Universidade de Lisboa Repositório da Universidade de Lisboa

Repositório da Universidade de Lisboa >
Instituto de Ciências Sociais (ICS) >
ICS - Teses de Doutoramento >

Please use this identifier to cite or link to this item: http://hdl.handle.net/10451/4515

Título: Human values and opposition towards immigration in Europe
Autor: Ramos, Alice, 1963-
Orientador: Vala, Jorge, 1947-
Palavras-chave: Teses de doutoramento - 2011
Issue Date: 2011
Resumo: Three main objectives underlie this thesis: 1) understand opposition towards immigration in Europe; 2) test the hypothesis that human values contribute to the understanding of opposition towards immigration over and above other social factors; 3) undertake this analysis from a multilevel perspective. From these three objectives we derived two main hypotheses: a) at the individual level, values have an impact on opposition towards immigration over and above other important factors; b) the effect of values is maintained over and above other important factors, also when socio-structural factors are included in the statistical models. In other words, we contrast values with other theoretical models (economic self-interest and social capital) and include values at the individual level in multilevel models; two strategies that we have not seen developed in the literature produced to date. Data from the three first Rounds of the European Social Survey (2002- 2004-2006) was used to test both hypotheses; multilevel analysis was performed in order to analyse the effect of individual and socio-structural variables on opposition towards immigration. Results showed that these attitudes are mainly associated to individual variables: the values of universalism stem negative attitudes towards immigrants while conservation values boost them; moreover human values have an effect on opposition towards immigration over and above other important individual and socio-structural factors. We extended the analysis of the impact of human values to the study of racial prejudice and threat perceptions, in the context of immigration, and concluded that human values have a double role (direct and indirect), i.e. racial prejudice is embedded of conservation values; threat perceptions are a result of racial prejudice and endorsement of conservation values. As stated by Amartya Sen (2000) “ethical universalism is basically an elementary demand for impartiality”.
O fenómeno das migrações continua a constituir um debate central a vários níveis nas sociedades nele implicadas. A nível económico, pelas trocas de bens, de serviços e de pessoas que implica. A nível demográfico, pelo impacto que os diferentes fluxos têm na recomposição das populações dos países acolhedores, bem como nos países de origem. A nível social, pelas consequências na vida quotidiana dos que entram, dos que habitam e das relações que se estabelecem entre ambos. A nível político, pela consequente necessidade de regular relações sociais emergentes através do desenvolvimento de políticas públicas dirigidas aos imigrantes e aos cidadãos dos países receptores; e, por fim, a nível jurídico, pela necessidade de redacção de leis, da sua aplicação e da criação de mecanismos de controlo dessa mesma aplicação. A Europa conhece uma longa história de movimentos migratórios e tem vivido diferentes momentos de intensas trocas de população. Nas últimas décadas surgiram novos padrões migratórios, relacionados com a globalização de bens, serviços e capitais; com a crescente mobilidade dos indivíduos. Mas, também, com episódios particulares que provocaram importantes alterações na configuração da Europa, como, por exemplo, a queda do muro de Berlim; episódios esses, que, segundo Castels e Miller (2003), tiveram repercussões ao nível de toda a Europa: países de tradição emigrante começaram a tornar-se atractivos e a constituírem novas alternativas de destino. Foi o caso de países do Sul da Europa como Portugal, Espanha, Itália e Grécia, o que levou mesmo alguns autores a considerar um modelo específico de imigração do Sul da Europa (Baganha 1997; Marques