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Please use this identifier to cite or link to this item: http://hdl.handle.net/10451/5396

Título: Patterns of otter (Lutra Lutra) distribution and man-otter conflicts in river Sado basin : conservation implications
Autor: Pedroso, Teresa Marta Pacheco de Sales Luís Sampaio, 1974-
Orientador: Reis, Margarida Santos, 1955-
Bissonette, John A.
Palavras-chave: Lontra
Distribuição
Água
Monitorização
Piscicultura
Teses de doutoramento - 2012
Issue Date: 2011
Resumo: The Eurasian otter (Lutra lutra), a protected predator, competes with man for water, in drier regions, and for fish in important fish rearing areas. This thesis addresses man-otter conflicts, by examining: i) otter distribution and persistence in a waterscape facing natural water shortage, yet aggravated by human activities; and ii) otter damages in fish rearing areas, to further understand the level of conflict and of reconciliation needed. The IUCN Otter Specialist Group recommends a standardized 10x10 km UTM grid for monitoring otter distribution and trends. As a result of the national survey, otters were downgraded to a “Least Concern” category in the 2005 Portuguese Red Data Book. However, by interpreting a continuous distribution at the coarse 10x10 km resolution, serious threats to local otter populations, like climate change and increased water scarcity, may be overlooked. To assess the effect of survey resolution, otter distribution in the Sado river basin was evaluated at three scale resolutions (10x10, 5x5, and 2.5x2.5 km). Results confirmed that even though otters were widely distributed, the 10x10 grid cell protocol is too optimistic and misleading when local management decisions are involved and conservation planning is needed. A monitoring protocol is suggested to improve conservation management in Mediterranean areas of intermittent water flow. Many Portuguese fish farms are located in estuarine protected areas. The degree of conflict between otter conservation and fish farming was assessed at Sado river estuary by using otter visiting rates to fish farms and the otter consumption of commercial fish. Otter damage was assessed by combining the percentage of consumption of reared species with otter daily food consumption, daily visitation rates and number of otters visiting each fish farm. Landscape descriptors were analyzed to identify key landscape factors for damage. Results indicate high visiting rates to most fish farms although in only a few commercial fish were the most consumed prey. Distance to streams and refuge cover areas were identified as key landscape features to damages. This information can be used as a management tool in landscape planning as high risk farms can be identified and selectively protected, diminishing other hostile actions towards the otter.
A pegada humana nos ecossistemas terrestres e a forma como o Homem influencia a sua dinâmica sugerem a necessidade de integrar os esforços de conservação com as actividades humanas para que os primeiros sejam eficazes. É, por regra, aceite que as Áreas Protegidas são uma componente imprescindível numa estratégia de conservação, mas ainda assim insuficiente para a salvaguarda do futuro dos ecossistemas e da biodiversidade. Inúmeras espécies ameaçadas e seus habitats não são abrangidos por Áreas Protegidas ou dependem não apenas destas mas também dos habitats circundantes. Apesar do seu vasto impacte, o Homem soube, por vezes, alterar os ecossistemas de uma forma mais sustentável e até importante do ponto de vista da biodiversidade. De facto, existem áreas em que a influência antropogénica é histórica e foi mantida a um nível de perturbação intermédio, permitindo criar um novo sistema onde as actividades humanas e os processos naturais são interdependentes, maximizando a rentabilidade, a biodiversidade e os interesses culturais aí contidos. Exemplos são os montados e as pseudo-estepes cerealíferas do Alentejo português. Estas paisagens antrópicas são economicamente viáveis, detentoras de um elevado valor paisagístico, cultural e de lazer e ainda ricas em biodiversidade. Fica assim claro que as paisagens modificadas são importantes para a conservação da biodiversidade e que não devem ser abandonadas ou exploradas a níveis de intensidade que destruam o efeito benéfico do nível intermédio de perturbação tradicional. O entendimento de quais os regimes de gestão em que as espécies nativas podem