Utilize este identificador para referenciar este registo: http://hdl.handle.net/10451/8975
Título: From "A man without a country" to "An american by choice":John dos Passos and migration
Autor: Oliveira, Miguel, 1979-
Orientador: Cid, Teresa, 1949-
Palavras-chave: Dos Passos,John,1896-1970 - Crítica e interpretação
Emigração e imigração - Na literatura
Teses de doutoramento - 2013
Data de Defesa: 2013
Resumo: Conventional Dos Passos’s scholarship is generally based on a literary approach, which concentrates on aesthetics in his early novels. In recent years, studies were also made on the writer’s social beliefs, his political shift from the left to the right, along with investigations on historical facts that Dos Passos interweaved in his work. Still missing is a comprehensive assessment on the writer’s position towards the issues of migration. The main objective of this study is thus to scrutinize and inquire into John Dos Passos’s entire fictional and non-fictional work––that will comprehend our corpus of analysis––in which Dos Passos captures several types of migrants with their hopes and disillusions. Furthermore, we illuminate how three Dos Passos generations (his grandfather, his father, and John Dos Passos himself) approached and responded to the migration subject. Manoel Joaquim dos Passos (the writer’s grandfather) emigrated to evade military service and not, as so often claimed, because of some “stabbing incident.” We clarify several aspects of his life in America as a poor shoemaker, explaining how one of his sons, John Randolph Dos Passos was able to ascend in the American status quo, becoming a self-made-man. Moreover, we explore John Randolph’s ideas on migration and on assimilation. Finally, we analyze John Dos Passos as a migrant himself, including among other as a military and as an internal migrant, an expatriate, but also as a non-migrant (that is, as an international, domestic, cultural, health, congress, as a family heritage tourist, or as a freelance correspondent). In addition, we look into how John Dos Passos documents or describes migration during his lifetime and in previous periods of the history of the United States. We argue that until 1938 migration is mostly portrayed as an unsuccessful endeavor, the American dream being considered a mere utopian idea, whereas from 1939 onwards his viewpoint changes, i.e., he now faces migration to the U.S.A. more optimistically, considering that people can improve their lives in America. Our study is complemented by a definition of the various types of migration, a chronology that depicts the main facts on the life and work of John Dos Passos and his ascendents, and two appendices which consist of archive documents that support our examination.
A vida e obra do escritor norte-americano John Dos Passos foram até hoje examinadas sob muitos ângulos. Especial atenção foi dada à sua técnica experimental e vanguardista, bem como às suas crenças sociais. Similarmente, estudos biográficos e avaliações históricas foram publicados. Outros estudiosos centraram as suas análises na mudança da opinião política de John Dos Passos que partiu da esquerda radical para o conservadorismo. O que falta, porém, e o que o presente estudo enfoca, é uma análise inclusiva sobre John Dos Passos e a migração. Até agora, apenas alguns estudiosos fizeram referências à migração em obras de John Dos Passos. Mas não se dedicaram a um estudo exclusivo e abrangente sobre o assunto em questão. Quando o tema da migração é mencionado, normalmente é feita uma referência a Manoel Joaquim dos Passos, avô do escritor, que deixou a Ilha da Madeira em 1830 com destino a Baltimore, nos Estados Unidos. No entanto, nós não associamos John Dos Passos só à migração de seu avô; o próprio escritor foi repetidamente um migrante. Para além de ter passado a sua infância fora do país em que nasceu, John Dos Passos deve ser considerado um imigrante em Espanha, onde ainda jovem frequentou cursos de arquitectura, e filologia. Também foi um não-migrante (non-migrant) durante as muitas viagens a outras regiões ou países como turista, ou como correspondente freelance no Pacífico e na Alemanha do