and Rosa 2003). Portugal constitui, portanto, um caso particular no que toca aos movimentos migratórios europeus. Tradicionalmente país de emigração atingiu o auge de saídas nos anos 60 e 70 do século passado: cerca de 123 000 pessoas abandonavam o país anualmente durante a 1965 e 1974. A primeira vaga de imigrantes iniciou-se na segunda metade dos anos 60, com origem nas então colónias africanas. Uma importante fatia eram trabalhadores desqualificados que vinham, quase exclusivamente de Cabo verde, para trabalhar na construção civil e colmatar a escassez de mão-de-obra provocada pela emigração para a Europa e pelo recrutamento militar durante as guerras coloniais (Pires 2003). Nos anos 80 inicia-se a segunda fase de imigração em Portugal (Baganha, Ferrão, and Malheiros 1999). Este período caracterizou-se não apenas pelo aumento do número de imigrantes mas também pela diversificação das suas origens (Machado 2002; Pires 2003). Com a adesão de Portugal à CEE (1985-86) o número de cidadãos de outros países europeus que escolhiam Portugal para viver e trabalhar tornou-se mais visível. Contudo, estes indivíduos representavam apenas 1% da população residente; no final dos anos 90, 2% da população; em 2009 atingiam os 4,3%. São valores não negligenciáveis e que colocam Portugal numa posição relativa semelhante à França (com 5,7% de imigrantes) e mesmo superior à Holanda (com 3,9% de imigrantes) mas, apesar de tudo, distante da Alemanha (8,8%) e mais ainda da vizinha Espanha (12,3%). As pessoas deslocam-se cada vez mais e pelas mais diversas razões. As diferentes implicações destas deslocações tornam o estudo das migrações um ponto fulcral para um conhecimento mais rigoroso da Europa actual e do Portugal contemporâneo. O estudo dos movimentos migratórios tem várias linhas de desenvolvimento. Antes de mais do ponto de vista dos diferentes actores: de quem imigra, de quem emigra, ou de quem recebe. Seguidamente da pergunta que se quer ver respondida: porque emigram os portugueses? Quais os destinos escolhidos? Quem escolhe Portugal para imigrar? E porquê? Como se sentem os emigrantes recebidos nos países de acolhimento? E como é sentida a sua chegada e vivida a sua presença por quem os recebe? Enfim, uma multiplicidade de perguntas que originam enquadramentos teóricos distintos e percursosanalíticos particulares. A pergunta que orientou esta tese inscreve-se no domínio geral do estudo das atitudes das populações acolhedoras face aos imigrantes. Este corpo de pesquisa tem vindo a documentar de forma consistente fortes reacções públicas à imigração, em geral, e aos imigrantes, em particular, que vão desde a aceitação relutante à rejeição aberta (Ceobanu e Escandell 2010). Ao nível individual, as perspectivas que têm orientado estes estudos têm evidenciado o papel de diferentes dimensões; a) factores sócio-económicos e de autointeresse (e.g. Harwood 1983; Malchow-Møller, Munch e Skaksen 2006; Sides e Citrin 2007; b) contacto com membros de exo-grupos (para uma revisão ver Pettigrew 1998b); c) identidades e valores (e.g. Ceobanu e Escandell 2008; Davidov, Meulemean, Billiet, e Schmidt 2008; Vala, Pereira, e Ramos 2006). As análises realizadas nesta tese inscrevem-se nesta última linha de pesquisa foram orientadas por duas hipóteses principais: a) ao nível individual os valores humanos (Schwartz 1992) contribuem para a compreensão da oposição à imigração over and above (para além e acima de) outros factores importantes; b) este efeito dos valores mantém-se over and above outros factores, também quando as variáveis sócio-estruturais são incluídas nos modelos estatísticos. Ou seja, confrontamos os valores com outros modelos teóricos (auto-interesse económico e capital social) e incluímos os valores ao nível individual em modelos multinível; duas estratégias que não vimos reflectidas na revisão de literatura realizada. Consequentemente, o nosso trabalho não se filia apenas nos trabalhos que estudaram os valores mas também naqueles que introduziram o efeito combinado de factores individuais e contextos sócio-estruturais nas