manter populações viáveis é um dos maiores desafios contemporâneos da conservação da natureza. Além de definir os regimes de gestão onde as espécies são capazes de sobreviver, é igualmente importante evitar e/ou conciliar os conflitos que surgem do uso compartilhado do espaço e dos recursos. Os conflitos podem ser particularmente controversos quando os recursos em causa têm valor económico e as espécies envolvidas são legalmente protegidas. A lontra Euroasiática (Lutra lutra Linnaeus, 1758), cuja distribuição abrange quase toda a região Paleártica, é um carnívoro terrestre na sua essência, mas que se adaptou a ambientes aquáticos (rios, lagos, reservatórios, estuários e águas costeiras), onde se movimenta e alimenta, maioritariamente de peixe. A lontra, na totalidade da sua distribuição, tem o estatuto de ameaça de "Quase Ameaçada" atribuído pelo IUCN -União Internacional para a Conservação da Natureza (2011). Além disso, está listada em várias convenções internacionais sendo uma espécie estritamente protegida a nível europeu: Anexo II da Convenção de Berna, anexos B-II e B-IV da Directiva Habitats e Anexo IA da Convenção de Washington (CITES). A nível nacional, onde a população de xii lontras é aparentemente estável e abundante, a espécie está classificada como "Pouco Preocupante" (2005). Sendo um predador piscícola amplamente distribuído, mas protegido, a lontra é um bom modelo para abordar conflitos entre a conservação de vertebrados e o uso dos recursos biológicos pelo Homem. Os ecossistemas de água doce do Mediterrâneo sofrem eventos sazonais de seca no verão e enchentes na estação chuvosa, que variam muito numa escala multi-anual e contribuem para uma elevada variabilidade natural das condições de caudal. As espécies nativas são historicamente resistentes a este sistema altamente variável, mas, cenários de mudança climática futura indicam uma tendência de redução da precipitação global e aumento da variabilidade inter-anual. Este factor de stress é certamente exigente para as populações de lontra e actua sinergeticamente com outras alterações impostas pelo Homem aos ambientes aquáticos. A gestão dos cursos de água e das actividades humanas, certamente influenciam a persistência de água nos leitos na época seca e, consequentemente, a manutenção de populações viáveis de espécies aquáticas, inclusive a lontra, e a sua viabilidade a longo prazo. As interacções Homem-lontra incluem assim competição por água, nas regiões mais secas, e pelo peixe em áreas de pesca de rio ou de piscicultura. Em áreas de piscicultura em Portugal, maioritariamente viveiros de trutas em rios da montanha e tanques de criação de peixes marinhos em estuários e rias, os prejuízos causados pela lontra podem influenciar a gestão e os lucros dos piscicultores, pelo que muitas vezes a presença espécie não é apreciada. Esta dissertação aborda o conflito entre a conservação da lontra e o uso dos recursos biológicos pelo Homem, através da análise e avaliação da: i) distribuição e persistência de lontra numa bacia hidrográfica com escassez natural de água, potencialmente agravada pela acção humana e da ii) predação e prejuízos causados por lontra em áreas de piscicultura marinha, nível de conflito e acções necessárias com vista à reconciliação. A maioria dos dados recolhidos e utilizados nesta dissertação são relativos à bacia do rio Sado, localizada no Alentejo. Esta é a bacia Portuguesa com menor volume anual de água de superfície por unidade de área. Muitas linhas de água de menor ordem na bacia são intermitentes, secando parcialmente ou completamente durante o verão. O estuário tem uma forte influência humana dada a proximidade a Setúbal, uma cidade densamente povoada e associada a um grande complexo industrial. No entanto, o seu valor ecológico, científico e económico é reconhecido nacional e internacionalmente. Está incluído na Reserva Natural do xiii Estuário do Sado e também internacionalmente classificado como: Sítio Natura 2000, parcialmente por causa da presença de lontras; zona de Protecção Especial de Aves; e Sítio Ramsar. É também aqui que está licenciada uma parte significativa das pisciculturas marinhas do país. Avaliar se a resolução a que são feitos os estudos de distribuição de lontra poderá estar a inspirar um excesso de confiança sobre o estado da população face às ameaças existentes, incluindo a escassez de água em ambientes com linhas de água intermitentes e previsivelmente sujeitos a um aumento