Utilize este identificador para referenciar este registo: http://hdl.handle.net/10451/15691
Título: Monstruosité et humanité dans Le Roi des Aulnes de Michel Tournier et Le livre des nuits et Nuit d'Ambre de Sylvie Germain
Autor: Tudose, Rodica Ioana
Orientador: Buescu, Helena Carvalhão
Palavras-chave: Tournier, Michel, 1924 - Crítica e interpretação
Germain, Sylvie, 1954 - Crítica e interpretação
Romance francês - séc.20 - História e crítica
Monstros - Na literatura
Humanidade - Na literatura
Teses de mestrado - 2014
Data de Defesa: 2014
Resumo: Michel Tournier e Sylvie Germain, dois dos mais aclamados escritores franceses contemporâneos, são frequentemente aproximados pela crítica literária, especialmente pelos temas abordados e, em particular, pelo recurso a motivos bíblicos, o que se pode explicar pelo facto de ambos os escritores terem recebido uma educação católica e feito estudos de filosofia. Le Roi des Aulnes, Le Livre des Nuits e Nuit-D’Ambre são três dos seus romances mais conhecidos e apreciados, romances que conquistaram vários prémios literários. Le Roi des Aulnes conta a história de um mecânico de Paris, Abel Tiffauges, e segue o estranho destino da personagem desde o início da sua vida, enquanto aluno no colégio de Saint Christophe, até ao fim, altura em que se torna comandante duma escola nazi paramilitar, na Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial. Le Livre des Nuits e Nuit-d’Ambre contam, cronologicamente, a história da família Péniel, acompanhando-a desde a guerra franco-prussiana de 1870 até a guerra de descolonização na Argélia (1954-1962). Mais do que dois romances diferentes, os dois livros em questão serão sobretudo dois volumes do mesmo romance, razão pela qual este estudo se concentrou sobre os protagonistas dos dois livros: Victor-Flandrin, personagem principal do Livre des Nuits, e o seu neto, Charles-Victor, protagonista do Nuit-D’Ambre. O contexto de guerra e os acontecimentos do século XX representam o quadro da acção romanesca dos três romances. Como o próprio Tournier nota, o século XX foi o século das grandes guerras e dos grandes monstros (como Hitler, Stalin ou Mao), referindo os 3 acontecimentos históricos como os conflitos que criaram esses monstros. Naturalmente, uma literatura inspirada nesses acontecimentos terá também a sua galeria de monstros. Essa premissa torna pertinente a interpretação dos protagonistas destes livros enquanto monstros. Partindo de teorias sobre monstruosidade desenvolvidas por José Gil, Julia Kristeva ou Sigmund Freud, a primeira parte deste estudo tenta mostrar quais as características que tornam as três personagens monstruosas. Com nomes e apelidos que aludem, pelos "traços" que os aproximam da etimologia da palavra “monstro”, ao seu carácter extraordinário, Abel Tiffauges, Victor-Flandrin e Charles-Victor são seres fora do comum, tanto do ponto de vista físico como do comportamental, dando mostras de crueldade e violência, tendências de dominação e mesmo aniquilação do próximo. Na sequência de um tabu - o incesto no caso de Victor-Flandrin; o crime, no caso de Abel Tiffauges e Charles-Victor -, os protagonistas serão rejeitados pela comunidade (inadaptados que são das normas sociais e culturais) sendo representados nos romances em meios fechados, à margem da restante sociedade. Num ponto do estudo que se concentrará sobre teorias desenvolvidas por Susan Neiman e Hannah Arendt, analisar-se-á a evolução da monstruosidade nas personagens de acordo com o desenvolvimento do conflito exterior. A Segunda Guerra Mundial é decisiva para a transformação de Abel Tiffauges. É a altura em que se torna comandante duma escola nazi paramilitar, em que retira crianças dos seus pais e os fecha na escola, sacrificando-os sobre o altar da guerra e do nazismo - altura em que a sua natureza de ogre atinge o apogeu. No mesmo conflito se concretizará também o momento da desumanização de Victor-Flandrin que, assistindo ao massacre da sua família, perde a razão e o domínio da língua (atributos próprios do homem, possibilidade de humanidade), que nunca recuperará completamente. Charles-Victor, crescido num meio influenciado profundamente pelos horrores da guerra, atinge o seu apogeu monstruoso na traição e no crime do jovem Roselyn, crime cometido simbolicamente na mesma altura em que decorria a guerra na Argélia. 4 Se as manifestações de monstruosidade nos homens são facilmente identificáveis durante os períodos de guerra, muito poucas personagens na literatura serão completamente monstruosas, cometendo um mal puro e gratuito. A segunda parte deste estudo mostrará como se manifesta nos três protagonistas o conceito de plasticidade humana, conceito caracterizado pela oscilação entre os momentos ligados ao lado animal, instintivo, e aqueles que ligam o homem à humanidade. Esta secção apoiar-se-á em teorias humanistas de Ângela Fernandes e Emmanuel Lévinas. Os lados "luminosos" das personagens estudadas, relacionados com a sua humanidade, podem ser adivinhados na inclinação artística das personagens, embora este factor não seja suficiente para falar da sua humanidade. Os momentos em que expressam humanidade estarão relacionados, sobretudo, com a relação que mantêm com o próximo. Isto