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Please use this identifier to cite or link to this item: http://hdl.handle.net/10451/4972

Título: Acquisition de la structure syllabique en contexte de bilinguisme simultané portugais-français
Autor: Almeida, Letícia
Orientador: Freitas, Maria João, 1964-
Rose, Yvan, 1971-
Palavras-chave: Língua portuguesa
Língua francesa
Aquisição da linguagem
Biliguismo
Sílabas
Interferência (Linguística)
Teses de doutoramento - 2012
Issue Date: 2011
Resumo: L’objectif principal de cette thèse est d’étudier le développement de la structure syllabique par une enfant bilingue simultanée en portugais et français. L’analyse se centre sur les patrons d’autonomie ou d’interaction des différents constituants syllabiques, de manière à contribuer au débat sur (i) quels objets linguistiques sont sujets à interaction et (ii) quels facteurs déterminent la direction de l’interaction. Spécifiquement, le développement de plusieurs constituants syllabiques est évalué : le développement des attaques simples, des attaques branchantes, des codas médiales et des consonnes en position finale de mot. Pour chaque constituant, le développement attesté chez l’enfant bilingue est comparé à celui décrit pour les monolingues portugais et français. La base empirique de cette thèse est constituée d’un corpus de productions spontanées longitudinales d’une enfant exposée au portugais et au français dès la naissance, recueillies entre l’âge de 1 an et 3 ans 10 mois. Un des principaux résultats de cette thèse est que les interactions entre les deux langues maternelles de l’enfant sont confinées à certains domaines de la grammaire : alors que le niveau segmental ne registre pas d’interférences d’une langue sur l’autre, le niveau prosodique semble particulièrement sujet à des influences. Ainsi, le développement des consonnes en attaque simple et en position finale de mot est essentiellement autonome alors que le développement des attaques branchantes et des codas est particulièrement sujet à interaction. Un autre résultat pertinent de cette thèse est que les interactions ne peuvent être expliquées par une éventuelle langue dominante puisque celles-ci ont lieu sur la même période et sont attestées dans les deux sens. Le facteur qui semble le mieux rendre compte des patrons d’interaction attestés est l’ambigüité présente dans l’input.
Esta investigação tem como objetivo principal contribuir para o conhecimento da forma como as crianças expostas a duas línguas desde a nascença adquirem as suas duas línguas maternas. Os estudos centrados na temática da aquisição simultânea de duas línguas maternas têm incidido maioritariamente na área da sintaxe, sendo os estudos da área da fonologia ainda pouco numerosos. Além disso, o conjunto dos pares de línguas estudados continua escasso (De Houwer 2009). Este trabalho contribui para o conhecimento da aquisição e do desenvolvimento fonológico estudando, em concreto, um novo par de línguas em aquisição simultânea, o Português Europeu (PE) e o Francês. Tendo em conta que o desenvolvimento segmental e silábico de crianças monolingues francesas e portuguesas está documentado, optámos por eleger como objeto de estudo o desenvolvimento silábico na sua interface com o domínio segmental de forma a viabilizar o confronto dos dados analisados neste trabalho com os padrões descritos para crianças monolingues portuguesas e francesas. A literatura na área do desenvolvimento linguístico bilingue tem discutido a importância da autonomia gramatical versus a interdependência dos dois sistemas linguísticos durante a aquisição. Enquanto que alguns autores argumentam a favor de um desenvolvimento autónomo (Keshavarsz & Ingram 2002; Brulard & Carr 2003; Lleó 2006), outros referem a existência de um determinado grau de interferência entre sistemas (Johnson & Lancaster 1998; Paradis 2001; Lleó et al. 2003). No entanto, a identificação dos fatores condicionantes desta interferência continua a ser um tema em discussão na literatura: Paradis (2001) aponta para a influência da língua