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Please use this identifier to cite or link to this item: http://hdl.handle.net/10451/4427

Title: O conceito de «energueia» : na filosofia da linguagem de Eugenio Coseriu
Authors: Cristea, Simion Doru, 1965-
Advisor: Santos, Leonel Ribeiro dos, 1947-
Correia, Carlos João Nunes, 1956-
Keywords: Teses de doutoramento - 2011
Coseriu, Eugenio, 1921-2002
Filosofia da linguagem
Semântica
Energeia (Filosofia)
Issue Date: 2011
Abstract: A questão da linguagem é fulcral para a auto-compreensão do humano e para a determinação do carácter fundamental do ser. Ao contrário da visão materialista e positivista que enforma a inteligibilidade do mundo contemporâneo e tende a relegar a linguagem para um plano subsidiário do mundo no qual se inscreve a nossa experiência, a linguagem é constituinte do próprio mundo. A justificação do título desta tese de doutoramento: O conceito de «energueia» na filosofia da linguagem de Eugenio Coseriu incorpora várias valências deste conceito na obra de Coseriu: 1) É um dos conceitos-chave da sua obra, desempenhando nela uma função estruturante e inteligibilizadora. 2) O seu conteúdo elucida e determina o carácter próprio do ser humano, que se forma na e pela actividade da fala. 3) A linguagem é entendida como um contínuo processo semântico criativo. 4) Abre caminho para todos os outros conceitos e termos filosóficos, técnicos e científicos. 5) Coseriu interpreta e cria teorias com base neste conceito. Estabelece uma conexão entre os conceitos constitutivos de fala, norma, língua, pensamento com os conceitos interpretativos de sistema (estrutura), dýnamis (poténcia, conhecimento), érgon (produto) e ontológicos (ordo esendi) de ser, liberdade, criatividade, história, universais, indivíduo, marcas indeléveis da realidade humana. 6) Filosoficamente, este conceito é utilizado na formulação de todos os questionamentos, especialmente sobre a constituição do ser, da consciência do ser, da manifestação do ser humano através da linguagem. 7) Converte a concepção tradicional da tradição numa actualização da tradição através do reconhecimento da dimensão temporal na linguagem, uma diacronia actualizada na sincronia da manifestação linguística. 8) É o conceito que não se opõe ao de dinâmica que visa o lado objectual da realidade. Pertence à dimensão cultural da linguagem como actividade criativa do homem. 9) Torna evidente a unidade do pensamento e da fala quer na linguagem comum na constituição da personalidade humana, quer em qualquer linguagem especializada. 10) Coloca a linguagem na base da cultura e de todas as manifestações humanas. Numa apresentação esquemática, a dissertação é constituída por sete secções: uma introdução, cinco capítulos e respectivas conclusões. A introdução evidencia a eleição deste tópico e integra-o no contexto contemporâneo, indica o corpus básico da pesquisa, a motivação da escolha da metodologia coseriana num discurso crítico sobre a sua obra e apresenta esquematicamente o conteúdo da tese. No primeiro capítulo circunscreve-se o tópico tratado na área da filosofia da linguagem, com o objectivo de demarcar claramente a diferença entre a teoria da linguagem de Coseriu e outras. A distinção entre o “saber sobre” e “entender” a linguagem, apresenta dois lados cognitivos co-existentes, um contém a distância necessária entre o sujeito cognoscente e o objecto cognoscível, o outro refere-se à actividade de criação mental do fenómeno na sua manifestação e visa um primeiro momento filosófico necessário para um saber adequado, científico. A linguagem é a medida humana das coisas “tais quais elas são” quando se respeitam as leis universais do pensamento e se usam as mesmas intuições da linguagem materna, tal como é a medida das coisas “tais quais não são” na dialéctica da criatividade individual que ultrapassa as intuições dadas pelo conhecimento linguístico comum, mas entendíveis numa novidade criativa, uma negação que afirma, uma vez mais, a criatividade humana ao nível cultural do “saber expressivo”. No segundo capítulo, a história da filosofia da linguagem em Coseriu, aborda-se o modo como a energueia ultrapassa a dimensão histórica e se inscreve na problemática filosófica sobre a linguagem, existência e ser. A história da filosofia da linguagem coseriana, quer relativamente às fontes, quer às mais importantes exegeses referenciadas, tem um valor formativo e constitui um exemplo ilustrativo do valor criativo do intérprete, que mantém sempre os pontos de vista da energueia, dýnamis e érgon. O terceiro capítulo, o conceito de «energueia» no pensamento filosófico de Eugenio Coseriu, constitui o núcleo da tese, evidenciando a relevância do mesmo, a partir do seu conteúdo semântico filosófico, com as suas variações, destacando o lugar, a permanência da sua funcionalidade na teoria coseriana. Ligada à essência da linguagem, a energueia confere-lhe valor ontológico e dá coerência ao seu discurso filosófico. Eugenio Coseriu, seguindo a linha da filosofia romântica alemã, emprega o conceito de energueia numa acepção aristotélica de criatividade contínua, presente em todos os actos humanos com uma base mental-linguística. Uma primeira