é, apesar dos acessos de violência que o caracterizam, Victor-Flandrin dará constantemente mostras da sua humanidade, através do contacto com os seus filhos e mulheres. Para as suas mulheres (marcadas, como as personagens estudadas, pela condição solitária e pela exclusão social), o homem terá manifestações de amor, tolerância, aceitação e solidariedade - sentimentos próprios do ser humano. Por isso, contrariamente a Abel Tiffauges e Charles-Victor, Victor-Flandrin não poderá ser considerado um monstro moral. Tiffauges e Charles-Victor inscrever-se-ão nessa categoria, na medida em que ambos procuram a dominação do outro (como Tiffauges, que serve o regime nazi), ou a destruição do próximo (como Charles-Victor, que comete um crime na tentativa de se salvar). Nestes casos, a única salvação vem do encontro com o outro, o próximo, no sentido que Emmanuel Lévinas dá ao conceito: o outro que nos chama e que exige a nossa responsabilidade, forma que coincidirá com o amor do próximo. Nesta resposta face ao outro, o homem define-se enquanto ser humano. Se, para Victor-Flandrin, será sobretudo a consciência do outro a preservar a sua humanidade ao longo dos romances (ainda que seja atravessada por momentos de obscuridade 5 e violência), no caso de Abel Tiffauges e Charles-Victor, será o encontro redentor com o outro - respectivamente Ephraïm e Cendres -, a desencadear a transformação das personagens, ou a sua humanização. Se a evolução do comportamento monstruoso das duas personagens acompanha a evolução das guerras e da violência externa, esses encontros (redenção) acontecerão para lá do período das guerras - quando a transformação positiva se torna possível. A transformação das personagens é anunciada nos romances pelo recurso a mitos e referências intertextuais, que reforçam a carga ambivalente das personagens e a ideia da plasticidade do homem, o entrelaçamento entre os seus momentos luminosos e as obscuridades da alma. Assim, Tournier deixa a sua personagem oscilar entre Erlkönig e San Cristóvão, colocando o seu romance sob o conceito de “phoria”, que o autor inventa, referindo a acção de transportar uma criança nos ombros. Quanto a Germain, como a autora confessou em varias entrevistas, ambos os seus livros se encontram sob a imagem bíblica da luta de Jacob com a anjo, que dá forma à sua narração. A banalidade da condição das personagens retratadas - Tiffauges é um simples mecânico, Victor-Flandrin um pai de família e Charles-Victor um estudante de filosofia - não impedirá o seu destino trágico, ou a sua transformação em criminosos (casos de Tiffauges e Charles-Victor). É o facto de as personagens desempenharem tarefas banais que fará pensar no monstro como alguém próximo de nós (ou talvez alguém em nós mesmos), como algo ou alguém que poderá ser desencadeado por um contexto de guerra. Os três romances podem assim ser interpretados como um apelo à vigilância, uma advertência para o leitor demasiado confiante na sua natureza humana, na razão. Mas, como os livros acabam num tom optimista, com a recuperação da humanidade perdida, podem também ser lidos como uma guia para a manutenção da humanidade, para o domínio das obscuridades da alma, garantidos através da solidariedade e da assunção de responsabilidade para com o próximo.
Abstract: Le Roi des Aulnes, Le Livre des Nuits et Nuit-D’Ambre have as a background for their narrative the great wars of the twentieth century, historical period that shaped a wide range of monsters. It is therefore relevant to analyse Abel Tiffauges, the protagonist of Tournier’s novel, Victor-Flandrin and Charles-Victor, the main characters of Germain’s books, from the perspective of the monster. Bearers of significant names and surnames, the characters make proof of behavioural peculiarities and particular appearance, which are characteristics of a monster, according to theories on monstrosity developed by José Gil, Julia Kristeva, and Sigmund Freud. Moreover, there is a tight connection between the progress of their monstrosity and the development of exterior violence, statement based on theory by Susan Neiman and Hannah Arendt. However, human nature is characterized by plasticity and the human being is the product of the oscillation between the instinctive, animal side and the human side. This ambivalence characterizes as well the three main characters that cannot be perceived exclusively from a monstrous perspective. The second part of this thesis analyses the aspects related to the humanity of the characters that trigger their positive transformation, focusing on the relationship of the protagonists with the Other fellow-man, as theorized by Ângela Fernandes and Emmanuel Lévinas. With the help of myths and intertextuality, both authors guide their characters from the monstrous side to the human one, closing the novels on a serene note, but providing the reader, too confident in the human nature, with a warning and an appeal for vigilance, regarding the monstrous side that can easily emerge in times of exterior violence.
URI: http://hdl.handle.net/10451/15691
Designação: Mestrado em Estudos Comparatistas
Aparece nas colecções:FL - Dissertações de Mestrado

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