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Please use this identifier to cite or link to this item: http://hdl.handle.net/10451/3812

Title: "A magpie tendency" : Salman Rushdie and cultural brokerism
Authors: Mendes, Ana Cristina Ferreira, 1975-
Advisor: Malafaia, Maria Teresa, 1951-
Faria, Luísa Leal de, 1948-
Keywords: Teses de doutoramento - 2011
Rushdie, Salman, 1947-
Literatura inglesa - séc.20
Difusão da cultura
Indústrias culturais
Exotismo na literatura
Pós-colonialismo
Sociologia da cultura
Issue Date: 2010
Abstract: This dissertation deals with Salman Rushdie’s self-professed magpie tendency as displayed in both his literary writings and critical pronouncements. One of its main purposes is to draw attention to a dimension of Rushdie’s oeuvre that has often been mentioned, but has not been subjected to consistent scrutiny – the transgression of the high/low cultural divide and, beyond that, the actual debunking of the artificiality of that divide through parody and pastiche. Furthermore, this dissertation interrelatedly addresses the roles assumed by the writer of cultural broker, gatekeeper, and mediator in various spheres of public production; in particular, it looks at the roles performed across various creative platforms including, besides those of novelist and short story writer, those of public intellectual, reviewer, and film critic. Examining the issue of cultural brokerism in Rushdie’s life and work, this study positions itself in a line of a growing body of scholarship which has been situating the contemporary production, circulation, and consumption of postcolonial texts within the sinuous workings of cultural industries. The need to assess such processes taking place in a market strictly regulated by a few multinational corporations proves essential when approaching a postcolonial author both personally and professionally enmeshed in the dealings of the cultural industries, and in such critical assessment lies, I believe, the relevance of this dissertation for the area of contemporary cultural studies. What the present study contends is that marginality should not be construed exclusively as a basis for understanding Rushdie’s work, as a critical grounding in marginality will predictably involve a reproduction of the traditional postcolonial binaries of oppressor/oppressed and coloniser/colonised the writer subverts altogether. Ultimately, this dissertation endeavours to be part of what I feel is a much needed renaissance of Rushdie criticism by attempting to add new critical itineraries and frameworks of interpretation of the writer’s work today, itineraries and frameworks that take into account the actual conditions of postcolonial cultural production and circulation within a marketplace which is global in both orientation and effects.
Esta dissertação pretende examinar a autodenominada ‚magpie tendency‛ de Salman Rushdie, revelada nos seus textos literários e na sua crítica. Propõe-se, em primeiro lugar, analisar uma dimensão da obra rushdiana que, apesar de muito referida, não foi ainda sujeita a um estudo devidamente aprofundado: o transgredir de uma antiga separação entre ‚alta‛ cultura e cultura popular e, para além disso, o evidenciar do carácter artificial daquela distinção pelo recurso à paródia e ao pastiche. Paralelamente, examinam-se os papéis assumidos pelo escritor enquanto agente e mediador cultural nas várias esferas da sua produção pública. O enfoque centra-se nos papéis desempenhados no contexto de várias plataformas criativas que incluem, para além daquelas que decorrem do papel de romancista e de escritor de narrativas curtas, as que lhes estão ligadas enquanto intelectual, autor de recensões críticas e comentador de cinema. Ao examinar a questão da mediação cultural na vida e obra de Rushdie, este trabalho posiciona-se em linha com um crescente número de estudos que tem vindo a situar a actual produção, circulação e consumo de textos pós-coloniais no âmbito das operações das indústrias de cultura. A necessidade de avaliar tais processos, que ocorrem num mercado estritamente regulado por poucas corporações, afigura-se determinante quando se procura analisar a vida e obra de um autor pós-colonial envolvido, tanto pessoal como profissionalmente, nas transacções das indústrias de cultura, e é neste exame crítico que cremos residir a pertinência desta dissertação no contexto dos estudos culturais contemporâneos. A investigação recente ligada à produção cultural pós-colonial, numa época em que é notória uma dinâmica cada vez mais complexa de trocas à escala global, foi instigada por estudos como: Critique of Exotica (2000) de John Hutnyk, The Postcolonial Exotic (2001) de Graham Huggan e Postcolonial Writers in the Global Literary Marketplace (2007) de Sarah Brouillette, para referir apenas três. Os seus projectos críticos complementares – em particular, a sua fundamentação conceptual na noção de ‚mercado‛ e a perspectiva bourdieusiana de ‚campo‛ adoptada por Huggan e Brouillette – exerceram um forte impacto na presente pesquisa. O trabalho desenvolvido por Hutnyk foi de igual forma crucial na procura de uma perspectiva crítica sobre a interacção entre a pós-colonialidade e a leitura freudo-marxista encetada por Theodor W. Adorno da economia política da indústria da cultura. Na verdade, os debates concorrentes gerados por aquelas três obras auxiliaram-nos a definir a matéria da investigação ora apresentada e foram, como tal, instrumentais, desde o início, na delimitação e estabelecimento do enquadramento teórico deste estudo. Pelo que disse, esta dissertação pretende situar-se no âmbito da reconfiguração dos modos de análise cultural que têm vindo a examinar as operações das indústrias do exótico (Hutnyk 5), da alteridade (Huggan x) e da pós-colonialidade (Brouillette 20) na construção e negociação da diferença cultural em geral. Uma abordagem crítica do ‚mainstreaming‛ da literatura pós-colonial envolve, como Huggan e Brouillette argumentam persuasivamente, questões relacionadas com a mercantilização da diferença, para além de implicar questões ligadas à resistência em relação a estruturas de poder neocoloniais. Em última análise, será que a literatura