Universidade de Lisboa Repositório da Universidade de Lisboa

Repositório da Universidade de Lisboa >
Faculdade de Psicologia (FP) >
FP - Teses de Doutoramento >

Please use this identifier to cite or link to this item: http://hdl.handle.net/10451/2589

Título: Perturbações alimentares na adolescência : coreografias protectoras e de risco em bailarinos e ginastas
Autor: Francisco, Rita Mafalda Costa, 1981-
Orientador: Alarcão, Madalena
Narciso, Isabel, 1962-
Palavras-chave: Distúrbios alimentares
Comportamento alimentar
Bailarinos
Ginastas
Teses de doutoramento - 2011
Issue Date: 2011
Resumo: Enquanto desportos estéticos, a dança clássica e a ginástica são considerados contextos de risco para o desenvolvimento de perturbações alimentares na adolescência. Nesta dissertação pretende-se compreender os processos subjacentes a esse risco, tendo como base teórica uma perspectiva ecossistémica e conceptualizando as perturbações alimentares como um continuum, desde as preocupações com o peso e comportamentos restritivos até às perturbações alimentares enquanto doença psiquiátrica. Utilizando metodologias qualitativas e quantitativas, num processo de investigação abdutivo, exploraram-se relações entre o comportamento alimentar perturbado e variáveis específicas destes contextos, bem como com variáveis sócio-relacionais, familiares e individuais de jovens bailarinos e ginastas. No primeiro estudo, de carácter qualitativo e exploratório da realidade portuguesa em que se inserem os jovens bailarinos e ginastas de elite, realizaram-se quatro focus groups com estudantes de dança de ensino profissionalizante e ginastas de alta competição, de ambos os sexos (N = 24; 12-17 anos). Utilizando uma metodologia de análise indutiva-dedutiva, foram identificados diversos factores de risco e factores protectores específicos, associados a diversas fontes de influência. A pressão para a magreza, enquanto regra implícita da sub-cultura dos desportos estéticos de elite, e enquanto regra explícita, transmitida na escola de dança/clube de ginástica, por exemplo, através de comentários críticos sobre o peso, alimentação e imagem corporal (especialmente por parte dos professores/treinadores), é considerada o factor de risco mais importante. Todavia, os pares e os pais parecem ter também um papel relevante na protecção ou risco de desenvolvimento de comportamentos alimentares perturbados entre estes adolescentes. Numa etapa intermédia desta investigação, procedeu-se à adaptação e estudo da validação de um instrumento de avaliação da insatisfação com a imagem corporal para adolescentes e adultos (N = 1423), a Contour Drawing Rating Scale (M. A. Thompson & Gray, 1995), bem como de um instrumento de avaliação de factores de risco e factores protectores do desenvolvimento de perturbações alimentares para adolescentes (N = 793), o McKnight Risk Factor Survey-IV (The McKnight Investigators, 2003), em relação ao qual se adaptou também uma versão masculina que não existia originalmente. Ambos os instrumentos revelaram boas qualidades psicométricas, pelo que foram utilizados nos três estudos empíricos seguintes, de cariz quantitativo, juntamente com outros instrumentos, de forma a avaliar o comportamento alimentar perturbado, a auto-estima, a vinculação aos pais e a percepção de pressão para a magreza e de suporte no contexto desportivo. No primeiro estudo empírico quantitativo, compararam-se potenciais factores de risco, factores protectores e nível de comportamento alimentar perturbado, bem como a relação entre estes, em atletas de desportos estéticos de elite, atletas não-elite e num grupo de controlo de adolescentes da população em geral (N = 725; 12-22 anos). Entre as raparigas, as atletas elite apresentaram maior risco de desenvolvimento de perturbações alimentares que as atletas não-elite e raparigas do grupo de controlo, enquanto os três grupos de rapazes não diferiram entre si. Por outro lado, as análises multi-grupos, realizadas com recurso a modelos de equações estruturais, revelaram diferenças quanto à relação entre os factores de risco incluídos no modelo e o comportamento alimentar perturbado dos adolescentes dos três grupos. Apesar da relevância da pressão social como preditora de comportamento