Utilize este identificador para referenciar este registo: http://hdl.handle.net/10451/18106
Título: Aquisição do modo em orações completivas do português europeu: o papel dos traços de epistemicidade e veridicidade
Autor: Jesus, Alice Margarida Veiga Simões de
Orientador: Santos, Ana Lúcia
Palavras-chave: Língua portuguesa - Aquisição
Língua portuguesa - Modos (Linguística)
Língua portuguesa - Subordinação (Linguística)
Língua portuguesa - Semântica
Teses de mestrado - 2015
Data de Defesa: 2015
Resumo: A presente dissertação tem como objetivo investigar a aquisição da distribuição dos modos verbais principais, indicativo e conjuntivo, em orações completivas, por falantes monolingues de Português Europeu (PE). Embora existam poucos estudos sobre a aquisição do modo em língua materna (L1), trabalhos anteriores têm mostrado que a aquisição do modo, em particular o conjuntivo, é tardia, sendo que aos 10 anos ainda não está estabilizada em todos os contextos (e.g. Blake 1983). Tal ocorre muito depois de estarem adquiridas as competências morfológicas, sintáticas e, ainda, as capacidades cognitivas (associadas com a ToM) relevantes (cf. Wimmer e Perner, 1983). Assim, partindo da consideração de que o modo é uma categoria gramatical que, em PE, comporta significado, é intuito deste trabalho averiguar, especificamente, quais os valores semânticos que guiam as crianças na seleção de um e outro modo. No que respeita à literatura sobre a distribuição do modo na gramática adulta, têm sido avançadas diferentes propostas de teor semântico acerca do modo em algumas línguas. Algumas destas propostas parecem adequar-se à descrição dos dados de certas línguas, pelo que se considera plausível assumir que constituem uma possibilidade da Gramática Universal. Neste sentido, são consideradas três hipóteses principais para a aquisição do modo (dado que estas hipóteses descrevem a distribuição do modo em algumas línguas, assume-se que poderão conduzir as crianças num dado momento da aquisição): (i) a oposição indicativo/conjuntivo está associada aos valores realis/irrealis; (ii) o indicativo é selecionado em contextos verídicos e o conjuntivo em contextos não verídicos; (iii) o indicativo é selecionado quando é expressa uma atitude epistémica verídica relativamente à proposição relevante e o conjuntivo é selecionado nos restantes contextos (quando é expressa uma atitude epistémica não verídica ou uma atitude não epistémica). A hipótese (i) traduz a visão das gramáticas tradicionais (e.g. Cunha e Cintra, 1984), que se mostra desadequada na descrição dos dados do PE e de grande parte das línguas românicas, pelo que tem vindo a ser abandonada na literatura. No entanto, alguns autores apontam que a distinção realis/irrealis é fulcral na caracterização do sistema do modo em línguas como o Russo e o Persa (cf. Noonan 1985; Rothstein e Thieroff, 2010). A hipótese (ii) baseia-se nas propostas de Farkas (1992) e Ginnakidou (1995) e, segundo as autoras, descreve o contraste de modo em Romeno e em Grego Moderno. A hipótese (iii) reflete a análise de Marques (1995, 1996, 2010) e parece dar conta da distribuição do 8 modo em PE e na maioria das línguas românicas. Seguindo este autor, assume-se que intervêm no sistema gramatical do modo dois traços semânticos principais: a epistemicidade e a veridicidade. Do ponto de vista descritivo, estes traços podem, no entanto, estar hierarquizados de duas formas distintas: ou com a epistemicidade na posição mais alta (Hip. 3.1), ou com a veridicidade a preceder a epistemicidade (Hip. 3.2). Assim, a terceira