dominante, porém Lleó (2002) sugere que a interferência decorre das propriedades gramaticais das línguas. Tendo em conta as questões enunciadas acima, nesta dissertação pretendemos descrever a aquisição silábica e segmental de uma criança exposta ao PE e ao Francês desde a nascença, a fim de verificar se existem interferências no desenvolvimento das duas línguas e, caso tal se verifique, avaliar os fatores que são responsáveis por essa interferência. Para tal, foi criado um corpus xvi contendo dados longitudinais de uma criança bilingue simultânea em Francês e em PE. O corpus contém 55 sessões gravadas em cada uma das línguas (de acordo com o modelo ‘um falante-uma língua’), entre os 1;00 e os 3;10. Ao longo da dissertação, é avaliado o desenvolvimento segmental em posição de Ataque simples, Ataque ramificado, Coda medial e final de palavra. Os resultados são confrontados com os descritos para o desenvolvimento das crianças monolingues portugueses e franceses. O Francês e o PE exibem um inventário segmental muito semelhante em Ataque simples: a única diferença entre os dois sistemas consiste na presença de dois segmentos líquidos adicionais em PE em relação ao Francês ([ʎ] e [ɾ]). O mesmo se verifica para os Ataques ramificados: estes só podem ser constituídos por grupos de obstruintes seguidas de líquidas nas duas línguas, e a sua distribuição é muito semelhante. No entanto, o PE e o Francês são distintos quanto à distribuição das codas mediais e das consoantes em final de palavra : o PE apenas permite [ʃ, ʒ, ɾ, ɫ] nestas duas posições enquanto o Francês não apresenta restrições segmentais a este nível, uma vez que o inventário em Coda espelha o identificado em Ataque simples. Em posição de Ataque simples, verificou-se que a criança em observação desenvolve traços de modo e de ponto de articulação de forma precoce, uma vez que apresenta nas suas primeiras produções traços tidos como problemáticos para crianças monolingues falantes de diversas línguas. Constatámos que a criança produz os pontos de articulação labial, coronal anterior e dorsal nas primeiras produções nas duas línguas. O único ponto de articulação de aquisição mais tardia é o coronal não anterior. Quanto ao modo de articulação, verificámos que as oclusivas orais e nasais, assim como as fricativas se encontram presentes desde muito cedo nas duas línguas, nas produções da criança observada. É apenas na classe das consoantes líquidas que se verifica uma aquisição mais tardia. Embora o desenvolvimento segmental apresente padrões idênticos nas duas línguas, constatou-se que este constitui um processo progressivamente autónomo. Com efeito, apesar de os momentos iniciais serem muito semelhantes em PE e em Francês, à medida que os sistemas de traços vão sendo adquiridos nas duas línguas, estes vão se diferenciando. A análise pormenorizada do desenvolvimento das consoantes em Ataque simples revelou xvii que as etapas percorridas no estabelecimento dos traços e das suas coocorrências não são idênticas nas duas línguas, não seguindo a mesma ordem. Isso traduz-se na aquisição de um mesmo segmento em idades diferentes nas duas línguas. Assim, a análise do desenvolvimento das consoantes em ataque simples mostra que este é um processo bastante autónomo nas duas línguas. No que diz respeito ao desenvolvimento dos Ataques ramificados, verificou-se que este segue padrões semelhantes nas duas línguas da criança e que estes padrões são idênticos aos descritos para as crianças monolingues francesas (dos Santos 2007), enquanto diferem dos descritos para as crianças monolingues portuguesas (Almeida & Freitas 2010). De facto, a criança bilingue tende a desenvolver as sequências que se iniciam com uma consoante labial antes das restantes; do mesmo modo, os grupos que contêm a lateral como segundo membro também tendem a desenvolver-se de forma mais precoce. Adicionalmente, a criança não apresenta um estádio sistemático de inserção de uma vogal entre os dois membros do grupo, contrariamente aos falantes monolingues portugueses (Freitas 2003). Assim, foi identificada uma