alimentar perturbado (que corresponde ao preditor mais forte entre os atletas não-elite e grupo de controlo), entre os atletas elite a insatisfação com a imagem corporal contribui ainda mais para a explicação da variância do seu comportamento alimentar perturbado. Este grupo de atletas é, também, o único em que as influências parentais assumem significância enquanto preditor (directo e indirecto) do comportamento alimentar perturbado. Estes resultados indicam, assim, eventuais especificidades individuais e dos contextos familiares dos atletas elite que suscitaram o desenho dos estudos seguintes, já que os grupos de controlo e atletas não-elite se revelaram mais semelhantes entre si. Para examinar diversas influências familiares na insatisfação com a imagem corporal e comportamento alimentar perturbado de atletas elite (comparativamente com um grupo de controlo), recorreu-se também a uma amostra de pais (223 mães e 198 pais), em relação aos quais se avaliou a insatisfação com a imagem corporal e o nível de comportamento alimentar perturbado. Em termos de valores médios das variáveis familiares investigadas, atletas e grupo de controlo diferirem apenas nalguns padrões de vinculação insegura aos pais. Todavia, surgem diferenças nas variáveis familiares que contribuem para a explicação da variância da insatisfação com a imagem corporal e do comportamento alimentar perturbado nos dois grupos. A variável influências parentais, sob a forma de comentários críticos em relação ao peso e importância da magreza para os pais, foi considerada a única variável familiar preditora entre os atletas, segundo os modelos de regressão múltipla. Por seu turno, entre os adolescentes em geral, para além das mesmas influências parentais, também a qualidade do ambiente familiar e a modelagem de alguns comportamentos maternos em relação ao peso e alimentação parecem ter um impacto importante. Assim, os pais de atletas devem ser incluídos nos eventuais programas de prevenção a ser desenvolvidos, pois comentários positivos em relação ao desempenho dos atletas e comentários que valorizem a saúde e o bem-estar físico, em detrimento da magreza, poderão ser promovidos e revelar-se potenciadores de comportamentos alimentares mais saudáveis. Por último, compararam-se especificamente variáveis individuais e contextuais entre os atletas, separando bailarinos (n = 113) e ginastas (n = 136) por sexo e nível de competição. As bailarinas de nível recreativo mostraram menor risco de desenvolvimento de perturbações alimentares que as restantes atletas, sendo que, entre os rapazes, não se verificaram diferenças. Uma usefulness analysis revelou que um indicador de insatisfação com a imagem corporal específica para a prática da modalidade é um melhor preditor de comportamento alimentar perturbado entre os atletas do que o indicador de insatisfação com a imagem corporal geral. A análise de regressões hierárquicas revelou ainda que, para além da baixa auto-estima e da insatisfação com a imagem corporal, a percepção de pressão para a magreza no contexto desportivo (mas não a fraca percepção de suporte) é preditora de comportamento alimentar perturbado nos atletas, sendo efectivamente mais relevante do que a prática da modalidade ao nível de alta competição ou não. Este é um dado importante e que pode facilitar o desenho de intervenções preventivas eficazes. A prática de desportos estéticos de elite parece colocar as raparigas em maior risco de desenvolvimento de perturbações alimentares, comparativamente com as raparigas da população em geral. Contudo, tal parece verificar-se, sobretudo, com as bailarinas, cuja prática a um nível recreativo parece ser até protectora, já que as bailarinas não-elite apresentam comportamento alimentar significativamente menos perturbado que as raparigas da população em geral. Pelo contrário, as praticantes de ginástica não-elite apresentam nível semelhante de comportamento alimentar perturbado ao das ginastas elite, diferindo também menos entre si nos factores de risco estudados, nomeadamente em relação à insatisfação com a imagem corporal. Para os rapazes, todavia, a prática de desportos estéticos não parece constituir um factor de risco adicional. Não pretendendo alterar a cultura dos