das pressões climática e antropogénica, é a primeira questão abordada no âmbito desta dissertação - Tema 1. Trabalhos recentes em ecologia da paisagem sublinham a importância das considerações de escala em estudos de diversidade biológica e conservação. O IUCN Otter Specialist Group (OSG), com o intuito de padronizar resultados e assim melhor avaliar o efeito conjunto das tendências populacionais de lontra existentes nos vários países onde a espécie ocorre, recomenda o uso da grelha UTM de 10x10 km para aferição das distribuições nacionais da espécie e monitorização das populações. A recente classificação com o estatuto de ameaça de “Pouco Preocupante” em Portugal resulta maioritariamente da ampla distribuição da espécie a nível nacional à escala de 10x10 km e contrasta com o estatuto “Vulnerável” que lhe fora previamente atribuído e que justificava a sua utilização como uma espécie-bandeira na conservação dos ambientes aquáticos. No entanto, ao interpretar a distribuição como continua à escala de resolução de 10x10, o novo estatuto de ameaça pode estar a induzir despreocupação e, como resultado, podem ser ignoradas algumas ameaças a nível regional. Para avaliar o efeito da escala de resolução nos resultados da distribuição de lontra na bacia do rio Sado esta foi avaliada em ambas as estações, húmida e seca, fazendo variar o tamanho da quadrícula usada para dividir a área a amostrar. Foram efectuadas prospecções utilizando o método aconselhado pelo IUCN OSG (máximo de 600 m prospectados por linha/massa de água considerando a quadrícula positiva para lontra assim que um indício é encontrado) em três escalas de resolução diferentes: 10x10, 5x5, e 2.5x2.5 km (Artigo 1). Os resultados validam a preocupação que originou o estudo. A resolução da escala de amostragem teve efeitos significativos na avaliação da distribuição da lontra com o número de presenças a diminuir com o aumento da resolução da escala de amostragem. Tornou-se claro que não há uma só escala de resolução ou extensão correcta, mas claramente é importante fazer corresponder a resolução aos padrões e processos que estão a ser avaliados. Os dados indicam que, no Alentejo, a lontra distribui-se no ambiente de uma forma só detectável utilizando uma resolução maior do que a xiv resolução padrão recomendada pelo IUCN OSG. Além disso, as mudanças observadas na ocupação de lontra entre as épocas húmida e seca reforçam a importância dos habitats com água persistente ao longo de todo o ano (ex., os rios maiores e os pêgos que se formam no verão) e da sua gestão cuidada. As alterações climáticas previstas agravarão a época de seca nesta bacia, pelo que a gestão da água é uma questão crucial para todo o ecossistema de água doce do Sado e para a conservação da lontra. As acções humanas podem influenciar positiva ou negativamente a presença e persistência de lontra numa área. O uso e gestão da água em ribeiras de menor caudal podem alterar drasticamente a resistência natural das linhas de água à seca (ex., captação de água para as culturas). A lontra reproduz-se com maior frequência em habitats complexos e estáveis. Assim, sendo impossível manter água nas linhas de água de menores dimensões (por pressões e uso humano), os esforços de conservação devem concentrar-se nas zonas intermédias da bacia, de forma a assegurar a viabilidade da população local de lontra. Portugal é considerado ter uma das populações de lontra mais viáveis na Europa, sugerindo alargadas responsabilidades e obrigações na conservação da espécie. O recente e inesperado decréscimo abrupto da população de lontras das ilhas Shetland, Escócia (outro local considerado como tendo um a população saudável de lontra) mostra como é importante monitorizar as populações de lontra e suas presas e tentar prever possíveis ameaças. A resolução padronizada de 10x10 km é útil quando se tenta avaliar a evolução da população europeia ou nacional de lontra mas, com base no presente trabalho, pode ser demasiado optimista quando as decisões de gestão regional/local estão envolvidas e é necessário planeamento para conservação da espécie. A escala de resolução de 10x10 km é eficaz na detecção de mudanças positivas na distribuição, isto é quando a população está em expansão; inversamente, no entanto, pode ser muito lenta na detecção do declínio da população. O argumento é baseado na territorialidade da lontra e na presunção abalizada de que as lontras, em situação de escassez de água, primeiro