pós-guerra, bem como argumentista em Hollywood e, finalmente, como mediador enviado ao Equador e à República Dominicana em representação do New World Ressetlement Fund. Para além disso, foi um migrante militar (military migrant) durante a Primeira Guerra Mundial, durante a qual serviu como motorista de ambulâncias, tendo depois permanecido na Europa e tirado um curso superior de antropologia na Universidade de Sorbonne. Discutimos o conceito de “expatriados”, referindo-o a artistas que se instalaram na Europa, imediatamente após a Primeira Guerra Mundial, e reflectiremos como Dos Passos encarou este movimento, para de seguida concluir se Dos Passos terá sido ou não um expatriado em França. Adicionalmente John Dos Passos tornou-se um migrante interno, quando se mudou de Connecticut para Cambridge, para Nova Iorque e Provincetown, ou quando se mudou para a Virgínia e, finalmente para Baltimore, no estado de Maryland. Interessar-nos-emos em analisar como John Dos Passos documentou e descreveu aspectos migratórios nas suas obras, já que os seus escritos espelham a sua posição em relação à migração. Quanto à estrutura do nosso trabalho, devemos referir que o mesmo foi dividido em duas partes. A primeira investiga a família de John Dos Passos, começando pelo seu avô, sobre cuja vida se apresentarão novos factos, enquanto outros serão corrigidos, tais como as verdadeiras razões para a emigração de Manoel Joaquim dos Passos que não deixou a Madeira por causa de uma disputa violenta, como alega John Dos Passos na sua autobiografia The Best Times, mas porque queria, como tantos outros emigrantes portugueses no passado, fugir ao serviço militar. O facto de ter requerido um passaporte serve de apoio a esta nossa convicção. Descrevemos a vida na Madeira no tempo de Manoel, e as circunstâncias nas quais a sua família lá vivia. As informações são inferidas a partir do testamento de António dos Passos, pai de Manoel Joaquim. Para contrastar a emigração de Manoel com a de seus contemporâneos, estudamos como e porquê outros madeirenses emigravam, fugindo à lei da emigração portuguesa, focalizando detalhadamente a emigração clandestina. Representamos a viagem, bem como a chegada dos emigrantes aos Estados Unidos, e a sua migração interna em busca de oportunidades de trabalho. Paralelamente distinguimos entre a vida de Manoel e a vida de outros imigrantes portugueses nos EUA incluindo nesta reflexão o casamento de Manoel Joaquim dos Passos com uma americana, a sua vida familiar na América, a sua ocupação profissional e o seu status no país de acolhimento. Ulteriormente focamos John Randolph Dos Passos — pai de John Dos Passos — que nasceu na América. Abordaremos a sua educação, elucidando o que significou o desejo de seu pai para que John R. se tornasse sacerdote. Identificamos John R. como um self-made-man que, por se tornar um dos mais afamados advogados de Wall Street, conseguiu realizar o seu sonho americano. Ao longo da sua história de vida, concluimos que a América era afinal a terra das oportunidades, embora John R. Dos Passos tivesse que renunciar a alguns aspectos que o identificariam como filho de um português, visto que poderiam tê-lo prejudicado no início. Assim, por exemplo, tentou esconder o seu nome latino. John R. parece ter ocultado a sua ascendência portuguesa no início da sua vida; só depois de ter atingido o sucesso é que se gabava de ser por metade português. Visto John R. também ter escrito sobre o tema da migração na sua obra The Anglo-Saxon Century, comentamos estas suas ideias de forma racional. Finalmente focamos as circunstâncias em que John Dos Passos se tornou um migrante, bem como os seus pontos de vista sobre a migração. O demudamento político de John Dos Passos da esquerda para a direita influenciou também a sua perspectiva quanto a migração. No início da sua vida, embora não olhe o percurso do migrante como uniforme ou necessariamente positivo, Dos Passos é a favor da migração sem quaisquer restrições. Simpatiza com os imigrantes nos Estados Unidos da América, entre eles anarquistas, como David Gordon e os italianos Sacco e Vanzetti. John Dos Passos questiona a assimilação do imigrante no contexto