hipótese subdivide-se em duas hipóteses que permitem não só averiguar o percurso da aquisição do modo, como também especificar o sistema do modo na gramática adulta. Segundo a hipótese 3.1, prevê-se que as crianças comecem por lidar com o valor de epistemicidade nas distinções de modo, e, segundo a hipótese 3.2., as crianças começarão por distribuir o modo segundo a oposição verídico/não verídico, lidando apenas posteriormente com a epistemicidade. Para avaliar estas hipóteses, elaborou-se um teste de produção provocada de orações completivas, no qual os sujeitos tinham de ajudar um fantoche a compreender algumas histórias, acompanhadas por imagens. A tarefa consistia, especificamente, no completamento de uma frase dada pelo fantoche acerca de uma parte da história. O teste foi aplicado a 80 crianças e a um grupo de controlo de 20 adultos. As 80 crianças correspondem a quatro grupos: Grupo I (4 anos); Grupo II (5 anos); Grupo III (6 e 7 anos) e Grupo IV (8 e 9 anos). Para a oração matriz dos itens de teste, foram escolhidos predicadores de diferentes classes semânticas que permitem distinguir as hipóteses entre si: implicativos (A) – deixar e achar bem, não implicativos (B) – querer e mandar, epistémicos fracos (C) – duvidar e não acreditar, epistémicos de dupla seleção de modo (D) – acreditar (tanto em contextos nos quais se espera o indicativo como em contextos nos quais o conjuntivo é o modo esperado), epistémicos fortes (E) – descobrir e prometer, e ficcionais (F) – sonhar e fingir. As hipóteses colocadas levam a diferentes predições quanto ao modo que é selecionado em cada um destes contextos. Os resultados confirmaram que os adultos seguem, de forma geral, o padrão de distribuição do modo previsto pela hipótese (iii), utilizando o conjuntivo em contextos não epistémicos (sejam estes verídicos (A) ou não verídicos (B)) e em contextos epistémicos não verídicos (C), e selecionando o indicativo em contextos epistémicos verídicos (E e F). Também as crianças mostraram ser sensíveis aos valores semânticos relevantes para o sistema do modo em PE, não estando a ser guiadas, exclusivamente, pelos valores de realis/irrealis ou de (não)veridicidade. No entanto, nos primeiros grupos testados, as 9 crianças preferem o uso do conjuntivo em contextos não epistémicos (A e B) e o uso do indicativo em contextos epistémicos (C, D, E e F), mostrando maior sensibilidade ao valor de epistemicidade. Com o desenvolvimento, tornam-se gradualmente mais sensíveis ao valor de veridicidade (quando combinado com a epistemicidade), passando a empregar o conjuntivo também em contextos epistémicos não verídicos, com verbos epistémicos fracos (C). Conclui-se, desta forma, que a epistemicidade precede a veridicidade na aquisição. Assim, ainda que do ponto de vista da gramática adulta as hierarquizações descritas pelas hipóteses 3.1 e 3.2 sejam equivalentes, os dados recolhidos apontam para a hierarquia correspondente à hipótese 3.1. O estudo aqui conduzido evidenciou a complexidade da categoria gramatical do modo, confirmando que esta tem uma aquisição tardia, uma vez que, mesmo no último grupo testado, a sua distribuição não está completamente estabilizada em todos os contextos. Constatou-se, no entanto, que o conjuntivo não é inerentemente problemático, dado que se verificaram usos expressivos nas primeiras idades testadas. Tal dificuldade parece emergir dos valores semânticos associados a determinados contextos, da forma como estão hierarquizados na gramática adulta e, em particular, da soma dos traços [+ epistémico] e [– verídico].