pós-colonial resiste ou reproduz a lógica do mercado literário global? Até que ponto estarão as forças de mercado a orientar um processo de formação do cânone envolvendo autores pós-coloniais? Pretende-se sugerir respostas para estas e outras questões, examinando as manobras em acção no espaço das formações culturais e práticas textuais diaspóricas sul-asiáticas. As análises críticas encetadas por Hutnyk, Huggan e Brouillette baseiam-se na premissa materialista de que a produção cultural pós-colonial tem que ser vista à luz das suas mediações económicas. A ênfase destas análises recai sobretudo nos processos de mercantilização da diferença no âmbito das esferas públicas transnacionais (especificamente nas inquietudes que surgem do que se percepciona ser uma neutralização das erupções políticas e do potencial subversivo associado às expressões pós-coloniais) e também nas estratégias envolvidas no capitalizar do ‚exótico‛ num panorama cultural cada vez mais globalizado. Na esteira da teorização elaborada por Homi Bhabha, a resistência pós-colonial é recorrentemente encarada nos termos da ambivalência ou hibridismo disruptores das oposições binárias que estão na base do exercício do poder. Defende-se neste estudo que o carácter marginal da obra de Rushdie não deve ser entendido exclusivamente como a base para a compreensão daquele corpus, na medida em que uma fundamentação crítica naquela marginalidade conduzirá de forma iniludível a uma reprodução dos tradicionais binarismos pós-coloniais de opressor/oprimido e colonizador/colonizado que o escritor procura subverter inequivocamente. O que aqui se sugere é uma saída do labirinto do ‚hybridity-talk‛ (Hutnyk 33), entendido como base para a compreensão do trabalho de Rushdie. Nesta dissertação procura-se ser parte daquilo que consideramos ser um muito necessário renascimento dos estudos dedicados a Rushdie, procurando acrescentar novos itinerários críticos e enquadramentos interpretativos da obra do escritor, itinerários e enquadramentos que tenham em consideração as efectivas condições da produção e circulação cultural pós-colonial, no contexto de um mercado que é global, tanto na sua orientação como nos seus efeitos. Assim, questionam-se as análises deste corpus que se concentram exclusivamente nas questões de hibridismo cultural, migração, e ‚writing back‛ pós-colonial para propor uma crítica destas mesmas categorias analíticas, considerando em simultâneo o significado fundamental do questionar da distinção entre ‚alta‛ cultura e cultura popular no desenvolvimento destas problem{ticas. Olhar a obra de Rushdie desta forma permitir-nos-á ter em atenção a transgressão das fronteiras no seu âmago e também apreender as possibilidades transformativas inerentes ao contacto, neste particular, entre a ‚alta‛ cultura, tradicionalmente elitista, e a cultura popular, tradicionalmente ligada às massas. Num corpus aberto a leituras múltiplas, a selecção de um enfoque de análise deixa inevitavelmente por examinar algum material e por ouvir algumas interpretações oriundas de outras posições críticas. Contudo, espera-se contribuir para a revitalização de um campo que, saturado pela repetição dos mesmos temas, tem permanecido pouco inventivo há tempo demais. Com o propósito de explorar a ‚magpie tendency‛ de Rushdie e os papéis inter-relacionados assumidos pelo escritor enquanto mediador cultural, esta dissertação procede à aplicação de uma crítica baseada em teorias adornianas das práticas culturais pós-coloniais acima descritas. Tal como foi originariamente formulado por Adorno e Max Horkheimer no início dos anos 40 do século XX, a ‚indústria da cultura‛ é uma estrutura guiada pelos imperativos capitalistas do lucro, que manipula as massas no intuito de as induzir à passividade através da produção, ao estilo de uma fábrica, de bens culturais estandardizados. O que nos interessa neste âmbito não é tanto o centrar a análise naquilo que os críticos têm interpretado como uma tendência para uniformizar a indústria da cultura, tal como foi referido em variadíssimos estudos, nem é nossa intenção sancionar uma leitura simplista da cultura popular baseada na sujeição e na ausência de autodeterminação por parte dos produtores culturais e das audiências que alegadamente resultaram da racionalização fordista das práticas culturais. Ao invés, interessam-nos a constituição dinâmica e conflituante das ‚indústrias culturais,‛ um conceito potencialmente mais abrangente do que aquele que foi elaborado originalmente pelos pensadores associados à Escola de Frankfurt ou, pelo menos, um conceito mais congruente com uma paisagem dominada por corporações à escala global, com os seus próprios circuitos sistémicos de troca cultural. Tendo em conta que a teoria crítica freudo-marxista se baseia fortemente no potencial analítico do conceito de mercantilização para uma reconversão dialéctica da cultura contemporânea, talvez seja produtivo retornar a estas teorias de forma a religar capital global, hibridismo cultural e resistência pós-colonial num contexto de políticas de representação em constante mutação. Com referência particular à obra de Rushdie, esta dissertação posiciona-se no centro de políticas de poder e de representação que não pretendem opor o ‚Ocidente‛ ao ‚Oriente,‛ mas pretendem atingir um entendimento mais complexo (que não poderia, de modo algum, confinar-se a estas duas estruturas discursivas) da produção cultural pós-colonial e do seu engendrar de perspectivas neo-orientalistas e re-orientalistas. Neste contexto, esta dissertação procura explorar os modos como os textos de Rushdie – tais como outras obras recentes que têm surgido da diáspora sul-asiática – reconstroem, manipulam e subvertem representações (re-)orientalistas. O que se procura analisar é, portanto, a renegociação de representações subversivas no contexto de diferentes noções de orientalismo e as consequentes inquietudes expressas por produtores culturais pós-coloniais, sendo Rushdie um caso exemplar.
Description: Tese de doutoramento, Estudos de Cultura (Cultura Inglesa), Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, 2011
URI: http://hdl.handle.net/10451/3812
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