiras espaciais, geográficas e temporais. na realidade, as vantagens deste tipo de equipamento museológico são prodigiosas, designadamente, a democratização do acesso à informação e ao espólio; facilidade de comunicação entre pessoas e instituições; a universalização das oportunidades, eliminando barreiras espaciais, geográficas e temporais; a possibilidade de estruturar a informação, recorrendo ao hipertexto, nomeadamente, em diferentes níveis articulados em função do utilizador a que se dirige, dos seus interesses e necessidades e de organização dos conteúdos de acordo com as estratégias divulgativas ou educativas da instituição; bem como, a utilização e conjugação de diversos tipos de suporte, designadamente texto, áudio, vídeo e imagem, muito úteis às necessidades desencadeadas pelos conteúdos que se pretendem disponibilizar em sites de museus. 211 se pensarmos em termos comparativos, e no caso específico do museu virtual do azulejo da colecção berardo, a maioria dos internautas que, do mundo inteiro, vierem aceder ao museu, corresponde à mesma quantidade de pessoas que, de outro modo, jamais viriam a portugal para conhecer a colecção. assim, o museu dará uma acrescida visibilidade cultural à região autónoma da madeira, onde se encontra o núcleo central da colecção, e contribuirá para uma afirmação de lisboa enquanto destino de turismo cultural. trata-se da abertura de um país periférico, situado na cauda da europa, a uma comunidade global. neste contexto, acreditamos vivamente, que a virtualidade das colecções museológicas, é uma enorme vantagem para o desenvolvimento humano e enriquecimento das sociedades. no delineamento das estratégias futuras da unidade museológica, aqui proposta, entendemos como fundamental o estabelecimento de parcerias, pois estas abrirão as portas da instituição para a realidade exterior, desenvolvendo o relacionamento entre profissionais de várias áreas. assim, as redes de contactos externos irão reforçar a extensão do trabalho desenvolvido pelo museu e, simultaneamente, fomentar e fortalecer o contacto com parceiros, que partilhem interesses e perspectivas comuns. em nossa opinião, este tipo de trabalho apresenta várias vantagens, sobretudo, o engrandecimento de projectos; o aconselhamento específico; a diminuição de custos; uma maior facilidade de obtenção de financiamentos; a simplificação na concepção e produção de recursos; e a permuta ou empréstimo de equipamentos e outros recursos físicos e/ou humanos. ou seja, o propósito fundamental é criar sinergias entre instituições, que têm como missão, a preservação e divulgação, do património cultural. tentando não incorrer em repetições, atendendo ao facto de que as considerações, ou “conclusões”, específicas deste estudo se encontram em cada um dos capítulos precedentes, fazemos uma chamada de atenção para o papel da usabilidade na mediação entre o público e o objecto museológico. a pluralidade de públicos que poderá interagir com o museu virtual, através dos produtos, conteúdos e actividades criadas, será díspar, o que implica que estes sejam periodicamente actualizados e adaptados de forma a ir ao encontro das carências de um determinado público e de um determinado espaço temporal. neste sentido, é impreterível, que o museu consiga satisfazer as necessidades das várias audiências e consiga enfrentar o grande desafio de ir ao encontro das capacidades e competências existentes, na enorme diversidade de potenciais utilizadores das novas tecnologias da informação e comunicação. 212 salientamos, ainda, que o presente trabalho, poderá servir como exemplo para outras colecções, não só da fundação berardo, bem como, de todo o tecido museológico português, sendo que a implementação de sistemas de inventário e gestão do património cultural e a sua divulgação nos novos meios de comunicação, seria uma mais valia, garantindo um destino unitário a um conjunto de bens e facultando o acesso regular ao público, mediante o fomento da democratização da cultura, a promoção da pessoa e o desenvolvimento da sociedade. 213 referências bibliográficas i – azulejaria aa.vv. – cerâmica neoclássica em portugal. catálogo da exposição, museu nacional do azulejo, instituto português 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