atitudes face à imigração. Estes trabalhos analisaram a influência de factores como: a) desenvolvimento sócio-económico (e.g. Fetzer 2000; Harwood 1983; Malchow-Møller, Munch, e Skaksen 2006); b) volume de imigrantes (e.g Gijsberts, Scheepers, e Coenders 2002; 2004); c) políticas públicas relativas à imigração e aos imigrantes (e.g. Hjerm 2004; 2007); d) voto nos partidos da extrema-direita (e.g. Semyonov, Raijman, e Gorodzeisky 2006; Wilkes, Guppy, e Farris 2007. Os objectivos que visamos prosseguir e as estratégias seguidas conferiram desde o início um cunho empírico fundamental a esta tese. Sem negligenciar o papel da teoria no comando da investigação, o nosso percurso analítico baseou-se no teste empírico de hipóteses teóricas e na discussão dos resultados obtidos, e não tanto na discussão dos diferentes contributos teóricos que a ciência social tem vindo a produzir no domínio dos valores. A análise dos factores associados à oposição à imigração foi feita em dois estudos: um primeiro em que confrontámos modelos teóricos de nível individual; um segundo em que contrastámos modelos teóricos numa perspectiva multinível, ou seja, combinando factores individuais e sócio-estruturais. Para o primeiro estudo recorremos a dados do European Social Survey (ESS) de 2002; foram usadas amostras de cinco países com políticas de imigração distintas (Portugal, França, Alemanha, Holanda, e Reino Unido); confrontaram-se três dimensões individuais que correspondem a três modelos teóricos recorrentemente ligados à análise de atitudes discriminatórias (recursos económicos, recursos sociais e recursos morais). De uma forma geral, os resultados obtidos dão suporte às hipóteses colocadas: os efeitos obtidos com a inclusão dos valores humanos (auto-transcendência, poder, conservação e abertura à mudança) no modelo de análise mostraram a importância de analisar as atitudes face à imigração recorrendo a modelos ancorados em motivações e orientações simbólicas. Nos casos da França e da Alemanha, os valores não só se revelaram importantes, como os que mais contribuem para a compreensão do fenómeno. De acordo com os nossos resultados, os modelos baseados nas teorias do auto-interesse económico estão longe de ter o poder explicativo que tantas vezes lhes é atribuído. O capital social (medido através dos níveis de confiança e do grau de associativismo), mostrou uma influência superior à dos aspectos económicos. O segundo estudo expandiu a análise dos factores individuais à influência de factores socio-estruturais na oposição à imigração. O modelo testado combina teorias de nível individual (valores humanos, percepção de ameaça e preconceito racial) e teorias de nível sócio-estrutural (situação económica do país, estrutura da imigração e popularidade dos partidos de extrema direita). Os resultados obtidos sugerem que: a) a oposição à imigração é um fenómeno fundado maioritariamente em factores individuais; b) os valores humanos influenciam a oposição à imigração over and above outros factores importantes (de nível individual e sócioestrutural). A adesão aos valores do universalismo promove a aceitação dos imigrantes; contrariamente, a adesão aos valores da conservação promove a sua rejeição. Outra observação relevante é a que estabelece a associação entre políticas de integração e níveis inferiores de oposição à imigração. Os nossos resultados sugerem que as políticas que promovem a integração dos imigrantes através da simplificação dos processos de naturalização, reunificação familiar, inserção no mercado de trabalho, bem como a concessão do direito de voto a imigrantes, exercem um efeito supressor da oposição à imigração. Assim, quanto mais os imigrantes são considerados pelas autoridades como cidadãos relevantes, menos as populações ‘naturais’ os percebem como uma ameaça aos seus modos de vida ou à sua cultura e, consequentemente, menos se opõem à sua presença. Como referimos, juntamente com o universalismo e a conservação dois outros factores individuais mostraram-se fortemente associados à oposição à imigração: o preconceito racial e a percepção