ocuparão os habitats mais estáveis, ou seja, os rios de ordem superior, onde são também mais facilmente detectadas, dado que a prospecção na quadrícula se inicia normalmente pelos habitats com maior potencialidade de ocupação. No entanto, quando as populações estão em decréscimo, ficarão ausentes primeiros nos habitats de menor qualidade, onde usando uma baixa resolução a ausência é dificilmente detectada. Assim, se apenas usada a escala de 10 x 10 km, a quadrícula pode ser considerada positiva para lontra, mesmo quando as condições dos rios e população de lontra estão em declínio. Se isso ocorrer, a aplicação de medidas de conservação num período de tempo útil e enquanto economicamente eficientes podem ser mais difícil. xv Uma abordagem viável para o problema da escala de monitorização evidenciado com o presente trabalho seria identificar áreas onde a espécie é mais vulnerável a ameaças naturais e antrópicas (aplicável também a outras áreas do Mediterrâneo com caudais intermitentes) e avaliar a distribuição de lontra nessas zonas a uma escala mais fina de resolução, e no período mais detrimental (estação seca). Na bacia do Sado a grelha de 2.5x2.5 km parece a escolha mais apropriada para uma subamostra focada no controlo eficaz das populações de lontra, quando são necessárias informações sobre o estado da população local, face a ameaças reais e potenciais, e estão envolvidas decisões de gestão local relativas a linhas de água e habitats ribeirinhos. A subamostragem a escala mais fina deve ser coordenada com a pesquisa a nível nacional, seguindo a metodologia estandardizada do IUCN OSG, que é repetida, na maioria dos países, no máximo a cada 10 anos. O investimento na pesquisa a maior resolução é justificado, no caso do Sado, pela combinação de factores que estão aí a actuar: i) aumento da variabilidade inter-anual e redução da precipitação total, o que prorroga o período de seca; ii) consequentes alterações nas comunidades de presas, na dieta da lontra e na carga de poluição, com efeitos desconhecidos sobre a persistência e viabilidade da população de lontra. Com o declínio dos stocks populacionais de peixe de todo o mundo, a importância das actividades de aquicultura, em particular naquelas regiões onde os peixes são uma importante fonte de alimento humano, ganhou relevância, tanto em termos económicos como de bem-estar humano (por exemplo, acesso mais fácil e barato aos produtos de peixe), e isso foi reconhecido através dos incentivos da União Europeia a esta actividade económica. Tais incentivos foram aplicados na região do Mediterrâneo, onde as pisciculturas podem ser encontradas tanto em terra como em áreas costeiras. A região, no entanto, também é rica em espécies predadoras de peixe (ex., lontra, corvo-marinho, garças) e, portanto, as pisciculturas são altamente propensas a predação, levando a conflitos entre a produção e os interesses de conservação. Esta potencialidade para o conflito levou Portugal a ser um dos oito países incluídos num projecto Europeu cujo objectivo foi desenvolver um quadro processual para a elaboração de planos de acção para conciliar os conflitos entre a conservação de grandes vertebrados e o uso dos recursos biológicos (FRAP – Framework for Biodiversity Reconciliation Action Plans – EU Contract EVK2-CT-2002-00142), usando vários tipos de pesca e três espécies piscívoras de predadores vertebrados como casos-modelo. Portugal, a Alemanha e a República Checa analisaram o caso da lontra e da piscicultura. xvi Abordar o impacte da predação de lontra sobre a piscicultura em Portugal e tentar quantificar os danos específicos causados numa zona de conflito, o estuário do Sado, foram os objectivos do Tema 2 desta dissertação. Para avaliar o nível de conflito existente em Portugal, foi feito um inventário das explorações piscícolas e, seguidamente, realizadas entrevistas aos proprietários, e algumas visitas a instalações, para avaliar a presença de lontra e a percepção dos danos causados pela espécie (Artigo 2). Os resultados mostraram que a lontra é uma presença frequente em áreas de piscicultura (40% dos resultados positivos para a presença de lontra) e que os piscicultores consideram a sua presença um problema, usando diferentes métodos de protecção e/ou dissuasão (ex. sebes, cães) ou a perseguição directa (tiro, armadilhas, ou veneno) para reduzir o impacte deste predador. Em Portugal a maior parte da produção em piscicultura é referente a peixes