da vida industrial americana, que muitas vezes entende como insalubre e desumana. Em vez disso, Dos Passos parece defender uma abordagem pluralista, argumentando, por exemplo, a favor do estilo de vida em Espanha, país onde as pessoas viveriam de forma alegre, ainda que pobres, trabalhando na agricultura e vivendo, por isso, de forma saudável, num vínculo estreito com a natureza. Dos Passos também defende os negros na América tendo escrito várias cartas em defesa dos Scottsboro boys que tinham sido acusados de violar duas raparigas brancas. Contudo, com o decorrer do tempo, ao tornar-se conservador, Dos Passos muda de opinião. Continua pluralista, mas exige dos novos imigrantes que se assimilassem politicamente visto que já não simpatiza nem com o anarquismo nem com o comunismo; não queria pois que estas ideologias, que considera fracassadas, fossem introduzidas nos Estados Unidos, razão pela qual passa a apoiar Joseph McCarthy, o qual era a favor da deportação de imigrantes que defendiam ideias anarquistas ou comunistas. No entanto, o curso de acção política de McCarthy, que passou, não apenas por negar a entrada no país a comunistas, mas também pela perseguição indiscriminada de comunistas já instalados nos EUA e de simpatizantes (ou presumidos simpatizantes) que ocupassem cargos públicos irrita o escritor. Este assiste Coco Robles, cujo pedido de imigrar para os Estados Unidos foi indeferido; ou Shmuel Marcus, que então se encontrava em processo de deportação; apoia ainda o seu amigo Horsley Gantt, quando este foi acusado de ser comunista, e arriscava assim ser exonerado da sua posição como cientista na Universidade John Hopkins. Foi então que Dos Passos toma posição contra as medidas do macarthismo, mantendo, no entanto, que o comunismo teria de ser combatido. Torna-se assim irónico que John Dos Passos não tenha sido poupado a uma investigação levada a cabo pelo F.B.I. e o I.N.S. (Serviço de Imigração e Naturalização dos EUA), que conjuntamente estudam a possibilidade de desnaturalização ou deportação do escritor norteamericano de ascendência lusa, por causa da sua inicial aprovação dos movimentos comunistas. Embora agora, nos anos cinquenta, já tenha assumido uma posição conservador, Dos Passos opõe-se ao sistema de quotas que tinha sido introduzido no início dos anos vinte. Defende que os refugiados, que não eram comunistas, nem nacional-socialistas ou fascistas, fossem autorizados a entrar nos Estados Unidos. Na óptica do autor, a democracia americana era ainda um modelo para o mundo, significava um novo refúgio, e assim, a administração norte-americana tinha de permitir a entrada de pessoas que sofriam e temiam serem perseguidas por motivos políticos, religiosos, ou de raça nos seus países. A única restrição com a qual Dos Passos concorda foi a de limitar a entrada ilícita de (índios) mexicanos, que cruzavam a fronteira diariamente, porque tal imigração clandestina, assim acreditava, não seria sustentável. Dos Passos também defende os negros na América tendo, por exemplo, escrito várias cartas em defesa dos Scottsboro boys que tinham sido acusados de violar duas raparigas brancas. O nosso levantamento aborda além disso ainda a opinião desfavorável que John Dos Passos, no final dos anos 60, tem dos grupos negros que exigiam plenos direitos cívicos, de forma imediata e por força da lei. A segunda parte da nossa investigação é dedicada a uma análise detalhada ao modo como a migração é encarada nos escritos de John Dos Passos. Dos Passos representa a migração na sua obra até 1938 como sendo um projecto geralmente falhado. Até então, Dos Passos acreditava que os imigrantes nos Estados Unidos não estavam realmente integrados, rejeitando assim, o mito do sonho americano, encarando-o como algo meramente utópico. De 1939 em diante, os anos em que ajusta o seu ponto de vista sociopolítico, a migração para os Estados Unidos passa a ser descrita com maior optimismo. Refere exemplos de sucesso e descreve personagens imigrantes a viver felizes nos Estados Unidos da América ou, pelo menos, a viver em melhores condições do que aquelas em que viviam antes, nos seus países de origem. Para Dos Passos, o país