consequência deste conceito consiste no facto de os actos repetitivos serem interpretados como actos de recriação, chegando mesmo a identificar-se uns com os outros ou muito semelhantes. Para o homem tudo tem sentido, interpretado filosoficamente como juízo lógico. Um simples fenómeno, a língua, torna-se elementar, um factor indispensável para o entendimento do homem e do mundo. No quarto capítulo, a abordagem coseriana da semântica, valoriza-se a importância da energueia na semântica, na configuração da forma interior da linguagem que concretiza a função significativa desta como função ontológica constitutiva. A energia é a actividade que absorve o momento da ante-predicatividade como um momento de união da actividade mental com a actividade da linguagem ao nível denotativo no saber linguístico que corresponde à lógica geral. Segundo Coseriu, a linguagem não é um esquema abstracto, mas «actividade cognoscitiva». Recoloca a filosofia da linguagem na sua problemática original: o questionar-se sobre a natureza da linguagem. A distinção operada por Coseriu entre os planos (universal, histórico e individual) e os pontos de vista diferentes (da energueia, dýnamis e érgon) é necessária para se entender teoricamente o modo de pensar metafórico através da linguagem, unindo elementos díspares, dispersos, abstractos e concretos. Não pode existir algo na língua que não seja significado e não tenha um significado. A língua é a esfera de acção dos significados criados pelo homem e que pertencem ao seu pensamento criativo. Segundo o modo como está pensada e estruturada a sua lógica, pode-se denominá-la “prolegómenos à ciência da lógica”, considerando-a um capítulo introdutório e necessário da lógica. Liga-se à ciência da lógica, onde a unidade indiferenciada entre o pensamento e a linguagem se manifesta como energueia no logos semântico. A lógica proposta preenche o hiato aristotélico entre a sua consideração da linguagem como logos semântico e a manifestação lógica do logos apofântico e, mantendo a mesma consideração da linguagem como energueia, estabelece igualmente as ligações “lógicas” entre vários tipos de logos semântico na sua segunda determinação: apofântico, pragmático e poético. No quinto capítulo, filosofia da linguagem de Coseriu e cultura, procede-se à aproximação entre o pensamento de Coseriu e a interpretação hegeliana de cultura como objectivação do espírito na história da humanidade, com tudo o que daí deriva e define a língua como a cultura fundamental do homem. O discurso filosófico coseriano apresenta os princípios ligados à especificidade do ser humano como fonte criadora do ser e do conhecimento. O princípio da objectividade evidencia o facto de que o “objecto” é criado como um bem comum dos sujeitos falantes. O princípio do humanismo apresenta-se como o principal constituinte da ciência na esfera do humano com enfoque especial na liberdade de criação. O princípio da tradição confere um papel dinâmico, vivo e cumulativo aos valores humanos. Desde sempre, o homem manifestou a necessidade de conhecer os mesmos objectos, tendo os mesmos objectivos e finalidades na criação dos mesmos e, por conseguinte, deve-se buscar na tradição exactamente estas atitudes, o reconhecimento dos fins e dos princípios tanto nos objectos de cultura como nas ciências da cultura. O Princípio do anti-dogmatismo sublinha o facto de que todas as teorias têm na base o mesmo conhecimento intuitivo originário e por conseguinte todas “dizem as coisas tais quais são” pelo menos numa perspectiva definida e visam uma determinada finalidade. Todas as teorias contêm um sentido de verdade que indica a sua elasticidade idiomática. O princípio da utilidade pública inscreve o acto cultural na deontologia profissional. Como energueia, a linguagem constitui uma unidade com o pensamento, é ilimitada e torna tudo possível como realidades semânticas criadas pelo ser humano. Finalmente, nas conclusões, o discurso orienta-se para várias finalidades criadoras humanas. A energueia liberta-se nas criações culturais e civilizacionais sem nunca se separar da linguagem verbal. As linguagens, entendidas como sistemas de signos, as existentes tal como as futuras, têm na sua base a linguagem verbal e utilizam a sua carga semântica. A filosofia da linguagem de Coseriu é primeiramente formativa e evidencia o valor criativo do sujeito na abordagem crítica dum texto. A condição da teoria de Coseriu é semelhante à condição viva da teoria aristotélica, e propõe uma escola de liberdade na manifestação da energueia da linguagem na teoria e na prática da língua, não se cingindo exclusivamente à esfera linguística. É uma escola sem paredes, sem registo de notas e memorização de fórmulas exactas, é uma escola filosófica de reflexão e interpretação de qualquer realidade cultural na sua criação linguística fundamental, numa ligação constante com outras esferas culturais do pensamento humano, seguindo o processo interno de cada texto e respeitando os seguintes pontos de vista: energueia, dýnamis e érgon, em três hipóstases essenciais: na criação original, no processo mental do conhecimento e nos resultados parciais como momentos no processo contínuo da criação do sentido.