marinhos e feita em estuários e rias, em regimes semi-intensivos, em tanques de terra, muitas vezes anteriormente utilizados para produção de sal. Muitas destas pisciculturas estão localizadas em Áreas Protegidas e a produção é feita com a imposição de algumas regras restritivas, dado o enquadramento numa área classificada. O estuário do Sado alberga uma parte significativa das pisciculturas marinhas de regime semi-intensivo existentes e foi por isso escolhido como área de estudo. No estudo foram integradas 14 pisciculturas que produzem em policultura de regime semiintensivo maioritariamente as seguintes espécies: dourada Sparus aurata, robalo Dicentrarchus labrax, e linguado Solea senegalensis e Solea solea. O objectivo do estudo foi avaliar a frequência com que cada piscicultura foi visitada por lontra, quantificar o consumo de espécies comerciais de peixe (espécies produzidas com investimento financeiro dos piscicultores) por lontra, quantificar os prejuízos causados e analisar a relação da localização da piscicultura como nível de prejuízo. Durante um ano, a taxa de visitação de lontra (VR = nº de visitas positivas /nº total de visitas; visita positiva = presença de lontra) foi avaliada através da prospecção semanal do perímetro de cada piscicultura por indícios de lontra (e.x. dejectos e pegadas). Os dejectos foram analisados em laboratório para determinação da dieta da lontra. Sempre que possível as presas foram identificadas à espécie e calculado o número mínimo de indivíduos consumidos. Para estimar o tamanho das presas consumidas foram utilizadas rectas de regressão (Artigo 3). Foram ainda realizadas prospecções adicionais para avaliar o número de lontras a utilizar cada piscicultura. Durante oito dias consecutivos o perímetro de cada piscicultura foi prospectado ao xvii nascer do sol e foram recolhidos dejectos frescos de lontra para análise molecular e identificação genética ao indivíduo com recurso a microssatélites (Artigo 4). O impacte da predação da lontra (prejuízos) em cada piscicultura foi avaliado através da combinação da percentagem de consumo de espécies produzidas, do consumo médio de uma lontra por dia (peso ingerido), das taxas de visitação e do número de lontras a utilizar cada piscicultura (Artigo 4). Foram também analisados, através de Regressão Linear Múltipla, os factores de paisagem com influência nos danos causados para identificar os factores-chave para o nível de prejuízo (Artigo 4). Os resultados indicam que o conflito tem uma base ecológica, embora existam grandes diferenças entre a predação real e a percepção da mesma. Na maioria das pisciculturas os resultados indicam elevadas taxas de visitação por lontra (média: 76%), embora em apenas 29% as espécies produzidas tenham sido as presas mais consumidas. Outras espécies marinhas e de água doce foram as presas base da dieta de lontra nas pisciculturas restantes. Dados ecológicos sugerem que o linguado é a principal presa em termos de biomassa para as lontras no estuário do Sado. A disponibilidade de linguado fora das pisciculturas sugere que as lontras estão a capturá-lo também no estuário. No entanto, não foi possível confirmar se estes são capturados maioritariamente fora ou dentro das pisciculturas. Ainda assim, como essa espécie não representa uma parte significativa da produção de peixe, esta perda por predação não está a ameaçar a viabilidade económica da actividade. As perdas na produção de peixe variaram entre 0.01 e 0.30% para dourada, entre 0.03 e 0.11 % para robalo, e entre 1.04 e 28.20% para linguado. O impacte da predação por lontra no total da área de produção, tendo em conta a densidade dos stocks, de peixe nos tanques, a taxa média de visitação por lontra e a densidade local obtida para a espécie, representa unicamente 0.60% da produção total. Os resultados mostram, assim, que o impacte da lontra não é importante a nível da área de estudo, mas varia entre pisciculturas e pode ser de importante ao nível da produção de estabelecimentos específicos. A menor distância das pisciculturas às linhas de água doce e a áreas de refúgio foram identificadas como características da paisagem que potenciam o prejuízo por predação por lontra. Esta informação pode ser usada como uma ferramenta de gestão no planeamento da paisagem, especificamente em estuários com actividade de piscicultura, dado que pisciculturas de alto risco podem ser identificadas e selectivamente protegidas. xviii Esta situação