interação das duas línguas no desenvolvimento dos ataques ramificados que leva a uma aceleração do desenvolvimento em PE comparativamente com os dados das crianças monolingues: enquanto esta estrutura é problemática para as crianças portuguesas até idades tardias, a criança em estudo adquire os ataques ramificados muito cedo. No que diz respeito às codas mediais, o seu desenvolvimento também segue padrões uniformes nas duas línguas da criança: as consoantes fricativas são as primeiras a serem adquiridas, seguidas das líquidas e, por último, das oclusivas em Francês. Este padrão é semelhante ao descrito para o desenvolvimento dos monolingues portugueses (Freitas 1997; Correia 2004), mas bem distinto daquele que é descrito para as crianças francesas (Rose 2000; dos Santos 2007), que geralmente desenvolvem todos os segmentos em coda quando esta posição se torna disponível no sistema, independentemente da classe segmental a que pertencem. Perante estes factos, concluímos que o desenvolvimento das codas mediais é fortemente influenciado pelo sistema fonológico do Português, existindo interação entre as duas línguas. Esta xviii interação conduz, desta vez, a um atraso do desenvolvimento das codas em Francês. Relativamente ao desenvolvimento das consoantes em posição final de palavra, este parece essencialmente autónomo nas duas línguas da criança. De facto, a criança parece atribuir diferentes papéis silábicos às consoantes em final de palavra nas suas duas línguas, em conformidade com as propriedades distribucionais presentes nas duas línguas-alvo. As consoantes finais em Francês parecem ser analisadas como ataques de sílaba com núcleo vazio, o que origina uma epêntese frequente. Por oposição, a fricativa final em Português parece ser sempre analisada pela criança como Coda, uma vez que a epêntese final não é atestada. Quanto às líquidas, verificámos que a criança oscila na atribuição dos seus papéis silábicos e argumentámos que tal se deve às propriedades da línguaalvo, que fornece indícios para uma silabificação tanto em Coda como em Ataque de sílaba com núcleo vazio. Mostrámos, no entanto, que a lateral é num primeiro momento analisada como Ataque de sílaba com núcleo vazio mas que numa fase posterior é reanalisada como Coda, momento em que a criança a produz com o formato velarizado. De uma forma geral, argumentámos contra a proposta de Goad & Brannen (2003) segundo a qual todas as consoantes finais são num primeiro momento analisadas como Ataque de sílaba com núcleo vazio. Propomos que apenas aquelas cujo input é ambíguo são silabificadas como tal por defeito. Os dados empíricos registados apontam para o condicionamento prosódico sistemático das interações interlinguísticas atestadas. Desta forma, propomos que o nível suprassegmental é vulnerável a influências interlinguísticas enquanto o nível segmental é muito mais robusto e não apresenta estas interferências. Os nossos dados sugerem, portanto, que as interferências afetam apenas certos domínios gramaticais e não outros, o que vai ao encontro de propostas estabelecidas no âmbito de estudos em sintaxe (Müller & Hulk 2000; Patuto et al. 2011). Por outro lado, os nossos dados apontam ainda para um duplo efeito do bilinguismo, que tanto pode dar origem a um aceleramento ou a um atraso no desenvolvimento de determinadas estruturas, nomeadamente no que diz respeito aos Ataques ramificados e às Codas mediais. Por último, os resultados desta dissertação contradizem predições baseadas na xix influência de uma eventual língua dominante: a interferência atestada nos dados da criança é bidirecional e ocorre no mesmo período do desenvolvimento. Por isso, no seguimento de anteriores propostas (Müller & Hulk 2000), sugerimos que o fator responsável pelas interferências atestadas esteja ligado à ambiguidade presente no input que a criança recebe.
Descrição: Tese de doutoramento, Linguística (Linguística Portuguesa), Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, 2012
URI: http://hdl.handle.net/10451/4972
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