de ameaça. E este resultado chamou-nos a atenção para o possível duplo papel (directo e indirecto) dos valores na construção de atitudes face aos imigrantes. Para o efeito realizámos dois estudos em que analisámos os factores individuais e socioestruturais associados ao preconceito racial e à percepção de ameaça em contexto de imigração. Pudemos concluir que o preconceito racial está imbuído de carga moral e que as percepções de ameaça estão ancoradas em orientações morais e no preconceito racial. Desde o início que esta tese era sobre a relação entre valores humanos e oposição è imigração na Europa. Contudo, o caminho não foi directo: fizemos alguns desvios a que, metaforicamente, chamámos os efeitos colaterais da tese. O primeiro desvio levou-nos a testar a hipótese segundo a qual a importância que as pessoas atribuem aos valores está associada ao nível de desenvolvimento económico do seu país (Inglehart 1977, 1997). De acordo com os nossos modelos, nem o GDPppp (nível socio-estrutural), nem o rendimento do agregado familiar (nível individual) se revelaram suficientemente associados à saliência dos valores humanos de modo a dizer que os determinam. O segundo desvio levou-nos a estudar os significados associados aos valores humanos do modelo proposto por Schwartz (1992). A partir de um estudo correlacional associámos os valores humanos a quatro modelos de orientações fundamentais que têm sido amplamente usados em estudos transnacionais: valores terminais (Rokeach 1973); materialismo/pósmaterialismo (e.g. Inglehart 1977, 1990); dominância social (e.g. Sidanius e Pratto 1999); e auto-conceitos de independência e interdependência (e.g. Markus e Kitayama 1991). Os resultados permitiram-nos confirmar os significados atribuídos por Schwartz (1992) a uma das dimensões de valores supra-ordenados (abertura à mudança versus conservação). Relativamente à segunda dimensão (auto-transcendência versus autopromoção) os resultados levantam dois problemas: o significado dos valores que compõem um dos pólos da dimensão (poder e realização); e a legitimidade de considerar que estes dois valores constituem uma dimensão, ou seja, que, de acordo com os pressupostos teóricos do modelo, se baseiam em motivações semelhantes. O caminho percorrido deixou ainda alguns trilhos a descoberto, que consideramos constituírem os sucessores naturais desta tese. Manter os valores despertos, aprofundando o conhecimento dos seus significados e das suas potencialidades enquanto instrumentos heurísticos de investigação. Investir na construção de indicadores socio-estruturais subjectivos: avaliações cognitivas, emoções positivas e negativas podem ser indicadores de qualidade de vida, podem ser medidos através do tempo, podem ser comparados entre países de forma fidedigna e podem ser utilizados juntamente com indicadores socioestruturais objectivos de qualidade de vida. Procurar as interacções que se estabelecem entre os factores individuais e contextuais. No nosso caso particular, analisar de que forma os valores humanos interagem com factores socio-estruturais objectivos e subjectivos, e qual o impacto destas interacções nas atitudes face à imigração.
Descrição: Tese de doutoramento, Ciências Sociais (Sociologia Geral), Universidade de Lisboa, Instituto de Ciências Sociais, 2011
URI: http://hdl.handle.net/10451/4515
Appears in Collections:ICS - Teses de Doutoramento

Files in This Item:

File Description SizeFormat
ulsd061403_td_Alice_Ramos.pdf1,92 MBAdobe PDFView/Open
Statistics
FacebookTwitterDeliciousLinkedInDiggGoogle BookmarksMySpaceOrkut
Formato BibTex mendeley Endnote Logotipo do DeGóis 

Items in DSpace are protected by copyright, with all rights reserved, unless otherwise indicated.

 

  © Universidade de Lisboa / SIBUL
Alameda da Universidade | Cidade Universitária | 1649-004 Lisboa | Portugal
Tel. +351 217967624 | Fax +351 217933624 | repositorio@reitoria.ul.pt - Feedback - Statistics
DeGóis
  Estamos no RCAAP Governo Português separator Ministério da Educação e Ciência   Fundação para a Ciência e a Tecnologia

Financiado por:

POS_C UE