The question of language is crucial for the self-understanding of the human species and for determining the fundamental character of being. Contrarily to the materialist and positivist perception of the contemporary world where language is subsidiary to the world upon which experience is inscribed,language is constitutive of the world itself. The justification of the title of this PH. D thesis: The concept of “enérgeia” in the philosophy of language of Eugenio Coseriu incorporates several valencies of such a concept in the work of Coseriu: 1) It is one of the key-concepts in his work, performing a structuring function and promoting intelligibility. 2) Its content elucidates and determines the distinctive character of the human being, who is shaped by and in the activity of speech. 3) Language is understood as a continuous creative semantic process. 4) It opens the way to all other scientific, technical and philosophic terms and concepts. 5) Coseriu interprets and creates theories based upon this concept. He establishes a connection between the constitutive concepts of speech, norm, language, thought with the interpretative concepts of system (structure), dýnamis (potency, knowledge), érgon (product) and the ontological concepts (ordo esendi) of being, liberty, creativity, history, the universals, the individual, all of them indelible marks of the human reality.6) Philosophically, this concept is used in the formulation of all questions, especially about the constitution of being, the consciousness of being, the manifestation of the human being through language. 7) It converts the traditional conception of tradition into actualization of tradition through the acknowledgement of a temporal dimension in language, an actualized diachrony upon the synchrony of the linguistic manifestation.8) It is the concept that does not oppose that of dynamics oriented to the objectual side of reality. It is inherent to the cultural dimension of language as creative activity of humankind. 9) It makes obvious the unity of thought and speech either in the common language in the constitution of human personality or in any specialized form of language. 10) It places language as foundational of culture and of all human manifestations. In a schematic presentation, the dissertation is composed of seven sections, the introduction, five chapters and respective conclusions. The introduction foregrounds the choice of the topic and contextualizes it in the contemporary field of studies, points out the nuclear corpus of research, the reasons for the choice of the Coserian methodology in a critical approach to his work and, finally, gives an outline of the content of the thesis. In chapter one, the chosen topic is circumscribed to the topic in the field of the philosophy of language, drawing a clear distinction between Coseriu’s theory of language and other approaches. The distinction between “knowing about” and “understanding” the language presents two co-existing cognitive sides, the one relating to the necessary distance between knowing subject and known object, the other, to the activity of mental creation of the phenomenon in its manifestation, and appraising a necessary first philosophical moment to an adequate scientific knowledge. Language is the human measure of things “such as they are” when the universal laws of thinking are respected and the same intuitions of the mother tongue are used, as the measure of things “such as they are not” in a dialectic of individual creativity that goes beyond the intuitions acquired by common linguistic knowledge, but understandable in creative newness, a negation that asserts, once again, the human creativity at a cultural level of “expressive knowledge.” Chapter two is focused on the history of the philosophy of language in Coseriu, on how enérgeia overcomes the historical dimension and how it inscribes itself on the philosophical questions of language, existence and being. The Coserian history of philosophy, both in the fields of sources and of the most relevant referred exegeses, has informative value and it is a good illustration of the creative value of the interpreter who always respects the perspectives of enérgeia, dýnamis and érgon. Chapter three, examining the concept of “enérgeia” in the philosophical thought of Eugenio Coseriu, is the core chapter of the thesis, foregrounding the relevance of such thought based on its philosophic semantic content, with its variants, emphasizing its status the maintenance of its functionality in the Coserian theory. Linked to the essence of language, enérgeia grants it ontological value and endows its philosophical discourse with coherence. Eugenio Coseriu, following the German Romantic philosophical thought, uses the concept of enérgeia in an Aristotelian sense of continuous creativity, present in all human acts with a linguistic-mental basis. A first consequence of this concept consists in the fact that repetitive acts are interpreted as acts of re-creation, very similar to one another or prone to being considered identical. For the human mind, everything has a signification, philosophically interpreted as a logical judgement. A simple phenomenon, the language, becomes elementary, an indispensible factor for the understanding of man and the