capitalista e hostil do passado converte-se num país digno de se viver, mas só se o imigrante aprender a viver em liberdade e respeitando a liberdade dos outros, como alegadamente fizeram os fundadores dos EUA. Embora a opinião de Dos Passos seja, nesta fase, em geral positiva face aos EUA, o escritor chama a atenção para ao facto de existirem aspectos menos favoráveis na civilização do país, aspectos que, para Dos Passos, contrastavam com as crenças dos primeiros colonos. O seu objectivo, pode afirmar-se, é reencontrar padrões já esquecidos que garantissem a liberdade e, ao fazê-lo, convencer os seus leitores a que os aplicassem em cada momento de sua vida. Seguidamente investigámos na obra de Dos Passos o modo como o autor representa vários momentos da história americana, desde a época colonial: como os colonos vieram para a América e á viveram; como os negros foram escravizados; como se emanciparam, acabando por viver em segregação. Além disso, interessou-nos o modo como Dos Passos escreve sobre a migração interna; responde à pergunta sobre os motivos que levam os americanos a emigrar; assim como os expatriados americanos em Paris e como observa a não-migração (non-migration);a migração militar durante a Primeira Guerra Mundial, a Guerra Civil de Espanha e a Segunda Guerra Mundial;finalmente Dos Passos aborda o tema da migração no Brasil e em Portugal. Para a primeira parte da nossa tese recorremos a fontes referenciais e secundárias (especialmente material de arquivo e biografias) que sustentam a nossa investigação. Sempre que possível utilizamos descrições do próprio John Dos Passos, entre outros, citando as suas cartas, os seus diários, entrevistas e a sua autobiografia, The Best Times. Adicionalmente, usamos a sua obra fictícia e não fictícia, especialmente as partes ditas serem “projecções do autor.” (Montes 1980: 16 — tradução nossa) No que diz respeito a John Randolph Dos Passos usámos monografias de sua autoria, como, por exemplo, The Anglo-Saxon Century, na qual discorre sobre o tema da migração. Para a segunda parte, tomámos toda a obra de John Dos Passos como o nosso corpus de análise, excepto o manuscrito Seven Times Round the Walls of Jericho e os filmes The Devil Is a Woman e The Spanish Earth, que foram excluídos da nossa investigação por não serem da autoria exclusiva de John Dos Passos. Quanto a bibliografia usada sobre migração, o nosso estudo recorre com alguma frequência ao livro de Henry Pratt Fairchild, cujo trabalho foi publicado em 1925, e que, portanto, cobriu, enquanto historiador contemporâneo, o período de migração maciça sobre o qual John Dos Passos também se interessa. Além disso, utilizamos os estudos de Stephen Thernstrom que, embora publicados no início dos anos oitenta do século passado, ainda se mantêm actuais e continuam conseguintemente a ser usados em quase todos os trabalhos que incidam sobre a questão da migração norte-americana. Das publicações mais recentes é de salientar o recurso as de Klaus Bade. Quanto ao tema da migração portuguesa para os EUA usamos o estudo de Leo Pap como ponto de referência uma vez que, do nosso ponto de vista, o trabalho de pesquisa de Pap é em muitas questões mais esclarecedor do que outros estudos ainda que mais recentes. Quanto à forma da apresentação científica, a nossa tese segue ponderantemente o MLA Handbook for Writers of Research Papers (terceira edição). Em casos de ambiguidade usamos The Chicago Manual of Style (décima quarta edição). Para além destes dois grandes blocos estruturantes do argumento apresentado nesta tese, o trabalho inicia-se com uma introdução onde se faz a abordagem ao estado da arte e se apresenta uma breve definição dos vários tipos existentes de migração, sendo completado por reflexões finais seguidas de uma cronologia biográfica bem como dois apêndices que apresentam na íntegra os documentos de arquivo que dizem respeito a Manoel Joaquim dos Passos e a sua emigração.
Descrição: Tese de doutoramento, Estudos de Literatura e de Cultura (Estudos Americanos), Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, 2013
URI: http://hdl.handle.net/10451/8975
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