sugere que diferentes soluções devem ser recomendadas para cada piscicultura, promovendo o uso de medidas de mitigação nas explorações em que os prejuízos são elevados, e investindo em actividades educativas sobre aqueles em que os prejuízos não são significativos, mas percepcionados como tal. Embora isto possa ser visto como a abordagem mais eficaz para resolver o conflito na perspectiva ecológica, pode ser inaceitável em termos sociais. No actual cenário ambiental e económico, a predação por lontra em áreas de piscicultura deve ser visto como um verdadeiro problema de conservação e gestão, sendo essencial desenvolver estratégias capazes de proporcionar uma efectiva reconciliação deste conflito (Artigo 5). A questão da predação nas pisciculturas do Estuário do Sado poderá ser responsável por um conflito social notoriamente bipolarizado em torno de dois grupos-chave. Por um lado os piscicultores estão cientes da existência de predação por lontra e utilizam meios, por vezes ilegais, para manter as lontras à distância. Por outro lado, os técnicos e gestores da Reserva Natural do Estuário do Sado, a autoridade responsável pela gestão da área protegida, também estão cientes da predação, bem como da fragilidade do sistema de fiscalização e controle de acções ilegais decorrentes da proibição do uso da maioria das medidas para prevenir a predação dentro da reserva. Como consequência do projecto FRAP, as partes interessadas consideram que é importante encontrar novas soluções e aumentar o diálogo entre os diferentes intervenientes, mas também chegar a acordo sobre a existência de uma incerteza significativa sobre a capacidade de colocar em acção novos instrumentos de gestão (por exemplo, medidas de redução da predação). Recomendamos que os piscicultores sejam autorizados a utilizar cercas eléctricas em torno das lagoas de produção, para evitar a predação, talvez até mesmo quando os prejuízos reais não são elevados, uma vez que este não terá um grande efeito sobre a população de lontra, razoavelmente bem distribuída e aparentemente abundante, que habita a área. O caminho a seguir é o de promover orientações sobre melhores práticas que irão aumentar a conscientização sobre a necessidade de conservação da biodiversidade e impedir as operações que teriam um impacte adverso sobre a população de lontras e outros valores da vida selvagem importante. A piscicultura, especificamente em regime semi-intensivo, é conciliável com a conservação, se algumas medidas de gestão forem tomadas em termos de salvaguarda do ambiente e do desenvolvimento da actividade. Os piscicultores no estuário do Sado têm reconhecido que eles estão em uma situação económica difícil e que sua sobrevivência depende da capacidade de diferenciar os seus xix produtos, ganhando vantagens competitivas no mercado. Neste contexto de dificuldades económicas, é mais difícil para os piscicultores entender a necessidade de preservar a lontra, que sentem como uma ameaça à sua actividade económica, por causar prejuízos. Tendo isso em mente, bem como a necessidade de conciliar esta actividade económica com a conservação, esta é uma boa oportunidade para a criação de um esquema destinado a promover a sustentabilidade ecológica e económica da piscicultura no estuário, como por exemplo a criação de um sistema de rotulagem de peixe de "produção sustentável". A eco-rotulagem e os esquemas de certificação começaram recentemente a ser usados em aquacultura e poderão ser uma opção. A lontra, como os golfinhos, têm uma imagem pública popular no estuário do Sado. A educação ambiental pode contribuir para mudar a atitude para com as lontras. Se os piscicultores considerarem a protecção da lontra como um estorvo na produção de peixe, o objectivo simples de protecção será colocado em risco. Idealmente os piscicultores devem ser capazes de valorizar a existência da espécie, mesmo que medidas de mitigação devam ser aplicadas para evitar que cause prejuízos. Isto pode ser conseguido quando os sistemas de certificação associados às questões ambientais são implementados, como mencionado acima, ou aumentando o potencial para o desenvolvimento de novas actividades paralelas, como resultado da presença de uma biodiversidade elevada (por exemplo, turismo de natureza).
Descrição: Tese de doutoramento, Biologia (Ecologia), Universidade de Lisboa, Faculdade de Ciências, 2012
URI: http://hdl.handle.net/10451/5396
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