world. Chapter four, a Coserian approach to semantics, deals with the importance of enérgeia in semantics, in the configuration of the interior form of language, which materializes its significative function as constitutive ontological function. Enérgeia is the activity that absorbs the moment of ante-predicativity as a moment of union between mental activity and language activity at the denotative level in the linguistic knowledge that corresponds to general logic. According to Coseriu, language is not an abstract scheme, but “cognoscitive activity”. It relocates the philosophy of language in its original problematic field of action: the questioning about the nature of language. The distinction effected by Coseriu between levels (universal, historical and individual) and the different points of view (from enérgeia, dýnamis and érgon) is necessary to the theoretical understanding of the metaphoric way of thought by means of language, unifying discrete, dispersed, abstract and concrete elements. There can be nothing in language that is not signified and has no signification. Language is the sphere of action of the signifiers created by man and which belong to his creative thinking. Depending on the way its logic is shaped and structured, it may be designated “prolegomena to the science of logics”, considering it an introductory chapter to logic, and a necessary one. It is linked to the science of logics, where the undifferentiated unity between thought and language is manifest as enérgeia in the semantic logos. The proposed logic fulfils the Aristotelian hiatus between his consideration of language as the semantic logos and the logic manifestation of the apophantic logos and, sustaining the same consideration of language as enérgeia, equally establishes the “logical” links between the multiple types of the semantic logos in its second determination: apophantic, pragmatic and poetic. Chapter five, Coseriu’s philosophy of language and culture, considers the affinities between Coseriu’s thought and the Hegelian interpretation of culture as objectivation of the spirit in the history of mankind, bearing in mind all its implications in the definition of language as the fundamental culture of man. The Coserian philosophical discourse presents the principles linked to the human being as the creative source of being and of knowledge. The principle of objectivity establishes the fact that the “object” is created as a common good of speakers. The principle of humanism is presented as the principal component of the science in the field of the human being with a special focus on the liberty of creation. The principle of tradition grants a cumulative, dynamic, active role to human values. Man’s concern with the need to know the same objects has been a constant, having the same objectives and goals in their creation, and, on such an account, an inquiry into tradition for these attitudes is operative as well as the recognition of the ends and the beginnings both in the objects of culture and in the sciences of culture. The principle of anti-dogmatism underlines the fact that all theories share basically the same originating intuitive knowledge and therefore they all “say things exactly as they are”, at least from a defined perspective and aiming at a determinate purpose. All theories are conversant with a sense of truthfulness that points to their idiomatic semanticity. The principle of public utility inscribes the cultural act in professional deontology. As enérgeia, language achieves unity with thought, is unlimited and makes all things possible as semantic realities produced by the human being. Finally, in the conclusions the discourse finds its way into several creative human purposes. Enérgeia achieves its fullness in civilization and cultural production without ever separating itself from verbal language. Languages, understood as a system of signs – the existing ones as well as those of the future – have verbal language as the basis and use its semantic charge. Coseriu’s philosophy of language is first and foremost formative and makes evident the creative value of the subject in his critical approach to a text. The condition of Coseriu’s theory is similar to the active condition of Aristotelian theory, and proposes a school of liberty in the manifestation of the enérgeia of language in the theoretical and pragmatic use of any natural language, without exclusively limiting itself to the linguistic level. It is a school without walls, without the record of notes and without exact formulas known by heart, it is a philosophic school of reflection upon and interpretation of any cultural reality engaged in its fundamental linguistic creation, in permanent relationship with other cultural fields of the human thought, coherent with the internal process of each text and respecting the following points of view: enérgeia, dýnamis and érgon, in three essential hypostases: in the original creation, in the mental process of knowledge and in the partial results as moments in the continuous process of signification.
Description: Tese de doutoramento, Filosofia (Filosofia da Linguagem), Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, 2011
URI: http://hdl.handle.net/10451/4427
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