desportos estéticos, em que a regra “magreza=sucesso” está bastante enraizada, diversas pistas para a prevenção de perturbações alimentares em atletas podem ser delineadas com base nos resultados dos vários estudos realizados, de forma a dotar os seus intervenientes de ferramentas que proporcionem aos atletas uma vivência mais positiva e saudável do seu corpo. Neste sentido, para além de um trabalho mais individualizado, o papel que os pais e os intervenientes no contexto desportivo (professores/treinadores, pares) mostraram desempenhar em relação ao comportamento alimentar perturbado dos atletas, constitui uma indicação da necessidade de os incluir nas acções preventivas (participativas e ecológicas), que devem ser desenvolvidas em escolas de dança de ensino profissionalizante e em clubes de ginástica onde treinem atletas de diversos níveis de competição.
This dissertation aims to provide insight into the processes that underlie the risk of adolescents who practice aesthetic sports developing an eating disorder (ED). Using focus groups as an exploratory methodology, the first study identified risk and protective factors specific to ballet dancers and elite gymnasts (N = 24) associated with several sources of influence. Pressure towards thinness, either as an explicit or implicit rule in these contexts, was considered the most important risk factor. Following the adaptation to the Portuguese population of two instruments – Contour Drawing Rating Scale (N = 1423) and McKnight Risk Factor Survey-IV (N = 793) –, both revealing good psychometric qualities, these and other instruments were used in the subsequent three quantitative empirical studies. The first of them showed that elite female athletes were at greater risk of developing an ED when compared with the control group, while no differences were identified regarding boys. The relationship between risk/protective factors and disordered eating (DE) was different among elite athletes, non-elite athletes and the control group (N = 725). Body image dissatisfaction (BID) was found to be the best predictor of DE among elite athletes, the only group where parental influences were also a significant predictor. On the second study, which included a sample of parents of elite athletes and parents of boys and girls from the control group (223 mothers, 198 fathers), parental influences, like concern with thinness and weight teasing by parents, were considered the only family predictor variable of DE among athletes. For all other adolescents, modelling maternal eating behavior and the quality of the family environment also seemed to play an important role. The last study compared ballet dancers (n = 113) and gymnasts (n = 136) and revealed that nonelite female dancers were at a lower risk than the other groups of female athletes. The specific indicator of BID for each sport explained the variance of DE better than the general indicator of BID. The perception of pressure to be thin in the sport context was also identified as a good predictor (but not the low support perception), more than the level of competition. Preventive actions including all involved within the sport context – teachers/coaches, peers and parents –, should be developed in professional dance schools and in gymnastic clubs.
Descrição: Tese de doutoramento, Psicologia (Psicologia da Família), Universidade de Lisboa, Faculdade de Psicologia, 2011
URI: http://hdl.handle.net/10451/2589
Appears in Collections:FP - Teses de Doutoramento

Files in This Item:

File Description SizeFormat
ulsd059812_td_Rita_Francisco.pdf.pdf2,69 MBAdobe PDFView/Open
Restrict Access. You can request a copy!
Statistics
FacebookTwitterDeliciousLinkedInDiggGoogle BookmarksMySpaceOrkut
Formato BibTex mendeley Endnote Logotipo do DeGóis 

Items in DSpace are protected by copyright, with all rights reserved, unless otherwise indicated.

 

  © Universidade de Lisboa / SIBUL
Alameda da Universidade | Cidade Universitária | 1649-004 Lisboa | Portugal
Tel. +351 217967624 | Fax +351 217933624 | repositorio@reitoria.ul.pt - Feedback - Statistics
DeGóis
  Estamos no RCAAP Governo Português separator Ministério da Educação e Ciência   Fundação para a Ciência e a Tecnologia

Financiado por:

POS_C UE