Abstract: This dissertation addresses the acquisition of the indicative and the subjunctive moods in European Portuguese (EP) complement clauses. Even though the literature on acquisition of verbal mood is scarce, some previous studies suggest that the subjunctive is late acquired, becoming stable only around the age of 10 (Blake 1983). This takes place long after relevant syntax, morphology and basic cognitive capacities associated with ToM (cf. Winner e Perner, 1983) are available. Assuming that the contrast between the indicative and the subjunctive moods is associated, in EP, with a contrast of meaning, the study aims to determine which semantic values guide children in the distribution of mood. In the literature on mood, several analyses have been made, from a semantic point of view, concerning the distinctions of mood in Romance Languages. Since some of these may hold for different languages, we assume that these are options of UG and that the children´s task is to determine which one is relevant for the language they are acquiring. Hence, three main hypotheses are taken into account, according to different proposals about the distribution of mood in the adult grammar: (i) the indicative / subjunctive opposition is associated with the realis / irrealis values; (ii) the indicative is selected for veridical contexts, while the subjunctive is selected for non-veridical contexts, and (iii) the indicative is selected if a veridical epistemic attitude is expressed towards the relevant proposition, otherwise the subjunctive is selected (i.e., the subjunctive is linked to the expression of non-epistemic and non-veridical epistemic attitudes). Hypothesis (i) reflects the traditional grammars’ perspective on the distribution of mood (cf., e.g., Cunha e Cintra, 1984) and, while it does not seem to be adequate to describe the mood system of EP, nor of most Romance Languages, some authors argue that the realis/irrealis opposition is crucial when describing the mood system of languages like Russian or Persian (cf. Noonan 1985; Rothstein e Thieroff, 2010). Hypothesis (ii) is based on Farka’s (1992) and Ginnakidou’s (1995) proposals and, according to these authors, it describes the data of Romanian and Modern Greek. Hypothesis (iii) reflects the proposal of Marques (1995, 1996 and 2010) and seems to account for the data of EP and most Romance Languages. Following this author, we assume that two main semantic features intervene in the mood system: epistemicity and veridicality. Taking into account only the description of the adult system, these features may be hierarchized in two different manners: with the epistemicity ranked higher (Hyp. 3.1), or with the veridicality ranked higher (Hyp. 3.2). The third hypothesis is then 12 subdivided in two subsequent hypotheses that allow us not only to investigate the acquisition path but also to clarify the system of mood on the adult grammar. Hypothesis 3.1 predicts that children will first take into account epistemicity when choosing between the indicative and the subjunctive, and hypothesis 3.2 predicts that children will first be sensitive to veridicality. In order to test whether any of these hypotheses can account for different stages of the acquisition of mood in EP, we built an elicited production test meant to elicit finite complement clauses. The task consisted on the completion of a sentence, given by the puppet, about the stories children had heard. The test was applied to 80 children and to a control group of 20 adults. Children were divided into four groups of 20 subjects each: Group I (4 year olds), Group II (5 year olds), Group III (6 and 7 year olds) and Group IV (8 and 9 year olds). For the matrix clause of the tested items, two different verbs were included in each condition (these correspond to the semantic classes that were shown to be relevant for the distinction between the main hypotheses): implicative (A) – deixar, ‘let’, and achar bem, ‘approve’; non implicative (B) – querer, ‘want’, and mandar, ‘order’; weak epistemic (C) – duvidar, ‘doubt’, and não acreditar, ‘not believe’; epistemic of double mood choice (D) – acreditar, ‘believe’ (both in contexts where the indicative is expected and in contexts where the subjunctive is expected); strong epistemic (E) – descobrir, ‘find out’, and prometer, ‘promise’; fiction verbs (F) – sonhar, ‘dream’, and fingir, ‘pretend’. The three main hypotheses lead to different predictions as to the mood selected by each verb class. The results confirmed that adults follow, in general, the pattern predicted by hypothesis (iii), selecting the subjunctive for non-epistemic contexts (veridical (A) or non-veridical (B)) and epistemic non-veridical contexts (C), and selecting the indicative for epistemic veridical contexts (E e F). Furthermore, children’s data revealed that they are already dealing with the semantic values relevant for hypothesis (iii) (and not being guided exclusively by realis/irrealis or (non)veridicality). However, in the first stages, children show sensitivity only to the epistemic value, associating the subjunctive with non-epistemicity and the indicative with epistemicity. At these stages, they use subjunctive in the complement only with non-epistemic matrix verbs (A and B). As they develop, they become more sensitive to veridicality (when combined with epistemicity), also using the subjunctive in epistemic nonveridical contexts, namely with weak epistemic matrix verbs (C). Drawing from these data, it is suggested that epistemicity precedes veridicality. Thus, though the hierarchies 13 corresponding to the hypotheses 3.1 and 3.2 are equivalent concerning EP when the adult grammar is taken into account, the data collected in this study shows that children begin by giving prominence to epistemicity, pointing towards the hierarchy specified by hypothesis 3.1. The study reflected the complexity of the grammatical category mood, confirming that mood is a late acquisition, since even in Group IV the distribution of mood is not stabilized on every context. Notwithstanding, the subjunctive does not seem to be inherently problematic, as it was employed even by the youngest children. Such difficulty seems rather to arise from the semantic values associated with the contexts in which the subjunctive is expected, particularly the sum of the features [+ epistemic] and [–veridical].
URI: http://hdl.handle.net/10451/18106
Designação: Mestrado em Linguística
Aparece nas colecções:FL - Dissertações de Mestrado

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